Chiarascura
4 Uma monarca destronada jura vingança
"Ninguém nunca poderá destronar alguém que foi escolhido para reinar. Caso tente fazer isso, a vingança virá até você, sedenta por seu sangue, poder e sanidade."
— Diário pessoal de William Shield (Mr. Diablo)
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Os soldados empurravam Louis pelo palácio com grosseria. Por estar sofrendo leves agressões Louis já estava quase gritando com os soldados, porém tentava se controlar e pedia para que eles o largassem.
O quarto que praticamente o jogaram, tinha vários empregados e estava bem-arrumado e com as cores e peças decorativas bem melancólicas. Tinha uma grande cama no local que dava para mais de duas pessoas dormirem ali. Um grande lustre com cruzes invertidas se encontrava no centro do teto e aquilo deixava o quarto com um aspecto de um lugar para se fazer um pacto demoníaco.
— Senhor? — uma empregada, aproximou-se dele. — O seu banho está pronto.
— Podem sair — Louis respondeu.
— Nós não podemos...
— Podem, sim! — exclamou raivoso. — Pelo amor de Meridia, saiam daqui e me deixem sozinho! — Louis passou a colocar todos os presentes para fora do cômodo. — Eu não vou tomar banho na frente de ninguém!
Os empregados, de primeira impressão, acharam-no muito grosso, além do homem ter mencionado o nome de Meridia, pois aquele nome não era falado há tanto tempo e era quase proibido. Alguns empregados saíram comentando o quão desagradável foi passar por aquilo.
Louis trancou a porta para ninguém mais importuná-lo. Ele queria paz e somente um pouco de silêncio para sua cabeça.
Ele entrou no banheiro, vendo que era grande, aconchegante e tinha uma banheira enorme cheia de água e espuma. Louis nem se lembrava mais quando foi a última vez que tinha entrado em uma e sentiu-se feliz por ter um pouco de luxo. O homem começou a tirar a armadura que estava, sentindo-se mais livre e solto, e ia jogando as peças para todos os lugares, bufando de raiva e ao se olhar no espelho, viu um corte abaixo de seu peitoral.
Com certeza foi na luta! — pensou.
Louis tinha as costas marcadas, como cortes de chicotadas. Ele soltou o cabelo que batia na altura do ombro, e os fios ondulados estavam sujos e úmidos de suor.
Ao despir-se por completo, ele entrou na banheira, descansou sua cabeça no encosto e fechou seus olhos para poder descansar. Há quase oito dias que ele não dormia ou relaxava, porém quente relaxava o seu corpo de uma maneira tão boa que sentia-se em sua própria cama. Mesmo descansando, Louis ficava com três vozes em sua cabeça: a de seu pai, de sua esposa e de sua "ajudante de crime". Todos diziam que ele deveria ficar focado em sua missão no palácio e não se envolver emocionalmente com ninguém. Nem mesmo a mais simples amizade, ele poderia cultivar naquele lugar.
O sossego dele acabou quando ouviu barulhos no banheiro. No espelho do local, saiam um par de pernas longas e femininas, e Louis sabia que eram de Joane. Quando ela conseguiu sair do espelho, Louis reclamou:
— Eu não tenho mais privacidade, Joane?
— Estamos no meio de uma missão e você fica pensando em privacidade? — retrucou.
Joane tinha os olhos puxados e uma pele dourada. Ela estava com o cabelo amarrado em um pano preto, assim como o resto de sua roupa. Ela andou um pouco, olhando para o loiro e batendo palmas.
— Parabéns, meu querido amigo. Eu fui uma ótima leoa, não fui? — sorriu. — Que bom que eu não te comi, não é? Ou não, afinal, vai que você queria que eu te comesse — ela riu, pois tinha achado engraçado o que tinha dito. — No bom sentido, ok? Quer dizer, não tem bom sentido... Ai, você entendeu — Joane ficou sem graça. — Eu acho que me atrapalhei nas coisas.
— Sim — o homem concordou. — Joane, pegue alguma comida para mim, por favor.
— Louis, eu não sou sua esposa. Sua esposa se chama Luna, então pede para ela! — Joane sentiu-se indignada por Louis pedir-lhe aquilo.
