Charlie e o Curioso Mundo de Sophia
33 Capitulo 33
Depois de Jake ter ido embora, fui para minha casa. Meu avô estava assistindo um jogo de futebol que passava na TV com o volume bem alto. Minha mãe tentava fazer Raphael parar de chorar, pois ele berrava tão alto que poderia incomodar os vizinhos. Minha avó fazia o jantar e ouvia música no seu radinho de pilhas que sempre ficava na cozinha. Então acho que dá para você imaginar o quão tranquila estava minha casa naquela noite. TV com o narrador dando berros como “Na traaaaave”, bebê chorando e músicas antigas e bregas tocando no rádio. Para piorar a situação minha avó ainda cantava em suas partes preferidas.
Com todo aquele barulho e confusão, fui para meu quarto. Lá parecia ser o único lugar que eu poderia ter um pouco de sossego. Mas por incrível que pareça, eu me enganei. Quando entrei em meu quarto, a primeira coisa que fiz foi me jogar em minha cama com um mega pulo. Infelizmente o barulho que minha família fazia dava para ouvir do meu quarto. Peguei meu celular e fiz uma “Lista de reprodução” das músicas mais calmas possíveis que eu tinha gravado em meu cartão de memória. Conectei o fone no celular e comecei a ouvi-las. Peguei também um livro e tentei ler. Digo tentei, porque o barulho que minha família fazia conseguia ser maior que o volume das músicas calmas que eu estava ouvindo. Fiquei irritado, muito irritado. Eu queria um pouco de silêncio, então tirei os fones de ouvido, larguei o livro na cama e desci pisando forte no chão. Ao chegar na sala de estar, percebi que o barulho parecia ter aumentado 3 vezes mais.
– Vô abaixa o volume da TV? – pedi calmamente –
– O que? – Disse ele –
– Abaixa o volume da TV! – Repeti –
– Charlie, você tem que falar mais alto, não consigo te ouvir! – Disse ele –
– Você poderia me ouvir se abaixasse o volume dessa maldita TV. – Gritei, pegando o controle remoto da TV e abaixando o volume. –
Para minha surpresa, todos ouviram e me olharam.
– Vó desliga esse rádio, não sei como você consegue ouvir esse tipo de música e ainda mais nesse volume e mãe, por favor, faz o Raphael para de chorar. – Falei, nervoso –
Ouve um silêncio e todos me olhavam, mas aquele silêncio foi interrompido pela campainha da casa.
– O que poderia ser agora? – Perguntei –
Vi todos ali dentro olharem eu andar até a porta e abri-la. Para a surpresa de todos e minha quem estava do lado de fora de minha casa era meu pai, Harry. Ele estava sorridente e com algumas sacolas em suas mãos. Sorri e o abracei.
– Pai! – Falei enquanto o abraçava. – Eu ia ligar para o senhor ainda hoje.
Ele largou as sacolas no chão e também me abraçou fortemente.
– Desculpa não te ligar esse dias.
– Tudo bem!! – Falei – Pode entrar!
Peguei algumas sacolas e o ajudei a coloca-las dentro de casa. Quando o olhei, percebi que ele estava olhando para minha mãe Judite e ela estava olhando para ele.
– Oi Judite! – Disse ele –
– Oi. – Disse minha mãe –
Pude perceber que minha mãe não olhava diretamente para o rosto de meu pai. Não o olhava nos olhos. Ela deve estar com vergonha, pensei. Mas depois pensei melhor. Vergonha era pouco. Não sei ao certo o que ela sentia naquele momento, mas era bem maior que vergonha. Era mais para arrependimento e tristeza.
– Oi Harry, tudo bem? – Disse minha avó interrompendo o silêncio –
– Tudo sim, e com a senhora?
– Tudo maneiro. Só o Charlie que teve um momento de fúria agora a pouco. – Disse minha avó –
Comecei a rir no momento que ouvi aquilo.
– Do que você está rindo, Charlie? – Perguntou ela –
– Você disse tudo “maneiro”. – Falei em meio a risadas –
– Só estou tentando ficar mais atualizada nas gírias de hoje em dia. – Disse ela com um sorriso –
Todos riram naquele momento.
– Tudo bem Sr. Joseph? – Perguntou meu pai –
– Tudo sim e com você? – Respondeu meu avô –
– Tudo bem.
– Que tanto de sacolas são essas pai?
– São umas coisinhas que comprei para vocês.
Minha mãe pegou Raphael no colo.
– Licença. – Disse ela –
– Onde você vai Judite? – Perguntou meu pai –
– Vou deixar vocês à vontade. Não quero atrapalhar. – Ela ainda não o olhava nos olhos –
– Mas eu também trouxe uma coisa para você! Ou você acha que eu seria mal educado de trazer um presente a todos e para você não?
– Não precisa de me dar presente, eu não preciso de nada.
Minha avó, meu avô e eu apenas ficamos olhando para eles. Meu pai a encarava, mas minha mãe desviava o olhar, virava a cabeça, olhava para o chão, mas não olhava para o rosto dele.
– Eu insisto.
– Deixa de besteira mãe, fica aqui. Aproveita que tem presente para você. – Falei sorrindo –
Eu não queria que os dois voltassem. Só queria que os dois pelo menos fossem amigos, ou pelo menos tentassem se dar bem. Falando sério, os dois não tinham nada de parecido um com o outro. Acho que não dariam certo se namorassem ou casassem. Então eu preferiria que isso não acontecesse.
– Eu não estou me sentindo bem, eu vou para o quarto. – Minha mãe nos deu as costas –
– Então leve o que eu trouxe para você e para seu filho. – Disse meu pai –
Meu pai tirou dois pacotes embalados em papeis de presentes de tamanho médio da sacola e se dirigiu até onde minha mãe estava. Ele entregou os presentes e sorriu. Dava para ver que meu pai não era daquelas pessoas que guardavam mágoas, ou ficava com raiva por muito tempo. Minha mãe pegou os pacotes com dificuldade, pois estava com Raphael no colo. Ela começou a subir as escadas, mas de repente parou e pela primeira vez olhou para meu pai.
– Obrigada.
Meu pai acenou com a cabeça e minha mãe se virou e voltou a subir as escadas indo para o quarto. Meu pai se virou para nós e sorriu. Pegou as outras sacolas e tirou mais três pacotes embalados em papel de presente colorido. Um ele deu para meu avô. O presente de meu avô era uma blusa de manga cumprida xadrez, bem do jeito que meu avô gostava. O presente da minha avó era um kit de beleza e um brinco. O meu era um relógio, que por sinal era um relógio bastante bonito. Dei um abraço em meu pai agradecendo. Minha avó e meu avô também agradeceram ao meu pai.
– Pai, tenho uma novidade! – Falei –
– Eita! Uma novidade? Vai, me fala que novidade é essa. – Disse ele se sentando no sofá e fazendo um sinal para que eu me sentasse ao lado dele. –
Me sentei e continuei.
– Eu fui convidado para fazer parte de uma banda.
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