Charlie e o Curioso Mundo de Sophia
32 Capitulo 32
Não me lembro da última vez que vi Sophia chorar. Também não me lembro de outro dia que ela olhou para o fundos dos meus olhos. Autistas não costumam olhar nos olhos das pessoas, mas daquela vez ela olhou.
– Porque você está chorando? – Tornei a perguntar –
Ela me olhou com os olhos lacrimejando e tristes.
– Eu não consigo, eu não consigo ler Charlie. – Disse com a voz falhando –
Peguei o livro de sua mão calmamente e vi que as páginas estavam em perfeito estado. Haviam apenas algumas gotas de lagrimas em algumas páginas dele, o que não impedia de ler. Então previ que o problema não era com o livro, mas sim com a Sophia.
– Calma, Sophia. – Falei –
Estendi a mão e passei sobre o rosto da autista, acariciando.
– Agora me diga. – Falei calmamente – Porque você não está conseguindo ler.
Ela balançou a cabeça negativamente devagar. Repetiu o gesto várias vezes, cada vez mais rápido. Chegou um momento em que ela balançava a cabeça tão rápido e eu tive que segurar seu rosto para que ela não se machucasse. Jake me ajudava a segurá-la. Sophia começou a mexer o corpo bruscamente e gritar. Alguns momentos ela gritava palavras como “ler” e “quero”. Dakota entrou no quarto desesperada pelos gritos da filha. Quando a vimos, Jake e eu largamos Sophia e a autista correu para a mãe e a abraçou.
– Calma filha. – Disse Dakota passando a mão sobre a cabeça da autista. –
– Eu quero ler. – Disse novamente Sophia, batendo as mãos na mãe. –
Jake e eu nos olhamos. O semblante do meu amigo era uma mistura de susto misturado com preocupação. Acho que eu estava sentindo a mesma coisa que ele. Eu estava assustado e preocupado. Jake então se aproximou de Sophia e pegou a mão dela. Sophia se soltou.
– Sophia... que tal eu ler para você? – Perguntou –
– Ela está aprendendo na escola, mas esse processo demora. – Disse Dakota –
Jake e eu concordamos com a cabeça.
– Então... Que tal nós dois ajudarmos a ela a aprender mais rápido? – Disse Jake apontando para mim – As férias estão chegando e vamos ter mais tempo.
– Bom idéia. – Falei –
Cheguei mais perto de Sophia.
– Que tal Jake e eu te ajudarmos a ler. Você quer tanto isso não é?
Ela fez que sim com a cabeça. Jake deu um sorriso e eu repeti o gesto. Dakota também deu um sorriso, só que meio constrangedor e triste, como se estivesse forçando.
– Eu sinto muito, querida. – Dizia Dakota chorando. – Desculpa por não te dar o que você precisa.
Dakota chorava. As lagrimas desciam pelo seu rosto sem parar. Sophia as enxugava com a palma da mão. A garota passava a mão sobre o rosto da mãe, delicadamente. Dakota a abraçou fortemente e nos agradeceu por tudo o que fizemos a ela.
Ficamos na casa de Dakota e Sophia por pouco tempo. Queríamos deixar a mãe e a filha conversarem, ou pelo menos tentarem. Dakota parecia mesmo preocupada. Tudo aquilo estava acontecendo – pelo menos na minha opinião – porque Sophia não estava indo no médico para se tratar. Além do médico, Sophia devia frequentar uma escola mais adequada para ela. Uma escola onde o ensino seja mais apropriado para pessoas com necessidades como ela.
– Temos que fazer uma coisa. – Disse Jake quando saídos da casa de Dakota –
– Isso é verdade. – Falei –
Ficamos em silêncio por alguns instantes. De repente, meu amigo parou em minha frente sorridente.
– O que foi? – Perguntei, confuso –
– Tive uma ideia.
– Que ideia?
– Isso vai nos ajudar bastante e ajudar Dakota e Sophia também. Você não vai precisar pedir dinheiro aos seus pais nem aos seus avós para ajudar elas.
– Epa, então diga que ideia é essa. – Falei ansioso. –
– Que tal nós doarmos secretamente uma parte da nossa renda com os shows para elas?
– É.... – Falei – é uma boa ideia, mas será que os outros integrantes vão concordar?
– Verdade – Disse ela com a mão no queixo – Mas deixa que com eles eu me entendo. Vou falar com eles ainda hoje.
– Ok, mas me conta mais sobre essa idéia! – Pedi –
Jake me contou todo o plano. Ele queria que além dos shows nos bares e festas, fizéssemos algumas apresentações na rua para arrecadar ainda mais dinheiro. O dinheiro seria dividido entre os integrantes da banda, e cada um – que quisesse – doasse uma quantia para Dakota e Sophia. No final do mês iriamos colocar uma embalagem com o dinheiro na caixa de correio delas. Assim Dakota não iria ficar constrangida e nem iria saber que erámos nós que estávamos fazendo aquilo.
– Que tal a gente deixar junto com o dinheiro uma mensagem de incentivo, força.... – Falei –
– Boa ideia. – Disse Jake – Isso vai ajudar bastante.
Discutimos várias ideias até anoitecer. Tomamos café da tarde e depois Jake foi embora para sua casa, feliz e satisfeito. Eu também estava assim. No dia seguinte eu iria conhecer os outros integrantes da banda e começaríamos a ensaiar. Eu estava torcendo para tudo dar certo, eu queria que desse.
Fale com o autor