O semblante de meu pai mudou. Ele ficou mais sério, como se não gostasse do que eu havia acabado de dizer.

– Fazer parte de uma banda? – Perguntou ele –

– É... Não é bacana? – Respondi –

– Bacana? – Perguntou novamente – É incrível, Charlie. Sabe, quando eu era jovem...

– Você ainda é jovem, pai. – Interrompi –

Harry sorriu.

– Quando eu tinha mais ou menos a sua idade eu queria ter uma banda, só que talento para a música eu nunca tive.

– Só que com o Charlie foi o contrário, ele tem um grande dom para a música. – Disse meu avô – Ele foi convidado para ser o vocalista da banda.

– O amigo que o convidou estava aqui a pouco tempo atrás. – Disse minha avó –

Harry abriu outro sorriso e me olhou. Ele estendeu a mão e bagunçou meu cabelo.

– Você me enche de orgulho, Charlie. – Disse ele –

Senti meu rosto queimar de vergonha. Todos estavam me olhando orgulhosos e realmente, saber que todos se orgulham de você é muito bom. Você sente uma espécie de vergonha boa, sente uma vontade de sair correndo dali, só que para gritar de felicidade. Sente vontade de rir e de abraçar a todos. Sente até uma pequena pitada de vontade de chorar.

– Vocês estão me deixando com vergonha. – Falei –

– Vergonha do que, querido? – Perguntou minha avó –

Eu não sabia o que responder.

– Você tem um talento, Charlie. – Disse meu avô – Não tem que ficar com vergonha.

Olhei para o meu pai e ele acenou com a cabeça positivamente, como se concordasse com o que meu avô e minha avó disseram. Sorri e continuei:

– Pois é. – Falei – Amanhã depois da aula vou conhecer o resto dos integrantes da banda na casa do Jake.

– Posso ir junto? – Meu pai perguntou –

– É claro que pode.

Ficamos conversando por mais ou menos até Onze horas da noite. Depois meu pai se despediu de mim e foi para o hotel onde ele estava hospedado, pois não havia lugar para ele dormir em minha casa. O Quarto minúsculo que sobrara estava hospedado pela minha mãe e não havia nenhuma possibilidade de eles dormirem no mesmo lugar.

Quando fui me deitar, pude refletir no quanto aquele dia havia sido longo e em quantas surpresas ele havia me reservado. Primeiro o convite de Jake, segundo a despedida de Kari, terceiro o choro de Sophia e em quarto a visita de meu pai. Definitivamente aquele dia tivera momentos altos e baixos. Havia sido um grande dia. Me perguntei se no dia seguinte o dia seria tão agitado quanto aquele. Sinceramente? Eu desejava que não.

[...]

Acordei de madrugada com o choro de Raphael. Como uma criança podia chorar tão alto? Me levantei e fui até o minúsculo quartinho frio em que minha mãe estava. A porta estava semiaberta e minha mãe carregava meu irmão de um lado para o outro, balançando-o devagarinho para que ele parasse de berrar. Bati na porta e Dona Judite logo olhou para mim.

– Está tudo bem? – Perguntei –

– Sim, está. – Respondeu ela – Não precisa se preocupar.

– Certeza?

– Sim – Disse ela sorrindo, mas com um semblante preocupado – Vá dormir que amanhã você tem aula, querido.

– Ok. – Falei –

Eu estava indo embora, mas algo me deteve. Voltei ao quarto em que minha mãe estava.

– Mãe?

Ela me olhou aparentando estar cansada. Sorriu e fez um gesto com a cabeça para que eu continuasse a falar.

– Posso pegar ele no colo? – Perguntei –

– O que? – Ela parecia surpresa – Ah, sim, claro que pode.

Fui em direção a ela e peguei meu irmão no colo. Ele era mais pesado do que eu imaginava. Como uma criança de apenas dois anos pode pesar tanto? Me perguntei em pensamento. Raphael me olhou com os olhos cheios de lagrimas. Comecei a sussurrar palavras como Calma, shiiii, mas ele não parecia gostar daquilo pois ele começou a chorar ainda mais. Sentei-me na beirada da cama de minha mãe e comecei a cantar Posso ser Feliz, a música que cantei para Kari na escola. Raphael aos poucos foi parando de chorar e foi dormindo com o som da melodia.

– Você canta bem! – Sussurrou minha mãe –

– Obrigado. – Sussurrei de volta –

Com o tempo Raphael dormiu. Percebi que aquele quarto era extremamente frio para uma criança daquele tamanho, poderia ser isso que o estava incomodando e o fazendo chorar. Então, convidei minha mãe para dormir em meu quarto com seu filho e eu dormiria no quartinho onde ela estava. No início ela não concordou, mas eu insisti e ela finalmente aceitou.

Dormi o resto da madrugada ali naquele quarto pequeno e frio. Mas eu me sentia bem, me sentia orgulhoso do que eu havia feito. É sempre bom saber que uma pessoa está bem por nossa causa.