Cheerock
3 Capítulo 3
Notas iniciais
VICTOR
– Victor, você é tão lindo — uma voz feminina sussurrou, eu sentia o respirar em minha nuca — tão corajoso e maneiro — a voz riu e continuou — mas é um roqueiro idiota, o que anula tudo.
O sorriso em meu rosto morreu quando finalmente reconheci a voz.
Acordei com um susto e completamente molhado.
– Quem é Carly? — perguntou Hugo. Ele estava todo arrumado com seu uniforme nerd e segurava um balde seco.
– Você me acordou jogando água em mim?!
– Quem é carly?
– Vai se fuder.
Me levantei e corri para o banheiro para me secar.
– Você não parava de repetir o nome dela enquanto dormia.
Terminei e joguei a toalha no chão junto com a roupa molhada.
– Não é da sua conta.
Abri a gaveta e peguei a primeira camiseta que encontrei e a primeira calça que apareceu no caminho.
– É a sua namorada?
– Quem?
– Carly.
Por que eu tenho que ter um irmão tão irritante?
– Não, ela é uma garota que eu odeio, que infelizmente estuda na mesma escola que eu.
– Então por que estava murmurando o nome dela enquanto dormia?
– Tive um pesadelo com ela.
Peguei meu NIKE e calcei, aí lembrei que esqueci as meias e corri para pegar.
– E por que estava sorrindo?
– Foi um pesadelo estranho.
– Você gosta dela.
– Nos seus sonhos.
– Seu subconsciente gosta dela e lhe fez sonhar com ela. Foi um bom sonho.
Acabei de amarrar o cadarço e olhei para meu irmão imprestável.
– Você não está atrasado para sua escola nerd?
– Estou, mas você também está. Ah, além do mais, você não negou.
– Sai daqui agora.
Hugo deixou o balde no chão ao lado de sua mochila, pegou-a e colocou-a nos ombros.
– Até mais tarde.
E saiu tão de repente quanto tinha entrado.
Peguei minha mochila e Mary Ann e corri para o quarto dos meus pais.
– Bom dia — falei beijando a testa de meu pai — estou atrasado, não vou poder falar muito hoje, converso com você quando voltar.
Apertei a mão dele e pensei ter visto ele retribuir um pouco, mas eu sempre tenho essas impressões sem sentido.
Corri para a escada e desci aos saltos.
Minha mãe já estava na porta com um sanduíche e achocolatado de caixinha.
– Você vai chegar atrasado de novo.
– Não vou.
Peguei o café da manhã, subi no skate e voei pela rua enquanto comia.
Cheguei no portão pouco depois de tocar, mas o diretor me viu.
– Para minha sala, Simons — ele disse — chegarei lá em um instante.
Suspirei pesadamente e fui sem pressa para a sala sem graça.
Abri a porta e vi Carly Upsent sentada no sofá roxo. Como eu queria ter acordado mais cedo hoje.
– Bom dia, Emily — falei para a secretária atrás da mesa atolada de papéis.
– Bom dia, Victor. Trânsito novamente? — ela me olhou com sarcasmo por cima dos óculos de fundo de garrafa.
– Sempre! Não sei onde essa cidade vai parar com tantos carros!
Emily deu um risinho e voltou a atenção para seus relatórios.
Sentei no sofá ao lado da puta de torcida mor.
Silêncio sepulcral.
Odeio silêncio.
Peguei o iPod e os fones de ouvido.
– Victor — Emily estava olhando para mim — Nada de aparelhos eletrônicos nessa sala.
Desliguei e guardei na mochila aos meus pés.
– Desculpe. Silêncio sepulcral.
Comecei a ficar nervoso e deslizei no sofá, batendo o pé ritmicamente no chão.
Passados alguns minutos, Carly se virou pra mim, zangada.
– Você quer parar?
– Odeio silêncio, me deixa nervoso..
– Bem, esse barulho me deixa nervosa.
Respirei fundo.
– Foi mal.
Me ajeitei no sofá e comecei a mexer as mãos, balançar a cabeça, estralar os dedos...
– Você é hiperativo.
– Como?
Me virei para Carly, ela olhava de volta com seus braços cruzados.
– Você é hiperativo.
Não consegue parar de se mexer por causa do silêncio.
Puta merda.
– Victor! — gritou Emily — nada de palavrão na escola.
Eu falei isso alto? Que droga.
– Desculpa, esqueci de tomar o remédio hoje.
– Então eu acertei? — falou Carly, parecendo descrente.
– Fala sério né?! Todo mundo sabe que sou hiperativo. Você não lembra da quarta série que eu era castigado todo dia por ficar correndo ao redor da sala e gritando que o mundo ia acabar?
Fase negra da minha vida, quando eu não conhecia as maravilhas do Concentra, o remédio milagroso que me faz focar. O fato de ter esquecido significa que meu dia vai ser inútil.
