Changes of Destiny
39 Fuga
Notas iniciais
Haviam caixas de papelão por todo o apartamento de Freddie, – e eram muitos espaços para preencher, então muitas caixas – ele abrira a porta para Carly porque ela insistia na ideia de dizer que apenas queria ajudá-lo a organizar sua mudança, porém, no fundo, Freddie sabia muito bem qual era sua verdadeira intenção. Como sempre, estava fugindo desse assunto como gato foge de água.
Um grande saco de lixo preto repousava do lado da porta de seu quarto, era ali onde jogava as coisas indesejadas que não gostaria de levar para nova vida que viveria longe de Seattle. Sua cabeça estava vazia, seus movimentos eram automáticos e Carly percebia. Apenas prendeu a respiração ao observar o garoto segurando uma jaqueta marrom que parecia surrada e cheia de sereno. Era aquela que usara no dia que Sam deixou que a chuva levasse a tristeza de seu peito.
Carly percebera a movimentação diferenciada. Ela não estava ali porque estava entediada em casa, na verdade, tinha muitos planos de formatura para resolver, mas sabia que isso era mais importante. Não queria se despedir de Freddie, queria convencê-lo que ficar era a melhor opção. E, claro, saber qual foi o real motivo dessa briga estrondosa, pois Sam não havia tido coragem de contar.
— Você vai jogar essa jaqueta fora? Parece bonita. – Carly começou – Eu acho que não devia.
Freddie suspirou pesado enquanto encarava as memórias que aquela peça carregava.
— Vou jogar sim, está velha. – disse em um disparo.
A garota respirou fundo e fechou os olhos, como uma maneira de evitar enxergar o que estava em sua frente. Era muito drama, era muito peso, parecia que todo mundo estava carregando uma tonelada nas costas por meses. Estava abaixada recolhendo umas roupas, então resolveu levantar. Sentou-se na cama lentamente enquanto ele acompanhava seus movimentos.
— Qual a verdadeira razão de você estar aqui? – Freddie indagou calmo – Não quero ser grosso, nem nada, você sabe. Mas, vamos ser honestos, isso é mais sobre a Sam do que sobre mim, não é?
Ele sentou em sua frente na cama também. Coçou uma das sobrancelhas e parte de sua angústia no peito pareceu ir embora. Era bom conversar, principalmente com uma amiga de longa data.
— É sempre sobre a Sam, Freddie, não percebe? Desde que somos crianças é sobre vocês dois. – ela soltou uma pequena risada – Ah, alguém quebrou uma luminária do Spencer brigando! Alguém? Melhor dizer vocês dois. Até mesmo quando você salvou minha vida, você ouviu a Sam e disse que não éramos feitos para ficar juntos. E não éramos mesmo. É sempre sobre ela com você.
— Pena que dessa vez não foi. A gente sempre acaba conhecendo a verdade.
Carly, de repente, teve uma perda de paciência, mas tentou entender do que isso se tratava. Ela podia ser considerada uma rainha dramática, mas apenas tinha certeza que esses dois juntos ganhavam essa disputa facilmente.
— O que você quer dizer com isso?
Freddie franziu o cenho e abriu a boca um pouco chocado. Fez uma pausa, uma longa pausa.
— Você não sabe que Griffin e Sam se beijaram?
A morena olhou para o teto depois de aproximadamente dois minutos que a mensagem chegou aos seus ouvidos. Prensou os lábios. Soltou um pouquinho de ar pelo nariz. Encarou Freddie. Ficou um tempo com o olhar pregado por ali. Seus olhos rolaram para baixo. Sua mão direta foi para seus lábios e como em uma das mais loucas reações do mundo, começou a gargalhar desesperadamente. O garoto observava e não sabia se era um riso de nervoso ou porque ela achara que podia ser uma mentira inventada.
— Carly, é verdade! – ele aumentou o tom – Eu cheguei no Groovie Smoothie e eles estavam lá, os lábios juntos, a mão dele na cintura dela. – estremeceu o corpo — Me dá calafrios só de lembrar.
Ela ainda ria, mas a velocidade e o volume foi diminuindo gradativamente. Suspirou cansada e finalmente tentou falar com um pouco de seriedade.
