Chiarascura
3 A rainha (quase) amaldiçoada
"Nunca se pode enganar a profecia feita por um Escolhido. As palavras são escritas no Livro do Universo e elas acontecem de qualquer forma, pois diferente dos humanos, o destino nunca pode ser enganado."
— Conto: Livro do Universo, Livro de Profecias de Mr. Diablo
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O carro que esperava Chiara já estava na porta lhe esperando. O soldado Bencatel não perdeu tempo em colocar a princesa dentro do veículo e pedir para que dessem partida.
Os carros voavam em uma altura média de quinze centímetros. A cidade se desenhava entre montanhas, prédios antigos que se sustentavam no tempo e construções mais atuais. Chiara olhou para Bencatel ao seu lado e ele estava quieto e polido como sempre. O Soldado estava concentrado mais na estrada do que o próprio motorista. A mulher o encarava sem piscar que quando notou aquilo, Bencatel virou seu rosto e ela desviou com vergonha porque tinha sido pega. Naquele momento, a princesa só focou nas gotas de água no vidro da janela do carro, pois estava começando a garoar e olhou para trás por alguns segundos, onde só via outro carro exatamente igual ao dela. Praticamente não tinha trânsito na cidade, pois os moradores preferiam usar o transporte público do que terem carros individuais. Só as pessoas extremamentes importantes que utilizavam meios de locomoção individuais por serem mais seguros contra um atentado.
A cabeça de Chiara doía de tanto ficar pensando que tinha acontecido naquela arena. Ela mordeu seu lábio e tirou a capa de seus ombros, pois já sentia um calor absurdo e já transpirava dentro daquele automóvel fechado. A princesa sequer sentia alguma culpa por ter praticamente matado sua irmã, pois sempre se considerou uma pessoa justa e de bom coração que nunca mataria ninguém a sangue frio.
Claro, ela se sentia triste pelo o que tinha acontecido, porém, jamais se sentiria mal de ter se defendido de Reyna antes que sua irmã mais nova a jogasse para baixo, pois estava com raiva porque a profecia não tinha se concretizado. Chiara teve uma leve impressão de que ninguém queria ajudá-la e tirar a irmã de perto dela, então foi a única opção que passou por sua cabeça para livrar-se da morte.
O palácio não era longe da arena, mas a monarca sentiu como se fosse do outro lado do país. Quando estacionaram o carro, Chiara nem esperou alguém abrir a porta para ela e saiu correndo pela escadaria e sentia o vento frio tocar sua pele junto com as gotas geladas da garoa que mais pareciam pequenos espinhos arranhando a sua pele. Atrás dela, Bencatel vinha correndo com sua capa na mão.
Ela entrou no palácio e foi parada por olhares de três pessoas: Lima, Lana e Adam. Eles eram seus amigos mais próximos e estavam ali esperando-a voltar da arena com o ganhador e aproveitar a pequena comemoração que teria.
E agora, que festa teria? — Chiara pensou, sentindo sua consciência pesar pela primeira vez.
Lana aproximou-se de sua amiga, dando um sorriso doce. A mulher tinha olhos dourados e sua pele era preta. Seu cabelo era bastante volumoso e sempre tinha um adereço brilhante os prendendo. Daquela vez, tinha a figura de um olho e era da cor azul como o seu vestido. Lana sempre andava bem-vestida e maquiada, pois era filha do representante de Minar — a capital da ostentação do império — e ela queria fazer jus ao posto do pai e se destacar para conseguir cargos altos quando atingisse os trinta anos, quando se era permitida a entrada de pessoas na polícia do império.
— Como foi? — Lana perguntou, passando a mão pelo rosto de sua amiga. — Cadê o rapaz?
— Você matou a Reyna?! — Lima pulou da cadeira com o seu celular na mão. — Já puseram na web — avisou, apontando para a tela. — Que horror, Chiara!
