Cheerock

15 Capítulo 14


Notas iniciais
Oi pessoal! Desculpe a demora!! Espero que gostem desse aqui!

Carly

Janice fez uma festa de natal simplesmente de arromba. Tinha mais gente naquela casa do que poderia caber na final do campeonato do MBA. Todo mundo estava conversando e rindo, até Hugo estava conversando com uma garota. Só uma pessoa não estava lá.

Passei por todos os cômodos, perguntei para quantas pessoas eu conseguia, mas Victor não estava em lugar algum. E procurando mais a fundo também não conseguia achar Janice.

A multidão começou a me imprensar demais, eu não conseguia respirar. Subi as escadas para ficar em um lugar mais tranquilo. Finalmente achei Janice no quarto com o marido. Ela segurava sua mão e chorava muito, soluçando e tremendo. Por mais que eu quisesse ficar sozinha, não conseguiria ficar olhando aquilo sem fazer nada.

– Janice?

Ela se levantou com susto e limpou as lágrimas com um sorriso forçado.

– Carly, querida, por que não está lá embaixo com todo mundo?

– Está cheio demais e eu não conseguia achar você ou Victor... você está bem?

Ela suspirou.

– Victor não gosta do natal nem de festas de fim de ano – ela sentou novamente na cadeira ao lado do marido e pegou sua mão – Eu também não gosto, mas é importante mostrar para todos quão forte somos, não é mesmo?

Aproximei-me e sentei na beirada da cama.

– Para quê serve uma festa se a anfitriã não está lá para aproveitar?

Ela deu um sorriso fraco.

– Ah, Carly... o natal passou a ser um fardo para mim. Eu preciso fazer essas festas de arromba para que todos pensem que estou bem. Hugo gosta, mas Victor odeia.

– Mas a senhora não está bem.

Ela abaixou a cabeça e vi que mais lágrimas começavam a cair.

– Eu detesto o natal... detesto o natal...

– Janice... – eu não sabia o que fazer, ela parecia inconsolável. Levantei-me e fui para mais perto dela, passando a mão em suas costas para consolá-la.

Ela chorava cada vez mais, tremia cada vez mais e apertava a mão do marido cada vez mais.

Olhei ao redor para saber o que fazer, talvez algo naquele quarto poderia fazê-la parar de chorar. Então eu vi no criado-mudo que o porta-retratos de Janice e o marido abraçados e sorrindo, estava coberto de flores, como um santuário ou...

Abaixei-me de frente para ela e segurei a mão livre.

– Janice... eu sinto muito...

Ela me olhou e apertou minha mão. Ficamos nos olhando e com o tempo ela parou de chorar.

– Obrigada, Carly.

Sorri para ela. Se me colocasse no seu lugar tenho certeza de que cada natal seria uma facada em meu coração.

Ajudei-a se levantar. Sua maquiagem estava completamente borrada.

– Vem – falei – Vou retocar sua maquiagem.

Sentamo-nos em sua penteadeira e comecei meu trabalho. Não sei se isso é algo que devo me orgulhar, mas quando se trata de maquiagem eu sou nível pro.

– Eu sinto muito por você ter de ver isso.

– Não tem problema – falei – Eu realmente quero ser útil.

Ela pôs sua mão na minha, me fazendo borrar o delineador.

– Você é a inquilina mais perfeita que alguém poderia ter – ela tirou a mão e viu a mancha – Oh, desculpa.

– Tudo bem.

Comecei a ajeitar e refazer.

– Sabe, antes de você vir aqui, Victor era muito fechado em seu próprio mundo. Ele chegava da escola, falava com o pai e se trancava no quarto.

Que mudança, afinal, ele continua se trancando no quarto. Comigo, claro.

– Mas...

– Pelo menos agora ele não está sozinho.

Ah, se ela soubesse que sua adorável inquilina passa o tempo livre agarrando seu filho...

– Ele sempre se culpou pelo que aconteceu com Victor... o pai.

