Quando se juntou aos que o observavam, Rafa se perguntou onde Andressa e Eduardo tinham se enfiado. Será que ficaram entediados com a luta dele? Ou Eduardo ficou tão surpreso que saiu dali para não encará-lo nos olhos. Ele não tinha nenhuma resposta pra aquelas perguntas, mas tinha consciência da reação de Fernando – e este o olhava com respeito e, até mesmo, um sorriso de orgulho.
– Meu parabéns, Rafael – Anna ficou frente a frente com ele. — Tenho que admitir, não achei que iria conseguir.
– Disso eu sei — Rafa bufou para ela. — Mas e agora? Eu passei no teste mesmo? — ele ainda esperava que aquilo fosse uma piada e o teste de verdade fosse começar ainda.
Mas Layane assentiu para ele.
– Olhe atrás de você — disse. — Seus juízes estão todos no chão... É claro que você passou no teste!
– É, parece que vou ter que te aturar por mais um tempo – Fernando sorriu com deboche.
– Como se eu fosse o problemático — Rafa brincou de volta, mas então olhou sério. — Mas é só isso? Estou no Pack e pronto?
– E o que você esperava? — Eduardo surgiu de um lado onde Rafa podia notar as tavernas, com Andressa vindo logo atrás. — Que marcássemos você com alguma tatuagem tribal?
– O que vocês...? — Fernando começou, mas então se interrompeu. — Esqueçam, eu não quero saber.
Rafa gemeu ao notar Andressa arrumando a blusa para esconder a barriga vermelha de mordidas "carinhosas".
– Esse é o Pack que eu quase morri para entrar?
– Por hora você não vai entender — Anna chamou a atenção dele. — Mas quando estiver cumprindo missões e lidando com coisas além de sua compreenssão, nós vamos conversar sobre isso.
Rafa não fazia ideia do que a Chefa falava e isso o lembrava de Ester Klaroline, a psicóloga da escola com voz — e não jeito — de maconheira. Olhou cada um de seus novos colegas de "trabalho". Eduardo lançava um olhar zombeteiro para Tomi, seu sósia, que mancava para fora do campo. Andressa tentava convencer Anna de que ela e seu namorado não haviam feito nada — uhum, senta lá Claudia — e Fernando encarava Felipe de um jeito superior.
Rafa prestou atenção no dialogo dos dois loiros.
– Se ao menos vai zombar de mim, Paiva, ao menos faça isso sem olhar para mim — Felipe resmungou ao encarar o outro de volta.
– Ah, eu não ia rir não — Fernando parecia estar falando sério com os braços cruzados em um aperto firme na frente do próprio corpo. — Só gostaria de saber o quanto essa situação toda é nostálgica para você.
Felipe olhou fixo por um instante e depois girou seus olhos escuros para Rafa, com uma expressão indecifrável.
– Tem medo que ele cometa o mesmo erro que eu fiz?
O coração de Rafa palpirava forte enquanto esperava por aquela resposta, porém alguém o cutucou nas costas e ele se virou para ver quem era. Lizz.
– Você foi incrível — a loira sorriu para ele. — Acho que não devia ter ficado tão surpresa, uma vez que arrasou com o clã de Atiradores ano passado.
Rafa corou, não sabendo bem se ter dizimado meio clã de Atiradores era algo que lhe dava crédito suficiente para se sentir modesto.
– Aquilo não foi nada — Rafa mudou o peso de cada pé. — A verdade é que eu fiquei o tempo todo aterrorizado.
– Eu te acharia um louco se não tivesse ficado — Lizz sorriu, mas então franziu a testa. — Ei, por acaso você descobriu o que você é?
Rafa fez uma mesura enquanto pensava no que responder. Aquela era uma pergunta bem sacana "Oi Rafa, você além de viado também é vidente? Ou será que é uma Drag-Queen médium?".
– Essa é uma boa pergunta... Er, por isso que entrei no Pack, sabe, para descobrir o que sou de verdade.
Lizz riu com o nervosismo dele e o empurrou de leve.
– Eu estou brincando, Rafa! Boa sorte ao tentar descobrir o que é, digo — ela estava indo, mas então pareceu se lembrar de algo. — Ah, e bem-vindo ao Pack!
Rafa murmurou um obrigado e a oberservou partir, não entendendo bem o "bem-vindo", ele não iria para o Pack dela.
– Ela é tão fofa — Fernando foi se aproximando aos poucos. — Nem parece que está acostumada a sujar as mãos de sangue.
– Ela? Não mesmo — Rafa concordou. — Agora você por outro lado...
– O que quer dizer com isso? — ele semicerrou os olhos. — Falou o cara que acabou de nocautear seis pessoas...
– Caçadores — Rafa corrigiu.
– Seis caçadores — Fernando revirou os olhos. — Espero que não comece a se achar, eu também já derrotei meus juízes, não esqueça disso.
Rafa imaginou Fernando enfrentando Felipe e os outros juízes e então algo lhe ocorreu.
– O que Felipe fez, afinal de contas?
Felipe ficou um pouco mais pálido, os olhos azuis queimando um pouco em um tom dourado.
– Atrapalhou uma missão — respondeu em um tom baixo. — Prejudicou todo um plano e depois...
– E depois? — Rafa incentivou com o tom beirando a curiosidade.
– Depois nos decepcionou — o outro deu de ombros. — Ele era meio volátil naquela época e meio criança, achava que podia resolver tudo sozinho.
– E o que ele fez? — insistiu Capoci.
– Só posso dizer que colocou todos nós em perigo — os olhos dele ficaram mais escuros.
Rafa engoliu em seco. Sentiu a decepção de Fernando antes, quando não sabia o que queria e se afastou do Pack por meses. Se o que ele tinha feito não o fez ficar frio, o que diabos poderia?
– Algo que eu fiz — disse lentamente. — Se parece com algo que ele fez?
Fernando retorceu o rosto.
– Mais ou menos, mas no seu caso eu não te culpo, você tinha uma vida antes de eu chegar... Antes de chegarmos e interferirmos.
– Como assim?
Fernando suspirou, mas Rafa cruzou os dedos e o outro respondeu:
– Você por um lado nos salvou, Felipe, no entanto, fugiu e isso é uma das coisas mais covardes que se faz. Isso você não fez ainda.
Ainda, algo ecoou na mente de Rafa e ele se assustou porque parecia, por um segundo, que tinha escutado alguém falando de verdade com ele.

Dois Dias Depois


O Subaru do pai de Roberto tinha sido estacionado às exatas 9h45 da manhã na frente da casa de Rafa. Ele olhou pela janela de seu quarto no segundo andar e pode ver Roberto esperando pacientemente no assento do motorista.
Se perguntou por um segundo como seria ficar ao lado do namorado por um final de semana inteiro e sentiu a barriga esquentar com a ideia. Dali por diante seria um fim de semana, só os dois e a familia quase desconhecida de Rafa, uma vez que ele já conhecia os pais dele.
Rafa não estava exatamente com medo da familia do namorado, ele tinha jogo de cintura — lógico que tinha, enfrentou seis juízes bem mais treinados e bem mais fortes que ele — sabia lidar com aquele tipo de situação. Mesmo tendo problemas com os pais de Roberto, na época em que o fez se assumir, ele saberia deixar as coisas para trás.
E também esperava que eles deixassem também.
– E lá vai ele de novo, deixar o quarto para mim.
Rafa girou no próprio quarto para dar de cara com Rogério, que tocava as letras R e F coladas na parede do quarto dele.
– Roger, vê se coloca algo na sua cabeça: Esse quarto não será seu nem mesmo quando eu tiver ido para a faculdade, me casar e morar em outro país.
O irmão mais novo o olhou com desgosto.
– Você quer arrumar problemas, Rafael? — ele começou a subir a manga da blusa cinza com listras pretas que usava, fingindo que ia começar a arrumar uma briga.
Rafa revirou os olhos e mexeu na sacola da ADIDAS com suas roupas, shorts de dormir e cremes para cabelo. Checou se seu exemplar de Lolita que estava relendo pela terceira vez estava ali e o encontrou com a capa um pouco amassada.
O namorado provavelmente reclamaria da falta de cuidado dele e ele atiraria um "então cuida você" e então o outro pegaria o objeto, abriria as páginas e veria o que havia dentro. Uma camisinha.
Era perfeito. Rafa tinha que admitir, era um pouco gênio.
– Que livro é esse? — Rogério se intrometeu, olhando por sobre o ombro dele para ler o título. — L-O-L-I-T-A! Não é aquela garota safada que fica se insinuando para o velhote?
Rafa o empurrou para trás com o ombro.
– É o velho que fica se insinuando para ela, idiota!
Rogério sorriu felinamente.
– E para quem você está pensando em se insinuar?
Rafa semicerrou os olhos, mas então uma lembrança de três dias atrás em um fim de tarde escaldante inundou sua mente com as lembranças. Ele tinha acabado de passar no teste dos juízes e aguardava Anna ter uma reunião com Lizz e Felipe, para levar ele para casa.
Ele se recostou do lado de fora e ficou olhando o pôr-do-sol, devaneando sobre as possíveis missões que teriam que ser feitas pelo seu Pack. Layane tinha lhe dito que ele poderia se juntar a qualquer um, contanto que pertencesse a La Iglesia.
E então, surpreendendo Rafa e mexendo com todos os hormonios homossexuais do rapaz, Fernando apareceu vindo do nada. Se recostou do lado dele na parede e o olhou direto nos olhos — olhos azuis esverdeados nos castanhos. Estava sem camisa, então a pele um pouco bronzeada de seu dorso era refletida pelo sol.
Meu Deus.
– Eu só queria te dar os parabéns de novo — ele mordia o lábio inferior enquanto falava. — E, é claro, te dizer que você não precisa guardar ressentimentos do nosso grupo. Entende?
Rafa apenassoltou um "ah" e assentiu, totalmente perdido do espaço e tempo. Quem era ele? Quem eram eles?
– Sei que nossa última missão juntos foi um lixo — Fernando continuava. — Aquela coisa toda dos Atiradores foi difícil. Mas pense bem, nós conseguimos... Apesar de Carolina ter fugido e seu amigo...
O loiro continuava a não perceber o total embaraço que causava em Rafa, por isso quando o outro não disse nada ele decidiu continuar falando.
– Contudo, escolha o nosso Capoci — ele disse e dessa vez o encarando com intensidade. — Escolha a nós... E eu prometo que Andressa vai parar com suas piadinhas. Eu mesmo a faço parar, se for preciso.
– Tudo bem — Rafa enfim conseguiu responder, acompanhando com um suspiro.
E enquanto o outro se distanciava e ia embora, uma coisa ele não conseguia mais negar enquanto encarava aquelas costas nuas. Ele estava afim de Fernando e não aguentava mais negar isso a si mesmo.
Aguentava sim, o Rafa de agora respondia, afastando Rogério e pegando sua bolsa ADIDAS. Ele não tinha uma queda por Fernando ou algo do tipo, apenas o achava bonito. E pensando bem Roberto era bonito também, muito, e era seu namorado. Era com ele que ele ia passar um final de semana incrível.
Isso. Ele não tinha dúvidas e nem incertezas do que queria. Fernando era só uma complicação e só tinha um jeito de se livar das complicações. Se livrando e esquecendo-as completamente.
E era o que ele ia fazer agora.


***

– Achei que ia levar a casa inteira — Roberto brincou com Rafa quando ele abriu a porta do banco do carona.
– E eu estou — Rafa tocou a bolsa ADIDAS cheia. — Aqui esta a sala, aqui esta a cozinha e logo aqui fica o mais essencial, o banhei...
Roberto sorri e se inclinou para dar-lhe um beijo carinhoso. Os braços de Rafa relaxavam no próprio colo.
– Idiota — Roberto se afastou. — Está preparado?
Rafa assentiu e deu um tchauzinho para a mãe que o olhava da soleira, enquanto Roberto trazia o motor do carro de volta a vida.
– Para o melhor fim de semana de todos? Sempre.
Roberto o tocou carinhosamente no queixo.
– Fico feliz que pense assim.
O carro então ligou e Roberto começou a andar. Rafa segurou a mão dele, sabendo que ficaria seguro enquanto estivesse com ele.