— Eu estou aqui por sua causa e não por causa dela, quem invadiu meu banheiro foi você e você está mais perto — ele bateu na água, frustrado. — Busque um pedaço de pão para mim, pelo menos. Eu estou há três dias sem comida nenhuma!
— Olha, você não fala assim comigo, entendeu? — a mulher brigou com o loiro. — Eu vou chamar sua esposa, a Chiara — brincou — Mas Lou... — arqueou a sobrancelha, chegando perto da banheira. — Louis, olha, vamos ser rápidos. Seja legal com sua linda mulher, descobre onde está a pedra, pega e voltamos para Caelum. A cada minuto que passa, Caelum está sendo dominado mais e mais pelos demônios.
— Você me falou isso trocentas vezes. Eu já entendi! — Louis deu ênfase na sua fala.
— Calma, lindo — ela pediu. — Eu vou pegar sua comida e já volto.
Joane desceu a escada tranquilamente, afinal, ninguém podia vê-la. Ser um anjo nessas circunstâncias era a melhor. Estar em uma missão na terra era bem interessante para ela, já que era a primeira vez que pisava naquele lugar depois que o mundo foi dividido entre Meridianos, Sacramentistas e os Neutros. A mulher sentia-se bem apreensiva em algum lugar que tinha demônios como entidades maravilhosas e santas. Só que o sacrifício era válido e animador ao mesmo tempo, já que desde que todo o poder de Meridia foi preso em uma pedra, Ascian e seus súditos começaram a escravizar todos os celestiais. Ela não queria ser uma das escravas e estar em algo contra ele, animava-a demais.
Ela, ao chegar perto de uma porta, viu um homem comendo doces, quieto e escondido, era Adam. Joane se encantou com o homem, que mesmo sem perceber a presença dela, ficava olhando em sua direção, como se visse alguém por ali. Ela ficou "perdida" nele até ouvir gritos de ódio do rei.
Ela subiu as escadas, gritando para chamarem sua filha. Vários funcionários corriam atrás dele, tentando acalmá-lo, só que parecia ser tarde demais. Joane saiu do lugar, seguindo o homem até seu escritório, ele fechou a porta e magicamente, surgiu uma poça de sangue saindo pelas frestas. Ela passou os dedos ali para saber o que realmente era sangue.
Sangue de inocentes.
Ela pegou uma flor branca que estava ao seu lado e passou naquele líquido vermelho. A flor não ficou manchada, só ela poderia ver aquilo. O sangue que saia dali, poderia ser de inocentes querendo vingança ou de algo que ele ainda faria.
"Calma, marido", a rainha murmurou, tentando acalmar o rei.
"Chamem-na, AGORA!", ele gritou, quebrando algo.
Um soldado saiu de lá, rápido e ele parecia assustado por conta da agressividade das falas do Rei. O soldado foi até o quarto de Chiara, dando três batidas na porta e Lana a abriu. Chiara estava no meio de sua cama, sem maquiagem, porém continuava com a roupa de antes. As duas pareciam tensas e deveriam estar conversando sobre algo pesado e devastador, tal vez Chiara estivesse contando-a como era ser a assassina da própria irmã.
— Seu pai quer vê-la no escritório — o soldado avisou. — Imediatamente! — entonou sua voz de uma forma que era difícil de negar.
Chiara levantou-se, sentindo algo ruim tomar conta de seu corpo. Ela nem estava vestida adequadamente para ter uma conversa com seu pai naquele momento. Com certeza, ele falaria de Reyna e o quão mau foi a sua atitude de ter matado sua irmã, mesmo sem querer.
Mas o que ela poderia fazer? Ninguém lhe defendia!
A princesa olhou para sua amiga, se rastejando pela cama, antes de sair por completo. Ela, antes de sair do quarto, olhou para um espelho e Lana sussurrou para ela um "boa sorte". Chiara sorriu para a amiga e saiu em direção ao escritório do pai que ficava no terceiro andar.
Ela andava lentamente. Como estava descalça, ela sentia o frio do piso e também os tapetes no chão. Ela olhava para frente, cruzando as mãos e pedindo proteção para suas entidades para nada de mau acontecê-la. Chiara tentava se concentrar para manter a calma e conseguir se defender perante seus pais. Seu único foro era ficar calma.
