Chasing Treasures
7 Segredos e Citrinitas.
Notas iniciais
"Por dois anos nós vivemos juntos nas ruas. Ele roubava e se metia em problemas e eu emendava seus cortes pela noite. Minhas habilidades em curar os ferimentos que Don sempre tinha foram aumentando com o passar do tempo até chegar a um ponto em que eu conseguia curar quase tudo o que ele arranjava.
'Clare...' Ele me chamou enquanto eu enrolava uma gaze em seu braço.
'Cala a boca, Brandon, eu sei que dói.'
'Por um diabo, já mandei você não me chamar de Brandon.' Ele rosnou. 'E eu não ia reclamar, ia te avisar que achei aquela mulher de quem você tanto fala.'
A mulher de quem Don comentava era Marian Low, uma curandeira mundialmente famosa que estivera em uma cidade próxima de nós algumas semanas antes."
"A Marian?! Marian Low, curandeira e escritora renomada?!" Eu fiquei boquiaberta. Eu tinha pelo menos uns 4 romances de Marian, mais um livro sobre ervas medicinais e mais um estudo sobre anatomia humana (não que me interessasse, mas um mercador vendeu para mim por três moedas de cobre, e aceitei de bom grado).
"Sim, essa daí." Clare sorriu e prosseguiu.
"Sério?! e onde ela tá?' Perguntei, ansiosa por ir atrás de conselhos de uma mestra.
'Só te digo com uma condição.' Os olhos dele brilharam.
'Fala qual é, pirralho!'
'Me dá um beijo.' Ele disse com um sorriso decidido no rosto.
'Por que eu faria isso?!'
'É a minha condição.'
O que eu ia fazer? O beijei. Um beijo estranho pois era o primeiro de nós dois, então nossos lábios se chocaram e ficaram grudados por alguns longos e desconfortáveis segundos.
'Isso foi...' Balancei minha cabeça. 'Onde ela está?'
Brandon levantou um dedo e piscou os olhos.
'Mais uma simples condição.' Os olhos de Don estavam sérios. 'Toda vez que nos encontrarmos você repetirá o que acabou de fazer, para nós nunca esquecermos do que passamos juntos.'
'Don, o que te leva a pensar que vamos esque-'
'Prometa.' Ele fixou seus olhos verdes em mim.
Dei um longo suspiro e assenti. Naquela época achava que ele estava apenas aproveitando-se do momento para me beijar, mas percebi que toda aquela história sobre 'esquecer' fazia sentido. Assim como a maioria das coisas 'malucas' que Bran costuma falar, essa só fez sentido muito tempo depois quando parei pra pensar sobre aquele ocorrido com mais calma. Ele sabia que eu ansiava em ser aprendiz de Marian, eu poderia não ter plena certeza sobre aquilo, mas ele via. Nossa separação era iminente, ele tinha sua ambição fixa de ir para o mar e buscar vingança enquanto eu iria ser uma curandeira. O beijo foi um símbolo que ele tinha a mão, uma coisa que sempre que fizéssemos íamos lembrar de como um ajudou o outro durante um dos momentos mais escuros de nossas vidas.
E assim uma tradição surgiu."
Clare estava à beira das lágrimas e eu olhava fascinada para ela, impressionada pela história, pensando sobre tudo o que eu havia acabado de descobrir sobre Brand e tocada pela amizade forte e duradoura que eles tinham (mesmo que eu achasse que o beijo não fora ''apenas'' um símbolo, a não ser que fosse um símbolo de safadeza mirim de Brandon).
"Então... Vocês se separaram?" Perguntei.
"Sim. Poucas semanas depois do meu primeiro encontro com Marian ela havia decidido que ia me adotar como aprendiz. Brandon embarcou num navio dois dias depois da minha mudança para o atelier de minha nova mestra."
"E foi logo depois ou demorou algum tempo para você se tornar uma alquimista?" Perguntei sem rodeios, com um sorriso torto nos lábios.
Clare ficou branca como um papel.
"Fale mais baixo!" Ela rosnou. "Como você descobriu?!"
"Os resquícios de giz no chão, o cheiro de enxofre, e aquele quadro ali" Apontei para um quadro que a pessoas normais pareceria normal, uma daquelas imagens onde um sol e uma lua se completam. "Você tem Citrinitas estampado na parede do quarto! 'O amarelar da consciência lunar'!"
Clare olhava embasbacada para mim.
"Sim, eu tenho alguns conhecimentos sobre alquimia. Nada muito químico, mas digamos que sou acima da média."
"Acima da média?! Você reconheceu o símbolo de Citrinitas no meio de um quadro perfeitamente inocente!" Os olhos grandes e azuis de Clare estavam arregalados.
"Conhecimento teórico e só. Anos e anos entre os livros tinham que servir para alguma coisa, não acha?" Falei com armagura.
"Nós precisamos ter uma longa conversa, Tris Collins..."
"Eu tenho uma semana de 'recuperação de navio', não tenho? Deixo você perguntar o que quiser contanto que me deixe fazer o mesmo." Sorri para ela.
"Ótimo. Qual a razão de toda a aura de mistério cada vez que você toca em algum assunto sobre a sua história?"
"Todos temos nossos segredos..." Fiz uma careta de dor quando minhas costelas quebradas se moveram.
"E você pode me contá-los?" Clare perguntou e eu ri.
"Se eu contasse não seriam segredos, seriam?"
"É, acho que não. Mas nenhuma pessoa normal tem acesso a livros de Alquimia."
Eu poderia dizer que não sou uma pessoa normal, poderia me abrir com Clare sobre todo o meu passado, mas obviamente não fiz isso, existem segredos que nunca devem ser contados.
"Bom, eu tive." Sorri.
"Quem lhe vendeu? O ramo de Alquimistas por esse lado do país é pequeno, se eu não souber o nome da pessoa é provável que ela seja algum clandestino e não podemos deixar alquimistas não-federados por aí, Tris."
"Não direi."
"Mas você disse que eu podia perguntar qualquer coisa!" Clare falou, frustrada.
"Eu falei que você podia perguntar, não lembro de ter acordado nada sobre responder."
Ela se recostou na cadeira e riu.
"Você está parecendo muito com o Don."
"Isso devia ser um elogio?" Fiz uma careta.
"Não." Ela disse, séria.
"Foi o que eu imaginei."
E nós duas gargalhamos como se fôssemos velhas amigas.
Fale com o autor