****

– Demônios quando são derrotados, vão direto para o inferno.
– Sim, mas não derrotamos Sabrina. Aquele cara de capuz se intrometeu e levou ela com eles, lembra?
– E quem era aquele Capuz afinal de contas? Nunca tinha visto alguém capaz de fazer o que ele fez.
– O que? Aparatar?
– Aparatar duas pessoas ao mesmo tempo.
– Eu achava que Sabrina que podia aparatar.
Andressa, Fernando e Eduardo estavam reunidos em uma das muitas casas vazias e cinzentas de La Iglesia. Edu e Fernando analisavam os desenhos de Andressa que representavam Sabrina, Carolina e o Capuz de olhos dourados. O desenho parecia tão real, com as três criaturas os olhando de volta, que Fernando meio que esperou que um redemoinho saisse da tela e os levasse com eles.
Seria demais, pensou.
– Por que não nos perguntamos o que cada uma delas quer, para depois descobrirmos onde cada uma delas podem estar? — Andressa propôs, andando de um lado para o outro.
– Tudo bem — Eduardo olhou a namorada com um pouco de admiração. — Carolina quer vingança, provavelmente, porque matamos o clã dela inteiro.
– E a caixa — Fernando acrescentou. — A caixa possui alguma coisa que ela quer.
– Desde o ano passado, eu ainda não entendi — Andressa soltou frustrada. — O que de tão importante podia ter naquela caixa para ela querer ela?
– Nada — Eduardo deu de ombros. — Quando Rafa abriu todos nós conseguimos ver. Não tinha nada dentro dela.
– Vai ver Rafa deixou escapar e não se lembra — Fernando se sentou na mesa. — Seja lá o que fosse. Uma arma, um amuleto, pro...
– Mas estava vazia — Eduardo insistiu. — Você mesmo disse que estava — ele olhou Fernando. — E se, quando ela caiu daquele morro, o que havia dentro não escorregou para fora.
– Aham, e como Rafa achou tampada de novo? — Fernando questionou. — Por acaso a caixa é magica?
– Não, não é magica, mas pode ser usada para aprisionar coisas, principalmente armas, amuletos e etc.
Andressa tinha parado de andar, Fernando saiu de cima da mesa e Eduardo ajeitou o desenho enquanto levantava a cabeça.
– Anna Chefa — Fernando sorriu. — Há quanto tempo está aqui?
– O suficiente — ela acenou com a cabeça. — Estão planejando alguma coisa?
Os três se olharam em conspiração.
– Sim — Andressa foi um pouco mais para frente. — Estavámos deduzindo onde Sabrina, Carolina e o estranho de Capuz que vimos possam estar.
– Estranho de Capuz? — Anna cruzou os braços. — É o mesmo que aparatou Sabrina e Carolina?
– Esse mesmo — Eduardo estalou os dedos. — E também estavámos cogitando o que possívelmente ele e elas poderiam querer com o Triscele.
Anna assentiu tranquilamente, olhando o desenho de um jeito estranho.
– Você sabe o que eles queriam com a caixa? — Andressa perguntou e logo Eduardo acenou para que ela parasse, mas Anna balançou a cabeça para ele.
– Espiritos — ela respondeu. — O Triscele guardava espiritos.
Fernando ergueu as sobrancelhas, surpreso.
– Espera — ele ajeitou a gola da blusa que usava. — Espiritos? Então quando Rafa liberou a caixa...
– Ele liberou espiritos, dois dos mais importantes.
– Dois — Eduardo refletiu. — Os espiritos dos dois antigos que comandavam o TAP com você?
– Meus amigos — Anna assentiu.
– E o que aconteceu com esses espiritos?
– Eles se soltaram e agora estão livres por aí.
– Não encontraram a paz?
– Que paz? — Anna questionou. — O que esses espiritos procuram não é uma forma de sair de nosso plano e sim de ficar.
– Chefa — Fernando engoliu em seco. — Esses espiritos têm algo a ver com essas coisas que vem acontecendo?
Mas ao invés de responder a pergunta dele, Anna começou a se retirar da sala, com os olhos em cima do desenho. Andressa não tinha certeza, mas ela parecia encarar o Capuz de olhos dourados.
– Eu tenho um palpite de onde eles possam estar — disse a Chefa. — E a minha dica é o Norte.
– Norte? — Eduardo começou a fazer cálculos mentais. — Mas o que tem no Norte?
– Dizem que lá é a zona favorita dos Demonios. E quando vocês chegarem — se chegarem — vão entender porque falei isso.

****

– E esse será seu armário.
Rita avaliou o Sr. Ávila. Ele era bonito até, se não fosse pelos óculos e pelo cargo de monitor na Vallywood High School, ele seria muito mais. Deu uma breve olhada no armário que usaria dali para frente e conseguiu se imaginar o abrindo todos os dias, durantes as trocas de aula.
– Qual foi mesmo o motivo da sua transferência? — Ávila questionou, mas então sorriu. — Se me permite perguntar, é claro.
– Sem problema — Rita tocou um de seus cachos enquanto falava. — Meus pais decidiram recentemente que eu e meu irmão devíamos conhecer um pouco mais da cidade que moramos.
– E por que não começar pela escola? — Ávila riu. — Você disse irmão? Ele também não deveria estar aqui para conhecer a escola junto com você?
– Deveria — Rita respondeu secamente, depois pensou no irmão preguiçoso e mais novo. Desde que tinha pedido a ele para que seguisse Gabriella Dias, ele parecia menos ele — menos Marco de ser.
– Tem algo errado?
– Nada — ela mudou o peso do pé. — E então eu começo na segunda?
– Sim, senhorita — Ávila sorriu. — Daqui três dias a senhorita já vai poder começar a frequentar os corredores dessa instituição. Garanto que não irá se arrepender da escolha.
Rita sorriu de volta e então o celular do monitor começou a tocar ruidosamente uma música desconhecida do Foster The People para ela. Ele olhou a tela de forma confusa enquanto o som ecoava pelo corredor. Pediu desculpas e se afastou para atender.
– Hey, baby, não eu seu que são minhas férias, mas estou fazendo um favor para uma estudante...
Rita aguardou olhando o corredor vazio. Seria ali que teria de encarar uma dúzia de desconhecidos que poderiam ou não poderiam gostar dela. Bem, como ela era bonita talvez a possibilidade de não gostarem aumentasse.
E então um movimento súbito fez com que ela pulasse de susto. Podia estar vendo coisas, mas também podia jurar que havia alguém agora pouco parado no corredor.
Ela estava prestes a andar para lá quando Ávila a cutucou no ombro.
– Rita — ele olhava o celular ainda. — Está tudo bem?
– Claro que está — ela juntou as mãos na frente do corpo. — Está tudo bem com o senhor?
– Na verdade, não — ele continuava a encarar o celular. — Tem essa emergência e acontece que vou precisar ter que ir — ele a olhava hesitante. — Você acharia ruim se...?
– Não, está tudo bem — ela ajeitou a bolsa, feliz por já estar indo embora. — Eu meio que tenho um compromisso agora.
– É, acontece que meu compromisso é com uma pessoa — ele suspirou, mas então notou que Rita ainda estava ali e ficou vermelho. — De qualquer forma, seja bem-vinda Srta. Rita.
– Obrigada.
Ela saiu pelas portas duplas e desceu até as escadinhas até o estacionamento. Não, ela não tinha um carro, mas se fosse por ali acharia o atalho para sua casa. Estava pensando apenas nisso enquanto atravessava a trilha de cascalhos quando escutou o estalo.
Crack.
Se virou para a relva logo atrás e não achou nada além das árvores e do estacionamento vazio. Talvez ela tivesse pisado em algum cascalho aleatório e nem tinha notado, pensou.
Decidiu então continuar andando e pode imaginar os portões de ferro de sua casa. Logo estaria lá, dizia a si mesma.
E então de novo.
Crack.
Dessa vez Rita nem se virou, apenas continuou pisando firme nos cascalhos, decidida a não fazer o papel de Garota Burra que acabava morta no começo do filme. O barulho ia ficando mais alto e mais percebível, mas mesmo assim ela continuou andando sem olhar por sobre o ombro nenhuma vez.
– Rita.
A voz que a chamou soou tão alta e tão real que ela nem mesmo pode se controlar, teve que olhar dessa vez. Mas ao fazê-lo, ficou mais confusa ainda.
Não havia ninguém ali. Só ela, sozinha na mata escutando coisas. Se virou de corpo inteiro e começou a andar um pouco de volta. Será que o Sr. Ávila ainda estava na escola? Ele poderia ajudá-la se ela dissesse que estava assustada, não podia?
Um arrepio passou por ela quando sentiu que alguém a observava. Quem quer que alguém provavelmente estava rindo daquilo tudo.
Rita então sentiu raiva de toda a situação e se virou de novo para a trilha. E encontrou cachos de um cabelo castanho em uma pele pálida. Uma garota — com talvez 19 ou 20 anos — a olhava de volta, com um sorriso zombeteiro no rosto.
– Quem é você? — Rita deu passos para se afastar, pisando nos cascalhos.
– Não se preocupe — a garota dava um passo a cada dela, como se fosse tudo uma dança. — Você em breve vai saber.
A garota avançou a mão e tudo para Rita ficou escuro.

****

O sol não estava tão escaldante quando Érika saiu da casa usada pelos Licantropos de La Iglesia. Tinha tentado soar discreta o bastante ao sair da cama cedo, mas sabia que nem um tiroteio faria com que a namorada Carla acordasse, e agradecia a Deus por isso.
Os lobos da casa provavelmente fofocariam que ela tinha saído, mas ela não ligava.
Pelo menos não ligava agora.
Começou a andar pelo deserto sem pressa alguma, olhando as familias que viviam ali e se perguntando como eles eram e se já tinham perdido alguém antes. Isso fez com que ela pensasse sobre a própria situação e não viu muita diferença.
Fazia meses desde que havia sido transformada por Carla e sua vida tinha mudado completamente. Não se lembrava de nada na verdade, então não tinha como saber se era bonita antes disso.
Agora, enquanto cruzava a cidade e notava os olhares de vários homens, deduziu que era atraente. Mas não era isso que incomodava. Ela não se lembrava de nada da antiga vida. Não se lembrava se tinha um namorado, ou namorada, se tinha uma familia ou se tinha algo por viver.
Sabia que Carla não teve muita escolha, a própria Alfa tinha explicado mais de cem vezes que não tinha controle de si mesma e precisava de um bando, então não se sentia tão culpada, mas lamentava de verdade por ela.
Mas por que ela? Por que logo ela tinha que ter a vida transformada? Érika tinha direito de saber, não tinha?
– O sol queimou seu cérebro?
Érika se perguntou de onde tinha vindo a pergunta quando enfim olhou para o lado do escritório de Anna. Uma garota de cabelo escuro e baixinha estava de braços cruzados olhando para ela de forma curiosa.
– Desculpa, o que? — Érika questionou, crispando as unhas e se perguntando se aquela era uma situação de briga.
– É que você parece tão pensativa — a garota se desencostou da parede e descruzou os braços. — Você é a Érika, não é?
A loira achou estranho alguém que ela não conhecia saber seu nome e ela não saber o dela. Onde estava a justiça? E quando ela levantou a mão para cumprimenta-lá achou ainda mais estranho.
– Você pode tocar — a menina zombou e franziu o rosto, mas continuou com a mão erguida. — Eu não mordo.
– Mas eu sim — Érika enfim a cumprimentou. — Desculpa, mas como me conhece?
– Eu me lembro de você e seus amigos chegando aqui a quatro meses atrás — ela informou. — Não é comum lobos virem em bando aqui em La Iglesia. Geralmente eles chegam sozinhos.
Érika se lembrou daquele outubro depois da guerra com os Atiradores, quando Anna propôs a ela, Carla e Erick. Na época estava tão perdida, recém-transformada e não tinha mais um lugar desde que o depósito de Carla tinha sido baleado e destruído pelos Atiradores.
– É, foi uma situação estranha — ela se recompôs. — Mas nos adaptamos a esse lugar. La Iglesia é meio que minha segunda casa agora.
– La Iglesia sempre foi o meu lar — a garota sorriu docemente ao dizer.
– Você é uma Loba também?
– O que? Não — a garota riu como se a ideia a assustasse. — Eu só trabalho para a Anna a uns dois anos, mas não sou uma Loba.
– E o que é?
A garota parecia prestes a explicar quando um cara alto, bonito e também de cabelo escuro saiu do escritório de Anna com passos firmes.
– Aí está você — ele olhou a baixinha. — Anna estava reclamando comigo que você ainda não fez o seu relatório sobre o Teste.
Baxinha olhou o altão com imperatividade.
– O teste foi ontem e ela já quer relatório? — resmungou. — E você também não fez o seu.
O altão estufou o peito.
– Mas comigo ela já esta acostumada com esse tipo de comportamento — deu de ombros. — Você é uma nerd.
– E você um babaca que perdeu para um humano.
– Ele não era humano! — o alto rosnou. — E você também perdeu.
A baixinha fez a egipcia, julgando o cabelo sobre o ombro para ignorá-lo.
– Não comece — ele a fuzilou com os olhos. — E vamos sair daqui logo antes que ela nos chame e nos encha de missões.
– Tem razão — a baixinha se virou. — Quem é o alvo dessa vez?
O altão sorriu.
– Layane.
Érika conhecia esse nome e a pessoa também. Olhou os dois e se perguntou o que eles estariam aprontando.
– Então, vamos?
– Só um minuto — a baixa se virou para Érika. — Bem, Érika, foi um prazer.
– Foi um prazer também... — ela apertou os olhos, notando agora que ela não tinha dito o nome.
– Julia — a garota sorriu abertamente. — Julia Magric.
O alto bufou.
– Vamos logo!
Érika riu e começou a se afastar dos dois morenos.
– Ei, espera — Julia a chamou e ela se virou. — Quer vir com a gente?
Érika franziu a testa para os dois estranhos.
– Para onde?
– Para a diversão — Julia disse e Érika não sabia como, mas tinha certeza que não era só aquilo que ela queria dizer.

