Acho que posso dizer que aquele almoço ocorreu tudo conforme o planejado. Não que eu tenha planejado algo, mas tudo ocorreu bem. Jake havia se dado muito bem com minha família, principalmente com meu avô Joseph. Eles ficaram conversando por um bom tempo sobre bandas e cantores antigos. Quando contei sobre o convite que Jake me fizera na escola, todos ficaram animados. Minha avó disse que estava orgulhosa de mim, minha mãe sorriu e meu avô apertou minha mão e me deu os parabéns. Meu meio irmão Raphael batia palmas e sorria. Tudo estava bem, exceto pela sensação de tristeza que de vez em quando surgia ao me lembrar de Kari.

– Você tem que contar isso para o seu pai, Charlie! – Dizia minha avó –

– Verdade.

O sorriso de minha mãe desapareceu quando ouviu o que minha avó disse. Ela abaixou a cabeça e ficou calada. Parecia que ela não queria ouvir sobre o meu pai.

– Estranho. – Falei – Faz quase uma semana que ele não me liga.

Meu pai sempre me ligava à noite, mas já fazia exatamente 5 dias que ele não me ligava. Com toda aquela preocupação em relação a Kari, eu não havia percebido isso.

– Hoje à noite vou tentar ligar para ele. – Falei –

– Ele já sabe que estou aqui? – Perguntou minha mãe –

Olhei para ela e confirmei com a cabeça.

– Seu pai é separado da sua mãe, Charlie? – Perguntou Jake, confuso –

– Cara, é uma longa história. – Falei desanimado em contar tudo – Digamos que eles já não se veem já faz um bom tempo.

– Ah!

Pouco depois de todos nós almoçarmos, ouvi alguém bater na porta. Meu avô foi ver quem era e quando abriu a porta, ouvi alguém dizer: “Poderia chamar o Charlie, por favor?”. Jake e eu esticamos o pescoço o máximo que podíamos para ver quem era.

– Charlie, é para você! – Disse meu avô saindo de nossa frente –

Kari nos viu e eu a vi.

– Jake? – Perguntou ela –

Meu novo amigo acenou com a mão. Levantei e fui até ela. Kari, chamou Jake com a mão e ele se levantou e se juntou a nós. Saímos de casa e sentamos na beirada da calçada.

– Você vai mesmo? – Perguntei –

– É... Vou. – Ela me respondeu –

– Vai para onde? – Perguntou Jake, confuso –

– Ir para outro estado. – Kari e eu falamos juntos –

– Eu não sabia disso.

– É por isso que ela não tem ido esses dias a escola. – Expliquei –

– O que você está fazendo aqui na casa do Charlie, Jake?

– Eu o convidei para almoçar por agradecimento ao convite que ele me fez.

– Que convite? – Perguntou Kari –

– Eu convidei o Charlie para fazer parte da minha banda. – Respondeu Jake –

– Não sabia que você tinha uma banda.

– Ele tem. – Falei – Pena que você não vai nos ver.

– É.

Voltamos à estaca zero. O silêncio. Ficamos alguns minutos apenas olhando o céu. Kari estava sentada entre Jake e eu. Ela parecia triste. Seus olhos não tinham o mesmo brilho de antes.

– Você quer mesmo ir, Kari? – Perguntei –

Ela me olhou com doçura e respondeu:

– Parte de mim quer ir. Mas outra parte bem maior não quer. Outra parte quer ficar aqui, quer ficar perto de quem eu gosto e amo. – Disse ela olhando no fundo dos meus olhos –

Abaixei os olhos e fiquei pensando no que dizer. Fiquei pensando no que fazer.

– Se eu te pedisse para ficar, você ficaria?

– Acho que não, já está tudo planejado para eu ir e....

– E se eu te pedisse para ficar, só que comigo, ao meu lado? – Interrompi e perguntei novamente –

Jake me olhou surpreso, Kari parecia ainda mais surpresa. Os olhos dela começaram a lacrimejar. Um sorriso tímido se formou em seu rosto. Ela tentava falar alguma coisa, mas o choro a impedia. Peguei e beijei as costas de sua mão direita.

– Eu sei que sou meio confuso, mas o que eu tenho certeza é que se você for fará uma grande falta em minha vida. Eu não tenho certeza do que eu sinto por você, mas eu quero que você me ajude a descobrir.

