Cheerock
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Victor
– victor, vá ajudar seu irmão a tirar os pêlos do nariz de seu pai! — diz minha mãe no exato momento que entro em casa.
Home sweet home.
Vamos começar assim: minha mãe é de uma igreja metodista, meu irmão é um gênio mauricinho que estuda em escola particular para "dar proveito de seus dons naturais" e meu pai está vegetando há mais de três anos.
Entro no quarto do casal e vejo meu pai pateticamente meio sentado meio deitado na cama encarando o vazio com sua boca aberta e uma mosca prestes a se alojar dentro.
Ah, e claro, meu irmão mais novo e mais inteligente que eu em cima do homem com uma pinça tentando arrancar pêlos rebeldes de um nariz melequento.
Jogo a bolsa no chão e corro pra espantar a mosca antes que ela entre na boca aberta.
– oi Vic — diz Hugo — como foi sua escola particularmente normal?
Faço minha careta usual.
– incrivelmente genial, e como foi seu dia genialmente chato?
– incrível.
Ele cutucou um pêlo encravado no nariz e papai gemeu. O que não é um bom sinal, já que ele quase nunca faz nada, isso inclui gemer.
– me dá isso aqui, você tá fazendo errado! Tirei a pinça da mão de Hugo e o empurrei de seu posto para recomeçar o trabalho.
– tenho dever pra fazer...
– eu digo pra mamãe que você foi extremamente eficiente até eu te tirar daqui aos gritos — falei.
– não acho que ela irá acreditar nisso...
– você quer que eu torne realidade?
Hugo arregalou os olhos e saiu correndo. Ele tem medo de mim sem motivo aparente.
Puxo uma cadeira para a beirada da cama, como faço todos os dias, e começo meu trabalho.
Antes do acidente, meu pai era meu melhor amigo. Ele era o único que realmente me entendia. Mas depois daquele dia terrível, parece que estou sozinho. Estou sozinho ha três anos e por mais que Logan e Teddy sejam ótimos amigos, eles não conseguem suprir a falta que meu pai faz.
– hoje participamos do show de talentos — comecei — aquele que lhe disse... Você precisava ver como todo mundo vibrou quando a gente subiu no palco! Você tinha razão pai, não há sensação melhor do que essa! Quero sentir isso pelo resto da vida.
Nenhum movimento nem sinal de vida. As vezes eu até me pergunto se ele entende o que eu digo, mas eu falo mesmo assim, por que se ele entender, sei que adoraria saber como é nosso dia.
– mas a gente não ganhou... As Líderes de Torcida ganharam. Elas sempre ganham, sempre compram os juízes. Esse ano estava claro como água que nossa apresentação foi melhor, mas eles deram o prêmio para elas. Não que eu me importe com prêmios, mas isso levanta nosso astral, sabe?
Puxei o último fio proeminente.
– acabei — falei vitorioso — você está impecável, como sempre.
Dei meu sorriso mais encorajador.
– tenho dever de casa pra fazer — um beijo na testa dele, como ele sempre fazia quando eu estava cabisbaixo — vai passar pai, eu sei que vai.
Pego minha mochila e vou direto para o quarto, trancando a porta atras de mim. Hoje está tudo normal. Meus pôsteres ainda na parede, meus CDs arrumados, meu quarto exatamente como deixei de manhã.
Mamãe estava, provavelmente, ocupada demais para se preocupar com ele. Ela estava arrumando a casa para a festa de 45 anos de meu pai. Tivemos uma briga feia quando ela decidiu fazer a tal festa e decidimos mutuamente que eu não participaria.
Uma lágrima cai e desliza pelas minhas bochechas. Meu pai sempre me disse para ser honesto com meus sentimentos. Chorar quando tiver vontade, mesmo que todos me chamem de frango. A verdade é que depois do acidente eu sempre deixo para chorar e revelar minhas emoções quando estou sozinho. Talvez seja por isso que o único sentimento que passa é a raiva, e eu sou conhecido como violento no colégio.
Porém hoje foi diferente, olhar nos olhos de Carly me acalmou como os beijos de meu pai me acalmavam.
Tirei isso tudo da cabeça. Pensar demais deixa a gente delirando coisas sem sentido.
Tiro a blusa, fecho as cortinas e caio na cama esperando o sono que vem rápido e duro.
Carly
A minha rua está vazia e silenciosa como sempre. Não é bem uma rua, é um beco sem saída que dá direto para a minha casa.
Espio pela janela antes de entrar e não vejo nada.
Beleza, se for rápida, posso passar por Terrence sem chamar atenção. Abro a porta devagar e o mais silencioso possível. Fecho com cuidado e me viro para subir as escadas e é assim que o vejo. Ele é alto, gordo, cabeludo e mal encarado. Sempre anda com uma regata branca manchada de pizza, uma bermuda imunda e uma lata de cerveja na mão. Hoje, além da cerveja, carrega uma arma. Estremeço inconscientemente.
– olha só quem chegou! — diz ele mostrando seus dentes amarelos e afiados — a putinha do bairro! Como foi a escola hoje?
Estou paralisada. O medo nunca me dominou tão fortemente como agora. Ele já fizeram muitas coisas comigo, mas nunca segurando uma arma.
– eu te fiz uma pergunta, putinha! — ele gritou.
– foi bem — murmurei, com a voz tremendo.
Ele desceu os degraus até ficar frente a frente comigo. Tomou o resto da cerveja, amassou a lata e jogou no chão. Então tomou meu rosto com sua mão imunda e me deu um beijo. O gosto de cerveja me era repugnante. Ele pegou a mão com a arma e passou por baixo da minha saia. Então, tão de repente como veio, ele se foi, sem esquecer de dar um tapa na minha bunda.
Subi rapidamente os degraus e me tranquei no banheiro. Forcei um vômito para tirar o gosto nojento da boca e escovei bem os dentes.
As lágrimas costumavam vir em enxurrada nas primeiras vezes, mas agora elas me faltavam.
Terrence era o marido número 5 de minha mãe. Ela é uma vadia que troca de namorado como quem troca de roupa. Terrence já fora chifrado muitas vezes, mas não se abatia, pois minha mãe sustenta suas cervejas e eu seus desejos sexuais.
É claro, que eu não me sinto confortável, já fugi de casa inúmeras vezes, mas nunca consigo ir longe o suficiente, Terrence sempre me acha e sempre encontra uma maneira de me punir de maneiras cada vez piores.
Tiro a roupa pra tomar um banho. Há cicatrizes de castigos em todos os lugares onde roupas podem esconder. Tomo um banho rápido e corro para o quarto. São só 4 da tarde, mas não me atrevo a ficar acordada ou a descer para comer alguma coisa. Puxo as cobertas até o queixo, mesmo que ainda esteja meio quente e rezo, como sempre faço.
O sono começa a me invadir e sonho com olhos azuis e guitarras elétricas fazendo um som que nunca apreciei antes.
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