Charlie e o Curioso Mundo de Sophia
27 Capitulo 27
Quando abri os olhos percebi que o céu estava repleto de estelas. A lua estava tão bonita naquele dia. Olhei para Kari. Ela estava com um sorriso no canto da boca mas seus olhos estavam cheios de lagrimas. Uma lagrima desceu sobre seu rosto e eu a enxuguei. Eu estava meio confuso. Bom, na verdade, eu estava muito confuso.
– Desculpe. – Disse ela – Eu sei que não tinha o direito de fazer isso.
– Não se preocupa. – Falei, ainda confuso –
– Você não deve estar entendo nada, não é? – Perguntou com um sorriso tímido e com a voz trêmula –
– É... Acho que não.
Kari respirou fundo.
– Eu gosto de você, Charlie. – Ela fez uma pausa e tirou os fios de cabelos que estavam caídos em seu rosto. — Mas não gosto apenas como uma amiga, eu gosto de você de um jeito diferente.
Fiz que sim com a cabeça, acenando que havia entendido.
– Eu sei que você não gosta de mim desse jeito mas.... – Continuou – eu te amo mesmo assim.
Aquelas palavras, “Eu te amo” e aquela voz. Foi quando passou pela minha cabeça a lembrança de quando eu estava no hospital, a lembrança de alguém sussurrando em meu ouvido aquelas três palavrinhas. Foi quando percebi que foi Kari que havia se declarado para mim aquela vez.
– Então foi você! – Falei calmamente –
– O que? – Perguntou –
– Foi você que disse que me amava no hospital. – Expliquei –
– Ah... – Ela suspirou – É, fui eu.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Eu não sabia o que dizer a ela. Bom, isso sempre acontecia comigo. Eu sempre não sabia o que fazer, eu sempre não sabia o que dizer. Kari me olhou no fundo dos meus olhos e sorriu.
– Você deve estar confuso, não deve saber o que fazer. Acertei? – Disse ela. As bochechas rosadas e seus olhos esverdeados se destacavam em seu rosto. –
– Acertou. – Respondi –
– Ok, eu vou dar um tempo para você. Não quero te pressionar a nada.
– Você vai se afastar de mim? – Perguntei –
– Não, não por enquanto.
Ela sorriu e se virou dando costas para mim.
– Kari! – Chamei – Desculpa não ser o que você queria.
Ela fez que sim coma cabeça. Seu olhar parecia triste, mas ao mesmo tempo, seu rosto transmitia alívio. Ela se virou, dando as costas novamente e se foi.
Respirei fundo e fui para minha casa. Ao entrar lá, vi minha mãe Judite dando comida ao seu filho Raphael. Raphael tinha os cabelos loiros e vestia um macacão branco com várias carinhas felizes estampadas. Minha avó estava na cozinha e meu avô estava sentado no sofá vendo uma partida de futebol que passava na TV acabo. Se eu não fosse membro da família, diria que aquelas pessoas sempre viveram juntos, pois o ambiente era tranquilo e bem familiar.
Quando entrei, todos olharam para mim ao mesmo tempo. Fui em direção ao sofá e me sentei. Todos continuaram me olhando.
– O que foi? – Perguntei –
– É que você tem uma mancha rosa bem aqui. – Disse meu avô apontando para minha boca –
– Isso o é batom Charlie? – Disse minha avó sorrindo –
Fiquei completamente sem graça com aquela situação. Minha mãe tentava não rir e meu avô sorria. Limpei onde estava sujo, levantei-me de onde eu estava sentado e comecei a subir as escadas.
– Aonde você vai? – Perguntou meu avô –
– Vou para o meu quarto, é o único lugar que não me chateiam. – Falei tentando transmitir raiva ou irritação –
Ao chegar ao meu quarto, deitei em minha cama. A lembrança dos dois beijos viram em minha mente. Eu realmente estava confuso. Não sabia o que fazer. Kari me amava e Sophia havia me beijado segundos depois de dizer que queria namorar. Isso nunca havia ocorrido comigo.
Ouvi um barulho. Era a porta do meu quarto se abrindo. Era Judite, minha mãe.