****

A primeira da familia de Roberto a falar com Rafa foi a mãe. Apesar de já tê-lo visto antes, a Sra. Borges agiu como se ele fosse alguém novo e desconhecido. Achou legal da parte dela, um recomeço com parte da familia do namorado era tudo que precisava. O pai o cumprimentou educadamente, mas Rafa conseguia ver a familiar raiva através do olhar do velho. Era mais do que obvio que ele guardava ressentimentos ainda, uma vez que fizera o filho dele se assumir.
O terceiro da familia a falar com ele era alguém novo, um garoto um pouco mais novo que Roberto, de cabelo castanho arrepiado e olhos completamente escurecidos.
– Esse é Neemias, meu irmão mais novo — Roberto apresentou.
– É um prazer — Rafa disse com um pouco de timidez.
– Igualmente — Neemias sorriu, mas o sorriso não chegava aos olhos. De todos ali da familia, não tinha traços loiros ou morenos e Rafa se perguntou brevemente porque.
– É um prazer a todos nós que esteja aqui, Rafael — a Sra. Borges sorriu, com os pés de galo aparecendo. — Roberto esta a semanas falando que você viria.
– Isso é verdade? — Rafa olhou de lado para o namorado e o flagrou todo ruborizado.
– É lógico que é — Roberto respondeu sem olhar ele nos olhos.
– Tudo bem, não vamos fazer os dois ficarem vermelhos — riu o Sr. Borges. — Rafa, pode se sentir a vontade. A casa dos meus falecidos pais é tão sua quanto nossa e vamos adorar que você passe o final de semana conosco.
Uau!
Rafa não ficaria nem mais um pouco surpreso se o Sr. Borges usasse saia, começasse a jogar confetes neles e cantasse La vida es Bella por toda a casa. Parecia um alienigena dizendo aquelas coisas, mas o que importava é que estava dizendo. E Roberto estava sorrindo, todo feliz como quem apoiava algo e Rafa não pode deixar de se sentir satisfeito com isso também.
– Tudo bem! — a Sra. Borges guinchou um pouco alto. — Agora por que não começamos da melhor parte? Quem está com fome?
Neemias e o Sr. Borges começaram a dizer um "Eu" unissono enquanto seguiam para uma ala da casa gigante onde provavelmente deveria ser a sala de jantar. Rafa analisou brevemente a sala luxuosa e rústica e se sentiu como na casa de Rita e Marco, os dois amigos que fizera no ano passado quando estavam todos fugindo de Vallywood.
Não sabia o que tinha feito ele pensar nisso agora, mas quando ergueu os olhos, Roberto estava puxando a Sra. Borges de um jeito meio possessivo até um canto da sala.
– É um prazer a todos nós que esteja aqui, Rafa — ele imitava a voz da mãe perfeitamente para a própria. — Se isso é mesmo verdade mãe, por que ele não veio aqui falar com a gente?
A Sra. Borges não parecia intimidada, mas sim incomodada. Quando falou, não parecia a anfitriã perfeita que demonstrara ser a minutos atrás.
– Roberto fique calmo — ela disse em um tom mais alto que o do filho. — Ele não está ignorando vocês dois, se é o que pensa.
– Ah, não? — o filho respondeu cinicamente. — Eu não estou vendo ele tentando socializar aqui, você está?
– Filho, para com isso. Você sabe mais do que ninguém que ele tem os motivos dele para ser assim. Só você sabe o que aconteceu com ele no ano retrasado, ele só confia em você.
Rafa se sentia tão intruso por estar escutando a conversa, mas ficou preocupado com a expressão do namorado. Parecia nervoso, algo que raramente ficava.
– Er, desculpa atrapalhar — ele disse com coragem. — Mas esta tudo bem? Se for algo a ver comigo estar aqui eu gostaria de dizer que...
– Ah, não seja tolo Rafa! — A Sra. Borges Anfitriã está de volta. — Você não é incomodo nenhum!
Talvez fosse por causa da bipolaridade péssima da futura sogra, mas Rafa não conseguiu acreditar nela. Olhou Roberto e esse parecia ter um olhar mais aliviado, porém triste.
– Ela esta falando a verdade, isso não envolve você — ele olhou para a escada que levava ao segundo andar do outro lado da sala. — Mas é que o Rick está fazendo graça, sabe?
– Rick? — Rafa não quis ser rude, mas o nome o confundiu.
– Ah, esse é o meu irmão mais velho — Roberto piscou. — Lembra daquele da foto? Que você viu na minha casa em Vallywood?
Rafa assentiu, tendo agora uma imagem turva de um Roberto vestido de marinheiro e outro garoto parecendo da mesma idade, vestido todo de bombeiro. Ambos estavam fofos.
– Sim, eu me lembro. Ele está aqui?
– Está — a Sra. Borges assentiu e olhou Roberto. — No quarto dele, tentando criar coragem para falar com o futuro cunhado, provavelmente.
Ela parecia estar tentando convencer mais a si mesma do que eles.
– De qualquer forma — Roberto se aproximou dele. — Você se importa de ir levando suas coisas para o quarto enquanto eu ajudo minha mãe na cozinha?
– Não, sem problema — Rafa assentiu e puxou a alça de sua bolsa da ADIDAS.
– Obrigado, pode subir as escadas, é a terceira porta a direita do corredor.
Rafa entendeu, já a meio caminho da escada. Tentou não olhar para os dois enquanto subia as escadas. Seria muito melhor se pensassem que ele não tinha escutado nada e nem percebido o evidente clima de tensão na casa.
Quando chegou no corredor, já tinha encontrado a tal porta do lado direito do corredor, mas então quando deu dois passos pelo assoalho, notou que a segunda porta, do lado esquerdo, estava um pouco entreaberta. Parecia que havia alguém ali.
Seria o tal Rick?, pensou e então mordeu o lábio inferior com expectativa. Bem, se a Sra. Borges poderia dar uma de Anfitriã dos Deuses do Olimpo, ele poderia muito bem bancar o Cunhado Simpático que está tentando evitar conflitos e confusões.
Criando coragem, ele deu uma batidinha na porta com a mão que não segurava a bolsa.
– Eu não sei que tipo de nota você tem no seu QI — começou a responder uma voz rouca e alta. — Mas a porta está aberta, pessoa que não estou vendo, mas já noto que é desprovida de inteligência.
Rafa franziu o cenho, mas então achou um pouco de graça. E isso só lhe deu um pouco mais de coragem de abrir mais a porta. Um garoto mais alto que ele, de cabelo escuro arrepiado igual ao do Sr. Borges parecia estar de costas para ele, encarando a janela que dava para a entrada onde Roberto e Rafael tinham chegado agora pouco.
– Você é o Rick? — Rafa questionou, observando as costas e achando elas assustadoramente familiares.
O garoto ficou um pouco calado por um tempo, parecendo ter sofrido algum tipo de choque ao ouvir a voz dele. Será que Rafa estava com aquela voz que denunciava sua opção sexual?
E então, enquanto pensava nessa possibilidade, o garoto se virou para encara-lo e, quando o fez, a bolsa ADIDAS de Rafa escorregou do ombro até o chão.
Porque parado na frente dele, dentro do quarto que só parecia pertencer a ele, estava alguém que ele achou por mais de um ano que jamais veria novamente.
– Rafael?
– Henrique?!

****

Os olhos de Rita se abriram logo, mas ela não estava mais no meio da mata. E sim na escola, de novo.
O estranho dessa situação é que ela não estava sozinha. Por onde olhava, os alunos cruzavam os corredores, ocupados enquanto conversavam, abriam seus ármarios e corriam para entrar nas salas de suas próximas aulas. Parecia que as aulas já tinham voltado.
E Rita estava ali, entre todos eles.
– Engraçado, não?
Ela olhou para cima e um garoto de cabelo escuro olhava todo o fluxo de alunos com ela, de um jeito psicótico. A cena parecia tão surreal que quando ela reconheceu o rosto do garoto, quase teve um infarto.
– Lucas?! — ela guinchou e então se levantou. — Você está vivo?!
Lucas a mirou com seus olhos escuros familiares, mas não parecia querer sorrir. Parecia estar com vergonha dela. Rita deu uma olhada nos outros alunos, mas não flagrou ninguém a encarando. Era como se não ligassem se ela estava gritando ou não.
– Você é a Senhorita do obvio — ele disse de forma seca. — É lógico que estou vivo.... Quer dizer, mais ou menos.
– Ahn? — ela ficou tão confusa que mal piscava. — Mas... Como? Nós te vimos morrer. Eu vi quando você levou um tiro e....
– Nós? — Lucas repetiu e bufou secamente. — Se você está referindo aos outros falsos que nem você que me deixaram para morrer, então eu confesso... Vocês me mataram!
Rita foi para trás, como se tivesse levado um soco. O fluxo de estudantes não parava, mesmo ela tendo certeza que a discussão dos dois estava fazendo eco nas paredes.
– Do que está falando, Lucas? — ela se aproximou do amigo, falando baixo. — Nós não matamos você. Tentamos te ajudar depois que você levou um tiro, mas você não aguentou...
Lucas tinha fechado os olhos e franzido o rosto, como se estivesse se esforçando para se lembrar de algo. Tocou a mão dela e Rita apertou a dele de volta, tentando ajudá-lo de alguma forma.
– O que eu não aguentei — ele falou devagar, os olhos ainda fechados. — Foi saber que meus amigos não ficaram lá por mim quando eu mais precisei, quando todo aquele horror aconteceu.
A coisa todo ia ficando mais confusa para Rita, mas ela ainda assim não desistiu e tocou o rosto dele, o forçando a abrir os olhos.
– Eu vi o que aconteceu e eu lamento muito, mas nós fizemos o que podiamos para te trazer de volta. O Rafa — ela disse o nome e ele tremeu um pouco. — O Rafa tentou de tudo para te trazer de volta. Ele ficou tão desolado com a sua morte, tão perdido e tão culpado... Rafa sofreu muito, Lucas.
Minutos se passaram enquanto Lucas apenas continuava paralisado na frente dela, ainda com a mesma expressão de alguém que se esforçava para entender. Rita ficou tão nervosa que quase achou que o rosto do amigo se transformaria em mármore.
Porém, o rosto de Lucas se suavilizou rapidamente.
– Pare com as mentiras — disse e então abriu os olhos.
A cor deles era vermelho-sangue e quando Rita viu isso, foi com tudo para trás, assustada demais para dizer ou pensar em algo a respeito.
– Eu não acredito que ainda mentem para mim, mesmo depois de morto — ele dizia sem olhar para nenhum ponto fixo, as duas bolas do olho brilhando nitidamente como sangue. — Mentiras e morte, eu não gosto de nada disso.
– Lucas...
– Chega! — o garoto então que Rita conheceu online e que pensara ser doce avançou nela e a jogou pelo corredor.
Rita caiu com tanta força no chão de linóleo que ficou surpresa com o fato de não ter quebrado as costas. Lucas vinha, cheio de fúria e os olhos tão sedentos quanto a boca que se abria para fazer um barulho gutural.
Ela olhou em socorro para os alunos que convergiam ao seu redor, mas a visão que encontrou foi quase tão assutadora quanto a do seu velho amigo querendo mata-lá. O corredor estava vazio e não havia ninguém além de Lucas e ela.
O psicótico e novo Lucas e ela, sozinha e indefesa.
Tudo bem, ele era algo entre um Vampiro e louco e ela estava na linha da morte e da vida com ele ali, mas não seria isso que a deixaria burra. Se virou correndo pelo corredor, fixando as duas portas grandes que representavam a saída. Lucas deveria ser o mais rápido, mas ela então já estava quase chegando lá fora.
Ousou olhar uma única vez por sobre o ombro e flagrou o garoto magro a olhando com ódio, mas ficando paralisado no meio do corredor. Por algum motivo não corria atrás dela e isso já era algo bom.
Mas então sentiu o impacto.
Olhou para frente e ainda conseguia ver o lado de fora da escola, o estacionamento ainda estava ali, não muito longe dela. Porém quando deu um passo para a frente, sentiu algo resistente e magnético a puxar de volta para escola. Uma força que não via e nem compreendia.
E foi assim quando ela tentou de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo e de novo....
A risada de Lucas foi tão alta e repicada que chegou a ferir os ouvidos sensíveis dela. Quando se virou para o ex-amigo que pensava estar morto, sentiu o pânico se fechar na própria garganta ao vê-lo rir. Ele estava rindo como um belo anjo da morte que sabia que iria ganhar.
– Ah, Ritinha — ele tentava rir entre espamos da risada malévola. — Você precisa aprender que às vezes nem tudo vai como nós queremos. Assim como você, o falso do Rafa e o resto dos desgraçados que me deixaram para morrer.
– Lucas, nós não...
– Já chega — Lucas ficou sério e então começou a andar na direção dela, os passos ficando mais rápidos ao diminuir a distância entre os dois. — Eu vou logo acabar com isso, eu vou logo acabar com você.
Aquilo tudo ainda não parecia muito real. Não soou real quando Rita gritou para pedir socorro e ninguém apareceu dando sinal de que havia a escutado. Não soou real quando Lucas riu mais uma vez e começou a puxa-la com ele. E não soou nem real quando ele a xingou de coisas que nem mesmo ela sabia que ele era capaz de chamar.
Nada daquilo soava real e algo dizia a Rita que não era.

