Um novo dia já começava naquela cidadezinha. O sol já começava a nascer quando meu despertador tocou. Era 6:00 horas da manhã. A primeira coisa que lembrei foi do que minha avó havia me falado no dia anterior. Eu havia descoberto através dela que minha mãe era uma prostituta e que eu era filho de um cliente que minha avó desconhecia. Aquela lembrança soou como uma facada em meu peito. Parecia que aquela ferida nunca iria se cicatrizar e que eu sofreria com aquilo para sempre. Mas eu tinha que seguir em frente, eu devia.

- A vida segue! – Falei ainda meio sonolento.– Bola para frente.

Levantei da cama e tomei meu banho. Vesti minha roupa, peguei meus novos materiais e me despedi de minha avó Maria e de meu avô Joseph. Já era a hora de eu ir para a escola. Eu já estava me esquecendo de ir à casa de Sophia para acompanhá-la. Por sorte ao sair de minha casa, vi Dakota e sua filha me aguardando do outro lado da rua.

- Bom dia! – Falei quando me encontrei com elas. –

- Bom dia Charlie! – Dakota me disse – Dê um bom dia para ele, Sophia.

Sophia apenas me olhou meio desconfiada.

- Tudo bem. Já estou me acostumando com o silêncio dela.

- Bom... Espero que tudo venha dar certo. Tome cuidado! – Avisou –

- Terei todo o cuidado do mundo. – Disse Sorrindo –

Dakota sorriu e me entregou Sophia, mas a garota protestou. Não queria ir comigo. Ela se recusou a andar ao meu lado. Dakota tentou acalmar a filha, mas sem sucesso.

- Sophia! – Dakota Repreendeu a filha – É o Charlie querida. Ele é seu amigo esqueceu? – Disse ela olhando nos olhos da filha. –

- Vamos Sophia! – Chamei – Vai ser legal ir comigo. – Tentei anima-la –

- Não! – Sophia gritou. – A mãe vai comigo.

- Filha, é só hoje. O Charlie é legal, vai com ele.

- Prometo que comprarei alguns doces no caminho e você poderá ficar com alguns.

Sophia me olhou. Parecia que ela gostava de doces. Já era a segunda vez que ela prestava atenção em mim quando eu falava que a daria doces. Dakota estimulou a filha a me acompanhar. Tanto fez que conseguiu convencê-la a ir comigo para a escola.

- Comporte-se Sophia! – Disse Dakota –

Sophia pareceu não ouvir o que ela falava. Eu fiquei sem jeito em como acompanha-la. Não sabia se segurava a sua mão, ao seu braço ou se simplesmente a deixava andar ao meu lado. Não me arrisquei a deixá-la sozinha, queria ter certeza que ela estaria ali, em segurança, ao meu lado. Então eu a segurei pelo braço (como o pai faz para acompanhar a filha até a chegada ao altar no casamento) e comecei a andar em direção a escola. Meu avô havia me explicado como chegar até lá. Não parecia ser muito difícil.

Paramos em uma banca de jornais para comprar os doces que eu havia prometido a Sophia. Enquanto eu comprava balas e algumas outras guloseimas que todas as crianças e adolescentes gostam, Sophia olhava as revistas em quadrinhos e mangás. Algo a interessava naquelas revistas. Eu não sabia o que era, mas eu já desejava saber.

- Você gosta dessas revistas Sophia? – Perguntei sorrindo –

Ela acenou que sim. Apontou para um desenho que ficava na capa de um mangá.

- O Naruto? Você gosta de Naruto?

Ela disse que sim.

Me surpreendi ainda mais com Sophia. Ela gostava do meu anime preferido. Era ótimo saber que Sophia gostava de animes. Eu poderia fazer vários planos para ela e para mim. Como assistirmos animes e ler mangás juntos.

Olhei para o relógio e percebi que estávamos atrasados para a escola. Entreguei algumas balas para Sophia e a levei para a escola. Ao chegarmos lá me surpreendi. Na verdade, acho que foram todos que se surpreenderam com a chegada de Sophia comigo. Todos nos olhavam. Alguns nos olhavam com bocas abertas, outros pareciam desconfiados, outros pareciam debochar, outros olhavam felizes, eram vários tipos de reações. Levei Sophia para a sala que Dakota havia me falado. Logo após fui para a diretoria e peguei um papel com uma mulher com cara de poucos amigos. No papel estava escrito:

Aluno: Charlie Johnson

Turma: 1001

[x] Novo aluno

Fui para a sala que me indicaram e bati na porta. Ouvi alguém com uma voz grossa dizer: “Pode Entrar”. Eu entrei. Todos estavam me olhando. A vergonha começou a surgir. Eu queria sair da frente de todos o mais rápido possível e sentar-me em uma carteira qualquer. Entreguei o papel para o professor e ele anotou meu nome em seu diário de controle. Quando eu pensei que poderia ir para uma carteira e me sentar, algo que eu pedia a Deus para não acontecer, aconteceu.

- Apresente-se para os seus novos colegas de classe! – Disse o professor –

- O que? – Falei surpreso –

- Apresente-se para os seus novos colegas. – Repetiu ele –

O nervosismo tomou conta de mim. Eu comecei a gaguejar na hora de me apresentar para todos. Olhava para baixo e batia minhas mãos em minhas pernas para tentar me acalmar. Todos começaram a rir de mim. Até o professor deixou escapar uma risada, mas logo se recompôs. Quando terminei aquele vexame, fui em direção a uma carteira que estava vazia e me sentei. O que eu não esperava era que ela estaria lá.

- O que foi aquilo lá na frente? – Uma voz fina e doce parecia se dirigir a mim. –

Olhei para o lado e percebi quem estava falando comigo. Kari, a garota que havia me ajudado no dia anterior.

- Kari! – Disse sorrindo – Você estuda aqui?

- É claro! – Disse ela revirando os olhos e sorrindo. – Você ainda não me respondeu! O que foi aquilo lá na frente, hein?

- Que vergonha. – Falei tampando meu rosto com as mãos. – Não sou muito bom com apresentações.

- É. Eu percebi. – Kari riu –

Eu estava feliz por Kari estudar na mesma sala que eu. Pelo menos eu não estaria sozinho naquele momento. O tempo foi passando e logo o intervalo das aulas havia chegado. A primeira coisa que lembrei foi de Sophia. Como ela estaria naquele momento? Kari percebeu minha ansiedade.

- O que foi? – Ela me perguntou –

- Preciso saber de uma coisa. –Respondi –

- Do que necessariamente?

Olhei-a e respondi.

- Preciso saber como está Sophia.