Choose Your Pack

4 I Dont Wanna Go To School, I Just Wanna Break The Rules


Na segunda-feira de manhã, Rafa se encontrava analisando seu reflexo no espelho grande de vidro da cafeteria ao lado de sua escola. Não estava dando a minima se o movimento estava fraco ou não naquela manhã, só ligava para o seu rosto que antes costumava ser bem pálido, agora estava um pouco mais avermelhado. Os dias na casa dos Avós de Roberto haviam proporcionado aquilo e ele até que queria ver o lado bom daquilo tudo se não fossem por aqueles cravos horríveis sujando sua pele.
A vida no campo não era exatamente saudável para a pele, ele agora percebia. Olhou para o café que tinha acabado de pedir de forma rápida e se surpreendeu ao ver que não havia nada além do fundo da caneca.
— Quer pedir outro? — a garçonete parada em pé ao lado dele perguntou, notando seu visivel constrangimento.
Rafa tocou a própria nuca suada levemente com o estomâgo se revirando de vergonha.
— Para a viagem, por favor — ele entregou a caneca a ela.
A garçonete assentiu e foi até o balcão. Rafa fitou a mesa redonda em que apoiava seu braço e se perguntou quando que iria começar a se acalmar pelo menos um pouco. Ele estava assim desde sexta-feira, o dia em que Roberto o levou para passar o final de semana.
Os acontecimentos daquele dia ainda borbulhavam na superfície da mente dele, longe de serem afundados. O encontro com Henrique, a descoberta chocante de que ele era irmão de Roberto, junto com o ódio logo á primeira vista do caçula, Neemias e para melhorar, seu Pack aparecendo lá com uma Sabrina diabólica e louca para matá-los.
Olhou o teto vermelho da cafeteria e não conseguiu acreditar que tinha saltado metros no ar até acertas as costas dela com a adaga. Como ele não tinha morrido na queda? Havia mesmo alguma queda?
Lembrou de Eduardo o levantando e Fernando o encarando com os olhos enormes de Lobo. Não esperava vê-los ali.
E o seu maior medo veio logo depois que o Pack se foi: Henrique tinha visto tudo.
Não tinha certeza se ele conseguiu escutar todo o confronto, mas poderia ele estar ali o tempo todo? O que ele teria pensado ao ver Rafa e os outros em ação enfrentando Sabrina com seus poderes?
Mas não podia ser possível... Depois, na cozinha, agiu com tanta frieza ao vê-lo ali. Era obvio que sabia que Rafa tinha saido, mas será que desconfiava que estava fazendo outra coisa?
— Seu café.
A garçonete parecia impaciente com o copo descartável na mão. Rafa pegou o café, jogou duas pratas em cima da mesa e murmurou um obrigado enquanto saia da loja.
Enquanto bebericava o café e passava pelo fluxo de alunos, um Porsche vermelho chamou sua atenção e ele admirou o veículo. Quem quer que fosse o dono era um sortudo.
Até porque — ele pensou — esse sortudo não tinha uma dúzia de problemas e ainda passar pela tortura de frequentar a escola.

— Vick! Sua vadia, anda logo, estamos atrasadas!
— Já vou! — Vick gritou de volta, rearrumando a franja rapidamente no espelho da entrada de sua casa. Não tivera muito tempo de se arrumar porque tinha acordado muito tarde e agora Camila Alves buzinava sem parar, fazendo a vizinhança inteira acordar aos poucos.
Não se apressa a arte, Vick recitou mentalmente enquanto olhava seu cabelo escuro. Sentia falta das mechas nas pontas, que eram uma característica dela impactante.
Mas assim como todas as coisas do passado de Vick tinha sido deixadas para trás, a mecha também não voltaria.
Bem, a não ser que ela pintasse de novo é claro.
— Vick! — Camila buzinou outra vez.
— Meu santo Deus — diz já descendo as escadas da frente da casa. — Quem te olha pensa que você está super ansiosa para o primeiro dia de aula!
— E você não esta? — o tom de Camila era cético. — É o último ano, Vick. Último. Vão ter garotos bonitos mais velhos e garotos bonitos mais novos. Imagina só!
Vick retorceu o rosto, já adentrando o carro e se recostando no banco. Os olhos de Camila se concentravam na frente enquanto ela conduzia pela ruazinha cheia de copas de àrvores.
— E também — a amiga prosseguiu. — Quero ficar de olho na Taffara e naquela traíra da Camila Polli.
O olhar de Vick se distanciou um pouco para fora da janela do carro. Já fazia mais de uma semana, mas ela se lembrava das palavras de Taffara na rua com clareza. Lucas não está morto. Claro que não, esta tão vivo quanto o Henrique, não acha?
Ela não dava a mínima para o que Camila e Taffara estavam armando com sua nova aliança bizarra. Lucas ainda não tinha voltado e Vick sentia a garganta fechar ao pensar nisso. Ele tinha que voltar logo para que ela pudesse provar para Taffara que ele não tinha morrido como Henrique.
Porque pior do que não saber nada sobre onde ele podia estar, era nunca mais saber nada sobre ele.
— Só quero ter um primeiro dia de aula normal — desabafou. — Já tem sido insuportável esperar por algo em casa, imagina dentro da escola.
Camila assentiu.
— Vamos perder várias matérias se nos focarmos nisso.
— Bem, então não vamos — Vick sorriu. — Afinal, o que de tão ruim podia acontecer logo no primeiro dia?
— A Ascenção de Taffara Kauane?
Vick revirou os olhos.
— Deixa o nome dessa garota pra lá antes que ela faça você repetir de ano?
— Esta me chamando de lésbica?
— Estou te chamando de irritante. Mude o assunto, por favor.
— Tudo bem — Camila sorriu de lado quando o carro parou na faixa de pedestre. — O que aquela Rita queria naquele dia?
Tudo bem, Vick mereceu aquela. Sabia muito bem que não devia ter contado a Camila sobre a amiga que Lucas tinha feito online antes de... sumir.
— Queria falar sobre ele — falar o nome dele doía as vezes. — Dizer quando o conheceu, e o quanto eram próximos, mesmo apenas se falando por webcam.
Camila Alves fez um "tsc" audivel.
— A garota nunca sequer esteve no mesmo lugar que ele e pensa que pode ficar de luto? É uma piada.
Vick franziu os lábios. Luto.
— Será que aquela vadia sentia algo por ele?
Ela nunca tinha contado para ninguém sobre o beijo que Lucas lhe dera antes de desaparecer. A confissão misturada com os sentimentos que ele sempre guardara surpreenderam Vick no ano passado de um jeito que ela não esperava. Mas o que mais matava naquilo tudo era que justo quando ele havia dito que a amava, ela tinha se afastado dele... E agora ele estava desaparecido. Talvez fosse tudo culpa dela.
— Amiga, não se preocupe — Camila a trouxe de volta. — O que quer que essa tal de Rita significasse para o Lucas, não importa mais, ela foi embora.
Vick assentiu, feliz por Camila tentar consola-lá. Mas ela sabia da verdade e desconfiava que Taffara também soubesse de algo.
Ela havia feito Lucas ir embora.



— Ritinha, me conta de novo o que aquele seu namorado Lobisomem fez pra te salvar?
— Ele não é meu namorado, Marco!
O irmão mais novo deu de ombros e Rita soprou um cacho de seu cabelo que estava quase tampando sua visão. Rita e Marco estavam na entrada da Vallywood High School, enfrentando o congestionamento de carros e passando pelos veteranos que os olhavam.
Era o que podia se esperar do primeiro dia para Rita, mas ela não queria que percebessem o quanto era impaciente com o irmão. Garotas que são impacientes com os irmãos são chatas.
— E uma Bruxa estava me enfeitiçando quando Erick apareceu lá e me salvou.
— Lobo Herói — Marco assoviou. — Eu deveria ligar para a MTv e fazer uma série sobre isso.
— Não seja idiota, não faria sucesso — Rita respondeu. — E se não fosse por Erick eu não estaria aqui.
— O que uma Bruxa estava querendo com você, afinal de contas? — Marco perguntou parecendo frustrado com o fato de Letícia ter ido atrás só dela.
— Eu não sei, mas ela me fez ver coisas que pareciam reais. Ela me fez acreditar que Lucas estava vivo e que queria me matar por vingança.
Os olhos de Marco escureceram.
— Mas ele morreu.
— Eu sei disso — Rita engoliu em seco. Estava triste por isso, mas ficou mais triste ainda ao ver o irmão ficar também. — Algumas pessoas só não sabem disso ainda.
Quando ela disse isso, duas garotas de cabelo escuro passaram rapidamente encarando Rita e a palpitação dela aumentou. Uma das garotas era Vick. A garota que conhecia Lucas parecia que ia surtar quando a olhou de volta, mas apenas balançou a cabeça e saiu cochichando com a amiga ao lado enquanto esta por sua vez a arrastava.
Antes que Rita pensasse algo sobre isso, enquanto avançavam no corredor, Marco estancou no meio do caminho e um garoto loiro e baixo o xingou. Eles haviam esbarrado um no outro, ela observou.
— Ei, por que não olha por onde anda? — o garoto loiro gritou para Marco. Ao seu lado, um geek de cabelo castanho fitou Marco de forma inexpressiva.
— Meus olhos não são meus pés, então não me julgue! — Marco retrucou, visivelmente mais irritado que o garoto que parecia ter a mesma idade e a mesma altura que ele.
— Se você gosta dos seus olhos, então é melhor... — a frase do garoto se perdeu quando olhou para Rita. — Meu Deus, você é bonita.
Afetada, Rita sorriu um pouco.
— Não sou, mas obrigada.
— Sim, você é muito bonita. Qual o seu nome?
— Ei! — Marco pegou o garoto pela frente da camisa. — Ela é minha irmã!
— Oh, cara, não se preocupe — o loiro o empurrou de leve, quase sem nenhuma força. — Qual a sua primeira aula?
Marco franziu a testa, passou a alça da mochila no ombro e começou a fuçar o que tinha dentro de sua mochila.
— Eu não sei, mas na verdade estava querendo me inscrever no futebol antes de qualquer coisa.
— Futebol?! — o loiro entrou em extase e pegou Marco pelo ombro. — Cara, eu sou seu caminho para o futebol!
— Er...
— Eu me chamo Rogério — ele se apresentou com um sorriso travesso. — Mas pode me chamar de Roger. Esse é meu amigo, Rodolfo — ele pegou o geek ao seu lado pelo braço.
— Oi Rodolfo — Marco acenou.
— Eu sou Rodolfo e não curto futebol — acenou o outro com uma voz apática. — Mas se quiser jogar algo que não envolva esforço físico...
— Demais! Me chamo Marco e essa é a minha irmã, Rita!
— Riiiiita — Rogério puxou o R de seu nome do jeito que ela mais odiava. — Rita, La Bela.
— Cara — Marco o socou de leve. — Ela é minha irmã.
— Okay irmão feio da Bela — ele revirou os olhos. — Vamos te fazer entrar no time.
Rita observou o irmão começar a se afastar com os novos colegas, percebendo que a expressão do mais novo era como a de alguém que sonha com o futebol, enquanto Rogério ou Roger balançava as mãos e Rodolfo piscava para o que ele dizia, indiferente.
— Garotos — uma voz rouca disse e Rita se virou para olhar para o armário ao lado do seu.
Uma garota de cabelo preto comprido de aparência quase asiática sorria para Rita de forma irônica.
— Sim, eles são impossíveis — ela respondeu sorrindo de volta. — Nunca vá para uma escola com algum parente dentro dela.
Os olhos da garota se acenderam de compreenssão com algo que ela havia dito.
— Você também, né? — ela riu. — Meu pai é monitor dessa escola.
— Sério? — Rita piscou, sem acreditar. — Ele praticamente me mostrou cada tijolo dessa escola na sexta!
A garota assentiu ajustando a mochila rosa nas costas.
— É, esse é meu pai, com toda certeza — ela então sorriu. — Eu sou Brenda Sherman — Brenda ofereceu a mão e Rita a apertou.
— Rita de Cássia — ela semicerrou os olhos. — Sim, meu nome é feio.
Brenda revirou os olhos.
— Claro, até porque Sherman é um nome muito melhor.
As duas riram com essa e Rita se pegou um pouco de surpresa ao ouvir a própria risada. Uau, diferente de quando ela tinha começado a escola dominical que frequentava, não encontrou nenhum obstáculo para ser legal com uma garota. Aquilo estava muito fácil.
— Sua próxima aula vai ser com quem? — perguntou Brenda.
Rita não quis pegar o mapa que Miguel Àvila havia lhe passado, com medo de parecer burra para a nova amiga. Mas Brenda sorriu como se já entendesse tudo.
— Você é nova aqui.
— Sim, por isso seu pai estava aqui — explicou.
— Não se preocupe, vou te fazer um tour grátis e mais simples. E nada de tijolos.
Rita queria abençoar aquela garota, mas resolveu apenas agradecer.
— Se fizer isso, eu aceito me sentar com você no intervalo. Fechado?
E ela seguiu a nova amiga, como se já tivesse feito aquilo milhares de vezes antes.