Lembro-me que ele já comentou algo assim para mim... que fora sua culpa.

– E foi mesmo? – perguntei curiosa.

Ela suspirou.

– Tantas coisas que poderíamos ter feito diferente para que o acidente não acontecesse... Creio que cada um teve sua parcela de culpa. Victor se culpa, pois foi o último a cometer o erro.

Terminei a maquiagem e Janice se levantou.

– Obrigada, Carly.

– Não há de quê.

– Vamos descer para aproveitar a festa?

– Na verdade, agora vou procurar o Victor...

– Ele está no telhado, sempre fica lá. Muito cuidado, não suba, é escorregadio.

– Obrigada, Janice.

Subi a escada para o sótão e vi que a janela estava aberta. Olhei pela janela e vi uma escadinha que levava para mais alto ainda. Tirei os saltos e subi as outras escadas. Finalmente eu o achei.

Ele estava de costas, abraçando os joelhos. Usava uma calça jeans escura e uma blusa social preta.

Subi no telhado e engatinhei até onde ele estava torcendo para não escorregar. Estava com tanto medo que quando cheguei perto agarrei sua blusa e puxei para me equilibrar melhor. Ele se virou e finalmente me viu.

Ajudou-me a sentar na dobra do telhado e sentou ao meu lado.

– Oi – falei.

Ele continuou só olhando o nada, encarando o céu. Estendi a mão e limpei uma lágrima que escorria pela bochecha.

Encostei minha cabeça em seu ombro e olhei o céu. Estava muito bonito, cheio de estrelas e sem nuvens. A lua estava cheia e brilhante. As casas da rua estavam todas enfeitadas de natal – menos a nossa, que estava muito mais simples e menos brilhosa, como que de luto. Então percebi que Janice, Hugo e Victor estavam todos de preto e minha roupa rosa começou a pesar na consciência.

Perdi a noção de quanto tempo ficamos ali, calados. Victor não falava nada e de vez em quando eu o olhava e limpava uma ou outra lágrima. Eu nunca pensei que fosse ver Victor Simons chorar, mas lá estava ele. Era a segunda vez que chorava na minha frente.

O som da festa estava muito distante, era apenas um zumbido composto de algo ritmado e gargalhadas.

Em certo ponto ouvi um barulho mais alto e persistente, era meia noite. Comecei a murmurar minha música natalina favorita: “I want a hippopotamus for christmas*”. (Eu quero um hipopótamo de natal*).

Uma brisa fria passou e estremeci. Era inverno e por mais que não nevasse em Louisiana (n/l.: o estado americano mais ao sul que eu achei, bem ao lado do Texas), em certas épocas do ano as noites eram frias e aquela certamente era uma noite fria.

Victor passou o braço pelos meus ombros e me abraçou. De repente tudo pareceu ficar mais quentinho.

– Feliz natal, Carly.

Sorri. Isso era definitivamente o natal mais feliz da minha vida, por mais que eu tenha visto duas das pessoas que eu mais prezo chorando.

– Feliz natal, Victor.

Senti um beijo no topo da minha cabeça e não pude deixar de alargar o sorriso.

– Vamos descer.

Ele me ajudou a sair do telhado e parecia ter muita experiência naquilo, pois se mexia com movimentos precisos e nem vacilava. No sótão, calcei a sandália e descemos para a festa.

– Você não tá com fome? – perguntei enquanto descíamos – Não comeu nada o dia inteiro.

– Estou bem – falou.

Chegamos ao final da escada e todos se calaram. Olhei ao redor e percebi que estavam todos olhando para nós, surpresos.

Victor fez uma cara de mal.

– Se não pararem de me encarar vou colocar Slipknot para tocar na noite de natal.

Todos voltaram a fazer o que faziam antes, mas pareciam conversar mais baixo, em alerta.

Ele pegou minha mão e me arrastou para a cozinha.

– Slipknot? – perguntei.