– Eu não posso te ajudar. – Disse ela –

– Não? – Perguntei, frustrado –

Ela balançou a cabeça negativamente e depois abaixou o rosto.

– Isso você terá que descobrir sozinho. Acho que minha ida vai ser boa para isso. – Levantou a cabeça e me olhou – Com a minha ausência, você vai descobrir o que sente por mim.

Ela me abraçou, depois abraçou Jake e se despediu. Foi andando lentamente, mas com o tempo apertou os passos até começar a correr de volta para a casinha que ela estava morando nos últimos dias.

– Você gosta dela? – Perguntou Jake –

– Eu não sei! – Respondi –

– Cara, você é muito confuso. Ou você gosta ou não gosta. Se você não quer ver ela longe, corre atrás dela e faça uma loucura, não sei, faça alguma coisa que a convença, que convença aos pais dela a ficar. Mas faça algo verdadeiro, algo que venha marcar, algo que você queira fazer a muito tempo, mas não teve coragem. Mesmo se não der certo, pelo menos você tentou.

Concordei com a cabeça e me levantei. Jake fez o mesmo e ficou me observando.

Acho que de todas as pessoas no mundo, a mais confusa sou eu. Eu não queria ser assim. Acho que todas as pessoas tem esse direito, quero dizer, de ficarem confusas quando se trata do amor, acho que sou um caso raro. Mas chega a hora de decidir o que devemos fazer. Chega a hora que devemos tomar decisões. Foi o que fiz. Eu estava cansado das minhas incertezas, das minhas dúvidas. Eu tinha que arriscar. Se eu não me arriscasse, nunca seria feliz. Como Jake disse, mesmo que não desse certo, eu não queria um dia parar e pensar: Eu podia ter feito diferente. Corri atrás de Kari. Eu não podia deixa-la ir. Não mesmo.

– Boa Sorte!

Ouvi Jake gritar, mas não parei para responder. Continuei correndo até avistá-la. Quando eu a avistei, gritei seu nome. Ela estava conversando com os pais, mas se virou imediatamente quando ouviu seu nome. Os pais dela também olharam para mim, sem entender. Corri até parar em sua frente. Kari parecia assustada, sem reação. Foi então que eu a abracei fortemente, o mais forte que eu podia, sem machucá-la. Segurei seu rosto com as mãos e a olhei nos olhos por alguns instantes. Aproximei meu rosto do dela e a beijei.

Quando eu a soltei, percebi que os pais dela estavam assustados com o que eu havia feito. Kari também estava assustada e surpresa.

– Eu tenho certeza do que eu quero. – Falei – Eu quero você.

– Charlie...

– Se não tiver como você ficar, eu irei entender, mas... – Olhei para os pais dela – O que eu mais desejo é ter a filha de vocês por perto. Perto de mim, o maior tempo possível. O quanto der.

Eles se entreolharam.

– Você deve gostar muito da minha filha! – Falou o pai –

Acenei que sim com a cabeça.

– Ela também gosta bastante de você, garoto. – Disse a mãe – Mas não é tão simples assim. Nó vendemos nossa casa aqui e já compramos outra no lugar onde vamos nos morar. Não há como voltar atrás.

Os olhos de Kari estavam cheios de lagrimas, iguais aos meus. Limpei meu rosto e acenei com a cabeça que havia entendido.

– Ok, pelo menos eu tentei, não foi? — Falei em um sorriso meio constrangido. -

Kari fez que sim com a cabeça.

– Então... desejo uma boa viagem para vocês. — Falei, entristecido -

Frustrado, virei-me e fui andando para casa. Mas em questão de segundos, senti braços em volta do meu corpo. Kari me abraçava fortemente por trás, como se nunca mais fossemos nos ver. Talvez ela esteja certa, pensei. Virei-me e a abracei também. Nos beijamos, pela última vez e eu fui. Fui entristecido para casa.

Notas finais
Bom, está aí mais um capítulo. Estou escrevendo ele desde que terminei o anterior. Fiz várias alterações e mesmo assim não ficou do jeitinho que eu queria. Bom, mas espero que vocês tenham gostado. Desculpe se decepcionei vocês com o rumo da história. Abraços.