Chiarascura
2 A luta gladiadora
"Ascian me falou: eu escolhi a sua família para reinar em meu nome no mundo. No entanto, sou eu quem escolho com quem todos vocês se casarão. [...] A escolha será feita por uma Luta Gladiadora e aquele que vencer todos os obstáculos será o escolhido por mim. [...] Somente vencendo o leão que vocês terão certeza de que o ganhador é o meu escolhido. Por isso, nunca, nunca pule a etapa do leão. "
— Conto: Gladiadores, Livro de Profecias de Mr. Diablo
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Não demorou muito para a briga de Reyna e Matina terminar. Após alguns minutos, ambas subiram para o camarote, vendo a arena lotada. Algumas pessoas estavam com seus celulares nas mãos para gravar e fotografar aquele momento. Chiara achava desnecessário os celulares na arena, porque em momentos como aquele, deveriam proibir de trazerem algum eletrônico para registrarem mortes de indivíduos em uma luta que ela repudiava, e depois ficarem famosos utilizando da tragédia alheia.
Chiara estava sentada ao lado esquerdo de sua mãe. A família estava dividida com mulheres de um lado e homens do outro. Assim que seu pai sentou-se, ao lado direito de sua esposa, os telões foram ligados e todos os espectadores levantaram-se.
— Senhoras e senhores, hoje é a 13° edição da Luta Gladiadora que tomará conta de Taverna e do resto do nosso império — a voz do homem anunciou. — E o mais inédito ainda: invés de mulheres lutando pelo coração do príncipe, desta vez serão homens lutando pelo coração da próxima rainha do império, nossa querida, Matrona, carinhosamente chamada de Chiara. Vamos saudar nossa princesa Matrona Chiara Lobos Battaglia.
Chiara respirou fundo, levantando-se de seu assento, ouvindo as pessoas gritarem o seu nome e acenando para ela. Ela deu um sorriso, acenando para seus súditos e voltou a se sentar.
— A segunda na sucessão ao trono: princesa Reyna Rosana Lobos Battaglia.
Reyna acenou para todos um pouco mais empolgada que o normal. Aqueles eventos era um dos poucos momentos em que Reyna tinha interação com os outros. Geralmente, era Chiara que recebia aquela forma de carinho com seus súditos.
— O príncipe Edmundo Konecki Lobos Battaglia, o terceiro na linha de sucessão ao trono.
Edmundo acenou para o seu povo. Na visão de Chiara, seu irmão seria um ótimo rei, entretanto, a lei determinava que o primeiro a nascer deveria ser o herdeiro da coroa e não o mais apto.
— Príncipe Lorenzo Ricca Lobos Battaglia, o último na linha de sucessão ao trono.
Mesmo tímido, por ter apenas seis anos, ele acenou rapidamente para os demais.
Toda vez que olhava para Lorenzo, Chiara lembrava do dia em que Reyna jogou fogo no braço do irmão quando ele tinha apenas quatro anos. Ele tinha a pele do braço direito deformado e sempre usava roupas longas para esconder, pois sentia vergonha de ter a pele enrugada.
— Vossa Majestade, rei Konecki Shield Klan Battaglia.
O rei tinha recebido uma ovação muito calorosa a barulhenta. Ele riu acenando para o seu povo. Konecki era bastante venerado por todos do império e sempre recebia elogios por seu ótimo governo. Chiara só almejava ser tão querida e inteligente como o seu pai era.
— A rainha de nosso império que um dia estava nessa arena e eu narrei sua vitória, minha rainha — o locutor falou e Martina riu, desajeitada. — Uma ovação para a rainha Martina Amirah Serbet-Lobos Battaglia.
Certamente, a rainha foi bem mais venerada do que os demais. Claro, ela tinha ganhado aquela luta há uns 27 anos atrás. Para todos, além de uma verdadeira guerreira, ela era escolhida por Ascian para ajudar seu pai a guiar o império, então tudo o que ela falava era muito importante e respeitado. A rainha era uma guerreira de Ascian, embora a mulher sempre dissesse que ganhou por sorte.
— Muito bem. Eu acho que podemos chamar os nossos gladiadores de hoje — o homem riu. — Já tomei bastante tempo de vocês.
Os seis concorrentes que esperavam os portões abrir, finalmente, entraram na arena. Uns sentiam frio na barriga ou ansiedade, outros faziam orações, enquanto outros ficavam quietos perto de seus mentores recebendo dicas. Chiara achava inteligente quem permanecia quieto, pensando em estratégias que usaria para luta. Era bem melhor do que ficar pedindo proteção para um ser que eles nem sabiam se existia de verdade.
Chiara estava tão apreensiva que parecia que ela quem lutaria naquele momento. Os reis ficaram ainda mais empolgados, assim como o restante. Quando o locutor parou com as brincadeiras que fazia para descontrair o público, ele finalmente começou a nomear cada um dos gladiadores.