Quando entrou no escritório do pai, sua mãe estava sentada em uma poltrona e seu pai andando de um lado para o outro, irritado. Ele, assim que a viu, aproximou-se pegando a filha pelos ombros. Chiara sentiu uma corrente elétrica percorrer todo seu corpo e, pela primeira vez na vida, ela sentiu um medo real de seu pai.
— Me desculpe.
— Shhh... — ele fez um gesto para a filha ficar calada. — Eu quero que me ouça até o final sem dizer um "a".
Chiara assentiu para o pai.
— Há anos você vem quebrando todas as regras de uma futura governadora desse império, Chiara! — falou com bastante raiva. — Você queria escolher seu noivo, ficar andando à noite com os empregados, passear e aprender lutas como uma pessoa comum e hoje, você fez a pior de todas as coisas, você não deixou a tradição da morte do leão acontecer! Eu te fiz e te criei como uma futura rainha e para agir como uma! — exclamou, fazendo a filha respirar fundo. — Eu não te criei para ser uma líder rebelde e revolucionária — falou com uma voz fria e assombrosa. — Somos descendentes diretos de William Shield e nós carregamos esse sangue por muito séculos e o que você quer fazer? Acabar com isso? — perguntou, porém não a esperou falar nada e continuou. — E o pior das piores coisas que você teve a proeza de realizar... — ele deu uma pausa, puxando o ar. — VOCÊ MATOU A SUA IRMÃ! O QUE VOCÊ TEM A DIZER SOBRE ISSO, MATRONA?
A princesa ficou calada, não sabendo se podia falar ou não. Seu coração acelerou e só assim ela conseguiu encontrar as palavras para se justificar:
— E-eu... Eu quis me defender! Eu não tenho culpa se Reyna caiu... Ninguém parecia querer tirá-la de cima de mim e eu sempre tive medo da maldição...
— Uma historinha que se conta para crianças na hora de dormir? — Konecki bateu no rosto da filha. — VOCÊ NÃO É UMA SOBERANA E NUNCA SERÁ!
Ela não pôs a mão onde recebeu a agressão, pois não queria demonstrar ser fraca diante de ninguém que se encontrava ali. Chiara só conseguiu olhar nos olhos de sua mãe, sentindo sua bochecha arder e um sentimento de tristeza dar um nó em sua garganta.
— Você não faz mais parte da família — ele falou, chamando a atenção da filha de novo. — Eu oficialmente, te declarado deserdada da família real!
A rainha e Chiara abriram a boca, surpresas com aquele pronunciamento. Chiara se imaginou sendo outra coisa, além de uma grande imperatriz — como queria ser chamada —. Ela sempre almejou e teve o poder em suas mãos e, agora, o que ela seria sem ele?
— Konecki... — a rainha levantou-se, tentando alcançar o marido.
— Esqueça-a, Martina. Ela não é mais nossa filha! — o rei olha fundo nos olhos de Chiara. — Ela morreu, assim como Reyna. Você tem até amanhã cedo para partir ou será condenada à morte em uma fogueira pública junto ao ganhador da luta.
Ela olhou para o chão, sentindo uma grande vontade de chorar, porém não faria isso na frente de ninguém. A princesa saiu correndo do escritório de seu pai, subindo até o sótão onde tinha uma sala secreta. Ela trombou com uma empregada, que, desnorteada, saiu correndo dali. Após estar sozinha, ela certificou-se que não teria ninguém por perto e abriu a porta do último cômodo do palácio. A porta dava-se ao segredo dos primazianos e o sonho dos sacramentistas: a pedra vermelha que continha todo o poder de Meridia. Pelo menos, era o que passavam para os membros da família.
Era terminantemente proibido entrar naquela sala sem a autorização de seu pai ou sua mãe. Só que agora, ela já não mais ligava para aquilo.
Ao ver a pedra vermelha e brilhante, ela não pensou duas vezes antes de pegá-la de dentro do vidro e esconder entre seus seios. Se seu pai tinha a autoridade de deserdá-la, ela tinha direito de tirá-lo a coisa que ele mais venerava no mundo: a vanadinita que carregava todo o poder de Meridia.
Chiara jurou que se vingaria de seu pai de qualquer forma, até conseguir seu trono de volta.
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