Carla embicou seu Toyota Prius "emprestado" na rua do colégio Vallywood High School. No geral, não era nada a favor de roubos à concessionárias, mas naquele caso em especial, ela não podia deixar Érika ser vista chegando a pé na velha escola — velha escola da qual não se recordava de ter frequentado.
Dentro do carro também estava Erick no banco de trás com os cotovelos repousados nas partes de trás dos bancos das garotas. Olhava de uma para a outra, notando a evidente tensão ali.
— Quanto silêncio — pigarreou. — Não é que eu não esteja feliz por vocês estarem caladas, mas quantos capitulos eu perdi dessa fanfic?
Érika respirou fundo, ao mesmo tempo que Carla desligou e estacionou o carro no meio-fio. Olhou a loira de lado e viu que seu cabelo estava bagunçado ao redor do rosto. Doía em Carla ver o quão bonita ela continuava mesmo estando irritada.
— Como você já sabe, Érika sumiu ontem.
A Loba loira virou a cabeça para encara-lá, os olhos semicerrados.
— Do jeito que você fala parece que fiquei três milhas de distância de você — rebateu.
Carla suspirou. É, bem, pelo menos ela estava falando.
— Eu não sabia onde você estava então fiquei preocupada.
— Sou uma Loba com dentes afiados, garras do tamanho do mundo e você fica preocupada?
— Você não é a única licantropa de La Iglesia, Érika.
Erick retorceu o rosto.
— Lobisomem não é um palavrão, sabe Carla, você pode dizer.
— Eu já te dise, estava com alguns amigos que eu fiz — Érika continou na defensiva. — Não fiz nada de errado.
— Não mesmo, né? — Carla sabia que não era totalmente verdade ao escutar o coração da outra bater erráticamente na última frase.
Mas ela não respondeu a isso.
— De qualquer forma, Erick vai estar com você na escola.
Érika sorriu, um sorriso de raiva que mal chegava aos olhos.
— Para me espionar.
— Para garantir que nada vai acontecer. Afinal de contas você já estudou nessa escola.
— Isso foi antes de você me transformar e eu perder minha memórias, lembra?
Carla mereceu essa.
— Suas memórias vão voltar, com o tempo — ela parecia querer convencer mais a si mesma. Que demora estranha para as memórias de Érika voltarem. Será que Carla havia mordido direito?
— Eu não entendo — Érika parecia frustrada. — Por que não me deixa trancada em casa quando sou risco para qualquer um que pisar no meu pé?
— Você precisa continuar sua vida normal, Érika. Não é só porque você é uma Loba que precisa perder tudo — Carla garantiu. — E eu já disse que Erick vai estar lá por você.
— Não me coloquem no meio — Erick bufou. — Lesbians.
Érika parecia melancólica ao olhar pelo retrovisor.
— Eu já perdi tudo.
Erick se sentia em um reality show onde donas de casa lavavam a roupa suja ao vivo, mas Carla estava certa. As memórias de Érika iriam voltar se ela frequentasse os corredores do qual já frequentou. A Alfa podia ser intimidadora e mandona às vezes, mas estava certa.
Ele só não conseguia entender porque Érika estava sendo tão ingrata com alguém que só queria ajudar. E ainda mais quando esse alguém era sua namorada.
— Agora vão — Carla retesou os ombros no banco. — Tenham uma boa aula e tentem agir naturalmente — pelo retrovisor, seus olhos escuros fulminaram para Erick.
— O quê? Eu sei agir naturalmente!
— Imagino — ela sorriu. — Agora vão — ela repetiu e segurou a mão de Érika. — Por favor, fique bem. Sei que me acha uma tirana, mas só estou tentando ser responsável por você.
Os olhos da Beta ficaram menos duro e Carla percebeu que ela tentava não enrubescer.
— Tudo bem — disse e a beijou nos lábios antes de soltar sua mão e sair do carro.
— Cuide dela — sussurrou para Erick e o Lobo piscou e saiu logo em seguida.
Depois de garantir que os dois adentraram dentro da escola, Carla acelerou pela avenida com o carro roubado, mais preocupada com o que aconteceria com sua Beta do que consigo mesma.

Para Rafa, Vallywood High School tinha um certo toque arrojado com sua estrutura grande logo na entrada e seu conjunto de tijolos vermelhos que ficavam tão perfeitos juntos. O semblante da escola não mudava na memória dele, mesmo com os alunos abarrotados no estacionamento e na escadinha da entrada.
A medida que adentrava a instituição que muitos deles o encaravam. Não conhecia nenhum deles e sentiu o impulso de xingá-los por olhar tão descaradamente. Mas então se viu sozinho ali e perdeu toda a coragem.
Andar por aqueles corredores sozinho seria difícil sem a presença do seu melhor amigo tagarela. E o único que ele podia culpar por isso era a si mesmo.
Não, não, não. Carolina e os Atiradores também eram culpados. Ou Taffara. Ou Vick e ele. Ou ele e Vick. Ou talvez todo mundo que ele conhecia.
Vários pensamentos bloqueados desde o ano passado tentaram voltar a superfície da sua mente, mas ele se forçou a continuar andando. Tinha sido horrível perder Lucas, mas seria mais horrível ainda perder a oportunidade de continuar vivendo depois do sacrifício dele.
— Rafa.
Ele levantou os olhos e percebeu que tinha parado na escada e que dois degraus acima Roberto o olhava com uma triste confusão.
— Você esta bem?
Não.
— Estou — ele pigarreou. — Só estava pensando como vai ser puxado o primeiro dia de aula.
A expressão de Roberto era de alguém presunçoso.
— Não quero nem pensar em quantas horas vou ficar naquela piscina cheia de cloro.
Rafa riu um pouco com sua cara de frustração. Roberto fazia parte do time de natação da escola, então passava horas seminu enquanto ele se sentava em cadeiras desconfortáveis. Que vida boa.
— Como foi o fim de semana para você?
Roberto queria na verdade era saber se ele tinha gostado de passar os dias na casa dos avós dele. Não tinha sido tão ruim por um lado, se Rafa conseguisse deletar a presença de Henrique, de Neemias e Sabrina.
Ele queria muito que o fato de Roberto estar presente apagasse toda aquela tensão, mas Rafa não conseguia não ficar irriquieto com o garoto que seu ex tinha matado no quarto logo à frente.
— Foi ótimo — respondeu. — Eu mataria para voltar pra lá de novo.
Roberto sorriu e foi como um segundo sol nascendo naquela manhã. Ele pegou a mão de Rafa e a apertou com seus dedos finos e longos.
— Podemos voltar lá a qualquer hora, se você quiser.
Rafa engoliu em seco. Não, não podemos. Não enquanto o fantasma de Henrique continuasse habitando por lá.
— Seria ótimo. Ei, quais são suas próximas aulas?
Roberto deu de ombros.
— Nem espiei meu horário quando sai de casa, mas o que importa? Hoje só vamos ter aquela chata orientação de sempre.
— É, mas é o último ano, não quero perder nada.
— Você não vai — Roberto o pegou pela cintura e Rafa se retesou um pouco.
— Você esta ciente de que tem uma multidão inteira olhando a gente agora, né?
— Sim, estou ciente — Roberto sorriu e tocou seu rosto. — Só que não ligo.
Os burburinhos e toda a comoção de gente reunida sumiu enquanto Roberto erguia seu queixo e colava seus lábios nos dele. O beijo fez lembrar que os dois dormiram juntos nos últimos três dias — nus e intimos um do outro.
Rafa enrubesceu com a lembrança.
— Você é louco — murmurou enquanto se desvenciliava dele.
— Sou — Roberto o beijou na testa. — Por você.
Aquela frase tinha soado tão gay, mas Rafa gostou mesmo assim. Roberto tinha o grau certo de paz e carinho que ele precisava. Rafa não podia desejar nada mais do que aquilo.
Justo nesse momento, duas silhuetas com ombros largos invadiram seu campo de visão. Fernando e Eduardo entraram no estacionamento, usando mochilas da North Face parecidas. As garotas encaravam Fernando em sua camiseta de linho branco e os garotos mordiam os lábios para o cós visivel da cueca branca de Eduardo. Os dois garotos pareciam tanto irmãos que Rafa quase se esqueceu de que os dois eram orfãos e que tinham habilidades sobrenaturais.
Como ele.
— Eu não sabia que eles voltariam — Roberto murmurou e Rafa foi trazido de volta a presença dele. — Você sabia?
— Nem tinha ideia — respondeu, mas não olhou para ver se o outro havia acreditado.
Quando notaram que Rafa os encarava, Eduardo e Fernando olharam de volta por alguns segundos antes de direcionarem seus belos olhos para dentro da escola. Rafa seguiu a encarada e viu dois adolescentes no corredor central, discutindo. Marco e Rita andavam pelo piso de linóleo, como se já estudassem ali a vida inteira.
— Isso é perfeito — Rafa murmurou, se perguntando com quem teria que se sentar na cantina dali pra frente.
— O que é perfeito? — Roberto questionou e ele engoliu em seco.
— Nós dois, aqui — ele enlaçou os braços na nuca dele. — Isso é perfeito.
Roberto semicerrou os olhos.
— Tem algo acontecendo, não é?
Rafa apenas mordeu o lábio inferior.
— Não vai me contar, não é mesmo?
— Roberto, não é nada disso. Só estou surpreso por eles estarem aqui. Eles ficaram meses fora e isso me fez pensar porque tinham se mudado.
— Pensei a mesma coisa — ele baixou os olhos. — Vocês vão voltar a se falar?
Rafa deu de ombros.
— Não vejo nenhuma razão aparente para isso — fora o fato que somos do mesmo Pack. — Por quê?
— Você ficou bastante esquivo no tempo em que eles estavam aqui — Roberto o lembrou. — Eu só queria ser avisado com antecedência se isso voltar a acontecer de novo.
— Não vai — Rafa prometeu. — Não somos tão próximos assim.
O namorado assentiu, mas sua expressão só queria dizer "Acho bom". Rafa o socou de brincadeira no ombro, mas podia entender o cíumes dele.
A questão era que Roberto jamais poderia saber ou entender porque ele sempre sumia no ano passado. O Pack precisava dele para enfrentar os Atiradores e desvendar os mistérios da caixa que ele tinha aberto.
Sem falar que ele tinha salvado o mundo praticamente de uma forma que ele não poderia explicar para o namorado. Roberto não podia reclamar, mas quem contaria a ele? Rafa? Com certeza não.
— Deviamos entrar logo, o sinal vai tocar.
— Claro — Roberto deixou suas mãos caírem e as entrelaçou com as dele.
Rafa estava prestes a soltar as milhares de consequências que aquele gesto teria até que uma forma de cabelo escuro e olhos felinos verdes entrou no caminho deles.
— Andressa? — ele semicerrou os olhos. — O que você quer?
— Precisamos conversar — ela sorriu e dançou os olhos verdes para Roberto. — Se importa se eu roubá-lo por alguns minutos?
O namorado olhou Rafa de lado e suspirou.
— Não, ele é todo seu — disse e então desvencilhou sua mão da dele. — Lá vamos nós de novo... — murmurou enquanto se afastava.
— Rob... — Rafa tentou ir atrás dele, mas a mão magra de Andressa o impediu de continuar.
— Precisamos conversar, Caubói.
— Não, não precisamos — ele sentiu o remorso tomar conta do rosto e odiou isso.
— É sobre o capuz que salvou Carolina e Sabrina naquela tarde — Andressa firmou o aperto nele. — Achamos que ele te seguiu até aqui.
Rafa sentiu sua espinha inteira se arrepiar com a lembrança do capuz preto se inclinando para salvar Sabrina e Carolina com ele dentro de um vórtex. Alguém se passando por meu amigo, ele se lembrou da conversa com Eduardo naquela noite.
E agora ele estava ali.