***

Henrique olhava Rafa de um jeito que só deveria ser considerado assassinato em algum lugar de algum país.
O garoto de cabelo escuro usava um moletom escuro e jeans branco, deixando sua pele bastante destacada no quarto cheio de cores vivas. Aquilo tudo estava muito errado, as cores deveriam sim estar vivas, mas Henrique não.
– O que você está fazendo aqui?
A pergunta foi tão simples que deixou Rafa bastante confuso. Logo, ele acordou do torpor e sentiu o ar todo que tinha puxado voltar ao quarto.
– O que eu estou fazendo aqui? — ele riu sem nenhum humor. — O que você está fazendo aqui? Você deveria estar morto!
– Dá pra falar baixo, por favor? — Henrique sibilou e Rafa ficou assustado com o quanto ele parecia falar sério. — Se alguém ouvir uma palavra do que você me disser, vão suspeitar de tudo.
Rafa sentiu a mente girar e os olhos também ao identificar várias fotos onde Henrique e a familia de Roberto estavam juntos, pousando felizes para a camera.
– Isso não pode ser real — Rafa falou tão baixo que se perguntou se o outro não tinha ouvido. — Você... Não devia estar aqui.
Henrique riu com escárnio.
– E você deveria? — cruzou os braços. — Namorando o irmão do garoto que seu Ex quase matou... Estou chocado com seus últimos feitos, Capoci.
Decidido a não ouvir o que o moreno dizia, procurou por entre as memórias daquela dia alguma coisa que havia perdido. Sabia que a única que já tinha invadido a mente dele e feito ele pensar por horas que Henrique estava vivo, enquanto tentava matá-lo, era Leticia.
Será que ela havia aparecido antes ou depois de Roberto aparecer? Estaria o verdadeiro Rafa babando no Subaru do pai do namorado agora mesmo?
– Tem que ter alguma saída — ele começou a andar pelo quarto e olhar pela janela. — Todo truque tem que ter uma falha.
Enquanto ele farejava o quarto a procurar de algo, Henrique mantinha um olhar confuso para ele. Quando Rafa apelou para tocar em uma das gavetas, ele quase arfou de horror.
– Ei! Não mexa na minha gaveta de cuecas! — ele andou até ela e a fechou com força. — O que tem de errado com você?
– O que tem de errado com você, eu que pergunto — Rafa semicerrou os olhos. — Como ela consegue fazer tudo isso parecer tão real?
Henrique balançou a cabeça.
– Você é louco.
– E você não é real — Rafa então abriu a porta do quarto e colocou a cabeça para fora. — Leticiiiiiia! Saia de onde estiver! — ele começou a gritar e olhar os dois lados do corredor. — Eu sei que está brincando comigo como no ano passado e vou logo te avisando — ele colocou as mãos em concha envolta da boca: — NÃO TEM GRAÇA!
– Que merda você está fazendo? — Henrique o puxou de volta e o jogou de volta para o meio do quarto. — Você usa maconha ou algo assim?
Rafa mediu ele de forma desconfiada, olhando a veia aparecendo no meio da testa dele.
– O que está esperando para começar a me bater?
– O que?
– Vamos, tente me matar — Rafa incentivou, cruzando os braços. — Não é isso que você gostaria de fazer caso estivesse vivo?
Os olhos de Henrique escureceram um pouco.
– Eu sinto muito, mas diferente de você, eu não tenho motivos para me livrar dos outros de forma tão fria assim.
Rafa sentiu o corte dentro da alma e não resistiu em dizer algo de volta.
– Eu não te matei e você sabe muito bem disso. Foi o Rael que te jogou do precipicio, mas você sabe muito bem que o que aconteceu lá em cima não passou de um acidente!
– HA! — Henrique bufou loucamente. — Acidente, sim claro. E eu não vi o vermelho nos olhos daquele que você chamava de namorado quando ele se jogou pra cima de mim daquele jeito?! Ele queria me matar!
– Você provocou ele! — Rafa atirou.
– E ele estava nos seguindo! — Henrique rebateu. — Seu Ex estava obssessivo com o que tinhamos e ficou louco quando te levei lá para cima.... Ele quis me matar o tempo todo.
Rafa sentiu o peito doer com aquelas palavras, não só porque o que Henrique dissera era verdade, mas também porque ele tinha culpa naquilo tudo, o que tornava tudo pior.
– E nem sequer tinhamos algo, de fato — Rafa retrucou. — Você estava levando as coisas para um lado errado.
A acusação nos olhos de Henrique bruxeleou para ódio puro.
– Eu não sei do que você está falando.
Rafa começou a perceber que o outro não seria o único a sentir raiva ali. No natal do ano retrasado, Henrique estava praticamente flertando com ele. Dizendo coisas com duplos significados, lançando olhares fixos e duradouros, convidando ele para sair e depois passando com o carro na frente da casa dele.
Rael tinha culpa sim em algo, mas Henrique também tinha que admitir que tinha sido o safado daquela história toda.
– Certo — Rafa limpou a garganta. — E o que Roberto tem a ver com tudo isso? O que você quer com ele? Estragar mais um relacionamento meu por vingança?
As sobrancelhas de Henrique formaram um V.
– Eu não tenho culpa se foi por você que meu irmão se apaixonou — disse e parecia falar sério. — O desastre todo já estava feito quando ele ligou aqui em casa dizendo que iria trazer o namorado para todos conhecerem aqui na casa dos meus avos.
– Você já sabia sobre nós?
– Não até ano passado — confessou. — Mamãe ligou para cá e disse tudo sobre o "amigo" de Roberto que havia feito ele sair do armário. Não fiquei tão surpreso com a tal novidade, até porque ele é meu irmão e eu o conheço. Mas quando ouvi ela dizer Rafa... ele curvou a boca para o lado. — Eu juro que achei que minha sorte estava acabando.
Rafa sentiu a nausea alcançar o cérebro.
– E já devia ter acabado — respondeu secamente. — Mas afinal como diabos você está vivo? E não venha me dizer que tinha um jeito de você estar vivo porque não tem! O precipicio tinha meeeeeeeeeetros de altura, nenhum humano seria capaz de sobreviver aquilo.
Algo passou rápido pela expressão de Henrique, mas antes que Rafa pudesse ponderar, o outro voltou a olha-lo de forma amarga e sofredora.
– Eu não sei o que aconteceu — disse cada palavra lentamente. — Só o que eu sei é que em um minuto o ar estava todo envolta de mim e de repente — ele gesticulou com as mãos de forma estranha. — Um breu enorme. Eu de repente estava na floresta de novo, deitado em cima de um monte de flores estranhas.
Rafa balançou a cabeça, desacreditado.
– E você quer que eu acredite em você?
– E você acha que eu ligo? — rebateu o moreno. — Liguei para Roberto naquela noite e pedi pra que ele me buscasse e não contasse para ninguém sobre o que tinha acontecido... E ele guardou meu segredo.
– Espera — Rafa então sentiu o chão fugir dos pés. — Está me dizendo que Roberto sabia sobre o que aconteceu no Natal?
Henrique deu de ombros.
– Não me perguntou a respeito de nada quando chegou com o carro aqui em Vallywood, simplesmente me ajudou, então não sei se ele tinha advinhado ou escutado alguma das minhas conversas com você.
Rafa ainda parecia atonito.
– Todo esse tempo, os dois na mesma escola... E eu nem tinha suspeitado que eram irmãos.
Henrique deu de ombros, não parecendo ter muito o que falar sobre.
– Não éramos o que se podia chamar de colados até aquele Natal.
Os pontos na mente de Rafa iam se ligando pouco a pouco, preenchendo todos as lacunas que tinham na mente dele. Aquilo tudo era verdade, agora ele podia ver. Por mais que parecesse surreal, era a pura verdade. Henrique estava vivo todo esse tempo, e Roberto era seu irmão.
Por um segundo quase sentiu alivio ao pensar em Rael — o Ex não era um assassino, afinal de contas. Porém aquilo não melhorava de qualquer forma a situação dele.
Olhou para Henrique duramente e quando esse o olhou de volta sentiu seus ossos derreterem com o ódio neles.
– Agora você vê, Capoci? — ele começou a usar um tom mais seco ainda. — A verdade sempre aparece.
Rafa sentiu o nervosismo congelar sua barriga.
– Do que está falando?
– Acha que eu não sei o que você fez? — ele riu, mas o sorriso mal chegava aos olhos. — Durante todo esse tempo fiquei me perguntando se não sentiu um pouquinho sequer de culpa...
– Henrique, eu senti...
– Você mentiu para minha namorada — declarou o outro. — Disse a ela que eu estava fora da cidade.
Rafa aceitou a pontada, mas não se deixou intimidar.
– E eu não estava de fato errado — ele cruzou os braços. — Você quer falar de mentirar quando na verdade foi você que ficou se escondendo aqui na casa dos seus parentes. Por que não voltou? Por que não foi lá e lutou pela vida que tantos já me acusaram de eu ter tirado? Pela vida que Rael pensa que tirou? Por que não voltou para a Bruxa da sua namorada, hein?
– Não fale assim dela...
– Eu falo o que eu quiser de quem inferniza minha vida — o veneno saia da boca de Rafa. — Ela foi uma vadia todo esse tempo com todos nós porque achava que estava fazendo isso pelo cara que amava, mas olha só... Nem mesmo o cara, o único que ela amou está dizendo a verdade.
A expressão de Henrique o tempo todo foi de alguém que apanhava no discurso todo, porém quando Rafa terminou, sua pose ficou mais perigosa.
– E você acha que isso vai ficar assim? — ele riu de novo e dessa vez parecia mesmo achar algo engraçado. — Acha que só porque disse umas verdades na minha cara eu vou esquecer tudo o que fez? Está enganado.
– O que?
– Taffara pode ter feito da sua vida um inferno até agora — Henrique andou até ele, até ficar bem perto do rosto dele. — Mas acredite quando eu digo que eu sou muito pior que ela quando se trata de vingança. E você, Capoci, vai provar do que estou falando.
Um silêncio duradouro se seguiu e então os dois ouviram uma batida na porta do quarto.
– Rafa? — a voz de Roberto veio do outro lado da porta. — Rick? Está tudo bem?
Rafa sentiu o sangue fugir do rosto enquanto a maçaneta abria e olhou para Henrique uma vez. Este parecia calmo enquanto se virava para a porta. Será que a vingança começaria agora?
A porta se abriu e os olhos verdes confusos do namorado se viraram para os dois por um longo tempo, se perguntando o que diabos estava acontecendo ali.
– Rafa? — ele o olhou nos olhos. — Por que está aqui?
Henrique então entrou na frente dos dois.
– Dá pra acreditar — começou a rir falsamente. — O bobinho do seu namorado achou que aqui fosse o quarto de vocês!
Ele começou a rir e olhou para Rafa uma vez sobre o ombro, como se fosse um sinal e logo o próprio riu um pouco também, entrando no jogo.
Roberto enfim começou a puxar um pouco do bom e sincero sorriso.
– Meu Deus, é a cara dele.
– Eu tive que explicar a ele várias vezes que aqui não esta longe de ser seu quarto.
Roberto olhou Rafa.
– É verdade — e então riu.
– Eu disse terceira porta a direita — Roberto ria. — Terceira porta, Rafa.
– Agora vão — Henrique começou a rir sozinho enquanto andava até a janela de novo. — Achem a suíte correta de vocês, por favor.
Roberto riu de novo e Rafa andou até o namorado que esperava na porta. Porém, já dentro do corredor, Henrique o chamou e foi fechar a porta ele mesmo.
– E que sirva de aviso, Capoci — ele sorria falsamente. — É bom que nunca mais se perca do quarto onde está dormindo. Ninguém aqui está querendo sumir de novo, está?
Aquilo era uma pergunta, Rafa observou, e ele sabia que a resposta só Henrique sabia porque era uma ameaça, feita unicamente para ele.

