Era mais ou menos três horas da manhã do primeiro sábado do mês de Novembro. Eu não conseguia dormir. As palavras que minha mãe havia me dito na conversa da noite anterior estavam martelando em minha cabeça. Escolher quem mais me fazia bem, foi isso que ela me disse.

Kari e Sophia me faziam bem. Eu não queria ter que escolher entre as duas. O medo de magoar uma das duas era enorme. Acho que era isso que não me deixava dormir. Ter que escolher uma e magoar outra era extremamente difícil.

Levantei-me da minha cama e abri a janela. Olhei as estrelas do céu e percebi o quanto eu era pequeno diante daquele infinito. Lembrei do dia em que conheci Sophia. Eu não sabia que ela iria se tornar tão importante em minha vida. Eu não sabia que seria com ela o meu primeiro beijo. Com ela eu aprendi a cuidar, aprendi a combater o preconceito, aprendi a proteger e principalmente, aprendi a amar ao próximo. Sim, eu a amava. Eu nunca havia pensado nisso.

Deixei escapar um sorriso no canto da boca, enquanto lembrava.

Voltei-me para minha cama e me deitei. O que eu devia fazer? Fechei os olhos e acabei dormindo. Ao acordar percebi que estava chovendo. Era uma chuva forte. Desci para a sala de estar e lá estava minha mãe dando comida ao meu meio irmão Raphael.

– Bom Dia. – Falei –

– Bom dia, Charlie. – Disse ela –

A televisão estava ligada em um canal de notícias do estado. Parei em pé para ver a notícia que eles estavam dando. Falavam de alagamentos que estavam ocorrendo por todo o estado.

– Onde estão meu avô e minha avó? – Perguntei –

– Eles estão no quarto dormindo. – Respondeu ela – Ficaram acordados até tarde ontem me ajudando a organizar as coisas.

Fui para a cozinha preparar meu café da manhã. Enquanto eu estava partindo o pão, ouvi um forte barulho vindo da rua. Olhei imediatamente para minha mãe e ela olhou para mim. Raphael começou a chorar, assustado. Corri para a porta e me assustei com o ocorrido. Uma casa da esquina havia desabado.

– Meu Deus! – Falei –

– O que foi? – Perguntou minha mãe assustada –

– Uma casa acabou de desabar. – Falei –

Observei bem e fiquei ainda mais preocupado. Era a casa de Kari. Kari podia estar morta no meio dos escombros. Corri para fora de casa. A chuva começou a cair sobre meu corpo. Olhei mais uma vez e percebi que era mesmo a casa de minha amiga.

– Volta para cá, Charlie! – Gritou minha mãe –

– É a casa da Kari que desabou. – Falei, preocupado – Eu vou lá.

– Não! Charlie volta aqui. – Ela dizia enquanto eu corria para o local do acidente. –

Ao chegar lá percebi que o estrago tinha sido maior do que eu pensava. Algumas pessoas começaram a aparecer ao redor da casa. Algumas usavam guarda-chuvas, outras capas para chuva e outras se arriscavam como eu sem proteção nenhuma.

O desespero começou a crescer dentro de mim. Kari poderia estar escondida dentro daqueles escombros, morta talvez. Seus pais também poderiam estar lá debaixo.

– Alguém chama os bombeiros! – Gritei – Alguém chama os bombeiros!

Eu estava desesperado. Não queria perdê-la.

– Calma, meu jovem. – Disse um senhor, colocando a mão sobre meu ombro. – Está tudo bem!

– Eles podem estar lá dentro, esperando uma ajuda para sair. Podem estar entre a vida e a morte. –Falei, desesperado – Temos que procurá-los!

Corri para o meio dos escombros e comecei tirar tudo o que eu podia do caminho, à procura de Kari e seus pais. Madeiras, alguns eletrodomésticos estragados, móveis, telhas, tudo eu encontrava, menos o corpo dos moradores da casa. Gritei pelo nome de Kari várias vezes. Algumas pessoas tentaram me tirar de lá, mas eu não as deixei me afastar dos escombros. Caí de joelhos e comecei a chorar desesperado. Eu tinha que encontra-los.

Eu estava de joelhos chorando quando alguém tocou em meu ombro. Olhei para trás e percebi que era Kari. Ela estava em pé ao meu lado, o que significava que ela não estava no meio dos escombros. Ela estava salva. Vestida com uma capa de chuva preta.

Levantei-me e a abracei fortemente.

– Está tudo bem, Charlie! – Ela me disse – O que você está fazendo aqui?

– Eu achei que você estava....

Apontei para a casa em ruínas.

– Não, ninguém estava lá dentro, Charlie! – Explicou ela –

Fomos para um lugar que não caia chuva. Era um barracão, bem pequeno. Dentro dele haviam dois colchões no chão. Um de casal e outro de solteiro.

– Por que você trouxe para cá? – Perguntei –

– É aqui que meus pais e eu estamos ficando. – Ela me respondeu –

– Por que?

– Meu pai vendeu o lote onde era a minha casa. Foi por isso que houve aquela demolição. O comprador vai fazer um supermercado ali.

– Onde vocês irão morar? – Perguntei, curioso – Aqui?

– Não.

Ela se virou e ficou de costas para mim.

– Nós vamos nos mudar, Charlie. Vamos para outro estado. – Confessou –