— Essa é a sala do treinador! — Rafa comentou enquanto Andressa o empurrava pelo corredor até uma sala com janelinhas de vidro na porta.
— Fala do gostosão que nocauteei? — havia um sorriso na resposta dela e Rafa se perguntou porque. — Eu acho ele meio fraquinho.
Antes que Rafa pudesse fazer perguntas sobre isso, foi empurrado para dentro da salinha com uma mesa, troféus de vários tipos de competição de natação e uma TV Led com uma barra de M&M's aberta pousada em cima dela.
E no sofázinho estavam Marco, Erick e Érika, que pareciam discutir algo com Fernando, Eduardo e Rita, que estavam em pé, parecendo sérios. Todos o encararam.
Eduardo revirou os olhos. Fernando apenas ergueu as sobrancelhas loiras. Rita sorriu e Marco franziu a testa. Érika apenas olhava os outros de um jeito confuso.
— Por que estamos todos encarando ele mesmo?
— Rafa — Rita andou até ele e o abaraçou. Rafa relaxou nos braços lisos da garota bonita, sentindo o cheiro bom que vinha dela.
— É bom te ver também, Rita — ele a apertou e sorriu. — Quer dizer, apesar das circunstâncias.
— Isso é tudo culpa sua, Capoci! — disse o garoto cuja existência Rafa mal se recordava.
— Marco — ele acenou com um tom azedo. — Não escuto sua voz irritante desde um certo deserto em que estávamos...
— Para de bancar a Falsiane!
— Falsiane é sua...
— Rafa — Rita avisou com um olhar.
— Você não podia tê-lo deixado no deserto? Seu irmão é um saco! Rita deu de ombros, encabulada.
— Ele já sabia sobre os Atiradores, Rafa, ele esteva lá. Eu não vi muito sentido em continuar escondendo qualquer coisa dele.
Marco bufou.
— Fala como se eu não fosse descobrir sozinho que tinha algo rolando. Vocês se acham tão sútis agindo como reis do pedaço!
Eduardo bateu palmas, chamando a atenção de todos.
— Não é que eu queira estragar o reencontro de vocês, mas temos algo mais urgente aqui!
Andressa riu fracamente.
— Meu namorado, O Gentil.
— Vocês conseguiram rastrear o Capuz? — Rafa perguntou a Fernando.
— Capuz? — ele repetiu. — É assim que você se refere aquele espirito que ajudou Carolina e Sabrina a fugir?
— Algum problema?
— Claro que sim. O capuz é alguém que você conhece, alguém próximo a você.
Erick se levantou do sofá.
— Volta a fita um pouco. Quem é esse capuz?
— É o que estamos tentando descobrir — Andressa se inclinou. — Esse capuz está ajudando Carolina.
— A Chefa dos Atiradores — Érika disse. — Eu pensei que ela tinha fugido, uma vez que o clã dela foi destruído pela gente.
— O clã foi destruído, mas dopamos com ela há algumas semanas atrás — Eduardo explicou.
Érika fungou.
— Engraçado, ninguém veio bater na minha porta me atualizar das novidades.
— Ela também parece ter alguma coisa a ver com Sabrina, um demônio que destruímos nessa final de semana e que estava seguindo Rafael.
— Um demônio? — Rita parecia prestes a ter um infarto.
— Um demônio?! — Marco parecia prestes a esquentar uma pipoca de microondas no microondas. — Isso é demais!
— Por que um demônio estava atrás dele? E eles existem? — Rita questionou, preocupada.
— Existem, mas não sabemos ainda — Andressa respondeu. — Mas ela estava trabalhando junto com Carolina e esse tal de Capuz preto para pegar um anjo.
Rita levou a mão a cabeça, parecendo mais apavorada a cada segundo. Por um segundo Rafa se emocionou com a preocupação da amiga de seu falecido amigo, com um jeito de Mãe do Pack. Nunca Fernando, Andressa e — nunca mesmo — Eduardo poderiam agir daquele jeito na frente dele.
— E quem é pode ser esse Capuz? — questionou Marco.
Rafa se viu trocar um olhar com Eduardo e depois com Fernando e Andressa.
— Também não sabemos — Fernando respirou fundo. — Mas desconfiamos que seja alguém próximo ao Rafa.
Érika emitiu um silvo, mas Erick lhe deu um leve tapa no ombro e o som se perdeu no ar.
— Por que acham isso? — perguntou calmamente, os olhos vermelhos de Alfa ainda na loira.
— Antes de morrer, Sabrina disse "O espirito que habita é velho, mas seu hospedeiro não". Ou seja, temos um adolescente sendo possuído por essa entidade antiga que quer Rafa morto.
— Isso é muito bizarro — Marco revirou os olhos castanhos. — Mas eu tenho que confessar que estou adorando.
— Pare de tirar sarro — Rita o reprimiu. — E como vamos descobrir quem é?
— Só temos que manter os olhos abertos — Eduardo cruzou os braços. — Pode ser qualquer um. Qualquer um até mesmo dentro dessa sala.
Um minuto constrangedor se passou com todos se encarando foi quase o suficiente para fazer Rafa rir. Mas então uma batida soou, deixando todos em alerta.
O som se repetiu e todos começaram a procurar com os olhos. Rafa começou a pensar em Roberto saindo furioso pelo corredor, até que descobriu a origem do barulho todo quando as duas portas de metal do àrmario do Treinador se abriram — E de lá estava o próprio, Felipe Felps, amordaçado na boca, nos pulsos e nas pernas musculosas.
Ele arregalou para todos e começou a tentar falar algo como "o que vocês fazem aqui, fedelhos?" por sobre a venda.
— Quem é esse? — Rita perguntou, parecendo assustada ao olhar para os três caçadores.
Andressa sorriu e se movimentou como um gueparado para acertar o Treinador na cabeça. Felipe Felps foi nocauteeado mais uma vez e perdeu a consciência no chão de sua própria sala.
— Esse supostamente é o Treinador de vocês.
Érika fungou o nariz.
— Esta morto?
Andressa bufou.
— Inconsciente. Qual é a de vocês Lobos com toda essa sede de sangue?
— Olha o preconceito! — Erick apontou.
— Pessoal, foco — Eduardo não gritou, mas seu tom duro fez todos o olharem. — Podemos ter matado Sabrina há alguns dias, mas Carolina ainda é uma Atiradora de Elite volátil, sádica e perigosa.
— E tem ajuda — Fernando acrescentou, sombriamente. Rafa o olhou e notou que ele o estava encarando, só não sabia há quanto tempo.
Fernando desviou o olhar na mesma hora.
— Nós ficaremos de olho — Erick prometeu. — Mas não sei porque deveríamos nos preocupar agora. Eles não atacariam aqui na escola!
— Você não ouviu nada do que o Edu disse? — Andressa crispou as unhas, talvez com raiva demais. — O capuz pode ser qualquer um próximo ao Rafa. E ele também pode estar em qualquer lugar. Inclusive nessa escola.
As últimas palavras de Andressa foram do chão até o teto, ecoando por toda a sala do Treinador. Rafa aceitou o eco como um sinal de aviso prévio e sua mente começou a cogitar uma possibilidade.
Mas não... Não podia ser, podia?
— Então ficaremos de olho — Fernando retesou os ombros. — A qualquer sinal de mudança de comportamento, contatem-nos e vamos destruir a ameaça!
Todos assentiram, revezando suas encaradas a Rafa de forma nada sútil.
Os sete pareciam dispostos a lutar. Sete vidas. E todas elas iriam tentar proteger a dele. Parecia algo grande, mas também parecia algo mais. Parecia algo muito errado.
E Rafa só podia rezar que não acontecesse nada de ruim com nenhum deles.



No segundo período, Rafa foi ansioso para o laboratório de Química. Não estava muito ansioso para fazer experimentos com coquetéis molotovs ou preencher tabelas. Aquela era a aula que ele e Roberto tinham juntos.
Esperou duas garotas com tocas de Panda entrarem na sala e depois procurou pelo namorado. Roberto se sentava no último corredor de fileiras, perto das janelas cheias de mosaico. O sol que invadia o vidro delas deixava seu cabelo radiante e seus olhos verdes da cor de esmeralda.
Quando notou Rafa se aproximando, seu rosto foi mais para a sombra, fazendo toda a fotossíntese em sua pele sumir.
— Roberto — ele parou em pé ao lado da cadeira dele. — Me desculpa...
— Melhor se sentar — o outro respondeu, não levantando o olhar. — A professora Karine não é muito paciente com ninguém de manhã.
Quis protestar pela frieza do outro, mas achou melhor seguir seu conselho. Tirou a mochila das costas e a pousou na mesa de granito.
— Sei que você tá muito puto comigo por aquilo de antes, mas quero que saiba que eu não planejei aquilo. Andressa saiu do nada.
Roberto deu de ombros.
— Quem é que planeja conversas que nem sequer aconteceram? Não tem sentido.
— Deve estar certo — Rafa assentiu. — Mas eu juro, amor, ela só queria conversar.
— Tudo bem — ele nem piscou. — Sobre o que era?
Por um segundo, Rafa só mordeu o lábio. Depois resolveu mentir, lógico.
— A volta deles. Queriam me avisar que estavam de volta à Vallywood.
— E por acaso você é cego?
Rafa quase se assustou com o tom da pergunta. Roberto tinha uma expressão cética no rosto.
— Nós vimos eles na entrada, ela não precisava avisar nada.
— Sim, mas ela quis — ele defendeu.
Roberto o olhou e sacudiu a cabeça depois da encarada.
— Era só isso?
— Era.
Roberto riu. Uma risada seca e falsa.
— E você quer que eu acredite que sua velha amiga que não aparece aqui há quatro meses só te chama pra conversar pra dizer que voltou? De jeito nenhum. Vocês provavelmente tinham muito sobre o que conversar.
Não quis dizer em voz alta, mas o namorada estava começando a agir como alguém que Rafa sempre queria chutar quando passava por perto. Rael.
— Tínhamos assunto, sim — ele confessou.
— E aqueles dois homicidas também falaram com você?
Rafa franziu a testa.
— Quem? Homicidas?
— O loiro e o moreno... — Roberto fez um gesto vago com as mãos.
— Eduardo e Fernando — ele corrigiu. — Sim, conversamos também.
Os olhos de Roberto se apertaram em duas fendas. Parecia que ia abrir a boca e dizer algo, mas apenas olhou para frente e se retesou na cadeira. Rafa seguiu seu olhar e viu que a professora Karine, com um vestido grande e florido e seus brincos de argola, já estava na sala.
Apesar disso, Roberto o olhou de lado.
— Pensei que tinha dito que não iamos mais precisar passar por isso de novo.
— E não vamos — Rafa respondeu, um pouco alto e a professora e alguns alunos o olharam. — Foi só uma conversa — murmurou mais baixo dessa vez.
— Sei, sei — Roberto balançou a cabeça. — Mal entramos por essas portas e você já está quebrando suas promessas.
Aquela resposta doeu e fez com que Rafa soltasse o pensamento de antes que estava segurando.
— Está com cíumes? — perguntou.
Roberto arregalou os olhos bonitos e abriu a boca, parecendo um peixe baiacu.
— Não tem nada a ver com cíumes, não é essa a questão!
— E qual é a questão? Você começar a agir como o meu ex?
A expressão de resposta de Roberto era silenciosa e chocada. Rafa começou a se dar conta do que disse e sentiu o aperto da culpa começando.
Fudeu.
— Senhores, entendo que a relação de vocês é delicada — professora Karine chamou a atenção deles com um tom de voz muito mais alto. — Mas tenho certeza que seus colegas de classe estão aqui para ouvir a matéria e não o quanto vocês não se amam.
Os segundos seguintes foram preenchidos por risadas contidas e não contidas dos outros, mas para Rafa eles ficaram todos de fundo. Em uma situação normal, ele teria mandado Karine se fuder e estaria no Youtube em menos de cinco minutos.
Mas quando olhou para Roberto ficou sem forças para fazer algo daquele tipo.
— Eu não quis dizer que...
— Vamos ouvir a matéria — Roberto retrucou. — Ninguém quer ouvir mais sobre o quanto sou ruim como o seu ex.
E quando Rafa quis responder novamente, Roberto ergueu a mão grande com dedos finos.
— Esqueça. Só esqueça, Rafa.
Rafa fez o que ele pediu, mas a verdade era que sua mente não parava de gritar: O que tinha acontecido com toda aquela felicidade e intimidade do final de semana deles?