O primeiro a entrar foi Slo Megloba. Ele tinha 17 anos e vinha de Jobi, que era bem perto de Taverna. A pele dele era bem escura e seu cabelo era crespo. Slo era muito alto e forte, aparentemente, o rei tinha gostado dele ser do Império de Primazia. O segundo foi Borsos Besce, de 21 anos, e esse era extremamente o contrário de Slo. Era muito branco e seu cabelo era liso e loiro, e tinha vindo da região do Reino de Comuna. Essa região não pertencia a nenhum dos impérios, porém era simpatizante e aliado de Primazia. Borsos parecia bastante desanimado e, Kiara apostou consigo, que seria o primeiro a morrer. Terceiro a sair foi Enrique Pontes de 24 anos. Um homem com a pele tom de oliva e cabelo preto, vindo da região de Touni, onde se seguia as mesmas regras de Sacramento e também era dominada por esse império. Aquilo seria um empecilho enorme entre os dois, caso ganhasse. Os outros dois a saírem tinham vindo de Sacramento, literalmente a cidade e capital do império rival. Kiara ouviu seu pai rogar pragas para os dois morrerem logo. O rei achava que era uma afronta que pessoas vindas do império rival viessem a tentar a sorte em Primazia. Os dois que receberam as pragas do rei eram Michael e Stephen Plante, irmãos gêmeos de 18 anos.
Chiara olhou para seus irmãos, pensando se teria coragem de matar algum deles, mesmo que não suportasse Reyna em alguns momentos.
O último a sair foi Louis Castiglione do Reino de Sebastião e tinha 27 anos. Outro que Konecki já tinha rogado suas pragas. O Fundador de Sacramento era de lá, fazendo esse território ser altamente santo e idolatrado por todos que seguiam leis baseadas na religião da Deusa Meridia. Louis tinha cabelos loiros, pele branca, porém com um quê dourado. Ele era forte e pelo jeito que encarava os outros com seus belos olhos azuis, parecia bem inteligente e estrategista.
Chiara apostou consigo que ganharia, pois parecia o mais preparado de todos ali, já que estava focado, forte e maior do que os outros. Naquele momento, ela sentiu-se culpada por não ter lido direito as fichas que lhe enviaram, contando melhor sobre a vida de cada um. Entretanto, ela não queria se apegar a nenhum, pois não queria que a dor da morte deles fosse pior do que seria normalmente. Afinal, eles morreriam ali, com alguma esperança de ganhar e poder casar-se com ela.
Chiara olhou para a sua mãe e ela parecia feliz. Por algum momento, a princesa achou que sua mãe estaria mais empática, demonstrando compaixão aos demais, pois um dia já esteve no lugar deles e quase morreu na arena, só que ela parecia muito mais animada do que todos os outros.
Talvez ver uma luta assim em outro patamar era melhor do que estar lutando — pensou, tentando não ver maldade do ato da mãe.
Um coro de 10 até 0, foi ouvido por todos.
Os gladiadores se aproximaram, tentando atacar um ao outro e todos conseguiram desviar-se. Slo era o que mais ia para cima dos demais. O jovem matou um dos gêmeos de Sacramento com um único golpe bem certeiro com a adaga que ele estava e o rei comemorou, pois estava torcendo por este rapaz. Mas assim que Slo, tirou a adaga do peito do rapaz que tinha matado, Louis atacou-o pelas costas, cortando sua cabeça com sua espada. Ele abaixou-se rapidamente, para pegar a arma de Slo, enquanto os outros três iam para cima dele. Todos pareciam estar contra ele, pois estavam cercando-o e deixando-o sem saída.
— Agora ele morre! — o rei comentou.
Cercado, Louis pensou várias vezes como sair dali e quando viu uma passagem entre dois dos combatentes, passou entre eles, bem na hora que o trio ia atacá-lo. A consequência disso, foi outros dois gladiadores mortos e um ferido. O rei ficou de boca aberta ao ver quão inteligente aquele gladiador era e, de algum modo, ele estava lembrando o jeito de como Martina tinha lutado.
Chiara segurou a mão de sua mãe, enquanto Reyna levantava-se para ver as coisas com mais clareza. Os últimos combatentes a sobrarem foram Louis e um dos gêmeos que mais ninguém sabia quem era quem, pois eles eram idênticos. Mesmo ferido o rapaz conseguiu erguer-se, pondo a mão em sua costela, notando que estava sangrando.
Louis tinha toda a sorte ao lado dele.
Mata! Mata! Mata!
O coro de milhares de pessoas começou a ecoar em um som bastante audível e claro. Até quem estava fora dali, podia ouvir os gritos.