— Eu não duvido que seja verdade, Freddie. Mas, uma coisa que eu tenho certeza é que o Griffin não é estável e não faz boas escolhas. A mente prega muitas peças nele, deve ser efeito do vício, sabe? Eu acho que muita coisa se explica nisso.
— Você não pode simplesmente colocar a culpa nisso. – protestou Freddie.
— Eu sei, eu sei. Eu não estou colocando, mas é um fato. Além do mais, – respirou fundo – ele me chamou de Melanie no dia do resgate do sequestro. Griffin não aceita ser rejeitado e ele realmente se apaixonou por alguém que é fisicamente igual a Sam, você não acha que ele se confundiu?
— Você realmente acredita nisso? – Freddie ainda simplesmente não conseguia engolir essa história – Eu não compro, ainda mais porque a Sam estava estranha comigo e simplesmente correspondeu o beijo dele.
Carly soltou uma risada breve. Claro que a ideia de imaginar a fatídica cena também não era fácil para ela, mas sabia muito bem do comportamento diferente de Sam no último mês. Era deplorável, mas de maneira nenhuma culpa dela. Apenas eram as consequências de traumas seguidos em um curto período de tempo. A morena achava loucura que Freddie não entendia essas pequenas coisas tão simples, mas sabia, de alguma forma, criar um aplicativo do zero. Inteligência seletiva?
— Você deve ter olhado por três segundos antes de interromper querendo bater no rosto do Griffin, não é? Tem certeza que a Sam estava correspondendo ou apenas tentando processar? Já ouviu falar em choque? Ela pôde ter sido pega de surpresa! – ela fez uma parada depois de um tempo recorde de rapidez ao falar essas palavras, encarou o garoto e tentou explicar o óbvio com calma. Pôde notar que ele ainda raciocinava os pequenos detalhes que ela havia falado.
Suas sobrancelhas marrons dançavam em sua testa denunciando seu frenético pensamento.
— Escuta. – Carly pediu – Imagina ter sua mãe sequestrada depois de ter que passar uma temporada notando seu problema com bebida mas sem poder fazer nada? É muita coisa pra processar, Freddie, vamos relembrar os fatos? A Pam foi pro hospital, Sam descobriu que vocês namoravam por uma aposta, quase foi abusada pelo melhor amigo de infância, depôs pro seu pai ser preso e logo depois você que foi parar numa cama de hospital. Como se não bastasse, Nick se matou na sua frente, a mãe dela foi sequestrada, o seu amigo Griffin também, a Melanie voltou e ainda por cima ela descobre que seu namorado não entende que é muito pra alguém de dezessete anos aguentar.
Freddie soltou o ar pela boca e seus ombros abaixaram vários centímetros. Uau. Seus pensamentos arremessaram vários flashs de cada momentinho que Sam teve que vivenciar esse ano, era quase obsceno a quantidade de dificuldades e obstáculos que teve que atravessar. E o pior de tudo: não merecia nada disso. Carly podia ter sua razão, ele, na verdade, pensava que ela tinha razão, mas sua mente ainda pregava peças. As lembranças do beijo não o deixavam em paz.
— Ela, com certeza, passou por um momento de estresse pós traumático. Eu lembro que era difícil para ela até se mover e ter pensamentos focados em uma coisa só. – Freddie passou a mão na testa – Eu me odeio por ser um egoísta, às vezes. Não parei pra pensar nisso... mesmo.
Carly segurou em sua mão e sua garganta formou um nó.
— Eu não posso mentir pra você, se você for, em questão de tempo a Sam vai ficar bem e seguir a vida como uma pessoa normal. Ela nunca precisou de ninguém, não vai ser agora que vai precisar. – ela percebeu que os olhos de Freddie tornaram-se avermelhados – Mas, você tem que ficar. Vai desistir de uma vida inteira em Seattle por causa de um segundo? Um segundo que nunca mais vai voltar.