— Que tom de voz foi aquele? Até eu quase acreditei.
Eduardo sorriu maliciosamente para Andressa e continuou andando ao seu lado, olhando à frente. Fernando e Erick andavam perto deles e mesmo conversando entre si, ambos tinham uma audição paranormal.
Andressa estava se referindo ao jeito como Eduardo havia falado com todos que estavam na sala do Treinador, ouvindo o que ele tinha a dizer. Alguns deles provavelmente deviam pensar que ele era um tirano ou um chato. Mas Andressa adorava o jeito como o namorado soava rigído.
Era meio que excitante para uma parte do cérebro dela.
— Não conseguimos rastrear o capuz — Fernando comentava com Erick. — Mas esta manhã, quando viemos para cá, consegui sentir o cheiro da Carolina.
— Eu não senti nada — Erick coçou a cabeleira escura. — Talvez seja difícil tentar sentir o cheiro de alguma coisa aqui na cidade, cheia de pessoas.
Andressa gargalhou.
— Você é mesmo um alfa?
Erick lançou a ela um olhar mortal.
— O que eu quis dizer é que em La Iglesia era mais fácil saber onde cada pessoa que eu conhecia estava.
Ela deu de ombros, mesmo assim.
— Continuo com minha pergunta. Você é mesmo um alfa?
Os olhos do lobo pegaram fogo e Fernando se remexeu, desconfortável.
— Acho que isso não está funcionando. Talvez devessemos nos separar e ficar em salas diferentes.
— Por quê?
— Porque você é difícil de conviver, às vezes, Andressa.
Estava prestes a protestar, mas uma brisa fria e incomum no corredor a silenciou.
— Quer saber? Boa ideia — Eduardo respondeu. — Você e Erick deveriam vigia o outro lado do prédio enquanto ficamos com este aqui. Assim cobrimos a escola toda.
— Fechado — Fernando assentiu. — Qualquer coisa nova vocês ligam para mim.
— Ok.
— Estou falando sério, Edu! — o loiro o puxou. — Essas coisas chamadas celulares foram feitas para ligar. USE-AS.
E começou a andar pela direção contrária de onde estavam vindo.
Só depois de ter certeza que estavam longe o bastante para nenhum dos dois ouvirem, Andressa cruzou os braços e encarou o namorado.
— Eu não sou difícil de conviver!
Eduardo sorriu para ela e a puxou rapidamente para si.
— Oh, eu sei disso — e a beijou com força.
Andressa o empurrou levemente pelos ombros.
— Você queria ficar sozinho comigo — não era uma pergunta.
O moreno abriu uma fileira de dentes brancos radiantes e perfeitos.
— Já disse o quanto adoro sua capacidade de dedução? — e começou a empurra-lá para sair do corredor.
Os dois continuaram se beijando, mesmo depois de entrarem dentro de uma sala com uma TV Led gigante e carteiras com almofadas em cada assento. As paredes eram foscas e as cores predominantes na sala eram o vermelho quente e o preto sexy. O clima perfeito.
— É uma sala de vídeo — Edu a segurou pela cintura enquanto sussurrava. — Esperei até o dia certo em que ela ficava vazia.
— Vazia para quê? — Andressa tocou em seu peitoral forte sob a camiseta preta.
— Acho que o motivo — ele disse entre beijos no pescoço. — Você pode imaginar sozinha.
Ele trouxe seu corpo para mais perto e Andressa se jogou em seus lábios, sentindo-se emocionada por dentro e quente por fora. Fazia uma semana que ela e Eduardo não faziam aquilo, enquantos todos assistiam ao teste de Rafa. Um pouco depois daquele dia, Eduardo tinha ficado distante e parecendo até mesmo bravo com ela.
Mas agora os dois estavam ali, sozinhos naquela sala, cujo nome ela tinha esquecido, e a pele acima do cinto dele estava queimando em seus dedos. Eduardo a queria.
E ela também o queria.
De repente então, Eduardo a empurrou. Não foi exatamente um empurrão, mas foi o suficiente para seus lábios se separarem e ela poder encarar seu rosto.
Estava muito pálido.
— O que foi? Qual o problema, Edu?
— Nada — ele balançou a cabeça, os olhos castanhos dançando por toda a sala. — Não foi nada.
— Claro que foi alguma coisa — Andressa tocou seu rosto. Estava quente, quase morno. — Você parece que viu algo. Você viu algo?
Eduardo apenas fez um gesto vago com uma das mãos, como se estivesse matando moscas aleatórias.
— Eu te garanto, estou bem.
Andressa não tinha acreditado e estava prestes a pedir por mais respostas, mas Eduardo largou rapidamente sua jaqueta no chão e depois arrancou a camisa também.
— Oh — ela ofegou, olhando todo o torso belo.
— Viu? Está tudo bem — ele começou a avançar na direção dela. — Vai ficar tudo bem.
Ela deitou em cima de uma das mesas e Eduardo subiu nela, entrelaçando suas pernas longas na cintura dele.
Tudo o que Andressa ouviu nos minutos seguintes foram o barulho do beijo deles, do cinto se abrindo e do zíper da calça também.
Não sabia bem o que Eduardo continuou murmurando em todo o processo, mas acreditou no que ele dissera.
Meu Deus, como acreditou.

— E como você se sente sobre isso? — Ester Klaroline perguntou e deixou sua caneta com caveira na outra extremidade da ponta pousar em cima do bloco de anotações em seu colo, enquanto ela esperava pela resposta de seu paciente.
Rael sempre admirou a coragem da escola de fornecer um pequeno espaço para uma orientadora como Ester Klaroline. A profissional tinha 24 belos anos e aparência universitária com seu cabelo escuro comprido, seu terninho branco feminino e saia bege que chegava até suas coxas — não que Rael tivesse checado se chegava mesmo as coxas, claro.
A orientação na escola tinha sido indicada pelos pais de Rael desde o final do ano retrasado, um pouco depois do Natal e do incidente com Henrique.
Na verdade tinha sido logo depois de ele ter matado Henrique. Era impossível não perceber o quanto ele tinha ficado depressivo depois de tudo. Não só tinha tirado a vida de alguem como também acabado com seu próprio relacionamento com Rafa ao mesmo tempo.
Tanta carga emocional como aquela era o bastante para ele ser colocado de frente com Ester. Mas não se deixe enganar, ele nunca tinha contado a ela todas as coisas que fez — muito menos aquela com Henrique. Podia ser um chorão às vezes, mas não era burro. Se contasse a alguém o que havia feito ele destruiria sua vida para sempre.
— Bem, na maioria das vezes — ele respondeu a pergunta que Ester tinha feito sobre como ele se sentia com toda a raiva que Rafa e Taffara tinham dele. — Sei que os dois me detestam, mas isso faz tanto tempo que eu já aceitei.
Ester mordeu a caveira em sua caneta, um gesto que antecipava uma pergunta:
— Eu sei que já te perguntei muitas vezes, Rael, e também sei que você diz não saber... Mas existe algum motivo plausível para os dois guardarem tanto rancor?
— Não — Fora o fato que matei o namorado dela e meu ex-namorado mentiu para salvar minha pele? Não.
— Então eles te odeiam sem nenhuma explicação plausível?
— Rafa é meu ex, então me odeia automaticamente. Quanto a Taffara... bem, ela nunca foi com a minha cara.
A expressão de Ester mais parecia um detector. Mentira, mentira e mentira.
— Mas sua mãe me disse que Taffara vinha frequentando sua casa no último ano — Ester apontou. — Como alguém que não vai com a sua cara...
— Olha, você é minha psicóloga ou da minha mãe? Porque se você estiver falando com ela nas minhas costas sobre mim, você é Anti-Ética.
— Não sou psicóloga, sou orientadora. E falar com sua mãe sobre seu relatório é Anti-Ético sim, mas o acompanhamento dela não. Sua mãe é livre para me dizer sobre seu comportamente fora dessa sala — ela sorriu. — Sendo um pouco honesta, me ajuda bastante também.
Rael se empertigou na carteira. Droga de profissional boa de conversa, ela tinha qualquer coisa na ponta da língua para encurralar ele na parede.
— Taffara é uma garota intimidadora e chantageadora, e é só isso que posso contar sobre sua breve visita.
— Intimidadora e chantageadora — Ester anotou. — Se não existe motivos para ela e Rafael te odiarem o que ela usaria para te chantagear?
— Me destruir socialmente? — Rael soou a camisa. — Pergunte a qualquer um dessa escola. Ela é má!
— Entendo — Ester disse no mesmo tom que podia dizer, "não existe nenhuma norma que impede as garotas de se comportarem como vadias".
— Por que não aliviamos um pouco esse tema? — Rael propôs, inspirado. — Me pergunte sobre minha semana.
Ester sorriu com bom-humor.
— Como foi sua semana, Rael?
— Eu conheci um garoto — ele respondeu rápido.
— É mesmo? — Ester ergueu uma sobrancelha escura. — Como ele se chama?
— Gabriel.
— E como Gabriel é?
— Legal — legal era pouco. — Nós nos beijamos.
Ester não pareceu surpresa.
— Como se conheceram?
— No shopping, eu estava andando e... na verdade, acho que foi no Terminal, mas não importa. Ele me pegou de supresa, fiquei todo afim dele achando que ele era hétero.
— E não era? — questionou a orientadora.
— Não! Que tipo de hétero avança pra te beijar debaixo de uma àrvore romântica?
Ester deu de ombros.
— Tento não julgar muito. Gosta dele?
— Sim — ele respondeu de imediato. — E acho que ele gosta de mim também. Estou com um bom pressentimento sobre isso, Luna!
— Não me chame desse jeito aqui — ela rabiscou a saia bege com as unhas. — Acha que dessa vez vai dar certo? Ou vê algum padrão familiar do seu namoro com Rafael?
Rael revirou os olhos.
— Vou fingir que não disse isso. Eu conheci o cara praticamente ontem, Ester!
— Cautela demais nunca é ruim.
— Quem disse isso?
— Algum físico? — ela semicerrou os olhos. — Não importa! Não desejo nada de ruim para o seu novo Crush, mas fique de olhos abertos. Você ainda não sabe muito sobre ele, não é mesmo?
— Não, não muito — ele respondeu com relutância. — Mas não acho que ele seja algum canalha.
— Você tem o beneficio da duvida. Agora o que vai fazer com isso depende de você.
Rael achava que só saber o gosto do beijo dele era o suficiente, mas tinha que admitir, não sabia muito sobre Gabriel, exceto que tinha acabado de se mudar para Vallywood. Ester era meio que lunática, mas podia estar certa sobre ele ter cautela.
Porém não machucaria ele continuar aproveitando enquanto ainda não soubesse de nada, certo?



