Notas iniciais
Desculpem

Estávamos andando lado a lado, como antigamente. Os cabelos de Kari estavam molhados e encaracolados. Suas roupas encharcadas e seu rosto escorria água. Provavelmente eu estava igual a ela, encharcado de água da chuva. Eu estava com a mochila pendurada nas costas e andando com a muleta. Não havíamos dito uma só palavra desde que guardei o fichário dela dentro de minha mochila. Percebi que já estávamos chegando a casa dela quando de repente Kari apertou os passos, se adiantou e se posicionou em minha frente. A chuva parecia engrossar, mas parecia que ela não se importava com isso. Kari cruzou os braços e ficou olhando em meus olhos. Aquela atitude me deixou envergonhado. Ela parecia estar esperando alguma explicação ou queria que eu dissesse alguma coisa.

– O que foi? – Perguntei –

– Você não me acompanhou da escola até aqui apenas para não deixar meu fichário se molhar! – Ela parecia ansiosa –

– Tem razão.

– Então desembucha.

– Ta! – Respirei fundo e comecei – Kari, eu queria te pedir desculpas pelo modo que agi com você. Sei que não tenho sido um bom amigo e só abusei da sua boa vontade todo esse tempo.

Fiz uma pausa e Kari pareceu ficar inquieta. Ela colocou as mãos em sua cintura e ficou esperando eu continuar com meu pedido de desculpas.

– Desde o tempo em que te conheci, nunca deixei você desabafar comigo. Eu nunca dei uma oportunidade para você falar sobre os teus problemas e sentimentos. Eu sempre estive falando sobre mim, sempre te envolvi nos problemas da minha família e você acabou se dando mal por isso. Eu não quero que isso continue assim. Quero voltar a ser seu amigo e... E quero também te ouvir, por que... Porque eu não conheço muito sobre você e quero mudar isso. De verdade, desculpa.

Kari continuava a me olhar como se eu devesse dizer mais alguma coisa.

– Eu... eu já terminei – Falei envergonhado –

– Ok. – Foi tudo o que ela disse –

– Acho que agora é a hora que você me diz alguma coisa.

– O que você quer que eu diga?

– Que você me perdoa e que quer voltar a ser minha amiga. – Dei um leve sorriso –

– Assim é muito fácil você não acha? Você se afastou de mim como se eu não tivesse feito nada por você todo esse tempo.

– Espera aí. Você que se afastou de mim primeiro. Eu só fiz o que você pediu. – Protestei –

– Eu estava com medo da sua avó, garoto! – Ela falou como se eu fosse um idiota que não entendia nada – Ela disse que iria arrumar uma confusão comigo se eu voltasse a falar com você. Charlie, você não sabe o que eu fiz para te ajudar com aqueles problemas do diário, do telefonema, do encontro.

– O que você fez? Vai me fala! – Falei duvidando que ela tivesse feito grande coisa. –

– Eu desobedeci meus pais para ir te ajudar na sua casa. Eu menti para eles ao ir com você no encontro com o Harry e tudo o que você faz é obedecer a sua avó e se afastar de mim. Você sabe como eu me senti?

Fiz com a cabeça que não. Eu estava arrependido por não tê-la procurado.

– Eu me senti uma completa trouxa!

A voz de Kari falhava. Ela chorava, mas eu não conseguia distinguir quais eram as lagrimas e quais eram as gotas de chuva. Ela suspirou fundo, tirou os fios de cabelos do rosto e continuou.

– Na verdade, eu sou uma trouxa. – Sua voz estava tremula e em um tom de desespero e tristeza –

– Não! Você não é trouxa. Você é uma ótima amiga.

Ela revirou os olhos.

– É claro! Uma amiga. – Kari parecia não estar gostando da palavra “amiga” –

– Eu que sou um completo idiota por fazer isso com você. Eu não mereço sua amizade, mas eu quero que você continue a ser a minha amiga.

– MAS EU NÃO QUERO MAIS SER SUA AMIGA! – Gritou –

– O que? – Falei em um tom de voz triste –

Ela fez uma pausa para enxugar toda a água do rosto e depois continuou.

– Charlie, eu não quero ser apenas a sua amiga. – Disse ela calmamente –

– Como assim? – Perguntei – O que você quer dizer?

Uma lagrima desceu do rosto de Kari e ela me pareceu frustrada. Ela balançou a cabeça negativamente e andou até chegar atrás de mim. Abriu minha mochila e pegou seu fichário.

– Eu já te disse tudo Charlie. – Disse ela –

– Quando? Eu não me lembro. – Virei para trás para olhar para ela –

– No hospital.

– Não! – Eu estava confuso – Você não me disse nada no hospital. Você nem foi me visitar lá!