Louis viu tudo passar como uma câmera lenta e a única coisa que ele conseguiu ouvir foi a voz de seu pai dizendo: "ataca, agora!" e foi isso que ele fez, atacou homem, cravando a adaga de Slo em seu peito e enterrando-a mais ainda. Parcela das pessoas ali, comemoram e outras ficaram quietas por decepção de seu concorrente ter morrido. Só que não tinha acabado e a jaula do leão foi aberta.
O rei torcia para que o felino acabasse com Louis e não deixasse-o vencer. Chiara enterrou o resto no ombro de sua mãe, depois levantou-se, tentando ser corajosa e foi para o lado da irmã, na ponta do camarote para ver uma melhor visão do que acontecia.
Louis encarou tanto o leão que sentia a força que tinha dentro de si, borbulhar e querer pular em cima dele. O leão rugiu, deixando todos arrepiados. O animal e o humano movimentaram-se em uma "dança" esquisita, onde um encarava o outro e nada de um ataque. Como um gatinho pedindo carinho, o leão aproximou-se do último gladiador, deitando-se à frente dele como se estivesse prostrando diante de uma figura divina e Louis passou as mãos pela juba do leão, negando-se a matá-lo e sentando-se à frente dele.
— Peça para ele matar o leão! — o rei falou para alguém, sentindo muita raiva.
— NÃO PRECISA! — Chiara aproximou-se do pai. — Sem mais mortes! Por favor, pai, declare-o como vencedor! — ela praticamente implorou com seu olhar.
Como o rei não queria contrariar a filha naquele momento que pertencia somente à ela, mas uma ira subiu por seu corpo, pois Chiara estava querendo mudar as regras para não ver um mísero leão morrendo. Ele sussurrou algo, perto de seu relógio, pedindo para declararem Louis como o vencedor daquela batalha.
Chiara sentiu-se reconfortada ao saber que não teria mais sangue e morte por ali.
— O vencedor é Louis Castiglione — foi anunciado na arena.
Alguns, pelo menos a maioria, comemoraram a vitória, mesmo confusos por não ter tido a famosa morte do leão.
Chiara levou as mãos até o coração, sentindo-o acalmar. Por alguns segundos, ela sorriu e sentiu como se alguma espécie de culpa tivesse saído dela e agradecia por não ter acontecido nada de mal com ela.
Louis foi pego por alguns soldados e o leão o seguiu, sendo colocado em uma jaula.
— Não pode ser! — Reyna ficou indignada. — ELA TINHA QUE MORRER! — gritou cheia de raiva para todos ouvirem e enquanto apontava para sua irmã mais velha.
Com rapidez, Reina puxou o cabelo da irmã, passando para seu pescoço e o apertou forte. Chiara agarrou o cabelo perto da nuca dela, puxando-o, ficando desesperada, pois estava cada vez mais se aproximando da parte aberta e ninguém parecia querer ou tentar ajudá-la. Reyna encostou sua irmã na ponta da sacada, pronta para jogá-la dali. No chão, tinham estacas pontiagudas e plantas com espinhos venenosos. Uma queda ali, tinha mais de 90% de chance de alguém morrer.
Louis que subia as escadas junto com um soldado, quando chegou ao camarote e viu a cena, aproximou-se de Reyna, tentando tirá-la de cima de Chiara e alguns telespectadores gravaram aquela cena.
Reyna olhou fundo nos olhos da irmã e sentiu que Chiara sugava suas energias. Reyna foi ficando cada vez mais fraca e Chiara usou aquilo ao seu favor, empurrando-a para fora do lugar. A monarca virou-se para acompanhar a queda de sua irmã. Os gritos eram inaudíveis por conta do barulho que estava no local e, repentinamente, pareceu que tudo parou e, então, um silêncio reinou ali. Dava até para ouvir as ondas do oceano, já que a arena era na frente de um.
O rei foi até a ponta do camarote, vendo sua filha agonizando por conta dos espinhos e estacas que tinham atravessado o seu corpo. Alguns enfermeiros e funcionários do local tentaram tirá-la dali, porém os esforços pareciam em vão.
— Tirem-na daqui! — a rainha ordenou para os soldados, apontando para Chiara.
Um soldado pegou a princesa pelo ombro, a tirando do local. Antes de sair, Chiara colocou a sua mão no braço do vencedor, fazendo o homem encará-la. Seus olhos eram azuis como um dia claro e sem nuvens e ele estava bem confuso com tudo o que estava acontecendo naquele momento. O soldado que estava com Chiara, pegou a cabeça da mulher, forçando-a olhar para frente e descer as escadas e o barulho que se propagou na hora que ela saiu, foi ficando cada vez mais baixo.
— Bencatel, o rei pediu para levá-la para o palácio — o soldado que estava com ela, entregou-a nas mãos do colega.
Bencatel fez um gesto com a cabeça e guiou a monarca para o lado de fora da arena, mesmo confuso por conta dessa ordem tão incomum.
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