Changes of Destiny
40 Compromisso futuro
Notas iniciais
Sam virava o corpo junto com sua cadeira facilmente móvel para observar Freddie que chegava barulhento ao se enrolar com as compras do mercado e o molho de chaves que segurava. Desligou o computador que utilizava e abriu um sorriso largo achando graça da situação.
Mesmo depois de três anos, ainda era impossível para a loira acostumar-se com a presença de seu noivo todos os dias. Deixando claro, o sentido de acostumar nesse caso é o melhor possível, principalmente porque Samantha ainda sentia movimentações esquisitas na barriga toda vez que via Freddie. E a voz dele ativava químicas complexas em seu cérebro. Sem contar com o fato de que sentia até as pontas de seus dedos queimarem em ardência por essa paixão que parecia incessante.
Eram três anos dividindo o mesmo teto no Canadá desde quando Sam decidiu mudar-se com ele. Mas, a história não avança tão rapidamente quanto parece. Contudo, os dois ainda tiveram que atravessar obstáculos para que se entendessem e desistissem de lutar contra um sentimento maior que suas consciências.
Até hoje, não se sabe ao certo porque Sam resolveu largar Seattle e monitorar sua mãe de longe, — mesmo que essa já tivesse apresentado uma grande melhora e evolução — mas, ainda que Puckett não assuma nem a base de tortura, Freddie Benson era o nome de seu ponto fraco. Várias razões podem surgir em mente como: necessidade de respirar novos ares, desejo em explorar um lugar desconhecido ou até mesmo construir uma nova vida. Mas, então, cá entre nós, essas foram motivações pouco consideradas. Samantha queria mesmo é se jogar, pela primeira vez, com todas as suas impulsividades aos seus instintos amorosos mais puros e profundos.
Ela fora por amar Freddie.
Ele parecia tão decidido no auge do ensino médio. O Canadá era sua última cartada, a luz no fim do túnel. Era um tempo de muita tristeza e incerteza. Porém, Fredward nunca existiu em sua totalidade longe de Sam. Todos nós sabíamos que ele não iria a lugar nenhum sem ela e assim foi feito.
— Eu vou fazer um jantar pra gente. — disse Freddie concentrado depositando as numerosas sacolas no chão da sala.
O apartamento não era dos maiores, é verdade, mas era charmoso com tons sóbrios e adultos. Era difícil, mas restava aceitar, agora os dois eram adultos com pensamentos firmados e contas para pagar. Sam era a mais incisiva em suas opiniões, mesmo mais nova, bateu o pé dizendo que não ficaria numa mansão. Essas casas exageradamente enormes causavam nela uma sensação gélida e distante. Seus olhos nunca brilharam para o extremo luxo, apenas queria algo aconchegante e com cara de lar.
Opostos em tudo, Freddie pensava diferente. Não se incomodaria em ter três ou mais andares em seu imóvel, mas a convivência com a loira o transformou em alguém já satisfeito em ter uma lava louças.
— O que você quer comer, amor? — indagou ele depois de depositar um estalo em seus lábios.
Sam sorriu.
— Eu como qualquer coisa e você sabe.
— Também sei que quando eu cozinho o que você quer a recepção é outra. – riu pelo nariz – Juro, só mandar e eu faço.
A garota começou a acariciar os cabelos como quem aparenta se exibir. Ainda não havia tirado o sorriso de seu rosto e isso era frequente quando estava perto de Freddie.
— Não vou escolher! – olhou para os lados fazendo charme – Eu amo tudo o que você cozinha.
Ela chegou mais perto e acariciou entre seu pescoço e o colarinho da camisa. Sentado na ponta do braço do sofá, Freddie agarrou delicadamente sua cintura e começou a ajeitar os fios de cabelo que repousavam sobre a bochecha de Sam. Passou os dedos por toda a extensão de seu rosto vagarosamente. Como era linda. O nerd analisava cada traço e expressão com precisão, admirando a delicadeza e exuberância que possuíam. Com o passar do tempo, aquela mulher tinha ficado ainda mais atraente, como se isso fosse possível.