****

Ao longo do caminho, Érika já tinha descoberto que o nome do cara alto era Tomi. Ambos eram os juízes que haviam feito o teste com Rafa, ela finalmente deduziu e estava certa. Julia dissera que tinha sido dificil vencer o Capoci, mas Tomi, com uma cara ressentida, comentou que não passava de sorte de principiante, ou que ele não tinha dado o melhor de si.
– Você já pode parar de tentar fazer graça — Julia o repreendeu com um olhar zombeteiro. — Não liga pro que ele diz, Tomi meio que tem um complexo problemático.
– Vamos ver se consegue me dizer isso comigo chutando a sua cara — ele ameaçou, as sobrancelhas escuras se juntando.
Mas Julia apenas ergueu a mão e ele recuou. Érika olhou de um para o outro, se sentindo como um ovo no meio de um ninho de aves predadoras.
– Socorro — murmurou.
– Ah, não fique timida, Érika — Julia sorriu afiadamente para ela. — Podemos parecer dois lunáticos, eu sei, Tomi meio que é um...
– Ei!
– ...mas somos inofensivos, eu garanto.
A loba assentiu.
– Eu não acho nenhum de vocês lunáticos, na verdade.
– Ah, eu acho.
A voz que disse isso se encontrava na frente de uma casa de areia com janelas de vidro rachadas. Era uma garota de cabelo castanho e olhos verdes coloridos que brilhavam. Parecia tão bem arrumada que Érika não se perguntou se por acaso ela estava no lugar errado.
– Essa é a Mabelle — Julia as apresentou. — Belle, essa é Érika.
– La Loba — Belle sorriu e descruzou os braços. — Seja bem-vinda, Érika.
– Bem-vinda? — Tomi questionou e olhou a loba de um jeito confuso. — Ela vai entrar para o nosso Pack?
– Não seja tolo, Tomi — Julia suspirou. — Lobos não podem entrar nos Packs, você sabe disso. Ela só vai... Nos acompanhar por hoje. Certo Érika?
Sem saber bem do que a baixinha queria dizer com "acompanhar", ela assentiu, um pouco preocupada, mas também um pouco curiosa.
– Interessante — Belle de repente parecia mais animada. — Eu estou com ideias do que podemos fazer hoje.
– Nem vem — Tomi se colocou mais para frente, retesando os músculos. — Eu já escolhi nossa vitima!
A escolha de palavras dele assustou um pouco Érika e logo ela começou a repensar sobre o que a baixinha estava querendo dizer com "diversão". Será que aqueles Juízes eram sociopatas e ela não tinha notado antes?
– Não faço ideia de quem seja, mas não — ela o dispensa. — Eu estou decidida a brincar um pouco com Layane.
Tomi arregala os olhos, como uma criança.
– Você tá brincando? Era essa a vitima que eu escolhi, que demais cara!
Belle fez uma cara de nojo.
– Foi só uma infeliz coincidencia.
– De qualquer forma — Julia interrompeu os dois. — O que você tem planejado para a nossa vítima?
– Eu tenho uma coisa maravilhosa planejada para a Laylay — ela tocou o próprio casaco e Érika pode notar um volume ali. — Só acho que não temos alguém corajoso o suficiente para fazer.
– Como assim?
Mabelle tirou algo de dentro do casaco preto e o revelou para os três. Era uma caixa preta, de aparência sólida e fraca. O cheiro de pólvora não demorou muito para acertar o nariz sensível de Érika.
– Uma bomba — ela disse automaticamente.
O sorriso de Belle era estonteante.
– E é esperta ainda — olhou admirada. — Já estou começando a gostar de você, garota.
Érika gostou dos elogios, mas ficou um pouco decepcionada por dentro pela Juíza não saber que a habilidade do faro era uma das mais comuns coisas que os Licantropos podiam fazer.
– Okay, uma bomba — Julia assentiu, nervosa. — Mas você não está mesmo pensando em jogar isso na Layane, não é?
Belle fitou a mais baixa de um jeito critico.
– E por que não?
– Porque nós vamos nos encrencar — Tomi declarou com uma voz meio abobada. — E muito.
– Fica frio, Tomi, ela não vai fazer isso de verdade — Julia olhou Belle de soslaio. — Certo, Belle? Creio que temos outras formas de nos divertir sem machucar alguém e nos encrencar.
– Lamento, Ju, eu não conheço mais nenhuma — ela sorriu falsamente como alguém que estava desapontada.
– Mas você não pode fazer isso! Anna acabaria com a sua raça na hora!
– Você tem razão, Ju, eu não posso — Belle então olhou para Érika de um jeito misterioso. — Mas conheço alguém que faria sem piscar.
Tomi bufou.
– A Érika!? — ele riu. — Ela não faria isso, ela não é tão louca assim!
A loba não tinha dito nada até agora e notou que os três a encaravam. Juliana de um jeito irritado, como se reprovasse a garota só por pensar. Tomi de um jeito apático, não certo se devia expressar algum tipo de reação. Mas Belle olhava a garota, como se a desafiasse a responder que sim, ou como se duvidasse que ela não diria não.
E então Érika se decidiu.


***

Tinha tudo acontecido tão rápido, Érika pensou enquanto escalava a parede do lado de fora que levava ao escritório de Layane, que ficava na direção oposta do de Anna. Olhou para baixo e pode ver a cabeça dos novos amigos, que estavam ficando de olho caso alguém aparecesse.
Érika estava dando graças a Deus pelo escritório da Chefa de La Iglesia se do outro lado, só de imaginar o que a outra faria com ela seus dentes batiam de medo. Por incrível que pareça, não tinha ficado tão surpresa ao constatar que tinha dito sim a proposta de Belle e desconfiava se ainda tinha ressentimentos por Anna ou Layane.
Meses atrás, depois que estava ali com Carla, a outra a informou que Anna havia ordenado para que a Alfa fosse atrás de sua Beta em Vallywood. O que na verdade significava que Carla não era a única culpada por tirar Érika de Vallywood, mas de Anna também. Mesmo que estivesse transformada e com sede de sangue, ela ainda queria encontrar a familia, e tentar se lembrar de quem eles eram.
Mas não... Ela foi interrompida.
Então agora, enquanto suas unhas grandes impulsionavam ela para subir mais até a janela do escritório de Layane, ela não sentia nenhuma dúvida do que estava fazendo. Impulsionou os pés para cima e aterrisou bem perto da janela. Foi capaz de escutar os suspiros de choque dos que estavam lá embaixo.
Tocou com um dos dedos a superficie da janela de vidro do escritório e agradeceu a todas as forças do universo por Layane estar virada de costas para ela e parecer muito ocupada com a papelada em sua frente.
Quando conseguiu fazer um círculo, pegou a caixa que Belle havia entregado a ela. Ela só precisava jogar a caixa lá dentro com força o suficiente, e logo tudo explodiria. Layane não ia ficar tão ferida assim, era só uma bomba amadora, disso Érika tinha certeza.
Deu uma última olhada para os amigos lá embaixo e agitou as mãos para sinalizar que tinha conseguido. Nenhum deles emitiu um som e fez qualquer gesto e então enquanto ela se virava de volta para a janela... Viu Layane encarar na direção dela.
Érika foi parar no chão tão rápido que não acertou Julia por sorte, que tinha conseguido ir para trás habilidosamente. Belle a olhou com expectativa e logo depois Tomi agarrou sua mão esquerda.
– O que você fez?
A mão de Érika estava vazia.
E então uma explosão veio do escritório de Layane, jogando vários cacos de vidro sobre as cabeças de todos.

****

O carro de Eduardo era veloz na Avenida vazia ao Norte do que poderia ser Chicago, ou talvez Phoenix, Andressa não sabia bem a diferença. Eduardo parecia concentrado ao volante e Fernando olhava preguiçosamente para o lado, admirando talvez a relva que circundava a Avenida.
Andressa já estava ficando entediada, até que olhou de lado para Eduardo, que estava lindo usando um suéter escuro de gola V que ela sempre dissera que deixava ele mais bonito. Ele pareceu sentir o olhar dela e quando virou o rosto, ela piscou e sorriu acolhedoramente. Mas ao invés de responder, ele simplesmente olhou para trás, pelo retrovisor.
– Sentiu alguma coisa até agora? — perguntou a Fenando, tirando o loiro de seus devaneios.
O outro apenas balançou a cabeça e respirou fundo.
– Nem sinal de qualquer coisa — ele revirou os olhos. — Estou começando a pensar que Anna só nos deu essa missão para que parassemos de encher o saco dela.
Eduardo bufou parecendo estar o dobro irritado.
– Eu preferia estar aqui do que passar mais dois minutos naquele lugar — ele suspirou. — Aqueles juízes idiotas já estavam me dando nos nervos.
Impressionada com o tom nervoso dele, Andressa o encarou.
– Você está bem?
– Ótimo — Eduardo respondeu sem tirar os olhos do volante. — E você?
Aquela era uma pergunta um tanto idiota de se fazer para Andressa, até porque ele sabia bem a resposta. Desde que os dois tiveram... Bem, a primeira vez deles durante o teste de Rafa, as coisas andavam esquisitas. Eduardo não parava de andar meio estressado e frio, como se algo o incomodasse. E ás vezes nos últimos dias andava meio sumido, sem avisar para onde ia. Até mesmo quando se deitavam juntos, se tocando e tudo, ele parecia distante e com muito sono.
Algo estava errado e Andressa sabia que tinha algo a ver com o que fizeram. Era tudo tão estranho, será que ela ruim e não tinha como saber? O único com que tinha feito, Lucas, estava morto, então ela não podia perguntar muito para saber.
– Eu estou ótima, também — ela se virou para o outro lado.
O que estava acontecendo Eduardo? Será que ela tinha feito algo errado ao dizer que "sim" na hora H? Não podia ser isso, porque Eduardo parecia tão disposto e tão louco para fazer. Não era possível que fosse isso. Tinha que haver algum outro motivo.
– Que bom que estamos todos ótimos — Fernando comentou do banco de trás. — Agora podemos focar um pouco? Tem uma Demônia e uma Atiradora de Elite conspirando juntas contra todos nós...
– Eu sei disso — Edu tamborilou os dedos. — Não é como se Anna tivesse dado muita coisa para a gente. Sigam pelo Norte — ele bufou. — Se aquela bruxa soubesse quanta coisa tem no Norte.
Andressa não discordava do comentário do outro, as pistas que Anna dera não serviram de muita coisa. Norte. O que diabos o Norte podia ter a ver com tudo aquilo?, ela se perguntou olhando as densas nuvens que tentavam alcançar o sol.
– O que Carolina ia querer com o Norte? — Fernando se perguntou cabulado enquanto brincava com o cinto de segurança preto. — Será que tem alguma loja de armas?
– Eu queria muito que encontrassemos cada uma delas, separadas — Eduardo grunhiu. — E aquele estranho de capuz também. Eu me resolveria com ele, fácil, fácil — seus olhos queimaram em um âmbar vivo.
– Será que ele é um demônio também? — ponderou Fernando, tocando o queixo de modo relaxado.
– Provavelmente — Eduardo assentiu. — Que tipo de criatura pode ser melhor que um Atirador e um Demônio?
– Um Demônio Atirador?
Eduardo não compartilhou o sorriso zombeteiro do loiro.
– Lembra do que Mário nos disse antes de partir?
Andressa assentiu, se voltando para a conversa.
– Que para saber invocar um Demônio, tinha que ser outro.
– Exato — Eduardo falou, pela primeira vez naquela dia, com um tom simpático. — Ou seja, esse tal cara de capuz, seja quem for... É um Demônio. Obscuro, das trevas, que gosta de coisas escuras.
Uma luz se acendeu na cabeça de Andressa.
– Então isso significa que...
Fernando e Eduardo a esperavam, na expectativa.
– Significa o que?
De repente então ela saiu do carro, abrindo a porta num rompante. Eduardo freou na mesma hora e a olhou confuso ainda sentado no banco do motorista. Fernando franzia o nariz, confuso.
– É isso — ela olhou as nuvens que havia encarado agora pouco. — Agora tudo faz sentido.
– É, só pra constar — Fernando colocou a cabeça para fora. — Não estamos entendendo o sentido de nada.
Andressa se virou para os dois.
– Edu, saia do carro — ela exigiu. — Saia do carro, por favor.
Ele fez como ela exigiu, devagar e hesitante. Segundos depois, Fernando seguiu seu exemplo, pulando para fora do carro pela janela.
– Que merda está acontecendo?
– Norte — Andressa repetiu e apontou para as nuvens. — Anna nos enviou para cá porque o Norte é frio e escuro.
Eduardo encarava impressionado, mas Fernando ainda franzia a testa.
– Hein?
– As nuvens — ela estalou os dedos para as nuvens densas que se arrastavam pelo céu. — Aqui no Norte é frio e escuro também, por causa do clima. Então isso faz daqui...
– Um dos lugares preferidos dos Demônios — Eduardo completou, abismado.
– Exatamente! — Andressa exclamou. — O que significa que Sabrina deve estar por aqui!
– Ora, mas isso não é demais?
Os três olharam para cima e o que viram assustou todos eles. Sabrina pairava acima deles, o cabelo loiro se bagunçando no ar, as asas escuras parecidas com metais se projetando nas laterais de seu corpo. A expressão dela era incrédula.
– Mas como? — Fernando sacou a adaga que tinha escondido dentro da manga da camisa. — Eu não senti sequer um cheiro.
– O bloqueio — Andressa observou.
– Isso mesmo, Caçadorezinhos — ela riu e jogou a cabeça para trás. — Eu sou capaz de...
Pow!
A Demônia foi com tudo para trás, surpresa com o tiro de Eduardo, que já se preparava para o segundo.
– Seu tolo — ela grunhiu. — Essas armas não me causam nenhum mal.
– Oh, ele sabe disso — Andressa surgiu como vespa no teto do capo do carro e apontava sua agulha afiada.
Sabrina desviou como se aquilo fosse o pior, mas sentiu que a briga só estava começando quando algo formigou em seus pés. Ela estava queimando.
Bateu em seus próprios pés no ar, para apagar o fogo, mas algo mais forte ainda se jogou contra ela e de repente a loira estava no chão, agonizando de dor.
Fernando se afastou com tudo para se voltar junto dos amigos.
– É, Sabrina, é realmente demais você estar aqui — Andressa começou a abrir o porta-malas, de onde tirou correntes de cores estranhas. — Mas não é demais para você porque vamos matar acabar com você de uma vez por todas.