A bola de vôlei vinha na direção de Marco, rapidamente. A expectativa era que ele batesse nela de volta para o outro lado da rede. Mas o que ele fez foi apenas desviar da bola enquanto seus colegas de time o xingavam.
Não ligando para o que pensavam dele, Marco mostrou dedo do meio e saiu andando até o banco onde Rogério parecia extasiado, enquanto Rodolfo olhava através, sem nada ver de verdade.
— Você pode ser expulso por isso — observou Rodolfo.
— Eu não dou a minima — ele bufou e encarou Rogério com raiva. — Achei que ia me ajudar a entrar no time de futebol, e não dessas girafas pulantes!
— Nós precisavamos testar suas habilidades esportivas antes, cara — explicou Roger. — Agora as garotas do vôlei vão nos detestar para sempre!
— Não gosto de vôlei. O esporte foi feito para garotos gays e garotas lésbicas gigantes.
Rodolfo balançou a cabeça.
— Na verdade...
— Foi um comentário sarcastico! — Marco se apressou em corrigir. — Esportes são para todos, mas o vôlei? — ele apontou para a camiseta que vestia. — O vôlei não é pra mim.
Rogério assentiu.
— Vou conversar direito com os titulares, ver se temos uma vaga pra você.
Marco franziu a testa.
— Você não é titular?
Roger deu de ombros.
— Sou encarregado de trazer àgua e as vezes fico no banco.
Não deveria ficar surpreso, mas ficou. É, talvez seu primeiro dia naquela escola não fosse tão bom assim.
Se juntou aos dois colegas no banco e pegou a garrafinha d'água de Rogério com um olhar irônico. Uma vez garoto d'agua, sempre garoto d'agua.
Na tentativa de se concentrar em um jogo de um esporte que não gostava, viu uma figura de braços cruzados nos primeiros degraus da arquibancada.
Gabriella.
Achou estranho ver a detetive ali parecendo tão solta com uma camiseta branca florida e um par de jeans índigo comum. Ela parecia tão não dentro da lei.
Não soube bem por que, mas ficou encarando Gabriella mais do que o devido, aproveitando que ela não o tinha visto ainda. O cabelo preto não tinha nenhum nuance de azul onde o sol batia e sua pele tinha um bronzeado saudável.
Ela não estava nada parecida com a mulher que ele tinha sido obrigado a seguir no shopping.
Gabriella finalmente notou que estava sendo observada e virou seus olhinhos pretos para onde Marco estava. Não parecia ter alguma expressão no rosto, mas também parecia estar um pouco confusa por estar sendo encarada.
Há quanto tempo ela estava ali o assistindo?
Semicerrou os olhos para a Detetive e ela franziu o cenho em resposta ao gesto. Gabriella podia ser só humana, mas sabia das coisas.
Graças a boca enorme de Marco, agora ela estava mais do que interessada no que realmente tinha acontecido com Lucas. Para ele era melhor que ela parasse de procurar algo antes que fosse tarde demais. Algumas coisas das quais sabia ele mesmo queria não saber.
Quando Marco deu por si, estava esgueirando a quadra até a arquibancada do outro lado. Já se encontrava nas escadas quando Gabriella revirou os olhos para ele.
— O que veio fazer aqui, Marco Antônio?
— Já falei pra não me chamar assim! — retrucou ele. — E essa é a minha nova escola, Detetive. O que você faz aqui?
— Estou investigando um desaparecimento — ela retrucou e então deu um sorriso malicioso. — Ou devo dizer assassinato depois da sua confissão?
Marco engoliu em seco. Devia saber que ela diria algo assim.
— Olha, eu estava tonto quando disse isso.
— Sei, sei — ela continuava sorrindo. — Tonto de tanto me seguir naquele shopping?
Marco sentiu a raiva incomum daquele mesmo dia vir a superfície, mas se controlou. Pense na Rita.
— Você não entende — tentou explicar. — Têm muita coisa que você não sabe ainda.
Os olhos dela brilharam.
— Que coisas? — questionou.
— Não posso falar — ele sussurrou. — Você tem que confiar em mim quando digo que é melhor não saber.
Gabriela balançou a cabeça e o cabelo escuro automaticamente se mexeu com o gesto.
— Só pode estar me zuando, Marco Antônio.
— É sério. Gabriella você não deve contar o que eu te disse. Coisas perigosas podem acontecer.
Por um segundo pareceu que Gabriella estava reconsiderando acreditar nele. Porém então ela se levantou do banco e seu rosto ficou tão próximo que ele podia sentir o cheiro do creme que ela estava usando.
— Por que vieram justo para essa escola? — ela questionou novamente fazendo um gesto com a mão que abrangia toda a escola.
Marco trincou os dentes, mas não se afastou.
— Alguém já te disse o quanto você é irritante?
Gabriella deu de ombros.
— Sou policial. Faz parte.
— É? — ele questionou.
— É — ela empinou o queixo.
Havia algo na atmosfera de repente. Além da tensão ele podia sentir algo emanar no ar além das acusações. Parecia que ela tinha sentido o mesmo porque se afastou com um olhar estranho que Marco não soube interpretar.
— Você não tem que jogar um jogo? — ela perguntou com uma voz rouca.
— Pra você me espionar mais um pouco nele? — retrucou. — Acho que não, obrigado.
E com mais uma encarada feia cada um foi para o seu lado da quadra.



Rafa conseguiu chegar até o próprio armário sem fazer os dedos tremerem. Era o final do terceiro período e os alunos saíam afobados de suas aulas para irem até o refeitório.
Só em todo o caminho até ali, Rafa tinha feito o apagador do professor subir no teto, uma lixeira no corredor cair e derrubar dois com ela, e até mesmo quebrar a máquina de refrigerantes no final do corredor sem na verdade toca-lá.
Podia culpar seus dons, mas não seria totalmente sincero consigo mesmo. A verdade era que ele estava puto consigo mesmo por deixar Roberto puto com ele. Por que seu relacionamento que tinha sido perfeito até ali tinha que cair logo agora que estavam indo bem?
A resposta ele mesmo já tinha.
Enquanto jogava os livros preguiçosamente dentro do armário, foi absorvido pela cacofonia do corpo estudantil. Balançou a cabeça decepcionado com o que escutava da boca de duas garotas que juravam pegar o novo aluno que tinha um Porsche vermelho.
— Piranhas — murmurou.
— Oh, olha só, lá vem eles! — comentou uma delas.
Rafa revirou os olhos querendo morrer. Sério isso?
— Parecem irmão! — cochichou a outra. — E o de jaqueta de aviador definitivamente é o mais velho.
— Mais velho e mais gato — ronronou uma terceira piranha que ele não percebera que tinha se juntado ao papo. — Eu quero muito dar pra ele!
Depois de fazer uma careta para as três piranhas que nem perceberam que ele estava ali, Rafa seguiu o olhar delas e viu que dois garotos com roupas escuras pareciam ter acabado de sair da sala da Orientadora.
Quando olhou o rosto deles sentiu todo o chão sumir e teve que se segurar na porta do armário para conter a maré de choque que o dominava.
Lado a lado um do outro, andando no corredor central, Henrique e Neemias cruzavam a horda de alunos em suas fileiras de armários. Andavam normalmente, mas para Rafa vinham em uma câmera lenta e assustadora.
Que porra aqueles dois faziam ali?
Rafa se jogou na frente deles com o estômago revirado, torcendo para que no minuto que os enfrentasse eles sumiriam no ar imediatamente.
Mas nada disso aconteceu.
— O que você veio fazer aqui? — ele se dirigiu a Henrique.
Henrique parou de andar e franziu as sobrancelhas escuras. Neemias ao seu lado cruzou os braços e o encarou, mas Rafa mal piscou com sua presença. Ele não devia estar sumido para a escola toda.
— Isso é uma escola e eu vim estudar, Capoci — respondeu o moreno com uma voz que soava até calma. — Não que eu te deva muitas respostas, sabe?
— Não deve mesmo — ele engoliu em seco. — Mas a escola toda acha que você esteve sumido!
Os olhos já escuros de Henrique ficaram como breu.
— Tenho certeza que você garantiu isso — disse. — Bom, agora eles vão ter o que pensar. E que chupem essa.
Rafa não acreditou na justificativa. Ele não ligava para os estudos, queria era infernizar a vida dele e se vingar — como havia prometido antes.
— Eu sei porque está aqui — disse. — De verdade. E isso é muita idiotice sua.
Henrique piscou.
— Sabe, sabe mesmo? Será que sabe Rafa? — provocou e toda a espinha dele se arrepiou. Havia alguma coisa a mais naquele comentário. Não era só sarcasmo.
— Taffara sabe que você morreu — declarou no sussurro e o moreno ficou com o rosto pertubado por um tempo.
Mas então deu de ombros.
— Não importa, eu não estou. Ela não pode reclamar.
Rafa balançou a cabeça, mas Neemias se queixou e tremeu abraçando os próprios braços.
— Quer minha jaqueta? — Henrique ofereceu, segurando o tecido do couro. Apesar de filho da puta ele tinha estilo.
— Depois — Neemias afagou o braço do irmão. — Vocês dois já acabaram? Estou morrendo de fome!
Rafa ofegou.
— O que estão pensando? Não podem entrar no Refeitório!
— Não? — Neemias tocou o cabelo castanho arrepiado. — Estranho, porque a Orientadora disse que todos temos direito à ela.
— Você me entendeu — Rafa bufou. Aquele garota era um saco.
— Não entendi, na verdade — o mais novo se aproximou. — Sua voz é tão insuportável Rafael que eu começo a me transportar para outra dimensão automaticamente só pra não ter que escuta-lá.
Rafa trincou os dentes. Aquele ali era pior que Marco e Rogério juntos na categoria de irmão caçula. Tinha o cabelo castanho de Marco, mas era arrepiado de um jeito sexy. Os olhos negros eram tão frios que quando encaravam lembravam uma píton prestes a atacar.
— Precisam ir embora daqui — Rafa se voltou para Henrique. — Você precisa sair de Vallywood.
Henrique fez que não com a cabeça imitando uma criança teimosa. Mas seu olhar continuava raivoso.
— Se ponha no seu lugar, Capoci. Você não esta em posição de exigir nada de mim ou do meu irmão. Depois de tudo que você causou pra mim devia saber disso.
— Eu não te empurrei — ele respondeu nervoso, dessa vez sem medo dos outros alunos.
— Não vamos voltar nessa discussão de novo e eu vou ficar pelo tempo que eu quiser até quando eu quiser — ele então olhou por sobre o ombro de Rafa. — E é melhor sair do meu caminho, ou eu juro que você vai direto pro topo da minha lista.
Henrique e Neemias passaram por ele. Havia algo de diferente no modo como o moreno dizia as coisas. Era quase como se quisesse soar um sociopata. E isso só ajudou o pensamento em que ele havia tentado evitar o dia todo.
Seria Henrique o Capuz?



