Changes of Destiny
17 Pôr do sol caótico
Notas iniciais
Griffin arrastava um saco de boxe pelas escadas do prédio de seu novo apartamento. Era tarde de quarta-feira e ele estava um pouco afastado de seus amigos. Na madrugada de sábado para domingo, Freddie lhe pediu um favor muito importante. O bad-boy concordou na mesma hora em ajudar, mas quando Carly descobriu as acusações de Leonard sobre ele, os dois se distanciaram significativamente.
Na segunda, ele havia encontrado Shay no apartamento da morena. Ele conversara com ela sobre o que seu amigo pretendia fazer e quais seriam as consequências daquilo. Eles discutiram friamente após Griffin confessar o roubo da moto e a garota não deu muita abertura para que ele se explicasse.
Freddie havia pedido uma quantia de dinheiro em espécie para o motoqueiro afim de se sustentar na viagem que faria. Agora que seu pai poderia controlar sua conta bancária, ele precisava se concentrar em não levantar muitas suspeitas. Griffin concordou e se aliviou após lembrar que seu apartamento novo já estava completamente mobiliado, então não tinha que se preocupar com grandes gastos no momento.
Além disso, tinha uma casa isolada para férias e descanso no Last Forest Park, uma cidade vizinha de Seattle. Comprou-a assim que soube que iria sair de Toronto para acompanhar Freddie, porque sempre gostou de se afastar da cidade que estava vivendo por um tempo. O imóvel era incrível e tinha espaço suficiente para atender os luxos de uma pessoa. Havia um quarto só, mas a cama era relativamente grande e tinha uma TV moderna bem em frente. O bad-boy achava que era o suficiente para acomodar Sam e Freddie por uns dias.
Griffin pendurou o saco bem no meio de sua sala de estar. Comparara aquilo para extravasar sua raiva ou algum sentimento ruim que poderia sentir. Nunca pensou que todo o pesadelo que Freddie experimentava com o pai, poderia recair sobre ele. Não acreditava que poderia ser preso por um mal entendido. Por algo que não queria realmente fazer.
O garoto não era de chorar, mas sentia uma angústia insuportável em seu peito. Estava prestes a perder a única garota que amou na vida e o pai de seu melhor amigo podia colocá-lo na cadeia. Nada podia ficar pior. Vestiu suas luvas velhas de boxe que carrega consigo desde os treze anos e se pôs a socar o objeto em sua frente com a maior força que conseguia.
— Por que você não acredita em mim, Carly? — ele gritava sozinho — Por que nem quis me ouvir? Por que? Eu te amo tanto! Quero ser alguém melhor por sua causa! Por que você fez isso?
A morena chorava em desespero dentro de seu carro enquanto ouvia Easily de Bruno Major no último volume. Dirigia até a casa de Griffin, mas ainda não sabia muito bem o que faria lá. Não sabia se podia confiar nele, afinal que tipo de crime é esse que ele havia cometido? Tem boas condições financeiras, então por que precisaria roubar uma moto? Por puro luxo? Carly não entendia e tinha vontade de se afastar dele de uma vez por todas.
Cresceu com Sam e tinha plena consciência de que uma ficha criminal não define caráter. Mas, era diferente. Estava falando do homem que amava, aquele para quem estava prestes a se entregar por inteiro. Não podia deixar esse fato passar.
Subiu a escada rapidamente ao adentrar no local, já que o garoto morava no primeiro andar. Ao chegar perto da porta de entrada ouviu barulhos fortes e respiração ofegante. Pensou que Griffin podia estar em uma briga séria com alguém. Gritou o nome dele de forma afobada algumas vezes, em seguida constatou que a porta estava aberta ao virar a maçaneta pela primeira vez. Adentrou e se deparou com a cena.
O bad-boy parou seus movimentos bruscamente e virou para olhá-la. Retirou sua luva com a boca e atirou-as no sofá.
— Resolveu olhar na minha cara? — disparou com a respiração descompassada.
— Griffin...
— Não, Carly. — ele a interrompeu — Eu devia estar te evitando. Afinal, sou um criminoso problemático, não é?
Ela suspirou pesadamente. Arrependia-se amargamente do que havia dito, estava em seu pior momento, não era nada declarado de forma verdadeira.
— Eu não queria ter dito aquilo! Se coloca no meu lugar! Você nunca tinha me contado isso e anda com essa moto pra lá e pra cá. Como vou te olhar sabendo que você a roubou?
Ele a encarava incrédulo. Decepcionado poderia descrever seu humor perfeitamente naquele momento. Sua feição mexia em descontentamento e confusão. Confiava em Carly demais para acreditar que ela estava sendo capaz de soltar aquelas palavras.
— Eu não roubei essa moto! A Softail é minha, Shay. — ele apontava para si mesmo com dor em seu olhar — Você não me deixa explicar e fica falando um monte de merda!