****

Rita tinha finalmente conseguido escapar de Lucas. Quando ele a arrastou na direção da quadra, ela tinha milagrosamente conseguido chutar a mão dele, mas logo depois teve que correr como louca pelo corredor, aproveitando a única oportunidade que teve depois de horas.
Agora ela tinha conseguido entrar em uma das salas de Química e trancando a porta dela. Olhou atentamente pela janelinha, a espera de qualquer sinal da cabeça escura de Lucas.
– Alguém pode me dizer...
Rita levou um susto tão grande que nem se atreveu a gritar. A sala de Química não estava vazia.
– ... qual a equação? — a mulher que havia falado tinha cabelo escuro azulado e estava de costas para ela e para a classe, cheia de alunos.
– A equação é inútil — respondeu um jovem de cabelo loiro arrepiado. Rita o achou familiar, mas ele estava virado também e ela não conseguia ver seu rosto.
– Exatamente — a professora sorriu e se virou. — A equação Rita é inútil.
Ela ficou chocada, mas não com o que eles falavam dela e sim com o rosto da professora. Era Gabriella, a detetive que a havia interrogado. O garoto loiro também se virou. Era Fernando. E logo ao lado dele, Rafa. Depois Eduardo, Érika, Andressa e Carla se viraram também, encarando ela com sorrisos irônicos.
Todos que estavam ali ela conheceu no ano passado, em uma situação bem drástica. A morte do garoto que estava querendo matar ela do lado de fora da sala.
O último aluno a virar o rosto tinha um cabelo castanho também, mas quando ele se virou para olha-lá, seu rosto estava distorcido de forma horrível e ela não conseguia saber quem era.
Rita tocou na maçaneta, pronta para fugir, mas então um solavanco na porta a fez olhar antes.
Lucas estava bem ali, os olhos vermelhos a fitando, os caninos crescendo de forma sobrenatural.
Qualquer garota normal teria corrido feito uma burra e sido encurralada pelos dois lados. Rita podia ser humana, mas não era ingenua.
Com força, abriu a porta e se jogou em cima de Lucas. Os dois rolaram até que ela ficasse com a cabeça centímetros da porta de um dos armarios.
– Sua burra — ele se sentou e a pegou pela perna. — Você é uma burra!
Ela olhou para ele e então empurrou sua cabeça grande contra a porta de metal do armário. Lucas gritou de dor, mas ela se levantou e chutou sua barriga. Estava correndo de novo na direção da saída e já sabia o que aconteceria. Porém Lucas entrou em seu caminho e a impediu de passar.
Quando ele agarrou seus ombros de jeito firme ela teve certeza — Aquele estava longe de ser Lucas.
– Acabou — ele sorria. — Desista, você está acabada!
Rita arfou, mas então riu.
– Não.
Ele ficou confuso, mas ela jogou seu punho contra ele. Lucas olhou para baixo e ela seguiu seu olhar. O braço de Rita atravessava o peito de Lucas.
"Lucas".
– Porque você não é o Lucas, porque você não é real.
E então tudo se quebrou.

***

Rita despertou na trilha em que estava seguindo seu atalho particular. Sua respiração estava articulada e seus batimentos cardiácos acelerados.
Tocou o próprio corpo e as próprias partes. Ela estava bem, ela estava viva e estava ali. Lucas não estava vivo, nada daquilo era real.
– Eu consegui — ela falou para si mesma, feliz. — Consegui e estou bem.
– Não seja tão burra, Ritinha.
Ela levantou a cabeça e a garota de cabelo enrolado e castanho estava em pé, olhando ela com ódio. Começou a falar em outra língua e Rita se preparou para morrer.
Até que um borrão surgiu atrás da garota e a subjulgou até que ela ficasse de joelhos. E então ele largou a nuca da garota e ela caiu de cara no chão.
Rita suspirou fundo e olhou com um sorriso estonteante o garoto de cabelo escuro rente e pele morena na frente dela. Ela levou a mão ao peito, emocionada.
– Erick!

****

A familia de Roberto estava reunida na sala de estar assistindo ao programa de comédia E aí, chegamos? no canal TBS, mas por mais que Rafa achasse o personagem de Terry Crews muito forçado, ele nada diria. Mesmo que estivessem todos assistindo Vila Sésamo por ali ele também não falaria nada porque estava fazendo de tudo para agradar Roberto.
Rafa se atreveu a olhar para ele de lado no sofá de dois assentos e encontrou o outro se segurando para não rir do programa idiota. Ele era tão lindo e inocente, segurando a mão de Rafa de modo carinhoso, mesmo com os pais psicóticos e repreenssivos olhando do outro lado da sala.
Até agora eles tinham se comportado, mas Neemias parecia tão sério e entediado olhando aquele programa de TV. Rafa desconfiou se ele não estaria pensando em quebrar a televisão ou o próprio Terry Crews. Henrique, o mais velho, podia não estar tão sério como ele, mas com certeza estava pensando em formas de matar também enquanto se trancava em seu quarto.
O fato de Henrique ser irmão de Roberto ainda fazia a cabeça de Rafa girar com o quanto aquilo tudo era real. Ele não conseguia imaginar Roberto e Henrique brincando juntos em algum parque de diversão, dividindo o quarto ou brigando para ver quem pegaria o irmão mais novo no colo. Os dois eram tão opostos, e ambos tiveram algum tipo de sentimento por ele.
Seria Rafa algum tipo de Elena Gilbert cósmica e gay?
– Esse programa é muito hilário — A sra. Borges se levantou de repente enquanto pegava o controle remoto e abaixava o volume da TV. — E então, Rafa, está preparado para comer um pouco mais?
Todos o olharam, esperando sua resposta e ele meio que enrubesceu.
– Eu não quero incomodar.
– Não seja bobo, Rafa — Roberto bufou e olhou a mãe. — Ele vai querer sim, mãe.
– Ora, então venha me ajudar a colocar o prato dele! — ela disse, já a meio caminho da cozinha. Roberto tinha suspirado e continuado no sofá, até que ela voltara e o arrastara pela orelha.
– O senhor é muito folgado!
O sr. Borges se virou afobado para o filho mais novo.
– E você, Neem? Curtindo o show?
Neemias respondeu com um gemido rouco.
– Qual deles? — disse de forma uma ironica que deu a Rafa a impressão de que ele estava incomodado com algo.
– Não seja um chato!
– Não seja você um chato — o mais novo retrucou, cruzando os braços. — Primeiro me arrasta pra esse fim de mundo que é esse Chacará e ainda tem coragem de me perguntar se estou me divertindo? — ele balançou a cabeça. — Sem essa.
O sr. Borges se sentiu tão mal com o que o garoto disse, que se levantou rapidamente e se retirou da sala, alegando que gostaria de pegar mais cerveja.
Rafa se virou timidamente para Neemias e este o olhou de volta, com uma cara não tão boa.
– Tem algo errado? — perguntou em seu tom mais educado.
Neemias o fitou por um bom tempo antes de responder, os olhos escuros sem nenhuma centelha de simpatia.
– Eu não gosto de você — ele disse de cara, sem mudar o tom de voz que usou com o pai.
Rafa foi um pouco para trás com essa.
– Você é homofóbico?
– Sou enojoadofóbico — ele retrucou. — Meu problema com você tá bem longe da sua opção sexual, pode ter certeza.
Rafa franziu as sobrancelhas.
– Eu te fiz algo?
– Claro que fez — Neemias bufou e o encarou. — Tornou meu final de semana pior do que eu já imaginava que seria.
Rafa estava prestes a dizer ao garoto ir para aquele lugar, quando Roberto entrou com passos pesados e olhou de Rafa para Neemias.
– O que está havendo?
Rafa não disse nada.
– Seu namoradinho não se toca — Neemias afiou o tom de voz. — Ele é idiota demais pra saber o que está bem estampado na cara dele.
Roberto olhou Rafa como se pedisse desculpas, depois encarou o irmão friamente.
– Se ele é idiota por isso, então talvez você seja idiota por vários outros motivos também. Não percebe o quanto você se ferra sozinho, sem a ajuda dos outros?
Neemias mal encarou o irmão de volta.
– Você tem segundos pra subir para o seu quarto cheio de tralhas malditas.
– Ou o que? — o menor desafiou.
– Ou eu conto o que você falou para o Rafa e acredite — Roberto se inclinou para mais perto dele. — Seu final de semana vai começar a ser uma bosta de verdade.
Ressentido, mas não irritado, Neemias se levantou do sofá e passou pelo irmão mais alto, empurrando ele com o ombro para passar. Depois que subiu a escada grande, fechou a porta com um baque alto.
Roberto passou a mão no cabelo loiro claro espesso e se voltou para Rafa com um olhar meio triste.
– Me desculpe por isso, amor — ele se sentou ao seu lado. — Neemias tem um problema enorme quando se trata em socializar com as pessoas.
Rafa apenas meneou a cabeça.
– Ele não está tão errado assim. Essa casa é mais dele do que minha.
– Mas você está aqui comigo — Roberto entrelaçou sua mão com a dele. — O que faz parte dessa casa sua, também.
Rafa lançou um sorriso zombeteiro.
– Que maravilha, sou convidado, arrumo briga e depois descubro que já tenho parte da casa para mim. Demais.
Roberto o cutucou de lado.
– Não seja bobo — ele afagou sua mão. — Você é a melhor parte de tudo isso aqui.
Rafa se remexeu um pouco sem graça, mas achando fofo as palavras que o namorado disse.
– Obrigado.
A sra. Borges entrou correndo na sala, com uma bandeja do que só poderia ser chamado de Muffin gigante.
– O jantar está servido — ela sorria, mas então franziu a testa. — Onde está todo mundo?
– O Senhor Borges foi buscar cerveja — Rafa soltou.
– Mas eu acabei de sair da cozinha — ela franziu o nariz. — Neemias?
– Ele ficou cansado — Roberto atirou um sorriso maroto.
– Que estranho — ela então sorriu mais. — Então acho que só sobraram vocês!
– Na verdade, mãe — ele se levantou e puxou Rafa com ele. — Eu e o Rafa ainda não tiramos as coisas da mala, então talvez depois.
A Sra. Borges deu de ombros, muito desconfiada para dizer algo.
– Bom, divirtam-se.
– Valeu, mãe — Roberto passou por ela e pegou um muffin.
Rafa seguiu seu exemplo e seguiu Roberto pela escada, dando uma última olhada para a Sra. Borges, que sorria para ele de um jeito satisfeito.