Freddie virou sua atenção para a janela mais próxima e as cores do pôr do sol estavam começando a aparecer. Sorrira. É verdade que ainda amava esse céu de Seattle nesse horário e que o remetia a lembranças maravilhosas. Como na vez que disse para Sam pela primeira vez que ficaria com ela para valer. Eram memórias que guardaria para a vida toda, porque a loira sempre vai ser seu primeiro amor. Pensava nela e seu coração queimava, como sempre, não havia deixado de amá-la nem por um mísero segundo, mas...
— Eu amo Seattle. E quando o céu fica dessa cor, é minha parte favorita de morar aqui. – soltou como um desabafo – Eu amo quando o sol vai embora devagar, ele avisa que a luz está acabando pra vir um período escuro. Nem sempre a vida nos avisa que vem escuridão, mas, mesmo assim, a gente precisa lidar.
— Mudar de país de novo vai ser escuridão? – Carly perguntou.
— Vai. – suspirou Freddie – Eu amo a Sam como um idiota louco e ela foi a melhor coisa que me aconteceu. Mas, olha o que tudo isso nos trouxe. Só caos. E parece que tenho um ímã ultra poderoso pra confusão quando estou em Seattle. Vai ser escuridão demais. Muita. Algumas vezes vou me sentir extremamente perdido, mas preciso me agarrar na ideia de que o dia vai nascer de novo e o sol vai aparecer pra me guiar.
Carly limpou uma lágrima que escorria já no meio de sua bochecha. A luz do pouco sol batia em seus cabelos negros e esquentava seu rosto mais do que sentia dentro do peito. A vida é incerta, mas existem coisas que cultivamos dentro de nós mesmo sabendo que podem mudar.
— Você chama a Sam de luz da sua vida. – ela soltou naturalmente – Você fala dela sem perceber.
Ele sorriu de lado, porém com certeza do que deveria fazer. Iria doer, mas agora com a própria confirmação da melhor amiga que Sam ficaria bem, era um encorajamento para que fosse — agora de vez — para o Canadá. Se ela conseguia superar, ele também iria conseguir.
— Quer comer alguma coisa? Vamos dar uma pausa nisso e ir na cozinha. Aproveita e me conta sobre você e o Brad!
— Ok, amiga. – Carly brincou – E aproveita e me conta sobre a formatura e sua amizade com o Griffin.
— Os dois estão cancelados pra mim, coincidência?
— Meu Deus. – ela reclamou — Eu preciso te dar muitas lições de moral ainda.
—
Griffin alisava a textura de sua nova jaqueta jeans enquanto encostava-se numa das pilastras da Ridgeway. Hoje, de todos os dias, era o mais difícil de fazer as provas finais atrasadas que tinha. Por alguma razão, — ou simplesmente por stalkear demais — sabia que esse era o dia que Melanie estaria voltando para Inglaterra.
— Sam! – gritou ele observando-a passar como um furacão no corredor com a alça da mochila em um dos ombros.
Ela virou de frente dramaticamente e seus cachos voaram até grudarem no pouco gloss que usava nos lábios. Não se falaram desde o incidente, na verdade, Sam não falava com ninguém que não fosse Carly ou pessoas que moram em sua casa — porque era inevitável. Era difícil ver Griffin depois da revelação de que ele estava envolvido no sequestro o tempo todo. Apesar de ter conversado nas últimas semanas com uma antiga psicóloga da escola que conhecia, ainda não tinha evoluído o suficiente para tirar essa mágoa do peito.
Sentia-se literalmente exausta emocionalmente. Até seus pensamentos eram mais lentos, então talvez fosse melhor deixar isso passar adiante até que se esvaísse de sua mente. Afinal, o quão assustador Leonard era? Nada justificava, mas como agiria caso ele a ameaçasse? Provavelmente a meia de manteiga resolveria, mas não é qualquer um que tem uma.
— Eu preciso correr pro aeroporto, Griffin, o que você faz na escola, afinal? – disse em uma velocidade impressionante.
Ele respirou fundo, porém queria ter mais tempo.
— Precisei fazer umas provas atrasadas e você? – fez como se fosse uma pergunta retórica e continuou falando – Enfim, queria te contar toda a história, inclusive me desculpar pelo o que aconteceu. Você não estava bem, né, loirinha? Podemos pegar umas cervejas e conversar a noite.