– Podemos conversar? – Perguntou –
– Se você não for rir de mim, podemos sim. – Respondi, ainda tentando parecer bravo –
Ela se sentou na beirada de minha cama e começou:
– Charlie, eu sei que eu não estive presente todos esses anos, mas eu queria compensar isso...
– Acho que não tem como. – Falei, seco –
– É, pode ser, mas eu quero tentar pelo menos. Quero mudar um pouco a imagem que você tem de mim. Quero fazer você se sentir amado por uma mãe.
– É.... a sua imagem. É verdade?
– O que? – Perguntou –
– Hã... que você era... – Tentei não dizer, mas ela já parecia saber o que eu ia perguntar –
– Prostituta?
Fiz que sim com a cabeça.
– Ah, sim. Eu fui.
– Por que? Por que você foi tão... baixa?
– Bem, meu pais.... os seus avós nunca me deram o que eu queria. Sempre existiam limitações e eu nunca gostei de limitações.
– Como que isso tudo começou? Quero dizer, você se tornar uma “garota de aluguel”?
– Como meus pais não me davam nada, eu comecei a namorar os garotos muito cedo. Era a única forma de eu conseguir o que eu queria. Meus namorados sempre me davam presentes e sempre era o que eu queria. – Ela fez uma pausa, lambeu os lábios e continuou – Não vou entrar em detalhes, mas na minha primeira vez, um garoto me prometeu me dar um sapato que eu queria. Então desde aí eu não parei.
Eu estava muito envergonhado por ter aquela conversa com ela.
– Quando você parou de fazer isso? – Perguntei –
Ela levantou a cabeça. Parecia conter o choro.
– Quando eu conheci o pai do Raphael. – A voz dela falhou – Ele me engravidou e eu fui morar com ele. Ele sempre desconfiava de mim e sempre me batia. Mas eu não fazia mais nada, eu não era mais uma prostituta. Mas ele não acreditava.
Ela enxugou as lagrimas do rosto e continuou.
– Com o Raphael, eu aprendi o que é ser feliz de verdade. Tudo o que eu queria antigamente não é nada comparado a alegria que meu filho me dá atualmente. Com o Raphael eu aprendi a ser mãe, eu aprendi a não deixar alguém quem precisa para trás, como eu fiz com você. Foi esse um dos motivos que eu voltei. A minha consciência começou a me acusar. Eu comecei a imaginar como você estava sofrendo com a minha ausência. – Ela fez outra pausa, mas logo continuou – Houve um dia em que meu ex marido me viu conversando com um vizinho. Quando eu entrei para dentro de casa ele me deu uma surra. Aquilo foi a gota d’agua. Então eu saí de casa, eu tinha que voltar para cá. Eu tinha que corrigir meus erros.
Eu fiquei completamente emocionado com aquele relato que ela havia me dado.
– Eu não sei o que dizer. – Falei –
Minha mãe sorriu, entendendo.
– Então não diga nada em relação a isso. – Ela ficou em silêncio por alguns segundos –Vamos fazer uma troca?
– Que tipo de troca? – Perguntei, surpreso –
– Eu te falei sobre a minha vida, agora você me diz o que está te afligindo.
Fiquei em silêncio por alguns instantes, mas concordei.
– Hoje e fui beijado por duas garotas.
– Mas isso não é bom? Quero dizer, a maioria dos garotos gostam disso. Ou você não gosta?
– Não, não é isso. Eu gosto, é claro. Mas desde que eu me entendo por gente nenhuma garota se interessou por mim e agora, de repente, duas me beijam em um mesmo dia. Eu não sei o que fazer, não sei quem escolher.
– Escolhe aquela que te faz mais bem. Aquela que você sente algo extraordinário quando está perto.
– É, mas e se eu acabar magoando alguma?
– Na vida, sempre vamos magoar e ser magoados. Não tem como evitar, é automático.
– Acho que entendo. – Falei –
Olhamos um para o outro e sorrimos.
– Posso te dar um abraço? – Pediu minha mãe –
– Pode. – Deixei –
Nos abraçamos e foi algo extraordinário. Um abraço de mãe, não tem nada igual a isso.
– Desculpe te abandonar. – Disse ela em meio ao abraço –
– Ta desculpado. – Falei – Eu te perdoo... mãe.
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