— O que você veio fazer aqui?
Rael conhecia aquela voz como conhecia a vida. Então quando a notou estridente automaticamente olhou na direção do corredor central.
Rafa Capoci parecia discutir com dois garotos, revoltado por estarem ali. Logicamente Rael não era o único que olhava e pode ver a multidão de alunos murmurando enquanto se inclinavam para ver quem era. Rafa parecia estar tampando a visão do mais alto deles, mas o de cabelo castanho ao lado dele era visível com sua encarada feia para Rafa — fosse quem fosse aquele garoto, odiava seu ex muito mais do que ele.
Alunos novos. E alunos novos que Rafa já conhecia, exatamente como no ano passado. Se ainda fosse namorado dele questionaria se ele tinha algum fetiche por calouros.
Depois do que pareceu uma eternidade de discussão entre Rafa e os novos alunos, o mais alto decidiu deixar Rafa falando e mostrar seu rosto a todo o corpo estudantil.
Quando Rael olhou para o rosto do garoto, começou a se questionar sobre a existência de fantasmas naquele plano. Pensou em sua irmã mais velha, Karina, e lembrou das dúzias de Cd's e livros espirítas que ela havia colecionado em uma de suas fases de mulher.
Mas Henrique andando com os ombros erguidos e os olhos negros maliciosos não pareciam estar em outro plano além daquele e, muito menos, em alguma fase.
Henrique cruzava o corredor enquanto todos o olhavam com surpresa, choque ou diversão. O garoto que tinha ido embora desde o Natal retrasado estava de volta aos corredores da Vallywood High School.
Rael não conseguia acreditar que aquilo tudo era real, mesmo que o garoto que ele mesmo tinha empurrado do desfiladeiro estivesse olhando agora mesmo reto para ele de modo superior enquanto andava em sua direção.
Um vento paranormal atravessou as janelas altas e atingiu o rosto de Rael. Aquele cheiro... Aquele perfume... Não podia ser real.
O chão pareceu se inclinar enquanto o morto-vivo parava na frente do armário de Rael e olhava como um predador.
— Parece surpreso em me ver — observou o fantasma. — Acho que exatamente o efeito que eu esperava.
Levou um certo tempo até que os neurônios de Rael funcionassem. Começou a sentir que ia desmaiar então se recostou no metal frio do armário. O toque frio em sua pele só mostrava o quanto aquilo era real — o que só piorava tudo porque agora ele não podia mais negar.
— Isso não é possível — conseguiu falar finalmente. — Eu vi você quando caiu.
— Quando me empurrou — Henrique corrigiu com uma expressão divertida.
Rael piscou sentindo as mãos ao lado do corpo tremerem.
— Você morreu, não pode estar mesmo aqui.
Henrique ajustou a lapela da jaqueta e olhou para ele como alguém que estava muito impaciente com o que ele dissera.
— Bom, então acho que tem algo de muito errado com o equilibrio hoje porque eu estou bem aqui de verdade, Rael Coelhinho.
Rael Coelhinho era o jeito mais velho de ofendê-lo e um dos que mais o incomodavam. Destestava qualquer um que zombasse seu sobrenome e os corrigia na mesma hora. Mas naquela hora não encontrou ar suficiente para responder.
— Aquela queda tinha mais de dez metros, se duvidar até mais — ele afirmou e passou a mão na testa que agora suava de jeito escaldante. — Como você sobreviveu a aquilo?
— Eu estou vivo e é só isso que você tem que saber — Henrique respondeu com frieza. — Como sobrevivi, como consegui chegar até aqui você não merece saber.
— Eu não queria te machucar, não foi minha intenção — ele sussurrou e achou estranho. Em todos os seus pensamentos ao que diria a Henrique se imaginava gritando aquelas mesmas coisas. — Você me atacou também.
— Coitado do pobre Rael — Henrique bufou. — Estava tão confuso e tão drogado o tempo todo, vai ver ele não queria me machucar — ele disse com frieza. — Pare de tentar aliviar sua barra comigo, eu não morri e você não vai pra cadeia.
A cabeça de Rael doeu com a verdade daquelas palavras e ele respirou fundo. Precisava de todo o ar existente para enfrentar aquele momento.
— Tudo bem — assentiu, seu primeiro movimento real naquele dia. — O que você quer?
Henrique franziu a testa pálida.
— Como assim o que eu quero? — questionou.
— Sim. Você voltou pra cá — Rael gesticulou desesperado. — Deve haver alguma razão pra isso, certo? Algo que você queira.
Henrique moveu o queixo — algo que ele só tinha visto homens fazerem em filmes — parecendo pensativo.
— Esse é seu jeito de tentar barganhar comigo por quase ter me matado? — sussurrou.
— Não, Henrique, esse é meu jeito de resolver as coisas.
— Então que tal deixarmos assim? — o moreno juntou as duas mãos enormes. — Vou pensar em como te fazer pagar pelo que quase fez, e por enquanto você pode pensar também.
— Pensar em quê?
Henrique chegou mais perto, o suficiente para Rael conseguir ver que a cor dos lábios dele eram mais rosa do que vermelho.
— Em como vigiar suas costas comigo tentando ferrar com sua vida.
E saiu dali, pomposo, com o tal garoto de cabelo castanho arrpeiado que não havia dito nada em toda a conversa. Parecia familiar para Rael, mas ele não sabia ao certo como dizer.
— Você se borrou nas costas. Admita.
A voz anasalada que havia dito isso veio dois armários à esquerda de Rael e, em choque, esperou que fosse mais algumas alguma pessoa com motivos para ameaçá-lo.
Mas então era só Vicente Santos, que se sentava do lado dele na aula de Inglês avançado. E espanho e Química também. Vicente era um aluno detestado porque seus comentários sarcásticos durante todas as aulas eram lançados aos professores que não tinham paciência com ele. Era detestado.
— O que você quer? — Rael retrucou ríspidamente.
— Ah, nada, Rael Coelhinho — sorriu Vicente. — Só pegando um pouco no seu pé.
— Não sei se percebeu mas não estou com paciência pros seus joguinhos agora.
— É? — Vicente questionou fechando a porta de seu armário. — E quem perguntou?
Rael o olhou enquanto seu cabelo com estranho tom roxo sumia no final do corredor. Beleza, ele agora tinha ganhado mais um fã indesejado.



Taffara encarava o cartaz que anunciava tacos naquela semana. Comida apimentada não fazia o tipo dela e de longe era saudável para seu corpo.
Mas o que ela não trocaria por uma mordida?
Camila Polli andava ao seu lado no corredor, tagarelando sobre algum assunto que não devia ser importante o bastante para não ser ignorado. As duas usavam bolsas de estilo carteiro elegantes. A maioria de todos os alunos encaravam as duas "Seria a nova melhor amiga de Taffara?", sussurou uma garota com cabelo afro "Seria o meu sonho?", a amiga loira questionou de volta.
— Vai encontrá-lo hoje?
Taffara, entediada e cansada de ignora-lá assentiu e retirou o pequeno celular do bolso da sua calça jeans.
— Ele vai me ligar no intervalo — respondeu.
— Já informou ele dos planos?
— Claro — Taffara revirou os olhos. — Tudo vai ser introduzido na festa, como planejamos.
— Fazer isso na escola seria bom também — Camila opinou.
Taffara sorriu e afagou seu ombro. Era uma beleza ter alguém para conversar, fofocar, armar e desabafar sobre tudo. Mas ela não precisava de ninguém para dar pitacos no que ela devia ou não fazer.
— Deixe que eu cuide de tudo, obrigada — ela garantiu.
Camila assentiu, os pequenos ombros se encolhendo. Taffara apenas jogou o cabelo castanho sedoso por sobre o ombro como resposta.
A identidade do ele com quem Taffara estava armando se encontrar mais tarde ela já sabia e precisava garantir que Camila soubesse apenas do que ela deixasse ela saber. Nada mais e nada menos.
Parecia que sua seguidora tinha algo a dizer quando as duas viraram para o corredor central e foram engolidas pela multidão de alunos concentrada dos dois lados das fileiras de armários.
Curiosa com o movimento anormal naquela manhã, Taffara ergueu o queixo para uma garota oriental de rabo de cavalo frouxo.
— O que está pegando?
Consciente de quem Taffara era, a garota deu de ombros e tremeu o queixo enquanto falava.
— Algumas garotas estão surtando com dois novos alunos que chegaram em um carro bacana.
— Dois novos alunos? — Taffara repetiu cruzando os braços.
— Carro bacana? — Camila questionou, imitando sua pose.
— Qual o nome deles?
— Eu não sei — garota oriental murmurou. — Mas são irmãos.
Taffara ainda não via motivos para dois garotos,aparentemente o que eram irmãos, chegando em um carro bacana se transformando em algo tão grande para todos estarem fora da sala ainda.
Não. Havia algo mais.
— Taff?
A voz que a chamou era rouca, como de homem, e quando ela se virou para ver a quem pertencia teve suas respostas a respeito daquela multidão toda no corredor.
Camila Polli arfou:
— MEU DEUS!
— Sei que é um grande choque me ver aqui agora — Henrique, seu namorado falecido, ergueu as mãos num gesto para as duas se acalmarem. — Mas eu posso explicar tudo.
Na cabeça de Taffara, um Rafael Capoci no Natal estava dizendo o quanto odiava o garoto na frente dela e que o havia mandado embora. Logo depois, a irritante Vick e Lucas confrontando ela sobre a verdade na casa dos Capoci, e omitindo algumas coisas também. E então, de volta a imagem de Rafael, mas dessa vez na escola dizendo que seu namorado estava morto.
Talvez fosse mentira.
— Por favor — os olhos escuros de Henrique desaparecido/morto brilhavam. — Diz alguma coisa. Qualquer coisa.
— Disseram que você morreu — Camila sussurrou ao invés.
Henrique a olhou como se a tivesse notado ali a partir daquele instante.
— Eu sei muitos não disseram só isso — seus olhos escureceram mais ainda. — Mas eu estava bem. Fiquei na casa dos meus avós esse tempo todo, Taff. E agora eu...
O tapa foi tão rápido que nem mesmo Taffara sabia o instante certo que havia dado ou não. Muitas cabeças se viraram na direção dos três e muitos alunos pararam de andar para encarar. Aquele não era bem o tipo de atenção que ela imaginava conseguir no primeiro dia de aula.
Henrique retorceu o queixo e virou o rosto, agora marcado com os dedos dela em um dos lados, para olhar para ela. Não parecia com raiva, só parecia triste.
— Taff...
— Onde você disse que esteve mesmo? — ela riu sem nenhum humor. Estaria gritando? Não conseguiu saber. — Eu procurei por você por mais de seis meses e não tive nenhuma resposta! E todo esse tempo você estava fazendo o quê? Se escondendo enquanto assava biscoitos para os seus avôs?
— Eu não podia voltar! — Henrique olhou para os lados, perdido. — Era muito arriscado.
Ela riu.
— E uma ligação era arriscada também? — questionou. — Seu celular foi grampeado ou alguma coisa do tipo?
— Não, mas eu...
— Existe algum motivo — ela o interrompeu abruptamente. — Algum motivo sério o suficiente para justificar o fato de você ter sumido por mais de um ano e não dar satisfações para a sua namorada?
Os lábios de Henrique não passavam de uma linha fina e rosa no rosto quadrado. Taffara se lembrou das horas sem dormir, na espera de que alguém pudesse ligar e dizer alguma informação nova. Na espera de que ele pudesse ligar e explicar toda aquela bagunça que estava acontecendo.
— Todo esse tempo — ela continuou. — Eu culpei Rafael Capoci e sua trupe de amigos estranhos pensando que eles haviam feito algo. Culpei até mesmo Rael.
— E não estava errada — Henrique endureceu a voz. — Taff, aquele garoto achou que eu tinha sentimentos pelo namorado dele e me jogou de um desfiladeiro!
— Não se atreva a dizer que é melhor que aquele bostinha! Mesmo fazendo o que fez, ele resolveu ficar e enfrentar a culpa! Ele teve que suportar que Rafa nunca mais ficaria com ele, mas continuou aqui do mesmo jeito!
Henrique chorava. Um soluço audivel.
— Me diz o que você fez que te fez melhor que isso?
O moreno passou a mão no rosto, desorientado.
— Existe alguma chance de você me perdoar pelo o que eu fiz?
Qualquer reação que Taffara podia ter, Henrique não esperava por aquela — estava escrito em seu olhar. Mas pensando bem, nem mesmo ela sabia o que pensar se o visse novamente. Precisava daquele taco que estavam anunciando no Refeitório e precisava agora.
Notou que estava mordendo o lábio de frustração e parou. Henrique seguiu o olhar para sua boca e ela se sentiu nauseada com o pequeno gesto.
— Devia ter ficado onde estava e nunca mais voltar.
Ele a olhou como se ela tivesse atirado nele. Como se Taffara fosse uma pessoa nova e completamente desconhecida. Mas ele estava completamente enganado.
Ele era um desconhecido para ela.