– A maioria aqui é da igreja da minha mãe, não gostam muito de heavy metal.

– Ah.

Ele colocou refrigerante em um copo de plástico e começou a bebericar.

Ele parecia um adolescente que acabara de levar o primeiro fora, com cabelos bagunçados e o olhar distante.

– Victor.

Janice entrou pela porta da cozinha e a fechou com pressa para que os curiosos ficassem de fora.

– Feliz natal, mãe.

Janice começou a chorar de novo – por sorte eu coloquei rímel a prova d´água.

– Oh, meu amor.

Ela correu para seus braços e eles se abraçaram.

Saí de fininho para o jardim e sentei na grama, olhando o céu tão bonito.

– Definitivamente o melhor natal de todos... – murmurei comigo mesma.

Victor

Eu odeio natal. Foi no natal que eu fugi há três anos.

Todo ano, nessa mesma noite, eu tinha esses ataques de lembranças desagradáveis. Todo ano, nessa mesma noite, minha mãe fazia uma festa gigantesca em que todos fingiam que ela estava bem.

Eu sabia que ela saía para chorar no quarto com meu pai. Eu sempre via e não conseguia fazer nada. Eu nunca sabia o que fazer.

Nesse ano, porém eu já estava preparado. Antes mesmo da festa sequer começar eu fugi para o telhado. O silêncio e a brisa fria me fizeram ter um flashback.

**

Eles tinham expulsado vovô de casa, brigado comigo por notas baixas e mamãe tinha proibido qualquer coisa que pudesse ser “relacionado ao demônio” isso incluía minhas músicas, meus jogos, meus livros, meus filmes, meus amigos e minhas roupas. Eu estava com muita raiva.

Para piorar, o Muse ia dar um show bem perto da casa de um amigo meu e eles não tinham deixado eu ir por que “o natal é para ser passado junto”.

Eu estava com tanta raiva que fugi e fui parra o show mesmo assim.

Quando eu estava na fila para entrar, ouvi meu pai me chamando no meio da multidão e tentei me esconder, mas ele já tinha me visto e estava vindo.

– Victor quantas vezes eu vou ter que dizer...

– Ah pai, pelo amor de Deus, vai embora! – o sangue começou a esquentar e eu a gritar – Eu te odeio! Odeio todos vocês!

– Eu sei que você não se sente mesmo desse jeito Victor, por favor, venha comigo, eu tenho algo para dar a você.

– Eu não quero nada que venha de você. E saiba que eu realmente me sinto desse jeito! Eu odeio você e quero que você morra!

Ele parou deu um sorriso.

– Você parece tanto comigo...

– Eu não quero parecer com você, eu não quero ter nada a ver com você.

Ele sorriu mais ainda.

– Eu te amo, Victor.

– E eu te odeio.

Ele olhou para o céu e depois caminhou para a rua.

Do nada uma caminhonete passou ziguezagueando e passou por cima dele. Tomei um susto tão grande que minha primeira reação foi recuar, depois eu gritei.

– Pai!

Corri para ele. Suas duas pernas estavam em uma posição estranha e estilhaços de vidro saíam de todo seu corpo. O pior era o sangue, por todo o canto. Vendo essa cena corri e agarrei-o em meus braços.

– Pai! – gritei novamente – pai... – falei com a voz embargada do soluço do choro.

Minha visão estava embaçada, mas pude ver seus olhos entreabertos e um sorriso fraco.

– Pai, eu te amo, eu não quero que você morra! Vamos passar o natal juntos, todos os natais, eu juro que nunca mais saio de perto de você... – ele estava fechando os olhos, eu não queria que ele os fechasse, eu o queria vivo — ...não me deixa pai...

Agarrei-o com todas as minhas forças que eu tinha.

– Não me deixa pai...

**

Sacudi a cabeça para tirar aquela memória horrenda da minha mente. É por isso que eu odeio o natal... eu nunca mais pude passa-lo com meu pai.

