Cheerock
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Carly
Era a tarde de uma segunda-feira e era o dia do festival de apresentações dos grupos. As meninas corriam de um lado para o outro retocando a maquiagem, ajeitando suas saias, prendendo seus cabelos, mas no fundo estavam todas impecáveis.
Mas ninguém estava mais perfeita do que Carly Upsent, a chefe das líderes de torcida. Seu cabelo loiro claro estava preso em um rabo de cavalo bem preso formando leves cachos nas pontas, seus olhos verdes estavam levemente maquiados e seu corpo de dar inveja estava costumeiramente ajustado ao uniforme.
Eu sou Carly e sim, sou perfeita.
Um sorriso para o espelho com meus lábios fartos e rosados e percebo que estou estonteante.
Até semana passada eu namorava o cara mais lindo desse colégio, mas Taylor Focusing, o quarterback do time de futebol, me traiu com uma vadia do clube de literatura. Desde então dedico todo meu tempo livre em tornar a vida dos dois um inferno. E era isso mesmo que eu estava fazendo quando saí do vestiário e dei de cara com ela.
– ora, vejam só! — falei ácida — se não é a ratinha de biblioteca, ladra de namorados.
Anderson arregalou os olhos e segurou o livro que carregava mais perto do corpo. Os cabelos ruivos estavam soltos e não combinavam nada com seus óculos grandes demais.
– e-e-eu estava só indo para o palco arrumar nossa apresentação, C-c-carly — ela adoravelmente gaguejou de nervosismo — por favor me deixa ir.
Eu senti um forte de ar de presa e predador ali. Anderson olhava para o chão com as bochechas queimando e as mãos suando. E eu estava de queixo erguido com meu natural ar de superioridade.
– ah, mas é claro, querida — dei o melhor sorriso reptiliano que consegui.
Ela saiu correndo pelo corredor. Segui-a com o olhar segurando uma risada.
Voltei-me para o corredor e dei de cara com Victor Simons. Ele estava encostado na parece com uma das sobrancelhas arqueadas e seu olhar cético de sempre. Sua guitarra estava pendurada no ombro.
– o que foi — disse seca.
– nada — ele deu de ombros — estava apenas observando o demônio agir.
Bufei. Ninguém me irritava mais do que Victor Simons.
– fala o cara que canta músicas endemoniadas.
Ele se endireitou e franziu as sobrancelhas. Amo vê-lo com raiva.
– rock e metal não são músicas endemoniadas, na verdade são bem mais críticas do que Britney Spears.
Revirei os olhos.
– tenho coisa melhor pra fazer do que ficar trocando ofensas com... Gente como você.
Ele fez uma careta de nojo.
– é o que eu diga.
Viramos em direções diferentes e seguimos pelo corredor.
As 10 em ponto era o horário das líderes de torcida se apresentarem. No horário, nos organizamos no palco e dançamos Work Bitch enquanto eu cantava e dançava ao mesmo tempo. A chuva de aplausos que eu tanto amo se seguiu e eu tive certeza que ganharíamos o concurso de talentos que estava sendo paralelamente organizado.
Então, logo em seguida foi a vez da banda de Victor se apresentar. Eram os últimos. Todos estavam usando calças jeans, blusas de bandas como Metallica e Slipknot. Victor usava uma camiseta do Linkin Park e um jeans preto.
Eles começaram a tocar Faint. A platéia foi ao delírio.
Por um segundo até fiquei com medo de perder, mas rapidamente me lembrei que a treinadora disse que perder não seria possível para nós. Ela provavelmente comprara os juízes com seu charme e um pouco de sexo como sempre fazia. Tudo para ganharmos. Ela era nojenta.
Eles acabaram sua música e todos aplaudiram e gritaram.
Victor sorria de um jeito que eu nunca o vira sorrir antes, se é que algum dia eu já o vira sorrir.
Passados 15 minutos o diretor subiu ao palco e começou com todo aquele discurso de boas vindas aos calouros e explicou sobre os clubes da escola.
– espero que tenham todos um bom ano! — disse ele terminando o discurso como sempre terminava — e agora vamos aos vencedores do concurso de talentos! Lembrem-se que no final do ano teremos um show de talentos mais abrangente para o público! — e nós ganharíamos esse também, com um leve toque de influência da treinadora — e agora, sem mais delongas — sem mais o que?! — vamos ao vencedor — ele tirou um envelope branco e fez a clássica tensão, mas todos sabíamos que o vencedor não estaria escrito ali, era apenas um papel em branco — parabéns.... Equipe das Líderes de Torcida!
Comemoramos com sorrisos e leves toques de mão enquanto subíamos ao palco.
Recebemos o troféu pela centésima vez e tiramos foto com o diretor.
Mais tarde, quando estava indo embora esbarrei com meu pesadelo de nome Victor novamente e ele estava com muita raiva.
– eu sei que aquela vitória não foi justa, Upsent — ele disse meu nome com nojo — sei que compraram os juízes.
Dei uma risada.
– prove então.
Ficamos um tempo assim, um olhando nos olhos do outro, um com mais raiva que o outro.
Foi então que eu percebi que Victor tinha olhos impossivelmente azuis, quase transparentes. Como nunca notei isso antes? Era até... Bonito.
– tanto faz — ele disse de repente e saiu pelo corredor.
Só então que meu transe se desfez. Eu estava mesmo achando Victor Simons bonito?! BONITO?! Sacudi a cabeça para tirar o pensamento horrendo e segui meu caminho para casa olhando para o céu claro e pensando o quanto pareciam com aqueles olhos.
