Charlie e o Curioso Mundo de Sophia
6 Capítulo 6
Sophia deu um sorriso tímido ao perceber que era eu. Era estranho estar ali com ela, mas também era um momento único. Ela era diferente das outras garotas. Havia algo nela que me encantava e que me transmitia uma paz.
- Menino do sorvete. – Disse ela enquanto olhava para um ursinho de pelúcia que estava em sua mão. Fiquei surpreso de ela ter se lembrado de mim. Pude perceber a sua extrema vontade de ficar perto de ursos de pelúcias. Em sua cama havia vários ursinhos, de varias cores e tamanhos. –
- Tudo bem com você? – Perguntei –
Sophia não me respondeu. Estava concentrada em olhar atentamente à pelúcia em sua mão. Ela não me olhava nos olhos e poucas vezes prestava atenção no que eu dizia. Fiquei a olhando por um tempo. Às vezes eu me arriscava a falar algo para ela, em alguns momentos ela falava comigo, em outros nem prestava atenção no que eu dizia. . Percebi que Dakota estava nos observando. Os seus olhos estavam cheios de lagrimas. Levantei-me e fui até ela.
- Ela é sempre assim? – Perguntei –
- Sim. Ela não gosta muito de se relacionar com as pessoas. Como todos os autistas. – Dakota me respondeu –
- E ela vai para a escola?
- Vai. – Disse Dakota enxugando algumas lagrimas no rosto – É difícil para ela. Você sabe... A Sophia tem alguns comportamentos estranhos que não condizem com a idade dela. Ela sofre muito com o preconceito e não gosta de ir para a escola.
Pude me lembrar do bullying que eu havia sofrido antigamente.
- Eu sei como é isso. – Afirmei –
- O preconceito?
- O bullying. Eu sei como é sofrer isso. Eu sei como é não ser querido.
- Eu sinto muito Charlie. Mas é estranho...
-Estranho? – Perguntei –
- Sim! Quem não iria querer você por perto? Você é um anjo.
Sorri.
- Obrigado. – Falei envergonhado. Eu não sabia como reagir a elogios –
Foi quando meu celular tocou. Percebi que Sophia não havia gostado nada daquele som do telefone tocando, então tratei logo de atender. Pedi licença a Dakota e atendi ao telefone.
- Alô! – Falei –
- Charlie? – Era minha avó. – Onde você está? Já faz mais de uma hora que você saiu daqui de casa. Estamos preocupados!
- Ta bom, vó. Eu já vou voltar. Não precisa arrumar esse desespero.
- Desespero? Você não sabe o que eu...
- Vó! Eu já vou voltar.
- Então volta logo. – Ela disse preocupada. –
- Ok. Tchau! – Desliguei o telefone –
Desliguei o celular e o guardei no bolso. Sabia que devia pedir desculpas aos meus avós pelo o que eu havia feito. Eu devia pedir desculpas por não ter trata-los como deveria naquele momento. Foram eles que haviam cuidado de mim desde que nasci. O mínimo que eu devia fazer é pedir desculpas. Mesmo a dor continuando dentro de mim, a culpa não era nem do meu avô, quanto menos da minha avó. A culpa era da minha mãe. Este era o meu pensamento.
- Dakota, tenho que ir. Não posso ficar mais tempo. Obrigado por me deixar visitar Sophia.
- Por nada. Venha quando quiser. Mas antes que você vá eu poderia pedi-lo mais uma coisa? – Perguntou –
- Sim. –Respondi. –
- Bom, amanhã eu terei que sair cedo e não poderei levar a Sophia para escola. Será que você poderia acompanha-la?
- Claro. Vai ser um prazer. – Sorri – Amanhã eu já começo a estudar na escola do bairro, se a Sophia estudar lá eu poderei leva-la todos os dias, se você permitir.
- É claro que pode. Você é de confiança. – Disse Dakota animada –
- Mais uma vez obrigado. Bom, eu tenho que ir. – Fui até onde Sophia estava e a dei um beijo na bochecha. Ela sorriu. Parecia que ela já começava a se acostumar com a minha presença junto à dela, e isso era gratificante para mim. – Tchau Sophia.
Me despedi de Dakota e fui para a casa. Mesmo com uma revelação extremamente chocante e triste, aquele dia não ficou marcado em minha vida apenas pela tristeza, mas também pelo carinho que recebi de Kari, Dakota e Sophia.
Ao entrar em minha casa, vi meus avós sentados no sofá de mãos dadas e preocupados. A primeira coisa que fiz ao vê-los foi abraça-los e pedir desculpas por ter trata-los tão mal. Foi ali naquele abraço que percebi o grande amor que eles sentiam por mim. E por mais que eles tenham escondido toda a verdade de mim, eles me amavam. E só guardaram esse segredo por tanto tempo para não me verem sofrer. Foi ali que meu dia praticamente se encerrou. A dor me acompanharia por toda a vida disso eu tinha certeza, mas eu teria várias pessoas para me consolar, me animar e me fazer esquecer dos problemas mesmo que seja por um momento. Foi ali que percebi que a vida não é apenas de tristezas, por mais que varias decepções apareçam em nossas vidas, elas podem ser preenchidas e ocupadas momentaneamente pela amizade e pelo amor.
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