A garota se irritou. Os dois podiam estar nervosos, mas em nenhum momento palavras chulas. Mal podia acreditar que era assim que estava passando seus primeiros dias como namorada oficial de Griffin. Tudo havia virado de cabeça para baixo de repente, estava difícil acompanhar.
— Então, explica. — ela disse com fúria sentando-se no sofá. Cruzara os braços e esperava pacientemente.
Griffin respirou fundo e pareceu se acalmar. Sentou-se ao lado dela e quis que aquele momento tivesse um fim próximo.
— Eu roubei uma Forty Eight na noite em que saí do Canadá. — suspirou — Eu odeio essa história. Mas, eu precisei roubá-la para um amigo.
— Precisou? Como assim? Você tem dinheiro o suficiente para comprar uma!
— Ela não estava a venda. — explicou ele — Era o último modelo de um estoque de colecionador. Roubei para meu amigo do Prêmio de Tecnologia porque tinha prometido a ele uma recompensa. — Carly escutava tudo atentamente, mas não sabia até onde aquilo poderia levá-la — Eu inventei toda a história que ganhei minha Softail para que não desconfiassem do meu problema com a Harley. Afinal, quando uma empresa te dá um presente é porque ela gosta de você, né?
Ele perguntou retoricamente e esperou a expressão de Carly mudar um pouco, mas isso não aconteceu. A morena parecia confusa e suas sobrancelhas ainda mexiam em desconforto.
— Por que você devia uma recompensa a essa pessoa? Está me assustando...
Griffin pôs as mãos sobre seus olhos abaixando a cabeça. Era incrivelmente difícil falar sobre isso, nem ao menos para Freddie havia contado algo tão profundo. Queria esquecer essa parte de seu passado, mas estava ficando cada vez mais impossível.
— Porque ele me tirou das drogas! — soltou ainda na mesma posição com pesar em sua voz — Quando cheguei em Toronto não tinha um tostão porque gastava tudo em cocaína. Fiquei em muitas repúblicas para estudantes por não ter onde morar. Conheci o David no ano em que ganhei o Prêmio e ele pagou uma clínica de reabilitação pra mim.
Os olhos de Carly estavam completamente arregalados. Sentiu-se suja por estar sendo tão dura com ele, mas seus instintos falavam mais alto. Seu coração queria acolhê-lo em um abraço longo, mas seu lado racional gritava para que se afastasse.
Griffin a encarou esbanjando tristeza em seu olhar. Esperava compreensão, mas não sabia ainda o que estava recebendo.
— Ele fez tudo por mim. Me reergueu lá dentro, me colocou como juiz do próximo ano e no final subornou os diretores da Harley para não me punirem pelo roubo. — seus olhos marejaram pela primeira vez naquela conversa — Nem o Freddie sabe disso, Carly. Quando ele chegou no Canadá eu já estava curado.
A morena não sabia como agir. Jamais podia imaginar que Griffin tinha um passado de vício, isso estava escondido a sete chaves. Ela desejou voltar no tempo e prometer sua confiança a ele, mas já era tarde demais.
— Você podia ter me contado... Eu te amo, Griffin. — ela virou o rosto dele para depositar um beijo em seus lábios, mas ele recuou.
— Eu não sei mais. Na primeira vez que as coisas estremeceram você desconfiou do meu caráter. — sua voz carregava um peso surreal — O que posso esperar de você, Carly?
Sam e Freddie conversavam na escada de incêndio do Bushwell após terem feito amor mais uma vez aquela tarde. Sentavam — já vestidos — na mureta que havia ali e os pés deles repousavam do lado de fora. Observavam o céu alaranjado enquanto sentiam uma brisa leve bater em seus rostos. O nerd depositou um selinho demorado nos lábios coloridos de Sam e desejou que o fim de semana chegasse logo para que ele pudesse esquecer um pouco aquela tragédia toda com sua loira ao seu lado.
— Estou pensando sobre essa fuga. — ela fez aspas com as mãos se recostando em seu peito — Se não vamos poder levar nossos celulares para evitar o rastreamento do seu pai, como vou ter notícias da minha mãe? Ela vai começar a terapia a qualquer momento, não posso deixá-la sozinha.
Freddie sabia que não estava levando Sam a essa viagem apenas para sua segurança. Se fosse assim, teria que levar Griffin também. Queria a companhia da loira para sentir-se forte, para enfrentar isso com o apoio dela. Além disso, duvidava que pudesse ficar longe daquela mulher mesmo que fosse por alguns dias. Mas, não era egoísta o suficiente para impedi-la de cuidar de sua mãe.
— Você tem razão, princesa. — já estavam se chamando de forma diferenciada sem perceber — Não tinha pensado nisso. Mas, vou comprar uns celulares reservas lá mesmo com o dinheiro que o Griffin vai me emprestar. — revelou, mas ponderou — Mesmo assim, se você precisar ficar, vai ter o meu apoio.