***

Duas horas mais tarde, Rafa encarava o que poderia ser o começo daquela noite. Estava sentado em cima da cama de Roberto, esperando enquanto ele tomava banho. Vestia uma camisa azul de flanela simples e samba-canção não muito provocante, por debaixo das cobertas grossas. Se sentia tão bem confortável ali e deu graças a Deus por não ser alguma pessoa que estivesse do lado de fora.
Estava muito frio.
Ficou pensando se não era meio perigoso ficar ali sozinho, sendo alvo dos dois irmãos do namorado. Um certamente o odiava e já tinha atirado uma ameaça garantida na direção dele, e outro, apesar de ser mais novo, tinha falado na cara dele o quanto não gostava de gays.
Rafa começou a se perguntar se ainda estaria vivo até o final de semana.
– Ei.
Ele levantou a cabeça e flagrou o olhar de Roberto — e logo depois flagrou seu corpo seminu. Enquanto o loiro fechava a porta e entrava no quarto apenas de toalha, Rafa admirou seu peitoral forte de nadador descoberto. Já tinha visto antes, junto com as pernas grandes e cochas saudáveis, mas na ocasião nem sonhava que Roberto e ele teriam algo.
Agora eles tinham algo e o mesmo corpo perfeito de nadador estava bem ali na frente dele, quente e cheirando a banho enquanto andava até a comoda.
– Ei — sua voz saiu rouca ao responder e ele pigarreou. — É... Precisa de ajuda com algo?
Roberto o olhou confuso, se virando e deixando as costas nuas a vista.
– Não muito, eu acho — ele começou a pegar algo que só podia ser uma cueca. — Por que, amor?
– Sei lá — Rafa deu de ombros e se inclinou um pouco na cama. — Você parece bem.
Roberto se virou confuso para se sentar na cama.
– Eu estou bem, ora — ele sorriu expondo a fileira de dentes brancos. — Você está aqui, por que eu não estaria bem?
Rafa sorriu de volta e afagou a própria nuca, um pouco admirado com todo aquele romance.
– Ei — Roberto o chamou de novo, segurando sua mão. — Obrigado por estar aqui.
– Por nada — Rafa então avançou e o beijou nos lábios.
Roberto correspondeu o beijo com paixão, tocando a nuca do outro para beija-lo de forma mais intensa. Rafa tocou o pescoço dele da mesma forma e, tomado por algum impulso, afagou o peitoril descoberto dele.
Roberto na mesma hora parou o beijo. Rafa encarou e viu que seus olhos verdes o encaravam, de forma misteriosa.
– O que está pensando? — sussurrou.
Rafa apenas balançou a cabeça.
– Não estou pensando em nada — e o beijou de novo. — Só em você.
– Eu sei — Roberto retribuiu o beijo, mas então o segurou pelo ombro. — É só nisso que está pensando?
A forma como ele o olhava era tão intensa, tão linda, tão cheia de... algo que ele não sabia explicar que ele se jogou em cima do outro até que estivesse sentado em cima de seu colo. Roberto não o tirou de cima dele, mas também não retribuiu o beijo, a respiração entrecortada.
– Você tem certeza? — ele perguntou carinhosamente.
Rafa fez que sim com a cabeça, começando a puxar a toalha de Roberto com uma mão só.
– Absoluta.
Roberto então o beijou de volta e os dois gemeram de prazer enquanto iam para debaixo das cobertas.


***

Rafa não sabia bem quanto tempo tinha passado e, para ser honesto, nem sequer contou. Estava deitado no alto da cama, olhando para o teto iluminado pela lua que entrava nas janelas do quarto. Roberto pairava acima dele, o corpo nu roçando o dele enquanto os dois se beijavam e se acariciavam.
– Como você está? — Rafa beijou a base do pescoço dele.
Roberto estava com os olhos brilhando de desejo.
– Estou no céu — ele suspirou. — Quem diria que isso poderia ser tão bom?
Rafa riu um pouco de seu tom débil, mas o beijou fortemente.
– Estou feliz que tenhamos decidido esperar — ele informou, os olhos atentos ao rosto do outro. Roberto assentiu solenemente.
– Estou feliz também — disse. — Nunca tinha feito nada parecido antes e apesar de não termos terminado — ele remexeu em suas pernas logo abaixo. — Já sinto como se fosse uma experiencia.
Rafa fez um muxoxo e o trouxe para mais perto.
– Juro que um dia vamos fazer — ele começou a prometer, mas Roberto baçançou a cabeça.
– Não precisa me jurar nada.
– Tudo bem.
Roberto saiu relutantemente de cima dele e se deitou ao seu lado, mas ainda mantinha uma mão quente sob a cintura dele enquanto os dois faziam conchinha.
– Eu te amo — ele sussurrou no ouvido de Rafa.
– Eu também — Rafa fechou os olhos e o beijou antes de se virar para o lado.
E por um tempo a mente dele viajou enquanto sentia Roberto descansar ao seu lado.
Mas então ouviu algo: um grito.
Não parecia exatamente como um grito estridente, mas um parecido com o de alguém quase sufocando.
Olhou as formas escuras do quarto, confundindo a comoda com um monstro, pensando que a mesa do computador era uma aranha. E então, um latido.
Se levantou de forma tão abrupta da cama que quase se surpreendeu por Roberto não se mexer. Os olhos fechados para a realidade, mas abertos para algum sonho. Estava mesmo dormindo.
Rafa suspirou e saiu da cama devagarzinho.
Quando chegou na cozinha, espreitou até uma das janelas e quase levou um susto quando viu o carro do lado de fora. Era o carro de Eduardo.
– Surprise Bitch.
Ele pulou de susto, mas reconheceu o cabelo escuro longo, mesmo este se camuflando na escuridão.
– Andressa?
Ela não disse nada e começou a sair pela porta dos fundos.
– Venha comigo.
Ele queria ter dito que estava só usando samba canção, mas ao invés disso começou a segui-la sem medo nenhum com os pés descalços. Nem protestou quando ela foi para a mata fria.
– O que está acontecendo? — questionou.
– Você precisa ver algo — Andressa já estava chegando perto do carro. — Nós conseguimos pega-lá.
Pega-lá? Pega-lá quem?
Chegou perto do carro e encarou Fernando, em sua forma de lobo loiro-quase-branco iluminado pela lua. Eduardo estava congelado, apontando a arma para algo que se mexia loucamente dentro do capo.
E então, Rafa chegou mais perto e viu.
As asas tentando loucamente se soltar de correntes prateadas. Os olhos totalmente escuros como o céu frio daquela noite. O cabelo loiro quase seboso.
Sabrina.
– Sabrina! — ele guinchou e a Demonia grunhiu de volta para ele. — O que ela está fazendo aqui? — Rafa olhou de um para o outro, confuso.
– Estavámos perto daqui — Andressa respondeu e olhou também. — Ao que parece ela queria estar bem aqui.
– Aqui? — Rafa seguiu seu olhar que ia para a casa dos Avós de Roberto. — O que Sabrina estava fazendo aqui?
– Provavelmente vindo atrás de você — Eduardo semicerrou os olhos e depois se virou para a loira. — Não é isso?
– Você sonha se acha que vou te contar alguma coisa! — ela cuspiu. — Caçadores são todos idiotas, sempre querendo mais informações e mais informções. Só para depois matarem mais e matarem mais...
Fernando latiu e ela se calou.
– Veja por um lado bom — Andressa cruzou os braços. — Ainda não te matamos. Você ainda pode nos dizer o que sabe.
– E então vocês me deixam ir? — ela riu. — Eu não sou uma vadia estupida!
– Não mesmo, você é só vadia — Rafa retrucou. — Se essa louca tivesse vindo aqui antes ela poderia ter me matado. E matado Roberto e a familia dele — declarou com choque.
– Meu objetivo é só com você, Rafael — ela disse o nome dele de um jeito estranho, como se o aguardasse. — Mas um ou dois corpos a mais não fazem a menor diferença.
Rafa explodiu em raiva e avançou, mas Eduardo foi mais rápido ao segurá-lo pela cintura.
– Pra quem você trabalha?!
– Morra — Sabrina sorriu loucamente. — Morram todos vocês.
– A única mais próxima de morrer aqui é você — Rafa se soltou e foi com tudo para frente.
– Não! — Eduardo o segurou pela manga da camisa.
E então Sabrina se levantou — não, ela voou até ficar na mesma altura que a casa de mais de três metros. Lá no alto explodiu as correntes e bateu as asas, sorrindo livre e diabólicamente para todos eles. Fernando latiu e se inclinou nas patas, pronto para saltar.
Sabrina fitou Rafa com um olhar cheio de ódio.
– Meu objetivo era só matar você, Rafa. Mas agora você acaba de deixar minha lista um pouco maior.
E depois começou a descer como um foguete em sua direção.

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****

Quando chegaram a mansão dos Castellianos, Erick acompanhou Rita até a porta da casa, andando ao lado dela no jardim extenso que caberia uma piscina de dois metros.
– Como me achou? — Rita perguntou depois de um tempo e ele a olhou. Ela enrubesceu um pouco. — Não que eu não esteja agradecida.
– Está tudo bem — Erick sorriu se divertindo com a falta de jeito dela. — Eu senti o seu cheiro.
Rita retorceu o rosto não sabendo se seria adequado ou não se sentir incomodada com aquilo.
– Você conhece o meu cheiro? — ela comentou em um tom cauteloso.
– Sei. Você cheira a mogno rústico e nailon importado.
– Eu devo levar isso como elogio? — ela franziu o nariz e os dois começaram a rir.
– Se você achar o que precisa — Erick disse. — Mas foi dessa vez forma que consegui te encontrar.
– E então você matou aquela garota?
– Ela não era uma garota — a voz de Erick ficou seca. — Ela era uma Bruxa e eu não a matei. Devia ter feito quando a vi fazendo o que estava fazendo o que fez com você.
– Você viu o que ela fez comigo? — ela questionou, pensando nas ilusões de Lucas, dele mesmo e dos outros na escola. Lembrou do garoto de rosto retorcido e estremeceu um pouco.
Erick afagou seu braço e ela encontrou seu olhar preocupado.
– Você está bem?
Ela assentiu e notou que os dois já estavam na varanda da casa, a luz que vinha do hall de entrada enorme acesa.
– Não vi necessariamente o que ela estava fazendo com você, mas não parecia ser algo bom. Você parecia estar sentindo dor, Rita.
Rita engoliu em seco.
– Não sabia que as Bruxas eram tão perigosas assim.
– E não são — ele disse e abriu a boca para mostrar os caninos. — Eu sou muito mais perigoso.
Rita riu. Ela era mesmo muito bonita, Erick pensou, olhando os olhos claros, o cabelo com cachos cumpridos até o modo como o vestido florido cai no corpo magro e belo dela.
– Então sr. Perigoso, que entrar?
Erick a mediu com os olhos, tentando procurar a maldade naquela pergunta. Porém só achou uma leve educação vinda dos seus olhos gentis.
– É uma boa ideia?
Rita deu de ombros.
– Se é uma boa ideia meu Salvador entrar? — ela zombou, mas os olhos ainda eram gentis. — Eu acho que sim.
Ele então balançou a cabeça, perdido demais naquele rosto bonito.
– Você...
Mas então a porta abriu com um estalo e um garoto de cabelo castanho escovinha olhou de um para o outro. Marco.
– Mas que... — ele mediu Erick. — Lobisomem?
– Irmão mais novo — Erick assentiu. — Como vai?
– Ótimo, não sendo seu irmão mais novo.
– Marco! — Rita o censurou.
– Eu estou zuando — ele levantou as mãos acima da cabeça como se ela fosse alguma autoridade. — Mas se você está aqui, significa que tem algo rolando não tem?
Erick trocou um olhar com Rita, se perguntando se deveria falar algo para o garoto, mas ela apenas revirou os olhos.
– Estava rolando. Eu fui atacada.
Marco não parecia chocado e sim levemente desinteressado.
– E por que você ainda parece bem? Olha, nem mesmo seu cabelo tá bagunçado. Que tipo de ataque foi esse?
– Porque não foi tecnicamente um ataque — Erick mudou o peso do pé.
– E eu sei me cuidar, meu amor — ela soprou um beijo para ele. — Uma Bruxa me atacou.
Erick achou que Marco finalmente ficaria chocado com aquilo., mas então ele riu e abriu mais a porta, como se chamando os dois para entrar.
– Bruxas que atacam, mas não atacam tecnicamente — ele parecia a beira de uma crise de risadas. — Eu quero saber mais, com toda certeza.
Rita olhou para Erick como se dissesse "Vai ser uma longa noite" e para ser honesto, Erick meio que gostaria que fosse mesmo.

