Charlie e o Curioso Mundo de Sophia
31 Capitulo 31
Ao caminho de minha casa, muitas lembranças se passavam pela minha cabeça. Todos os meus momentos ao lado de Kari. A meu primeiro encontro com ela, o nosso primeiro abraço, a nossa primeira conversa. Tudo. Eu não queria mais pensar naquilo. Já era passado, eu queria pensar no futuro. No próximo dia Kari iria embora e nunca mais nos veríamos, eu tinha que seguir em frente. Eu tinha que vencer aquele obstáculo, não seria uma partida que iria me deixa para baixo. Eu não podia deixar a tristeza me vencer.
Me encontrei com Jake em frente à minha casa. Ele me olhava como se esperasse alguma coisa.
– E? – Perguntou –
– Ela vai embora. – Respondi – Cara, eu não quero falar nisso, eu quero esquecer. É melhor para mim.
Ele fez que sim com a cabeça, concordando.
– E o que nós vamos fazer, agora? – Perguntou novamente –
– Vem comigo. – Falei –
Fomos para casa de Dakota e Sophia. A porta da casa estava aberta. A mãe da autista estava fazendo uma faxina em sua casa. Os móveis estavam todos desorganizados e fora do lugar. Os talheres em cima da mesa da sala de estar, sofá perto da escada, tapeta enrolado em cima da mesa de jantar, televisão no chão.
– Oi, Charlie e.... – Dakota olhava para meu amigo –
– Esse é o meu amigo Jake. – Falei – Jake essa é Dakota, mãe da Sophia. Aquela garota que estava aqui quando chegamos.
Jake apertou a mão de Dakota, cumprimentando-a.
– Prazer. – Falou ele –
– Só não reparem a bagunça. – Disse Dakota – Estou limpando a casa toda e jogando coisas que não uso fora.
– Precisa de ajuda? – Perguntei –
– Se vocês puderem me ajudar, eu agradeceria muito.
– Tudo bem por você, Jake?
– Tudo bem, não tínhamos nada para fazer mesmo. – Respondeu ele –
Começamos a ajudá-la.
Em meio a conversas, nós varríamos os cômodos, tirávamos a poeira de utensílios, colocávamos o que não prestava em caixas para jogarmos fora e colocávamos os eletrodomésticos onde Dakota nos mandava.
– Onde está a Sophia? – Perguntei quando eu estava arrastando o sofá para o seu lugar com a ajuda de Jake. –
– Ela está no quarto, dormindo, eu acho.
– Ela não te ajuda na faxina? – Perguntou Jake –
Dakota parou o que estava fazendo e olhou para Jake.
– Bom, digamos que ela não gosta muito de ver as coisas fora do lugar. – Disse sorrindo –
– Ah, entendi. – Disse Jake –
– Ela fica meio histérica quando percebe que, por exemplo, o sofá não está no mesmo lugar que ela está acostumada a ver e para limpar eu preciso tirar as coisas do lugar – Dakota apontou para o sofá –
– Autistas tem dificuldade para se acostumar com coisas novas. – Expliquei – Está no mesmo lugar de sempre, Dakota?
Dakota parou em frente ao sofá e colocou as mãos sobre a cintura.
– Está sim. – Disse ela – Quando Sophia vê que alguma coisa está fora do lugar, ela tenta a todo custo colocá-la no lugar. As vezes ela até se machuca com isso.
– Não querendo me intrometer na sua vida – Disse Jake – Mas, você leva ela no médico, frequentemente?
Dakota abaixou a cabeça e nos virou as costas. Ela pegou os talheres em cima da mesa da sala de estar e os levou para a cozinha. Quando voltou, percebi que o seu semblante havia mudado. Ela não estava mais sorridente como antes, estava com um semblante meio triste.
– Desculpe, eu não queria me intrometer demais. – Disse Jake constrangido –
Pude perceber que Jake havia se arrependido de perguntado aquilo.
– Não, tudo bem. Eu não estou levando ela no médico nesses últimos meses. – Confessou –
– Porque? – Perguntei surpreso e preocupado –
– É que... – Ela hesitou – É que eu não tenho tido dinheiro. Fui despedida do meu emprego e não consegui arranjar outro ainda.
– E o pai da Sophia, o seu marido? – Perguntou mais uma vez Jake –
– Ele faleceu pouco depois da Sophia nascer. O dinheiro que nos chega é pouco e...
– Porque você não me falou isso antes? – Perguntei – Meu avô e minha avó poderiam ajudar.
– Eu não quero incomodar, isso não é um dever de vocês. – Disse ela abaixando mais uma vez a cabeça –
Ela limpou a poeira da mesa e depois mergulhou o pano em um balde com água e espuma. Tirou o pano, o torceu e começou a limpar o restante dos móveis.
– Está certo, não nosso dever. Mas a gente pode ajudar. – Insisti – Acho que não nos vai atrapalhar em nada.
Jake estava pensativo. Apoiava o queixo na ponta da vassoura, como se tivesse pensando em algo muito importante. Cutuquei ele com o braço e ele me olhou confuso.
– O que você acha disso? – Perguntei –
– Oi? – Perguntou, ainda confuso –
– Você ouviu o que eu disse?
– Claro. É uma ótima opção. – Disse ele –
Sorri e peguei a vassoura dele.
– Acho que já terminamos por aqui. Só falta limpar ali e pronto. – Dakota apontou para um lugar atrás de nós. –
– Pensa nisso. – Falei – Se você estiver precisando, não será incomodo nenhum em te ajudar.
Ela concordou com a cabeça e sorriu.
– Posso subir para ver Sophia? – Perguntei –
– Pode sim. – Ela respondeu, constrangida. –
– Eu posso ir também? – Jake perguntou – É que... eu gostaria de conhecer melhor a Sophia.
– Para que? – Falei, desconfiado ou enciumado. Não sei muito bem como me senti naquele momento –
– Ah... para ser amigo dela, igual a você. – Disse ele timidamente –
De longe, Jake podia parecer meio doido com seus estilo rockeiro, mas quando você o conhece, descobre que ele é totalmente diferente do que você pensava. Simpático, educado – talvez até mais que eu – e não ficava com aquelas doidices que muitos rockeiros fazem.
– Vamos então. – Falei sorrindo –
A porta do quarto não estava fechada, apenas encostada. Sophia estava sentada na mesma cadeira de sempre. Seu quarto estava organizado, tudo estava igual. Sophia usava um vestido com estampas de flores. Ela tinha em suas mãos um livro azul, pude ler “A culpa é das Estrelas”. Sinceramente, eu não sabia que Sophia sabia e gostava de ler. Jake e eu chegamos perto dela. Coloquei a mão sobre o seu ombro e a chamei.
– Sophia... – Chamei –
Ela me olhou com os olhos cheios de lagrimas. Olhei para Jake, preocupado.
– Sophia, porque você está chorando? — Perguntei –
Fale com o autor