O sinal tocou novamente pela quinta vez naquele dia. E pela quinta vez Érika Alapulof teve que se segurar em sua carteira de tampa branca para não mostrar que estava assustada.
Sentiu o cheiro disso — da surpresa — em dois indivíduos de sua classe de Inglês e se sentiu duplamente sufocada. Por que Carla teve que ter aquela ideia genial de que ela voltasse para escola? Aquele lugar mais parecia uma penitenciaria!
Tudo bem que ela tinha saído com um povinho meio errado em La Iglesia na semana passada e fugido depois de explodir o escritório de Anna, com Layane dentro. E tudo bem que ela estava escondendo mais algumas coisas de sua namorada, mas ela não merecia ser punida não.
Levantou de sua cadeira duramente, tentando imitar a lentidão e a simplicidade de alguns de seus colegas e conseguiu não morder a nuca de ninguém.
Porém, quando olhou para baixo viu que suas unhas haviam crescido e ficado do tamanho do apagador.
— Oi, você é nova aqui?
Ela se virou e viu que uma garota magra, de cabelo castanho e óculos de grau sorria para ela.
— Sim — respondeu incerta. — Sou nova sim.
— Meu nome é Letícia e eu queria muito saber se você poderia me ajudar a encontrar o ginásio.
Ah, não, Loba errada.
— Uhum — ela pigarreou. — Não tenho certeza de onde fica, apesar de já ter ido lá — explicou um pouco nervosa. Espera... o que?
Leticia pareceu evidentemente confusa também.
— Você teve Educação Física hoje?
— Não.
— Então como...
— Olha — Érika estava tremendo. — Por que não segue um bando de alunos uniformizados e vê se consegue pedir ajuda? Garanto que eles podem servir de mais ajuda que eu.
— Tudo bem — Letícia sorriu como quem parecia se divertir. — Você está bem, Érika?
— Claro. Por que não estaria?
Letícia deu de ombros e parecia disposta a deixar pra lá, até que franziu o cenho por um instante e inclinou a cabeça de lado.
Algo errado, sonsa?, Érika queria ter dito.
— Sei que vai parecer estranho, mas... Nos conhecemos?
Érika fitou a outra garota, certa de que talvez a conhecesse sim, mas no momento... Não fazia a menor ideia.
Algo acendeu em sua cabeça.
— Eu não lembro de dizer meu nome a você.
Todo a expressão de Letícia se transformou em um sorriso malicioso.
— Não disse mesmo.
De repente, uma vertigem incomum atingu Érika e mais uma sineta apitou em seus ouvidos. Era uma sineta diferente porque soava mais alto em sua cabeça e parecia que vinha dentro do fundo de sua mente.
Relaxe, toque seus dedos para saber que não é real, uma voz disse em sua cabeça, mas a palpitação de Érika já estava se acelerando.
Era tarde demais.
Não demorou muito para ela ouviu alguém perguntando se ela precisava de ajuda quando era obvio que ela precisava de ajuda e tudo ao seu redor começar a girar.
Seus olhos se fecharam.


***

— Ela acordou!
Érika ainda estava no corredor quando seus olhos abriram novamente, mas agora encarava o teto abobado da escola.
— Não se mova — pediu uma voz familiar. — Eu sei que já passou, mas precisa ficar parada porque eles já chamaram a enfermeira.
— Erick? — ela sussurou sabendo que só ele escutaria. — O que está acontecendo?
— Fernando sentiu o cheiro de uma Bruxa — ele murmurou de volta, com decepção. — E ao que tudo indica ela abordou você.
— Uma Bruxa?
— O nome dela é Letícia — ele confirmou. — Foi a mesma que prendeu Rita aqui na escola há alguns dias.
— O que ela queria? — Érika vizualizou o rosto da garota sonsa. Devia ter batido nela quando teve a chance.
— Não sabemos, mas ela pode estar aliada a Carolina.
— Precisamos ir atrás dela, eu...
— Sei que quer muito ir atrás dela, mas não pode — ele logo a reprimiu. — Eles acham que você está passando mal. E, além do mais, Fernando já foi a procura dela.
— O que eu faço? — questionou perdida.
Érika sentiu uma agitação no ar. Ele deu de ombros para ela?
— Descansa um pouco, e tenta não surtar muito.
— Surtar? — Érika suou prevendo algo. — Espera, você não ligou para a Carla, ligou?
Silêncio.
— ERICK! SEU VIADO!
— Ei, não me difama não, viu? — ele fungou. — Já é bem difícil alguma garota ficar afim de mim por aqui comigo sendo novato!
— Carla nunca mais vai me deixar sair de casa!
— Ela quer o seu bem, Kah.
A loira bufou e virou a cabeça no chão gélido.
— Eu falei pra não se mexer! — reclamou Erick.
— Diga que eu morri, assim talvez meu defunto corpo demore mais para chegar em casa.
— Não entendo porque trata ela assim.
— Não espero que entenda — ela suspirou. — Não foi ela quem te transformou.
Dois paramédicos se aproximaram e, revirando os olhos, ela deixou ser carregada enquanto ficava encarando a barba falhada de um deles.
Decidiu fechar os olhos e não abri-los até chegar na enfermaria. E quando chegasse — fugiria.


— O que significa período pré-socrático?
— Período antes de Sócrates — Rita sussurrou a resposta prontamente.
— Obrigada — Brenda murmurou de volta e sorriu enquanto agitava sua caneta vermelha do Flash.
Rita sorriu de volta para a nova amiga, se sentindo um pouco demais. Aquela era uma aula avançada da matéria Filosofia, mas Rita já sabia de quase todo o material passado. Era um bom começo para uma garota nova, mas a verdade era que ela meio que estava trapaçeando por ter estudado na escola dominical pagada por seus pais.
— Com licença — Rita ergueu a mão para chamar a atenção do professor Felipe, que era bombadinho e de pele morena. Ele encarou Rita como se ela fosse algum tipo de arma espiritual poderosa.
— Pois não?
— Posso conseguir permissão para ir ao banheiro? — pediu educadamente.
O professor assentiu, solene, mas quando Rita tentou passar por sua mesa, ele entrou em seu caminho, se mostrando um pouco mais alto do que ela imaginava.
— Professor? — ela questionou confusa.
— Eu vi o que a senhorita fez — ele rearrumou os óculos. — Passar cola é o pior jeito de conseguir amigos aqui, se quer minha opinião.
— Cola? — ela franziu o cenho. — Eu só sussurrei uma resposta para uma dúvida — e isso não é nem uma prova.
— Mesmo assim — o professor balançou a cabeça. — Vou ficar de olho em você, tenha em mente isso.
Tá, tá, tá, Rita revirou os olhos se sentindo arrogante ao se retirar da sala com rapidez. O par de sapatilhas prejudicando o piso de linóleo audivelmente.
Na privacidade do corredor vazio, ela se apressou um pouco enquanto passava pelas fileiras de armários prensadas. Ficou surpresa com o quanto já parecia confortável na nova escola, apesar de ser a segunda vez que estava ali.
Se tudo desse certo dali para frente — e com isso ela quis dizer os problemas sobrenaturais que poderiam interromper sua vida mortal a qualquer instante — ela poderia passar o resto do ano na mesma escola que seu irmão e amigos.
Seria sua segunda casa.
O banheiro feminino ficava no corredor que fazia curva com a sala do diretor, de modo que o velho sabichão pudesse ver se alguma garota estava só cabulando ou arrastando algum garoto para transar em alguma das cabines. Mas não adiantava porque já tinha acontecido cinco vezes.
Apesar de não estar tão apertada, Rita estava muito afim de se olhar no espelho para tirar uma foto. Quem sabe até retocar a maquiagem?
Mas quando ia fechar seus dedos na maçaneta, notou que a porta já estava aberta, de modo que uma fresta simples conseguia dar uma visão parcial do que havia dentro do banheiro.
Ela não poderia ser capaz de usar o banheiro tão cedo, porque na pia em frente a ele, dois garotos — um vestindo roupa social e o outro um uniforme que lembrava esporte fino — se beijavam com entusiasmo, atirando seus corpos com tanta força que ela ficou surpresa pela pia não quebrar.
O primeiro pensamento de Rita foi se afastar dali o mais rápido possível e dar privacidade aos infratores. Porém a luz do banheiro era forte o bastante para ela notar que um dos garotos ela conhecia. E não era um garoto e sim um homem.
Era o Sr. Àvila, monitor da escola e pai de sua nova melhor amiga Brenda.
Como se já não bastase o choque, o outro garoto que parecia um homem, de esporte-fino, parou de morder o pescoço do Sr. Àvila e isso fez com que seu rosto viesse à luz.
Felipe Felps, o treinador que Andressa havia nocauteado e jogado dentro do armário de sua própria sala mais cedo pegava o Sr. Àvila pela cintura e o jogava em cima da pia.
Agora sim Rita podia entender o modo como Andressa havia dito que o achava fraquinho. Ele era gay.
Sr. Àvila e Felipe Felps eram gays e amantes que se pegavam em segredo dentro da escola que ambos trabalhavam.
Quando teve coragem para olhar de novo, Felipe Felps estava começando a abrir o zíper da calça do monitor, então Rita correu dali antes que visse o que não poderia mais desver.
De volta à sala de aula, ela quase não teve coragem para olhar Brenda que sorria em sua direção com agradecimento.
Mal sabia ela.