Ela franziu o cenho e tombou a cabeça para o lado. Era incrivelmente bizarro como ele parecia ter todas as situações em suas mãos, julgando-as fácil de resolver. Havia sido um estresse coletivo desde o convite para o Groovie Smoothie até ele cair quase nocauteado no chão e agora ele simplesmente queria pegar umas cervejas e conversar? Era insano, mas ao mesmo tempo, qual é a melhor maneira de passar por tudo isso. Talvez essa seja a única.
— Eu também precisei fazer umas provas finais atrasadas, foi por causa da minha mente prejudicada que eu tive que adiar. – deu uma breve pausa – Griffin, eu juro, eu quero muito que esse ano acabe e que as coisas voltem a ser pelo menos como eram antes de vocês chegarem na escola. O que vamos conversar? Sobre o sequestro? Chega desses assuntos, eu quero comer doce assistindo TV como qualquer adolescente normal e talvez especular sobre o próximo integrante do BTS que vai postar fotos nos perfis pessoais do Instagram.
Andrews riu tímido e finalmente conseguiu reconhecer a Puckett que conhecia naquela fala de Sam. A nuvem turbulenta e escura que pairava sobre as cabeças deles tinha mesmo que desaparecer, pois morava ali por tempo demais. Existia muita angústia no coração de ambos. Principalmente, existia culpa por todo o corpo de Griffin, porém seu único desejo não era nem voltar a ter uma vida antiga e sim dormir tranquilamente.
Apesar de ter compactuado com esse crime no começo, em seu final, tornara-se vítima. Era um posto muito complicado de se estar e os ajustes ainda estavam sendo processados intimamente.
— Eu posso te levar no aeroporto de moto e depois fazemos o que você quiser, sério. – ele propôs – Te devo muitas coisas depois de tudo que eu te causei.
— Deve mesmo. – ela pensou um pouco – Vamos logo antes que eu mude de ideia.
No primeiro acesso do estacionamento descoberto, Sam olhou para cima e contemplou a escuridão chegando e a noite se aproximando. Parecia vazio seu peito ao perder o processo do pôr do sol de Seattle. Mesmo que o amor da sua vida estivesse convencido em ir embora, esse era seu lar. Fora aonde aprendeu a ser forte, a se defender de seus próprios pensamentos e ameaças maiores que os fatores externos. Aprendeu a ser alguém em Seattle e amava esse lugar.
Seu coração doía de tanto amor ao Freddie, mas Sam Puckett não era exatamente o tipo de pessoa que precisa de outra para se sentir realizada, uma hora ou outra, ficaria bem e até talvez esqueceria de alguns momentos que passaram juntos. Mas, sentia que seu coração sempre iria se comportar diferente ao ouvir seu nome em qualquer lugar ou presenciar um pôr do sol magestático com uma brisa suave.
"Eu te amo, Freddie. Em alguns momentos, achei que nossos sonhos estavam alinhados. Nossas almas entrelaçadas, nossos destinos combinados. Mas, no meio disso, existem nossas escolhas. Caso nossas escolhas nos separem para sempre, pelo menos vou me conformar que foi inevitável, pois nosso poder de escolha é nossa liberdade e eu nunca tiraria isso de você. Muito menos de mim.", pensou ela sentindo o contra vento bater com força embaixo de seu capacete.
Felizmente algumas escolhas começavam a fazer sentido. Lembrava-se de sua indignação há algumas semanas com a partida de Melanie, mas agora, apenas encaixava. É mais que natural que quisesse estar onde está acostumada, onde tem sua vida, seus amigos, seus projetos e provavelmente alguém especial platonicamente. Sam entendia porque não sairia de Seattle por nada.
— Você veio! – exclamou Melanie no final do corredor em frente ao seu portão de embarque. Abraçou sua irmã com um sorriso gigante em seu rosto. Durara três segundos. Vira Griffin parado a uma certa distância e a última coisa que queria era sentir-se obrigada a se despedir dele.
— Claro. Cadê a mamãe? – indagou Sam.
— Nós combinamos que seria melhor nos despedirmos só em casa, já foi muito chororô. – suspirou – Mas, eu vi que você trouxe um amigo.