Carly deu uma risada discreta.
– É, eu me lembro disso. Chamavam você de Taz.
Tive que sorrir, esse apelido me deixara há tempos, mas eu até gostava dele.
Eu mal consigo acreditar que estou tendo uma conversa decente com Carly Upsent. Ela está até sorrindo! Ela nem parece ser tão chata assim e esse sorriso a deixa ainda mais bonita...
A porta se abriu e o diretor entrou — como ele consegue passar pela porta com AQUELA barriga? — na secretaria com a treinadora das putas de torcida atrás.
– Carly, você está liberada.
Ela parou de sorrir automaticamente e pareceu ficar com raiva por ter sido liberada.
– Tanto faz — ela se levantou com o queixo empinado e saiu rebolando pela porta. Adeus Carly legal. Olá Carly normal!
– Quanto a você, Victor, é a quarta vez que se atrasa.
– É o...
– Não existe trânsito da sua casa para a escola, Victor.
Comecei a mexer as mãos.
– Três dias de detenção, uma hora depois das aulas e uma semana suspenso da sua banda.
Me levantei em um salto.
– O que? Não! Me coloque um mês de detenção, pode me colocar o ano todo, mas não pode me suspender da banda!
– Posso e vou.
– Mas...
– Sem "mais" Victor. Se chegar atrasado novamente será um mês suspenso da banda. Agora vá para a aula.
Suspirei.
No corredor achei Carly esperando a aula acabar com um livro de biologia debaixo do braço. A próxima aula é igual para nós dois.
– Como você consegue se safar sempre? — perguntei.
Ela me olhou com olhos de fogo.
– Vai se fuder.
What the fuck?!
– Essa frase é minha Carly.
Então me virei e fui para o armário pegar meu livro.
CARLY
Meu quarto não tem cortinas, o que me faz acordar cedo todos os dias. Hoje não foi diferente.
Tomei meu banho e vesti uma minissaia rosa pink, uma regata branca colada e uma sapatilha de balé. Fofa e sexy. Taylor iria surtar e implorar para voltarmos, mas eu iria humilhá-lo na frente do corredor todo. Seria lindo.
Maquiei-me e desci as escadas, indo diretamente para a cozinha para tomar um café e comer um bolinho.
Terminei e subi novamente para escovar os dentes.
Estava pronta vinte minutos antes do horário de bater o sinal.
Olhei-me uma última vez no espelho e saí do quarto.
– Onde você vai, putinha?
Parei onde estava. Um frio subiu minha espinha e abracei forte o livro que carregava nos braços.
– Tenho aula hoje, Terrence.
– E você vai embora sem se despedir de mim?
– Pensei que estivesse dormindo.
– Olhe para mim.
Meu estômago gelou, mas virei mesmo assim.
– Você sabe que odeio quando usa roupas assim.
Engoli em seco.
– Eu quero ajudar você, putinha — ele foi caminhando em minha direção — mas parece que você é quem não quer se ajudar, se vestindo como putinha.
– Não se aproxime mais ou vou gritar.
– Quem vai gritar aqui sou eu! — berrou ele.
Então ele agarrou meu pulso e me puxou.
– Não! — gritei.
Eu não vi, apenas senti o tapa, e foi tão forte que me derrubou.
– Não grite, você me entendeu? — ele estava segurando meu rosto com força.
Então, Terrence subiu minha saia, tirou minha calcinha e tirou a calça pijama dele. Com força ele entrou em mim. Segurei o grito. Doía, muito.
Ele segurava meus pulsos no chão para eu não me mover e se movimentava com força, gritando coisas sem sentido enquanto tudo acontecia.
Ele acabou e desabou em cima de mim.
As lágrimas desciam de meu rosto, eu estava dolorida e meu peito estava apertado por causa do choro.
Ele se levantou e vestiu as calças de novo.
– Você me dá nojo.
Então cuspiu em mim e chutou minha cintura com força três vezes.
Quando ele já tinha ido embora, corri para meu quarto.
Minha blusa branca foi rasgada onde a bota dele encostou e um pouco de sangue saía de lá, tirando a mancha de sangue. Meu braço também estava manchado e minha maquiagem, borrada.
Lavei o rosto e fiz o possível para esconder a mancha rosada na bochecha. Limpei o ferimento e coloquei um curativo com gaze.
Troquei de roupa para jeans colado e moletom pink e um tenis NIKE branco. Soltei o cabelo e fiz com que ele cobrisse as bochechas.
Peguei a mochila novamente e corri para fora. Felizmente Terrence não estava a vista.
Tentei correr o mais rápido que pude, mas minha cintura doía quando andava.
Cheguei no colégio exatamente no momento que o sinal tocou, mas o diretor me viu.
– Para minha sala, Upsent.
Suspirei e comecei a andar para a secretaria, mas a treinadora me segurou, justamente no braço dolorido.