Lima arrumou seus óculos e Chiara torceu o nariz para a roupa que ele usava. Um traje todo preto com um casaco aberto e a camiseta tinha uma estampa com um personagem de quadrinho bastante famoso. Mesmo que os dois fossem diferentes em vários pontos, eles se davam muito bem e Lima era um típico e estereotipado nerd. Os dois tinham se conhecido quando ele ia ao palácio fazer trabalhos da escola com Reyna.
Diferente dela, Reyna e seus irmão estudavam em escolas normais e tinham amigos. Já ela foi educada em casa, com matérias personalizadas para ela se tornar uma governante quando seus pais morressem ou decidissem renunciar ao trono. Até aquele momento de sua vida, Chiara só estudava coisas que envolvia diplomacia, política, sociologia, economia, história, finanças, idiomas e mais um monte de coisa que ela não queria estudar. O que ela queria mesmo era ir para escola e poder fazer aulas de Educação Física, Artes ou até mesmo, na matéria de Ciências, fazer um vulcão explodir após jogar vinagre.
— Ela me atacou! — Chiara colocou suas mãos sobre a cabeça como se ela tivesse doendo. — Ela gritou olhando nos meus olhos e falou que tinha que morrer e depois disso me atacou... — deu uma pausa, olhando para os três ali. — Eu fui me defender e, infelizmente, aconteceu isso.
— Caralho! — Adam ainda estava pretérito, pois era bastante próximo de Reyna e não sabia dirigir aquilo.
— Por favor, não me culpem — pediu. — Vocês sempre souberam que eu tinha muito medo deste dia por conta... Ah, vocês sabem — a princesa suspirou.
— Com certeza, todos os sites da internet comentarão sobre isso! — Lima pareceu ficar animado e recebeu olhares o reprovando. — É sério, já vejo o título de "A Rainha (quase) Amaldiçoada" estampando todos os veículos de imprensa. Eu vou mandá-los o link para acompanharem.
— Puta que pariu, moleque, fica quieto! — Lana não aguentava mais ouvir as besteiras do amigo.
— Olha, eu estou triste pela Reyna, porém extremamente animado por conta do que presenciei — Lima continuava a não demonstrar nenhuma empatia. — Isso era uma coisa prevista há séculos, então, para mim é muito excitante saber dessas coisas.
A pele extremamente branca de Lima, do nada, foi ficando rosada. Chiara olhou para Adam, o homem que pensava em se casar quase nada desse certo. Ele era filho único de um casal de refugiados do Império de Sacramento, porém tinha nascido em Taverna. O seu pai trabalhava como conselheiro da monarquia e tinha conseguido a confiança do rei entregando todos os segredos de Sacramento. Adam tinha cabelos escuros, olhos verdes e sua pele era marrom-claro. O rapaz tinha uma grande inteligência para a política e sonhava em ser um diplomata para representar Primazia ao redor do mundo.
Chiara correu até Adam o abraçando com vontade. Lima virou-se para Lana, dando-lhe um sorriso malicioso, pois sabia que sua amiga gostava do rapaz, porém Asam parecia encantado demais pela princesa e nunca olharia para uma "simples" filha de um representante.
Bencatel ficou parado com a capa de Chiara em suas mãos e Lana se aproximou dele, passou as mãos pela peça de roupa, sentindo a textura macia do tecido e olhou nos olhos do soldado.
— Você é o soldado mais bonito do mundo, Bencatel — ela falou, sorrindo. — Chiara que te deu esse título.
— Se Vossa Alteza pensa assim, eu sinto-me muito honrado — ele sorriu feliz, porém tímido.
— Eu fico feliz que ela vá se casar com o homem que ganhou na arena — Lana sentiu um grande alívio por ter um ganhador. — Não gostaria de saber o que ela faria se todos perdessem. Acho que Vossa Majestade faria outra partida, não é?
— Vocês todos! — a governanta Renner entrou no cômodo, terminando de estragar a atmosfera. — Atenção em mim!