— Desculpa, Melanie, foi uma longa história.
— Tudo bem. Absolutamente tudo com o Griffin é sempre uma longa história.
Sam apenas comprimiu os lábios como quem diz "verdade", mas rapidamente se abriram um pouco ao ouvir sua irmã o chamando para perto, pois sabia que ele teria algo para falar, como sempre. Eles ficaram trocando olhares desconfortáveis até Griffin ter coragem de deixar uma sílaba sair de sua boca.
— Eu nem sei como te convencer que ainda tenho reais sentimentos por você. – escolhera essas palavras para começar um diálogo com alguém que está indo para outro país. Pensou na palavra idiota repetida vezes no seu cérebro, mas ninguém precisava saber.
— Não quero que você faça isso. Eu saio magoada, mas também não sou idiota de pensar que alguém consegue fingir algo que não é vinte e quatro horas por dia.
Segunda chamada para o vôo LU 7446 com destino a Londres.
Sam afastou-se um pouco e olhou para cima como alguém que procura a voz invisível que faz esses anúncios. Quando percebeu-se em si, Melanie abraçava Griffin por um tempo relativamente longo.
— Olha, – ela dizia em seu ouvido – não quero ir pra longe deixando pontas soltas em Seattle, minha vida vai voltar a ser o que sempre foi. Fica em paz, Griffin, mas me faz um favor. Quem precisa das suas desculpas é a minha irmã, porque ela é a que saiu mais machucada nisso tudo.
Afastaram-se e o garoto a olhou com cautela. No tempo em que tinham acabado de romper, ele podia perceber que não estava na sua melhor sanidade mental. Porém, hoje, via que sentia um imenso carinho por aquela pessoa e também sua família. Todos eram especiais, absolutamente todas as mulheres daquela família eram. Ele abaixou um pouco a cabeça e sua feição dizia que ele atenderia seu pedido. Sam merecia ser feliz.
Última chamada para o vôo LU 7446 com destino a Londres. Portão de embarque 7 de embarques internacionais.
— Tchau, gente. Me convidem pra visitar mais vezes. – sorriu – Te amo, Sam. Qualquer coisa você sabe onde me achar.
A Puckett valentona acenou e acompanhou cuidadosamente enquanto Melanie embarcava para longe mais uma vez. Era a vez mais difícil, porque realmente haviam se conectado em muitos aspectos e se entenderam na maioria das vezes. Sam sentiria falta, mas era melhor não falar isso em voz alta. Até parece que Samantha queria chorar em cima da partida de sua irmã fresca, patricinha e a senhora eu-tomo-banho-todo-dia em um local público.
Andrews pensou em abraçá-la rapidamente, mas ficou receoso.
— Tem uma sorveteria legal aqui perto, você quer ir? – ele a convidou.
— Você já me viu negando comida?
Griffin levantou as sobrancelhas e pensou um pouco, mas espantou alguns pensamentos que vieram de supetão. Caminharam até a sorveteria que tinha uma vista bonita para as árvores que rodeavam as pontas do aeroporto. Quando sentaram-se à mesa, Sam se apressou em pedir quatro sabores diferentes enquanto o bad boy observava querendo soltar uma quase gargalhada.
Era um pouco constrangedor sentar-se com o Griffin e não ter nada do que conversar. Ou pior, sentir-se desconfortável em concersar qualquer coisa com ele nesse momento. Ou, ainda pior, ter que conversar sobre aquilo.
— Você pediu menos quando a gente se encontrou aquele dia no Groovie. – ele comentou tentando quebrar o clima pesado que já tinha se instaurado desde a escola.
Boom. Era tudo que Sam queria evitar. Mas, existe um mito da psicologia que alega que quanto mais você fala sobre algo, mais ela se torna desinteressante e sem importância. Era monstruoso pensar naquele beijo indesejado, naquele momento inoportuno e naquela merda que estragou o fio de náilon que estava sua relação com Freddie.
O garoto olhou para os lados como se estivesse checando a presença de alguém, mas, a verdade é que, estava nervoso em começar a se explicar ou desabafar.