****

Sabrina vinha como um borrão e provavelmente o acertaria se ele continuasse parado ali. Rafa ergueu a barreira, preparado para o impacto, mas não previu que Fernando se atiraria na linha de fogo e fizesse Sabrina voar para longe.
– Merda — ela começou a se levantar do chão, batendo as asas enormes ao lado do corpo. — Metamorfo intrometido!
– Cala essa boca — Eduardo se colocou para frente e começou a disparar na direção dela.
A cada tiro Sabrina ia para trás porém nenhuma das balas surtiu efeito. Eduardo então xingou e começou guardar a arma, provavelmente se preparando para usar sua habilidade. Porém Sabrina notou isso e agiu mais rapidamente, derrubando ele ao passar com suas asas por cima da cabeça dele. Andressa meio que tentou colidir com ela, mas Sabrina voou um pouco mais alto e bateu as asas para ficar mais acima.
Ela pairava como um anjo da morte iluminado pela lua clara daquela noite.
– Como vamos acabar com essa vadia? — Rafa reclamou. — Ela tem essas malditas asas.
O lobo Fernando se aproximou dele e Rafa quase teve certeza que o olhar dele parecia querer dizer algo obvio. Ele viu então que no canto da boca enorme Fernando segurava uma adaga com os dentes enormes.
Sabrina riu lá de cima e começou a descer de novo. Dessa vez Eduardo conseguiu distrai-lá, soltando bolas de fogo para que ela começasse a desviar. Enquanto ela dançava pelo ar, Andressa segurava sua agulha gigante, planejando a melhor hora para tentar joga-la na direção dela, talvez.
Rafa se aproximou de Fernando e este o encarou com os olhos gigantes, parecendo querer dizer algo.
– O que você quer que eu faça? — ele perguntou.
Fernando se moveu nas patas, inclinando elas enquanto segurava a adaga. Rafa ainda assim não entendia e por mais que a voz do outro o incomodasse, ficou com saudades de ouvi-la. Seria muito útil se entendesse qualquer coisa.
O lobo então pareceu se cansar de Rafa e se atirou nele. Quando ele o empurrou para cima com o focinho, achou que ele o iria derrubar, mas então ele se encontrou no ar por um instante, até cair nas costas grandes dele.
E sentado ali Rafa entendeu o que Fernando queria que ele fizesse.
– É inteligente — ele sussurrou. — Apesar de muito perigoso.
Fernando latiu de volta, como se quisesse poder dizer alguma coisa ironica e então Rafa pegou a adaga de dentro de sua boca e a segurou na mão, analisando a ponta afiada. Aquilo deveria servir.
Sabrina ainda se desviava dos ataques de Eduardo e parecia se divertir com o quanto ele parecia estar se cansando. Andressa hesitava para saber a hora em que deveria interver, mas Sabrina parecia de olho nela também.
Porém ela não olhava para Rafa e Fernando.
– Agora — Rafa chutou a lateral do corpo de Fernando e, apesar de ele ter protestado, começou a andar com suas quatro patas.
Sabrina tinha acabado de voar na direção de Eduardo e o empurrado novamente. Andressa tinha tentado chegar perto, por trás, mas uma das asas prateadas a acertou e ela caiu no chão com um baque.
Quando percebeu Fernando vindo, Sabrina riu.
– Perfeito, dois coelhos com uma cajadada só — ela se virou e abriu as asas enormes.
E então Fernando pulou e Rafa — mesmo morrendo de medo — pulou também. O ar passou por seu ouvido enquanto ele passava por cima de Sabrina — que achava que ele tentaria um ataque direto — e se montava nas costas dela.
– Mas que droga? — ela começou a se sacudir, até que Rafa acertou no meio da espinha com a adaga. E então ela começou a se sacudir mais ainda.
Rafa se jogou na mesma hora, caindo no ar e atingindo com tudo na grama verde e escura do jardim. Eduardo e Andressa viram isso e aproveitaram o breve choque da Demonia para darem o golpe final de misericórdia.
Ele estava caindo na inconsciencia, mas antes pode ver o anjo negro começar a arder em chamas até se despedaçar no chão.
Andressa rapidamente chegou perto de Sabrina enquanto suas asas queimavam. As labaredas ganhando vantagem por toda a penugem escura.
Os olhos da criatura se viraram escuros para Andressa e Eduardo, que chegavam perto.
– O senhor que me invocou é antigo — ela declarou com a voz decrépita. — Mas seu hospedeiro não é.
Eduardo ergueu as sobrancelhas de surpresa e Andressa de colocou mais para frente, sentindo o calor das chamas.
– Quem é o Capuz Preto que ajudou você e Carolina naquele dia? — ela pressionou.
Os olhos de Sabrina se arregalaram até o último.
– Vão se foderem.
E então o olhar dela se apagou, ficando todo esbranquiçado enquanto seu corpo ia sendo consumido por um fogo negro e incomum que Eduardo não conhecia.

****

O cabelo loiro de Érika ainda estava cheio de cacos de vidro enquanto ela, Julia, Belle e Tomi descansavam no mesmo campo de areia em que Rafa fizera o teste. Tinham corrido bastante e estavam cansados — mas Érika podia correr muito mais que aquilo e sabia disso.
– Tem algum sinal de alguém nos seguindo? — Belle perguntou a Tomi. O alto apenas balançou a cabeça.
Julia a olhou com reprovação.
– Você faz ideia do que fez?
Belle olhou por sobre o ombro, como se para ver se ela estava falando com mais alguém.
– Eu? — ela levou a mão ao próprio peito. — Mas foi a Loba que jogou a bomba!
Érika se virou com tudo para ela e Belle se encolheu.
– Okay, eu que tive a ideia — ela levantou as mãos. — Mas você também tem parte nisso, não tente negar agora.
– Não estou negando — Érika retrucou. — Mas você parece estar querendo fugir disso tudo.
– Veja lá o que diz...
– Ela está certa, Belle — Julia a encarou seriamente. — Não tenta tirar o corpo agora que a coisa ficou feia.
– Será que a Layane se feriu muito? — Tomi gemeu.
– Acho que devia estar mais preocupado com a gente — Julia retorceu o nariz. — Se a Anna descobre que tivemos um dedo nisso tudo ela vai mais do que nos machucar.
– E é por isso que vamos calar a boca sobre isso — Belle disse duramente e olhou Érika de lado. — Podemos confiar em você?
Érika estava tão aturdida e assustada com o que estava acontecendo que quando ouviu alguém a chamando, pulou de susto feito louca.
Carla, agora que a avistava de longe, andava na direção dela, com o cabelo escuro batendo nas costas, o rosto franzindo de preocupação.
– Vocês podem — ela sussurrou rapidamente. — Eu não quero me ferrar nisso também.
– Ainda bem que pensa assim — Julia sussurrou de volta. — Porque se a Anna descobrir, ela não vai punir só a você.
Érika sabia que ela estava falando de Carla, mas não criou coragem para dizer mais nada. Talvez a relação dela com a outra Loba fosse mais transparente do que ela pensava.
– Por onde você andou? — mesmo com o céu um pouco escuro, ela podia ver que os olhos de Carla estavam vermelhos.
– Estava com os Juízes — ela deu de ombros tentando soar casual. — Por quê?
– Eu que pergunto. O que estava fazendo com eles?
– Nada demais — Érika respondeu evasiva. — Os três só me chamaram para dar uma volta.
– Uma volta?
Érika assentiu, mas sem olhar Carla nos olhos. Ela provavelmente achava que Érika tinha participado de alguma orgia, o que não seria tão pior quanto ao que ela tinha feito de verdade naquela tarde.
– Bem, e você acabou seu Tour?
Érika cruzou os braços.
– Por que está tão brava?
– Érika, você sumiu o dia todo.
– Você não tem nada a ver com isso, é a minha vida.
A cara que Carla fez depois de ouvir aquela resposta fez com que Érika se arrependesse na mesma hora de ter dito o que disse. Os olhos da Alfa estavam frios.
– Sua vida — Carla bufou, os olhos começando a assumir um tom vermelho sangue. — Bom eu acho que como sua Alfa eu ordeno que você cuide de sua vida lá dentro de casa... Agora!
Mesmo sentindo o ímpeto e a força da outra a compelindo a começar a andar, Érika falou entredentes:
– Essa não é a minha casa.
Carla fingiu não ouvir e começou a andar. E Érika, mesmo não querendo, a seguiu também.
Porque ela era sua Alfa e ela tinha poder sobre suas decisões, mas não sobre o que ela queria.

****

– Só o que falta descobrirmos agora é o que esse cara quer com você.
Rafa se virou para Eduardo enquanto os dois entravam na varanda da casa dos Avós de Roberto. A casa toda ainda continuava apagada e silenciosa, apesar do confronto que havia se seguido entre os caçadores e o Demônio.
– Cara? — Rafa cruzou os braços, sentindo a noite gélida. — Como vocês sabem que...?
– Porque Sabrina disse que quem a invocou é um senhor antigo — Eduardo declarou de jeito sério e preocupado. — Mas que o hospedeiro dele não é.
Uma brisa gelada acertou a nuca de Rafa e ele a coçou para afastar a sensação irritante.
– Então tem alguém se passando por meu amigo — não era uma pergunta.
– Ou inimigo — Eduardo sussurrou e ele o olhou confuso.
– O que quer dizer com isso?
– Nada — o moreno suspirou. — Só tome muito cuidado e fique de olho. Tenta não confiar muito em ninguém.
Rafa pensou nos ínumeros suspeitos e começou a ficar atormentado. Eduardo apenas parecia levemente desinteressado, como se aquilo fosse algo normal. Talvez estivesse assim porque não era ele que todos queriam matar.
– Por que isso está acontecendo logo comigo? — perguntou-se Rafa.
O sorriso de resposta de Eduardo mal chegava aos olhos.
– Você abriu a caixa, Capoci, matou o clã de Atiradores de Carolina, se juntou ao nosso Pack e hoje a noite matou ajudou a matar um Demônio.
Rafa engoliu em seco, entendendo aonde o outro estava querendo chegar.
– Está dizendo que eu não sou normal?
– Você não é — Eduardo retrucou. — Nada nesse mundo é. Você é só mais um pintinho no meio de vários filhotes.
A frase foi tão estranha que mesmo naquela situação, Rafa começou a rir. Mesmo todo rigido e sério, Eduardo riu um pouco também antes de começar a descer a varanda.
– Tome cuidado Capoci — ele deu uma última virada. — Hoje você pode estar rindo, mas amanhã...
Ele não completou e aquilo acabou com quase toda a graça de tudo. Rafa então se virou para a casa escura e fez o máximo que pode para entrar em silêncio dentro da casa. Se Roberto aparecesse ele não sabia o que teria que dizer.
Como se invocado, a luz da cozinha acendeu e o coração de Rafa foi para a boca quando viu uma sombra ali. Parecia que Roberto tinha se levantado para beber água.
Ele mal entrou na cozinha e se ajoelhou, em uma tentativa ridicula de deixar tudo engraçado.
– Eu sinto muito, eu não estava fazendo nada demais — ele começou a falar. — Esse cara... Seja lá quem for, estava fazendo barulho lá fora então eu...
– Capoci.
A voz grossa fez com que os olhos dele se abrissem e ele quase vomitou quando viu quem estava ali parado, com um copo de vidro na mão. Henrique.
Ele entornou o copo d'agua enquanto o olhava de volta, de maneira fria e jogava o copo dentro da pia de qualquer jeito. Quando começou a andar, Rafa achou que ele iria bater nele, mas Henrique só passou por ele para apertar o interruptor e apagar a luz.
– Você não me deve satisfações.
Apesar de ele já estar na escada, se distanciando a cada passo, o coração de Rafa não desacelerou — na verdade ele começou a cavalgar como um louco.
Henrique tinha escutado alguma coisa?
Ou pior... Teria ele visto alguma coisa?

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Carolina se inclinou na cadeira reclinável em seu esconderijo decrépito e horrível. Parecia uma caverna, mas na verdade era só uma casa em construção que tinha simplesmente parado de... construir.
Ela afugentou os olhos do lugar decrépito e se virou para a figura de Capuz Preto do outro lado da tela de seu laptop. O Chefe aguardava ela com paciência.
– Sabrina foi destruída — ela declarou, mas sem nenhuma mudança no tom frio. Tocou uma das mechas escuras de seu cabelo preto e liso, se perguntando se deveria fazer algo de novo nele. — Foi tudo como o planejado. Pelo menos hoje.
– Pelo menos hoje — o Chefe retrucou. — Já estava mais do que na hora de vocês ganharem uma.
– Me dê algum crédito — Carolina se revoltou ao olhá-lo de volta. — Posso ter falhado nas outras tentativas, mas foi exatamente porque eu quis fazer tudo na hora.
– E qual a diferença agora?
– Eu estou planejando tudo lentamente — ela sorriu. — E o senhor sabe que a lentidão é o melhor percussor da morte.
– Não me chame de senhor — ele retrucou com a voz completamente juvenil e se virou para o quarto cheio de CD's e cores em que estava. — Meu hospedeiro não gosta muito de ouvir uma coisa dessas... Ele se acha jovem... E selvagem.
– E eu tenho certeza que você vai continuar a iludi-lo — ela sorriu com admiração maligna. — Qual o próximo passo?
O capuz preto se inclinou na cadeira confortável, parecendo relaxado.
– Nós vamos ao lugar onde Rafael Capoci menos gosta que interferimos — ele sorriu de volta. — Nós vamos para a Vallywood High School.