Esses celulares seriam vazios e usados apenas para ligações. Sem aplicativos baixados, era praticamente impossível que Leonard rastreasse. Os telefones "antigos" ficariam guardados na casa de Freddie sem uso. Obviamente, o velho asqueroso perceberia que o filho estaria fora, até porque dissera que iria frequentar a casa dos Benson todos os dias. Porém, já era lucro pensar que ele não teria como descobrir onde os dois estavam nesse período de tempo.
Fredward ligara para ele logo de manhã para acertar o contato da corretora da casa que ele desejava morar. Seu peito apertou ao refletir que seu pai, provavelmente, subornaria ou ameaçaria aquela pobre moça para conseguir o que queria. Se ele era capaz de fazer o que fez ontem com seu próprio filho, imagina com uma mera mortal.
— Não, Freddie... — respondeu Sam — estava conversando com a Carly sobre isso no sábado. Ela disse que talvez seja melhor pra minha mãe ficar numa clínica de reabilitação. Mas, antes a gente precisa conversar com o psicólogo sobre. Queremos que ele faça o encaminhamento para um psiquiatra, porque não temos muita referência.
O moreno assentiu com a cabeça assimilando sua explicação.
— Isso pode até demorar e se realmente tivermos celulares novos, eu vou conseguir acompanhar tudo. — ela virou-se para observá-lo — Além do mais, sei que é importante pra você que eu vá. Então, eu quero muito ir.
Freddie sorriu de lado e depositou pequenos beijos por toda a extensão de sua bochecha e um pouco de seu pescoço. Se demorou nos lábios e Sam pediu passagem para aprofundar o beijo. O garoto segurou seus cachos delicadamente e sua espinha gelou quando as unhas da loira deslizaram pelos seus cabelos.
Com o tempo, era normal que as faíscas ou a emoção esfriassem um pouco. Pelo menos, para outros casais era assim.
Mas, não estamos falando de qualquer casal.
Quanto mais tempo passavam juntos, mais paixão parecia surgir em seus corpos. Eles tinham certeza que não podiam mais se desvencilhar um do outro. Um laço muito forte os mantinha juntos e apenas algo com maior força poderia quebrar.
— Eu fico. — ele disse simplesmente acariciando a cintura de Sam.
— Quê?
— Eu fico com você pra valer. — suspirou a olhando profundamente — Espero que nunca duvide do que eu sinto por você. Sammy, você é a luz do meu mundo agora.
Sam estava confusa, não entendia o porquê daquele discurso sobre duvidar do que ele sentia por ela. Por que faria isso, afinal? Freddie nunca havia dado motivos. Nunca havia mentido para ela e foi seu alicerce em muitos momentos. A loira estava certa que não havia nada de errado no que estavam vivendo, era apenas uma sucessão de acertos desde que se reencontraram.
— Eu duvido ser a luz do mundo de alguém, isso sim. — soltou descontraída mirando o céu.
Freddie posicionou com delicadeza o rosto de Sam para que ela o encarasse. Fez uma movimentação com a parte de trás de seu cabelo e o colocou repousado nas costas dela.
— Acredita que você é a do meu, por favor. — a beijou nos lábios mais uma vez com um selinho demorado. Seus olhos comprimiam-se pelo cuidado e paixão que colocara naquele ato. As sobrancelhas acompanhavam e Sam pôde perceber, pois seus olhos abriram antes de terminarem.
Para ela, era muita responsabilidade representar isso para alguém. Quando Freddie dormira no hospital por um grande e significativo zelo, Sam o enxergou dessa forma também. Torceu para que não se magoasse profundamente por estar colocando o nerd nesse patamar. Agora, desejou suprir a expectativa que Freddie depositara nela. Não podia demonstrar escuridão se era mesmo a luz do mundo do homem pelo qual estava apaixonada.
— Como você está pensando em instalar as câmeras sem que seu pai perceba? — ela indagou com curiosidade — Ele deve ser o tipo de pessoa que revista tudo. É muito desconfiado.
Uma parte do plano de Freddie era monitorar sua casa para saber quais passos seu pai estava dando em sua ausência. Não queria voltar e estar desamparado ou desinformado. Além de tudo, precisava proteger sua mãe e a deixar sozinha com um louco não era a melhor opção. As câmeras cubo mini de modelo espiã que ele instalaria em meio aos trilhos de iluminação de sua casa dariam conta do recado. Por serem via Wi-Fi, seria possível observar tudo de seu notebook mesmo longe de casa.
— No meio das lâmpadas é quase impossível perceber. É fácil demais confundir, é tudo de mesma cor e as câmeras são quase imperceptíveis de uma distância considerável. — ele sorrira orgulhoso — Papai vai morrer sem saber.
Sam fez uma careta sorrindo largo para ele.
— Você é todo nerd.
— E você adora. — ele se pôs a beijá-la mais uma vez deitando-a na mureta.
Não seria errado transar mais uma vez, né? Eles precisavam estar relaxados para cumprir uma missão importante. Por que não fazer o que sabiam fazer de melhor?
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