– Atrasada, Carly?
– Desculpe, tive imprevistos.
– Vou dar um jeito de anular o atraso da sua ficha.
– Não! — desvencilhei meu braço dela — me deixe em paz! Quero lidar com meus próprios problemas!
Ela me olhou séria, mas continuei para a sala da diretoria.
– Bom dia, Sr. Humperford — falei para a secretária antes de me sentar do sofá.
– Bom dia, Carly — ela respondeu sem nem me olhar.
A porta se abriu e Victor Simons entrou com a mochila em um ombro e a guitarra no outro.
– Bom dia, Emily — ele falou.
Ai, que maravilha, na mesma sala com Victor Simons. Será que a Sr. Humperford tem uma arma na escrivaninha dela só pra eu me matar rapidinho?
– Bom dia, Victor. Trânsito novamente? — ela olhou para ele? Ela olhou para ele e não olhou para mim?!
– Sempre! Não sei onde essa cidade vai parar com tantos carros.
Aha! Ele está tentando ser engraçado. Victor Simons engraçado! Vou vomitar.
A secretária riu — RIU!?- e voltou ao que estava fazendo.
Ele sentou e olhou para o teto.
Em um movimento brusco ele busca o iPod e os fones.
– Victor, nada de aparelhos eletrônicos nessa sala. Ele guardou, nervoso, e murmurou desculpas.
O roqueiro então deslizou no sofá e começou a bater o pé ritmicamente.
– Você quer parar?
Ele me olhou, deu pena da expressão nervosa dele.
– Odeio silêncio, me deixa nervoso.
– Bem, esse barulho me deixa nervosa.
Ele fechou os olhos e respirou fundo, depois abriu-os novamente.
– Foi mal.
Ele começou a se mexer.
Muito.
Mexeu as mãos, os pés, a cabeça, os dedos, enfim, tudo.
Minha vocação para psicóloga gritou uma palavra e antes que pudesse me conter já tinha dito.
– Você é hiperativo.
Sem parar de se mexer ele me olhou.
– Como?
Cruzei os braços, não vou ficar por baixo agora.
– Você é hiperativa, não consegue parar de se mexer por causa do silêncio.
– Puta merda! — ele lançou.
Foi um pouco engraçado.
– Victor! — gritou a Sra. Humperford — Nada de palavrão na escola!
– Desculpa, esqueci de tomar o remédio hoje.
O quê? Eu acertei? Vou ser uma psicóloga brilhante!
– Então eu acertei? — falei para confirmar.
– Fala sério né?! Todo mundo sabe que sou hiperativo. Você não lembra da quarta série que eu era castigado todo dia por ficar correndo ao redor da sala e gritando que o mundo ia acabar?
Victor era o Menino Apocalipse?! Eu achava aquele garotinho lindo e fofo na época! Mas ele sumiu no ano seguinte... Ah, lembrei. Ele só parou de surtar.
– É, eu me lembro disso. Chamavam você de Taz.
Ele sorriu, mostrando as tão amáveis covinhas do Menino Apocalipse.
Ah, eu me lembro agora! Nós éramos amigos! Conversávamos sobre possíveis modos de o mundo acabar. Mas parei de ir ao colégio por causa do terceiro marido da minha mãe, que me batia. Quando voltei ele estava quieto e nos distanciamos.
A porta se abriu e o diretor entrou, seguido pela treinadora.
– Carly, você está liberada.
Não acredito! Ela fez com o diretor, mesmo eu dizendo que queria me virar sozinha? Eu odeio essa mulher.
– Tanto faz — falei com raiva e saí da sala com queixo erguido.
Só do lado de fora, percebi que não disse tchau para Victor ou para Sra. Humperford.
– Sua ficha está limpa — a treinadora falou atrás de mim.
Olhei-a com ódio.
– Então terei que me esforçar mais para sujá-la novamente.
Corri pelo corredor e parei o mais longe que pude com a cintura dolorida.
Peguei o livro de biologia da mochila e abracei-o.
"Não posso me lembrar dessa manhã ou vou chorar" pensei. "Sou uma garota forte, posso sobreviver o dia sem derramar uma lágrima".
Depois de um tempo Victor vinha dobrando o corredor. Minha próxima aula era com ele.
Ele me viu e veio em minha direção.
– Como você pode se safar sempre?
Eu devia ter adivinhado que aquela cena na secretaria era só temporária. Victor Simons voltou ao seu normal.
Ele não entende que não quero me "safar" sempre. Ninguém entende. E como poderia ? Quem não quer se "safar" sempre? — Vai se fuder — falei de súbito.
Ele pareceu impressionado por um momento mas deu um sorriso.
– Essa frase é minha, Carly.
Ele se virou e foi embora, me deixando com uma vontade de rir e uma reviravolta repentina no meu humor.
É, eu vou sobreviver hoje.
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