Victor
Lá estava ela, o amor da minha vida, a única que me mantinha firme e em pé, que me fazia suspirar de amores e que nunca saía da minha cabeça um só segundo sequer: minha guitarra.
Passei o verão inteiro reformando-a e comprando novos adereços e hoje, eu e minha banda vamos quebrar a tradição de vitória das putas de torcida.
Minha blusa do Linkin Park pra combinar com a música que íamos tocar, um jeans qualquer, meu tenis nike, o brinco que uso na orelha esquerda e o alargador da direita. Passo a mão no cabelo preto pra assanhar e estou pronto.
– ei Sim, cadê o espelho? — pergunta Teddy, o baterista. Ele tem complexos com o visual desde que a ex, Anderson, o traiu com Taylor, a estrela do time de futebol.
– eu sei lá, mas você tá legal — respondi.
Ele revirou os olhos e saiu a procura do espelho.
O nervosismo começava a me cercar, como sempre acontecia antes de uma apresentação, mas no fim sempre dava certo.
Resolvi olhar o placo antes do show para ver como era o lugar.
Pendurei Mary Ann (minha guitarra) no ombro e fui para o corredor.
Anderson Mattes esbarrou em mim apressada segurando um livro qualquer.
Victor Simons (ou seja, eu) não odeia ninguém, isso é completamente fora do normal, mas Andy é uma excessão. Seu jeitinho acanhado é o disfarce da verdadeira cobra que esconde atrás dos óculos grandes demais.
E então saída da porta do vestiário aparece Carly Upsent, a puta de torcida mor.
Anderson parecia realmente temer a garota, pois não desgrudou os olhos do chão e quando Carly a dispensou saiu correndo pelo corredor como uma presa fugindo do predador.
Então a loira me viu.
– o que foi — ela disse sem emoção.
– nada — falei procurando algo para complementar e mostra-la quem era o macho alfa aqui — estava apenas observando o demônio agir.
Ela pareceu aturdida por um momento, mas Carly Upsent nunca fica por baixo por muito tempo.
– fala o cara que canta músicas endemoniadas.
Desencostei da parede. Não bastava minha mãe com seus dogmas exagerados rasgando meus pôsteres, quebrando meus CDs e arrancando meus brincos.
– rock e metal não são músicas endemoniadas, na verdade são bem mais críticas do que Britney Spears.
Ela revirou os olhos com as mãos na cintura. O uniforme de líderes de torcida consistia em uma blusa curta sem mangas e uma saia curta demais ambas das cores branco e roxo. Num rápido espaço de tempo rolei meus olhos de cima a baixo e constatei que sim, Carly Upsent era muito gostosa, mas não faz meu tipo. Gostosa e burra é uma mistura ruim, especialmente quando junta arrogante no pacote.
– tenho coisa melhor pra fazer do que ficar trocando ofensas com... Gente como você.
Ela disse fazendo careta.
– é o que eu diga.
Então ambos seguimos nosso caminho.
Não posso mentir e dizer que Carly não é bonita. Meu Deus ela é linda, mas é muito idiota também. E por mais que tenha notas impecáveis, todos sabem que são por cola, como todo o time de futebol e de torcida.
Cheguei ao palco e vi, com admiração que era grande e espaçoso. Perfeito.
Nossa apresentação era logo após as líderes de torcida. Elas dançaram Work Bitch (Britney Spears, pra variar) e Carly cantou, como sempre. A salva de palmas foi impressionante, mas eu sabia que não seria melhor que a nossa.
Entramos no palco e percebi que estava certo. Todo o colégio parecia animado. Cantamos Faint comigo no vocal e guitarra, enquanto Logan, o baixista, fazia as partes pesadas de heavy metal que minha voz não fazia.
Acabamos e fomos saudados com gritos e palmas. Nossa vitória era certa.
Alguns minutos depois o diretor subiu no palco segurando o envelope branco de mentira. Ele era um velho, careca, gordo que gostava de usar roupas que o deixavam mais gordo ainda.
Ele fez o típico discurso que só muda a ordem das palavras e foi direto anunciar o vencedor.
O grupo de líderes de torcida.
Puta que pariu.
– isso tá tão errado — murmurou Logan.
E estava mesmo. Elas sempre, SEMPRE, compravam a vitória e dessa vez não foi diferente.
A raiva me subiu a cabeça e eu tive que ir para fora da escola esmurrar alguma coisa.
Chutei a lata de lixo até meu pé doer e pousei a cabeça na parece roxa. O suor pingando no chão.
Não sei quanto tempo fiquei ali remoendo minha raiva, mas foi tempo suficiente para me esbarrar com nada mais nada menos que Carly Upsent indo embora do colégio.
Não pude ficar calado.
– eu sei que aquela vitória não foi justa, Upsent — tentei dar ênfase no nome dela — sei que compraram os juízes.
Ela pôs as mãos na cintura e empinou o nariz para me olhar nos olhos.
– prove.
Ficamos assim, um olhando para o outro.
A raiva foi deixando meu corpo. Não entendi como, mas olhar seus olhos abrandou minha raiva e relaxou meu corpo.
Antes que algo mais acontecesse eu disse um "tanto faz" e saí pelo corredor.
Olhei para traz a tempo de vê-la saindo pela porta.
Droga, Carly Upsent é linda demais. E eu mal consigo acreditar que por um breve momento realmente pensei em beija-la.
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