Chiara se afastou de Adam e o rapaz, automaticamente, ajeitou o seu terno. Ele recebeu um olhar mortal de Renner — que era a sua mãe —, pois ela odiava a amizade de seu filho com os filhos dos reis e repreendia qualquer envolvimento deles, principalmente com Chiara.
— Vossa Alteza, pediram para que a senhorita permaneça em seus aposentos e que seus amigos fiquem comigo — Renner falou para todos com um tom de voz irritado.
Fisicamente, a governanta não tinha nada a ver com seu filho, mas o jeito deles eram tão idênticos que todos ficavam assustados, especialmente a brutalidade que falavam quando estavam com raiva. Chiara gostava de pensar que ela só era daquela forma em sua presença, pois ninguém poderia ser tão dura e ranzinza o tempo todo.
— Lana vem comigo — Chiara chamou a amiga.
— Não...
— A Lana vai comigo! — falou firme, olhando para a mulher.
— Seu pai... — Renner tentou retrucar.
— O meu pai não precisa controlar quem eu levo ou não para o meu quarto — a princesa ergueu sua voz. — Lava vem comigo e os outros eu vejo depois.
Lima sorriu para ela. O homem praticamente agradecia os minutos que estaria sozinho para poder comentar em fóruns sobre essa morte de sua colega de escola. Como sabia de tudo em primeira mão, ele sabia que estava apenas um passo da glória no mundo nerd.
Quando todos começaram a dissipar, Bencatel tomou a iniciativa de seguir Chiara e Lana, a fim de devolver sua peça de roupa.
As duas subiram as escadas em silêncio, assim como o soldado. Todos atravessaram o corredor com várias portas, esculturas e soldados. Chiara não entendia o motivo de ter tantas pessoas ali fazendo a segurança, já que há pouco mais de dois séculos, já não tinham guerras e nem pássaros famintos e desorientados invadiam o local. Só que ainda assim, seu pai mandava produzir uma armada militar de peso e munições pesadas para uma possível guerra no futuro. O mesmo acontecia com Sacramento e os países e reinos menores.
Lana passou na frente de Chiara, abrindo a porta do quarto dela, entrando antes que a dona. Quando ficou à frente do cômodo, a monarca se virou para seu funcionário e pegou a sua peça de roupa, agradecendo a gentileza dele. Bencatel fez uma veneração para ele e saiu. Chiara fechou a porta de seu quarto e virou-se, olhando para a sua amiga que estava mexendo em seu porta-joias.
Lana tirou do porta-joias um relógio antigo da cor prata e umas pedrinhas vermelhas. Atrás dele, tinha as iniciais WS e Chiara apenas ficou observando a amiga, enquanto tirava os grampos de seu cabelo e desfazia o penteado, deixando as os fios negros, livres. Assim que seu cabelo estava solto, ela massageou seu couro cabeludo, fazendo o sangue circular por ali e tentou relaxar um pouco. Além da quase confirmada morte de Reyna, ela já estava há meses tensa por causa da luta.
Kiara girou a cabeça, sentindo um peso em seu coração e um nó na garganta. Finalmente tinha caído a ficha de que ela era uma assassina e que seria punida severamente quando seus pais chegassem.
— Posso pegar para mim? — Lana mostrou o relógio para Chiara.
— Não — Chiara balançou a cabeça de um lado para o outro e deitou-se na cama, pois estava sentindo-se mal. — Isso é de família e pertenceu ao nosso fundador. O meu avô me deu antes de tirar suas longuíssimas férias com minha avó em Comuna.
— Ok. Família! — Lana largou o relógio de lado, pois entendia como as famílias monarcas tinham um grande apego por objetos de antepassados.
Lana continuou olhando para Chiara, a vendo de olhos fechados e deitada em posição fetal em meio de sua cama. Ela até queria dizer palavras boas para a amiga, porém sabia que os reis, principalmente o rei Konecki, nunca deixaria aquilo passar em branco, logo ele que gostava de demonstrar justiça para todo o império.
Até Lana sabia que Chiara seria punida da pior maneira possível pela morte de sua irmã.
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