— Olha, Sam, eu nunca quis que essa merda toda tivesse acontecido. Minha cabeça está uma bagunça desde que terminei com a Carly e depois do sequestro tudo piorou. Eu fiquei muito confuso, só queria conversar sobre a Melanie e meu cérebro embaralhou a imagem de vocês duas. – suspirou – Vocês são incrivelmente diferentes. Até o Freddie uma vez me disse isso.
— Disse?
— É. – riu pelo nariz – Ele até falou que você é "muito mais linda" do que a Melanie naquela voz de bobão dele.
Sam deu uma risada um pouco envergonhada que não soltava há tempos. Gostara de saber disso. Foi como um carinho em seu coração depois de tanta turbulência.
— O Freddie é o moleque mais foda que eu já conheci. – Griffin soltou – Ele diz que eu salvei a vida dele no Canadá, mas, cara, eu só superei o lance das drogas mesmo porque tinha ele pra me fazer companhia. O pessoal do Canadá é muito mais ligado em substância dos que o daqui.
Agora a garota apenas ouvia com atenção o que ele tinha a dizer. Essa era uma das facetas de Griffin que gostava, ela era verdadeira e não pirava em umas maluquices sem sentido. Ser bad boy era legal, até o começo do ano Sam amava esse tipo de cara, mas era bizarro como a falta de concentração e objetivo atingiam em cheio as fraquezas de Griffin. Isso o prejudicava em todos os aspectos.
— Eu me amarro no Freddie e você juntos. – continuou ele – Jamais queria atrapalhar as coisas entre vocês, ou me meter. Eu nunca faria isso com um amigo tão maneiro pra mim. E com uma garota tão legal como você. Me desculp-
— Está bem. – Sam o interrompeu – Agora não faz nem mais sentido. O Freddie está indo embora.
— Embora?
— É, sei lá, ele só me disse que não vai mais voltar pra Seattle.
Griffin arriou as sobrancelhas e realmente ficou impressionado. Não imaginava que Freddie pensava assim nem por um segundo. Ele dizia no Canadá que quando voltasse para casa ficaria para sempre e não teria nada que o faria arredar o pé dali. Mais do que ninguém, sabia que o nerd era apaixonado por onde tinha nascido, da Space Needle até o lugar mais xexelento que Seattle possuía.
— Pede pra viagem os outros sorvetes, Sam, rápido! – exclamou ele levantando da cadeira com pressa.
Ela equilibrava os potes enquanto tentava enfiar tudo em uma sacola furreca que a atendente tinha arranjado. Segurava tudo em uma mão de maneira desajeitada tentando alcançar Griffin que disparava na frente. Seu olhar perdido denunciava que tinha esquecido onde havia deixado a moto, mas a força de vontade e, diga-se de passagem, a pressa exagerada era maior.
— Por que você está correndo tanto? – ela indagou.
— Espera, loirinha.
Quando Sam se percebeu, já estava em cima da Harley segurando forte o saco de sorvetes e apoiando-se no ombro de Griffin. Era seu sonho ter uma motocicleta daquele jeito, mas por enquanto podia aproveitar esta. Olhava para os lados tentando identificar o caminho, mas mais importante que isso, queria compreender a lógica de estar ali com ele, numa pressa que julgava desnecessária sem nem mesmo saber para onde iria. As coisas simplesmente mudam muito rápido.
A Harley ia diminuindo de velocidade e o farol ficava menos intenso. Sam franzia o cenho tirando o capacete, apenas estava em negação de que Griffin pensou realmente em fazer o que fazia naquele momento. Descendo da moto, ela nem sequer aproximou-se do portão de entrada daquele condomínio. Estar na beirada da rua parecia assustador o suficiente.
— Jura? O Freddie não quer olhar na nossa cara e você acha que vir até aqui vai ocasionar o quê? – perguntara Sam genuinamente.
— A pressa me ajuda a resolver as coisas mais rápido. Sabe como é o Freddie? Se eu conheço bem, já deve estar com as passagens compradas pra ir embora amanhã, sei lá.
— Amanhã?
— É uma expressão. – ele coçou a nuca e sussurrou a frase em seguida – Ou talvez não.
Sam rolou os olhos.
Griffin aproximou-se do portão.