– É aí que você se engana! – Kari enxugou as lagrimas do rosto – Obrigada Charlie! – Ela levantou o fichário para que eu soubesse que ela estava me agradecendo por eu ter guardado o fichário para ela e correu até a sua casa. –

Acho que aquele jeito foi um péssimo modo de terminar uma conversa. Fui para minha casa e a primeira coisa que fiz foi tomar um banho quente. Dizem que para algumas pessoas, o banho é o lugar que mais se consegue refletir sobre a vida. Então foi isso que fiz. Fui pensar.

Depois que tomei o banho, fui almoçar. Minha avó havia feito macarrão na chapa (Uma das minhas comidas preferidas). Por um momento, pude esquecer a minha discussão com Kari. Eu queria ter um jeito de fazer as coisas voltarem a ser como antes. Eu realmente queria ter novamente a amizade de Kari. Com aquela frustração e culpa martelando em minha cabeça, decidi tentar aliviar aquela tensão e ir à casa de Dakota. Como disse antes, ver Sophia sempre me acalmava. Saí da minha e fui até a casa ao lado. Dakota estava varrendo a entrada e me convidou para entrar. Vi que Sophia estava sentada no sofá com o violão no colo. Ela tentava tocar alguma coisa, mas nenhuma musica saía.

– Ela está tentando tocar! – Disse Dakota fechando a porta e colocando a vassoura encostada na parede – Charlie, você poderia tocar alguma musica para ela? Aquele dia ela gostou tanto.

– Claro! Vai ser um prazer.

Fui até Sophia e depositei um beijo em sua cabeça.

– Tudo bem Sophia? – Perguntei –

Ela acenou que sim com a cabeça.

– Posso tocar uma musica com o violão? – Perguntei novamente –

– Pode. – Respondeu ela –

Dakota nos observava com os braços cruzados e sorrindo. Peguei o violão e sentei-me em frente à Sophia, em outro sofá. Os olhos da garota brilhavam de ansiedade. Posicionei o violão e comecei a tocar uma musica. Pude perceber que Sophia logo pegou os papeis que levava para todo lado. Ela começou a escrever ou desenhar alguma coisa, não consegui ver o que era. Eu queria tanto saber o que ela guardava com todas as forças naqueles papeis. Mas eu não queria pressioná-la. Eu não iria forçá-la a me mostrar e muito menos ver escondido o que era. Então voltei a me concentrar na musica que eu tocava.

Desta vez, toquei uma das minhas musicas nacionais preferidas. Ela se chama Posso ser Feliz da cantora Bruna Karla. Enquanto eu tocava, percebi que Sophia havia largado os papeis ao seu lado e começou a me observar com atenção e se mexer levemente no ritmo da musica. Bom, a musica dizia:

Você apareceu, meu coração sorriu

Você se apresentou, a minha dor partiu

Deu luz ao meu caminho, não me deixou sozinho

Provocando em mim sintomas de amor

Era tão secreto no meu coração

A emoção pulsou mais forte que a razão

Foi quando dei por mim, estava me declarando

Tentando descrever coisas do coração

O tempo foi passando e a paixão firmou em mim

Pra esse sentimento eu digo sim

Você me abraçou quando chorei

E me deu a chance de sorrir

Quando eu pensei que esse tal amor não era para mim

Então percebi que era só você

A razão de todo meu viver

Reconstruindo em mim a esperança de saber

Que posso ser feliz

Foi quando eu prestei atenção na letra da musica e em minha mente veio à lembrança da primeira vez em que vi Kari. Os primeiros versos diziam: “Você apareceu, meu coração sorriu. Você se apresentou, a minha dor partiu. Deu luz ao meu caminho, não me deixou sozinho”. Esses versos poderiam se encaixar no meu primeiro encontro com Kari. Aquele que quando eu estava sozinho e sofrendo por ter descoberto que minha mãe Judite havia sido uma “garota de aluguel”. Outros versos marcantes são: Você me abraçou quando chorei, E me deu a chance de sorrir. Que se encaixa exatamente no momento em que Kari me ajudou pela primeira vez, me abraçando enquanto eu estava chorando. Aquela musica retratava com muita clareza alguns momentos da minha vida. Foi quando tive uma ideia. Uma ideia que para mim, poderia ser fazer Kari voltar a falar comigo e ser minha amiga novamente.

– Dakota, você me empresta o violão até amanhã à tarde? – Perguntei. –

Dakota pareceu se surpreender com minha pergunta.

– Para que? – Perguntou –

Contei toda a minha ideia a ela. A mãe de Sophia acabou concordando, com a condição que eu tomasse muito cuidado com o violão.

– Pode deixar, vou cuidar dele direitinho. – Prometi a ela – Agora preciso ir.

Depositei mais um beijo em Sophia e dei um abraço em Dakota. Peguei o violão que eu havia deixado em cima do sofá e corri para minha casa. Subi correndo para o meu quarto e comecei a tocar novamente a musica “Posso ser feliz”.

– Prometo que vou te surpreender, Kari! – Sussurrei –

Notas finais
Galera, espero que tenham gostado. Deixem sua opinião sobre o que vocês acham que irão acontecer. Abraços... Ah, prometo que o próximo capítulo será bem lindo.