Ainda lembro que nos reuníamos todos ao redor da árvore, sempre brilhante e linda, e cantávamos vários hinos de natal. Meu pai tinha um que ele realmente gostava, até depois do natal ele ficava sempre murmurando aquele hino.

Abracei meus joelhos. Estava ficando muito frio, mas eu não queria descer para pegar um casaco. Além do mais eu nunca me juntava nas festas da minha mãe e eles ficariam assustados em ver que o demoníaco e insensível Victor Simons estava chorando.

Algo puxou minha blusa por trás e me virei só para ver Carly quase caindo do telhado. Eu não queria falar com ninguém, mas mesmo assim não queria ficar sozinho. Por isso a ajudei a se sentar e fiquei ao seu lado.

– Oi.

Mas eu não queria falar nada, e ela entendeu. Na verdade, ela limpou uma lágrima que já estava descendo e encostou a cabeça em meu ombro.

Ter Carly ali tornou o natal até ligeiramente mais confortável, mas mesmo assim eu ainda sentia uma pontada de dor no peito.

Suspirei. Carly olhou para mim, limpou uma lágrima e voltou à posição inicial.

Estava bom assim. O céu bonito e brilhante, a brisa nem estava mais tão fria assim e Carly fazia eu não me sentir tão só.

De vez em quando ela se levantava novamente e limpava mais lágrimas, até não existirem mais lágrimas para ela limpar.

As pessoas começaram a se cumprimentar abaixo de nós, o que significava que era meia noite.

Carly começou a murmurar exatamente a música favorita do meu pai. Eu não fazia a mínima ideia de como ela sabia, mas isso fez eu me sentir feliz. Sorri pela primeira vez em três natais. Carly Upsent me fez sorrir sem nem abrir a boca.

Uma nova brisa passou e ela estremeceu. Passei os braços ao redor dela para aquecê-la e ela realmente se aninhou neles.

Percebi que eu não tinha mais aquela necessidade de ficar calado.

– Feliz natal, Carly.

– Feliz natal, Victor.

Beijei o topo de sua cabeça. Eu não sabia como agradecê-la por ficar ali comigo, mas pensei que isso poderia dar conta do recado.

Senti vontade de desejar natal pra minha mãe, para Hugo e até mesmo para meu pai.

– Vamos descer.

Ajudei Carly a descer as escadas, a calçar as sandálias e a andar com aquele salto gigantesco.

– Você não tá com fome? Não comeu nada o dia inteiro.

– Estou bem – respondi.

Todos se calaram e ficaram nos encarando. Eu sabia que devia ser um choque para eles ver o filho revoltado aparecer na festa de natal, mas aquilo começou a me incomodar.

– Se não pararem de me encarar vou colocar Slipknot para tocar na noite de natal.

O murmúrio recomeçou e para mim era o suficiente. Peguei a mão de Carly e fomos para a cozinha, aonde ninguém ia.

– Slipknot? – perguntou ela.

– A maioria aqui é da igreja da minha mãe, não gostam muito de heavy metal.

– Ah.

Servi um pouco de refrigerante e fiquei bebericando enquanto tomava coragem para sair dali novamente e falar com minha mãe no meio de tanta gente.

– Victor.

Mamãe entrou na cozinha e trancou a porta para que nenhum intrometido espiasse.

A expectativa era grande demais, eu sabia que eu deveria falar alguma coisa, era importante para ela. E por mais que eu negasse para mim mesmo, também era importante para mim.

– Feliz natal, mãe.

Ela começou a chorar e eu sorri, chorando também.

– Oh, meu amor.

Ela correu e nos abraçamos forte. Era a primeira vez que eu dava um daqueles abraços de urso na minha mãe e eu realmente não queria mais soltá-la.

Aquele era o melhor natal que eu poderia pedir.

Notas finais
Soooooo....??? Review time!! Feliz natal (atrasado) e feliz ano novo (adiantado) pra vocês!! Kisses.