"O que você está fazendo?" indagou Sam mais uma vez segurando o garoto pelo braço com uma força desnecessária.
"Do que você está com medo?" rebateu ele como se fosse uma pergunta inofensiva.
Mas não era.
"Eu não vou aguentar mais uma rejeição do Freddie se ele realmente for embora amanhã, ou sei lá, como vou lidar se a última palavra que eu ouvir dele for 'eu te odeio, some daqui'." Queria apenas ter pensado isso, mas realmente havia verbalizado.
"Quando vocês dizem eu te odeio, na verdade, é como se o amor tivesse aumentado" Griffin teve sua tréplica. "Vocês são complicados, mas se ajeitam."
"Da última vez ele foi embora e eu soube pelo Spencer. Ele disse pra mim que eu era uma diaba loira idiota e que nós nunca seríamos amigos." Sam sentia-se verdadeiramente desesperançosa.
"Quer descobrir o que ele te falaria agora ou prefere ficar no escuro?"
Era uma boa pergunta, mas a loira preferia simplesmente ignorar e não responder. Virou-se e quis seguir ao final da rua para achar um ponto de ônibus. O bad boy gritou seu nome algumas vezes, porém ela continuou a andar como se não estivesse escutando nada. Ele continuara a gritar algumas coisas, primeiro banais, depois ele começou a dizer que ela se arrependeria para o resto da vida dessas escolhas. O silêncio era uma prisão. Freddie jamais saberia como ela iria se sentir se ele desaparecesse.
Mas, o silêncio não foi uma opção por alguns minutos. Sam não se referia aos gritos de Griffin, mas sim porque ouvira a voz mais conhecida de seus ouvidos nos cinco segundos anteriores. As palavras soltas de Freddie se misturavam com a risada fina de Carly e quando a loira finalmente olhou para trás e voltou uns passos, essa era a imagem mais estranha que havia visto nos últimos tempos.
Freddie olhara para frente e pensou em ignorar que Griffin estava ali, mas seria impossível. O garoto começou a fazer menção de que iria abordá-los, porém não deu tempo. Sam correu e se colocou na frente. Não disse nada. Ficou estática os olhando e acompanhando cada reação que tivessem.
— Precisamos conversar. – Sam e Griffin disseram em uníssono.
— Claro! – Carly desviou o caminho e fez com que Griffin a acompanhasse em um lugar mais reservado.
Freddie cruzou os braços e observou parado a loira andando para perto de uma grande árvore que existia ao lado esquerdo do portão. Era muito difícil olhá-la, mas era pior ainda ter que vê-la com o Griffin mais uma vez. Já não era trauma o suficiente? Ele realmente não sabia dizer. Sua cabeça começou a ficar confusa ao analisar os movimentos repetidos que as botas marrons de Sam faziam na grama seca. Há pouco tempo, estavam completamente entregues um para outro, porém agora pareciam estranhos.
— Eu não queria gritar pra poder falar com você, pode fazer o favor de chegar perto, nerd?
— Depende. – ele disse calmamente se aproximando um pouco – Você vai ser breve?
— Você vai ser chato?
— Você está com moral pra falar de chatice?
— Você sabe algo sobre moral? – riu sarcástico – Não foi você que beijou meu melhor amigo?
— Eu não beijei ninguém.
— E eu sou um idiota que acreditei em você.
— E eu sou uma otária que nunca mentiu pra você nem por um segundo. Nem mesmo pra vencer uma aposta.
— Você quer jogar sujo, Puckett?
— Você não acha que já nos sujamos o suficiente, Benson?
Era palpável a mistura de sentimentos no ar. Se há dois minutos estavam distantes, essa distância física não existia mais. As respirações se mesclavam muito superficialmente, porque ainda não era uma proximidade tão eloquente a ponto de acontecer um beijo inesperado. Eram apenas suas respirações ofegantes sendo mais altas que palavras.
— Estamos acostumados. – agora Freddie havia abaixado o tom.
— Totalmente. – as respirações ficavam cada vez mais fortes.
— Eu não acho que somos bons em fazer as coisas direito.
— Talvez essa seja a graça. – Sam sussurrou já quase encostada nos lábios dele.