— Como ela vai ficar? — Fernando perguntou a Erick, quando este o encontrou no estacionamento dos fundos.
— Na enfermaria — Erick deu de ombros. — Aposto que vai ficar bem. Encontrou alguma coisa?
Fernando balançou a cabeça enquanto encarava a relva logo à sua frente. O rastro de Letícia acabava ali, o que significava que ela havia achado um jeito de aparatar.
— Por que uma Bruxa estaria nos atormentando?
Fernando deu de ombros.
— Parece que ela trabalha sozinha desde que matamos as Bruxas possuídas que estavam com Carla. Achamos que ela podia ter alguma ligação com elas.
— E agora ela quer vingança — Erick concluiu. — Nós a matamos?
O loiro se virou para o lobo lentamente.
— Anna nunca permitiria — ele riu sem nenhum humor. — Mas eu faria uma exceção se conseguirmos pega-lá.
Erick deu um leve sorriso de resposta, mas então levantou a cabeça atentamente. Fernando baixou o olhar e só notou agora que aquela era a primeira vez que o via vestindo alguma roupa.
— E se... — começou e depois olhou para os lados do estacionamento. — E se ela estiver ajudando Carolina?
— Não sei o que ela teria a ganhar ajudando aquela sociopata — Erick bufou.
— Não mesmo, né?
Tanto Fernando quanto Erick se viraram para olhar a voz que dissera aquilo. Se surpreenderam com a moça usando jeans e camisa social branca os olhando de jeito malicioso ao lado de um Mustang azul.
— Carolina — Erick grunhiu.
A ex-chefa dos Atiradores sorriu e, com um movimento discreto, já estava com uma pequena arma apontada na direção dele.
— Algo me diz que eu não era esperada — ela disse com ironia. — O que houve com o faro de vocês dois? Ficaram se cheirando o dia todo?
Fernando a avaliou minunciosamente.
— Não aconteceu nada, é você que esta usando roupas que não te pertencem.
Erick fungou.
— Quem você matou para chegar até aqui?
Carolina deu de ombros e começou a fingir que estava contando em voz baixa.
— Não sei bem, mas só pra constar, essas roupas não são femininas!
— Sempre te achei meio masculina mesmo — Fernando provocou e se curvou um pouco para frente.
Carolina virou rapida a arma na hora e atirou. A bala fez uma fumaça começar a subir no asfalto. Ela tinha atirado no chão perto dele.
— Não chegue nem mais um centímetro perto, ou atiro em suas bolas — ameaçou.
— Ui — Erick franziu o rosto com nojo.
Mas Fernando apenas sorriu e balançou a cabeça.
— Você sempre se garante com essas suas armas. Não se esqueça que elas não foram o suficiente para nos impedir de matar seu clã inteiro.
Algo passou pelo rosto da lunática. Raiva, talvez? Ela olhou Fernando com frieza. Será que ela sentia mesmo ódio deles por terem matado os outros Atiradores?
— Tudo bem, metamorfo — ela baixou a arma. — Já que é assim que preferem dançar, se preparem.
Erick e Fernando se olharam confusos, mas então um barulho no chão atraiu seus olhares de volta para ela. Carolina havia largado a arma no chão e agora erguia os dois punhos. Enquanto olhavam sem acreditar, ela levantou o dedo do meio e gesticulou para que eles chegassem mais perto.
— Ela provavelmente quer morrer — cogitou Erick, os olhos ficando vermelhos.
— Então vamos dar o que ela quer — Fernando se curvou mais para frente.
Os dois correram e a luta começou.



— Será que ele e o Henrique se pegaram?
— Eu acho que não, o Henrique parecia puto com ele. Me disseram que ele queria bater nele!
— Não foi ele, essa foi Taffara!
— Jura? Que grito. O que ele fez pra ela?
— Não ficou sabendo? Henrique tinha sumido por um ano, sem dar explicações pra ela!
— Mentira!
— Verdade!
— Bom, acho que ele merceu, ninguém se mete com a Taffara, ela sempre faz alguém pagar.
— Nem me diga, eu me lembro ainda do que ela fez com o Roberto.
— O que ela fez com o Roberto?!
Cansado, Rael desligou seu cérebro das conversas que o rodeavam. Estava no campus, aproveitando a aula vaga como os outros, mas sem fofocar.
A verdade era que ainda não havia conseguido engolir o fato de que Henrique estava vivo. Como ele havia sobrevivido a queda era um mistério, mas Rael tinha certeza que seus sentimentos eram um misto de horror e alívio. De todas as coisas que Henrique havia dito, uma em especial ele gravou: o fato de que ele não tinha matado ninguém e não era um assassino. Sua ficha estava limpa.
O engraçado para ele agora que sabia da verdade é que se pegou pensando naquela época, naquele Natal e por mais que suas vagas memórias dissessem que ele era o culpado, ele não se sentia assim. Tinha certeza agora mais do que nunca que Henrique estava dando em cima de seu ex naquele tempo.
Quem é que chamava alguém compromissado para tomar café a noite? Quem é que beijava um gay assumido embaixo do visco e não era também?
E quem ainda, depois disso tudo, pedia para se encontrar com o gay na floresta e ainda ter coragem de dizer que só queria conversar? Esse era Henrique.
Ignorando a onda de raiva que ameaçava voltar depois de um ano, Rael respirou fundo e vizualizou garotos bombados, bronzeados de cueca tomando banho para se acalmar. Não, ele não estava ficando excitado de jeito nenhum, aquele era apenas um dos métodos que Ester havia passado para ele se acalmar.
Okay, ela havia dito músicas e não imagens, mas fazer o que né...
Justamente quando havia conseguido se desligar das vozes, uma cabeleira castanha surgiu por entre os alunos e começou a se mover em seu raio de visão. Gabriel.
Rael conseguiu se sentir sorrir enquanto o garoto passavando andando rápido pela cantina com o celular erguido na mão.
Ao olhar aquele rosto bonito, Rael se lembrou do beijo lindo que haviam dado debaixo da àrvore e seu coração ficou mole. Gabriel havia se mostrado fofo, engraçado e interessante nos únicos dias de suas férias, e agora estava ali.
Não ia matar nada se ele chegasse perto dele com educação e perguntasse se podiam conversar, ia?
Ele precisava falar com ele, assim seu dia quase horrível não seria tão horrível assim.
Corajoso Rael se levantou da cadeira onde estava e foi atrás dele. Gabriel parou em um canto olhando para o celular. Ele estava prestes a chamá-lo até que viu ele colocar o aparelho no ouvido.
— Alô? — ele conseguiu o escutar dizendo. — Oi, não. Sim amor, posso te ouvir muito bem.
Aquela simples frase fez todo o corpo de Rael enrijecer exatamente onde ele estava. Amor?
— Eu estava na sala — Gabriel fez uma pausa, tocando um dos botões de sua camisa. — Quando? Semana passada?
Rael tentava escutar a voz do outro lado da linha, mas não obteve muito sucesso. Seria o namorado?
— É o quê? — Gabriel guinchou. — Claro que não sua linda, eu só o esqueci em casa. Fui até o shopping, só isso.
Linda?
Rael sentia que ia vomitar enquanto imaginava uma forma feminina sem rosto do outro lado da linha falando.
Shopping. Ele estava falando sobre o dia em que se conheceram? Estava dizendo a ela que nada havia acontecido? Canalha.
— O que você precisa saber Deb, é que minha última semana foi chata e insignificante — ele suspirou alto. — Queria que estivesse aqui comigo.
Rael pensou no beijo dos dois debaixo da àrvore. Insignificante, sem importância. Ele não havia gostado do beijo.
— Ei, baby, vou ter que desligar — ele pareceu triste. — Sim. Quando chegar em casa mando mensagem. Beijos, eu também.
Eu também o que?, ele quis retrucar, Eu também te amo? Canalha mentiroso.
— Rael?
Gabriel o notou ali e sua boca fez um O.
— A quanto tempo esta ai? — questionou com cautela.
Rael deu de ombros.
— Eu parei de contar — retrucou secamente. — Mas fiquei tempo o suficiente para entender tudo.
O rosto de Gabriel empalideceu.
— Eu posso...
— Amor, baby — ele riu sem nenhum humor. — Ah e insignificante define tudo eu acho. Certo?
O outro perdeu a fala, mas Rael não deu a minima para o gato que cortou sua língua.
— Como pude ser tão trouxa? — questionou consigo mesmo e então começou a se afastar dali.
O dia horrível estava longe de acabar depois daquilo.

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Todas as aulas do dia já haviam acabado quando Marco se pegou andando para lugar nenhum especifico. O certo era ele voltar para casa com a irmã mais velha, mas Rita parecia avoada quando ele disse que não estava afim de pegar ônibus algum.
Que ótimo, ela também estava estranha.
E agora Marco andava por uma rua meio incomum para ele, mas não importava, toda aquela cidade era incomum. Achou que podia se perder, até que avistou uma viatura familiar parada na mesma calçada que ele.
Gabriella.
— Meu Zeus do Olimpo — ele assoviou. — Estou sendo seguido.
A policial revirou os olhos e descruzou os braços.
— Alguém já disse que você é irritante? — ela questionou e Marco sorriu.
— Minha fala sua ladra. Achei que você trabalhava para a lei.
— Posso ser imparcial às vezes — brincou.
— Bom, sou adolescente, faz parte — Marco deu de ombros. — O que significa que sou sempre imparcial.
— Sim, mas seus motivos são diferentes para ser — ela falou e ele tinha entendido que a brincadeira havia acabado. — Você quer proteger seus amigos.
— São meus amigos, eu tenho que proteger — ele rebateu.
— Não se estiverem fazendo algo errado — ela o encarou duramente. — Marco, se tem algo que você quer me dizer, eu posso te ajudar com isso.
— E porque faria isso? Não somos amigos.
— Não mesmo — Gabriella engoliu em seco. — Mas eu quero te proteger.
Ele revirou os olhos.
— Não existe nada pra você tentar me proteger — Ok, meia verdade.
— Eu posso acreditar em você se me contar as coisas. Quem matou Lucas?
Marco riu.
— É prendendo um dos meus amigos que você quer me ajudar? Boa sorte com isso, Detetive.
Ele se virou para ir embora, mas então escutou um suspiro e olhou de novo. Gabriella estava com o celular grudado na orelha, fazendo uma ligação.
— O que esta fazendo?
— Ordenando um mandado — ela respondeu num tom apático. — Já que não quer me contar nada, vou ter que tirar a força da sua irmã.
— Não faça isso Gabi!
— Eu quero a verdade! — ela o encarou. — Você pode me dar isso?
Marco não respondeu e se atirou para tirar o celular da mão dela. Gabriella lutou e os dois começaram a puxar o aparelho de um lado para o outro.
— Pare com isso Marco Antônio! — ela reclamou.
— Para você com isso! — Marco continuou puxando. — E não me chama assim, já falei!
No meio da briga, ele notou que estavam muito próximos. Mas ao olhar para cima os olhos de Gabriella encontraram os dele com frustração.
E ela o beijou.
Foi rápido, um leve roçar nos lábios, mas Marco correspondeu na mesma hora. O aparelho caiu e espatifou no chão.
Gabriella se afastou rapidamente, pegou o celular e se afastou para olha-lo.
— Não conte — sussurrou e se afastou até a viatura.
Em segundos os pneus do carro dela cantaram quando ela deu partida para sair da rua. Marco continuou ali parado na calçada, se perguntando que porra havia acabado de acontecer.

***

Taffara quase vomitou com a cena que tinha acabado de presenciar. Era uma droga ter decido escolher justo aquela hora para fumar em seu canto depois da aula e uma droga maior ainda ver a Detetive Gabriella Dias que tanto a odiava beijar Marco, o bonitinho do outro dia no Shopping.
Apesar da policial ser mais velha ele parecia confuso com beijo. Estava decidindo se havia gostado ou não? Aquilo preciava de decisão? Eca.
Tudo bem que algumas coisas na vida Taffara teve que conquistar com esforço, mas aquele segredo, aquela bomba praticamente caiu em seu colo sem que ela pedisse ou implorasse.
E agora ela faria o que quisesse com ele.