— Eu te odeio. – confessou Freddie.
— Eu sei. – respondeu Sam.
Sem pensar em mais nada, ela segurou o colarinho do nerd com a maior força que conseguira e seus lábios se chocaram como duas pilhas em curto circuito de encaixe perfeito. Sam sentiu que nada e nem ninguém podia fazer com que seu coração ardesse em uma intensidade parecida com aquilo. Freddie pensou que seria a última vez que seu peito gritaria de tanta euforia e paixão. Era como se fosse tudo novo, de novo e mais uma vez.
Quando a velocidade e os instintos frenéticos acabaram, o toque macio que ainda permanecia era um acalento que sobrara em seus corpos. Era reconfortante ao mesmo tempo que desafiador. Nada podia se comparar aos completamente opostos e compatíveis – contraditoriamente – sentimentos de Sam e Freddie.
— Esse é o único beijo que eu dei desde a vez que você me mostrou seu terno de formatura na escola. – ela disparou depois de separar-se um pouco dele – O que aconteceu no Groovie foi simplesmente alguém que não conseguiu reagir a um ato inesperado. Eu não correspondi, mas eu não parei por estar completamente em choque.
Suspirou pesado.
— Freddie, você acha que sou idiota de te chamar pra um lugar só pra você me ver beijando outro cara? Meu Deus!
— Não faz sentido.
— Exatamente!
— Não. – Freddie protestou – Nada faz sentido. É incrível como a gente é capaz de se meter em tanta merda em um tão curto período de tempo.
— Eu sei, mas...
— Sam. – ele interrompeu – Eu não quero desistir de ir embora. Não é por ninguém e sim por achar que aqui eu consigo achar problemas mais rápido do que acho no Canadá.
— Mas, a sua vida é aqui, Freddie. – um nó em sua garganta já havia se formado – Como você acha que vai fugir dos seus problemas simplesmente mudando de país? Isso não existe.
Ele a segurou pelo rosto e tirou uns fios de cabelo teimosos que insistiam em grudar em suas bochechas. Os olhos castanhos estavam mais úmidos que o normal e com certeza a vermelhidão não era rotineira.
— Ir na festa de formatura não está mais nos meus planos. Ficar com você em Seattle se tornou um plano de insanidade. Parece que nada que a gente faz dá certo. Sam, por que você acha que somos assim?
— Porque nossas mentes pensam diferente. Mas existem razões que nos aproximam. Muitas.
— Quais?
— Ah, Freddie...
— Quais? – ele insistiu na pergunta.
— Amor por tecnologia, artes, comer bacon boliviano, gostar de dormir com barulho de chuva. Senso de justiça. Famílias complicadas. Uma infinidade de coisas novas para descobrir. Até sobre nós mesmos.
— Eu quero ir embora daqui. – ele disse um pouco mais nervoso. Afastou-se e passou a mão nos cabelos. Realmente não estava sabendo lidar com as dificuldades colocadas em seu colo.
— Pra fugir do quê?
Os olhares se intensificaram e Freddie estava mais confuso em dez minutos de conversa com Sam do que ele esteve todas essas horas lá em cima arrumando as coisas. Porém, ela o abraçou e dessa vez, numa única vez, não teve nenhuma tensão sexual ou até mesmo romântica durante o ato. Era apenas reconfortante e como se alguém o dissesse em claras palavras que estava tudo bem sentir-se assim. E que as coisas vem e vão, mesmo quando queremos evitá-las.
— Não existe ninguém que possa te ensinar a viver a vida, você precisa só viver e as coisas vão acontecer naturalmente. – ela segurou suas mãos geladas – Não importa qual escolha você fizer, nerd, só tenha certeza de que está fazendo por você e não por influência de alguém.
— É muito pesado, Sam. Eu só queria fechar os olhos e esquecer todas as cenas que vivemos nesses últimos meses.
— Eu sei. – dizia isso soltando sua primeira lágrima – Mas, você não vai e precisa lidar. Tudo vai se ajeitar de uma maneira ou de outra. Mesmo que seja desajeitada.
— E se essa maneira for no Canadá? Você, sei lá, iria comigo?
Fale com o autor