Amava seu trabalho como analista chefe de software na Pear e isso era uma de suas mais profundas paixões. Todavia, tinha certeza de que amava mais ainda chegar em casa e se deparar com o amor da sua vida.
— Eu sou tão sortudo por você ser minha noiva. — continuou acariciando seus fios loiros, agora perto da franja. — Tão sortudo por você ter vindo comigo, ter apostado no incerto. Tão sortudo por te ter como minha companhia no baile de formatura do ensino médio. Eu amo ter te encontrado cedo. É mais tempo pra passar o resto da minha vida com você.
Sam não conseguiu conter quando suas bochechas esquentaram e seu batimento acelerou estupidamente. Não podia evitar o contato visual que fazia diretamente com o olhar de Freddie. As faíscas eram tão eletrizantes quanto quando eram adolescentes e isso era impressionante. Nada havia esfriado, mesmo com a rotina e com as responsabilidades que surgiram posteriormente.
Na verdade, foi na rotina que se criaram os momentos mais especiais e grandes impulsionadores de admiração entre os dois.
A loira inclinou-se devagar e delicadamente o beijou. O hálito quente dele despertava seus instintos mais animalescos, mas o carinho e a leveza do toque equilibravam todos os sentimentos intrínsecos nela.
— O que será que teria acontecido se a noite da formatura não fosse nosso último momento em Seattle? Você viria pra cá sem mim? – Sam soltou depois de muito tempo em silêncio encarando os movimentos de seus dedos entre os cabelos de Freddie.
— Eu não sei se ficaria em Seattle naquela situação. – suspirou – Foi muito pesado pra nós com dezessete anos aguentar toda aquela carga emocional. Acho que a gente ia precisar de uma pausa.
— Eu gosto da minha vida aqui. A faculdade comunitária foi a melhor experiência, o meu restaurante cresceu tanto esse ano. Passou de só serviço em delivery pra lugar físico. Acho que quero expandir. – respirou fundo. – Sinto falta de Seattle e mesmo que a Carly e o Brad venham visitar sempre, tenho saudade da minha cidade.
— Você tem planos em mente?
— E-eu...
Sam não sabia porque estava com receio de conversar sobre isso com Freddie. Ela não queria acreditar que a cidade natal de ambos ainda podia causar qualquer tipo de gatilho negativo em seus pensamentos.
— Princesa, – ele a encarou fixamente – você pode falar sobre tudo comigo. Vamos nos casar, a minha vida já é nossa há muito tempo.
— Eu sei. – afirmou confiante – Mas, eu não quero ser a pessoa responsável por despertar memórias ruins.
— Já passou.
— Então você aceitaria casar em Seattle? Ou até mesmo voltar a construir nossa vida lá?
Freddie repousou as duas mãos sobre suas coxas e soltou ar pela boca. Sam ainda não sabia exatamente o quê ele pensava sobre sair do Canadá e retomar a vida em Seattle. Era uma conversa difícil, também porque quase tudo estava estabelecido em Toronto e as lembranças da cidade americana não haviam sumido completamente de sua mente.
Apesar de suas vontades, o moreno também sabia como sua noiva sentia falta das pequenas coisas de Seattle. Os prédios descascados em cinza, o pôr do sol colorido, sua família e a maioria de seus amigos. Freddie também guardava boas vivências de lá, mas seu período de adaptação no Canadá fora tão emergencial e tão rápido que o sentimento saudosista ficou menos presente.
— Eu sinceramente não sei como seria. – voltou a olhá-la – Nunca vou negar nenhum pedido seu. Você veio até aqui comigo porque eu precisava. Se você realmente quer e precisa eu vou pra Seattle e fico. Por você eu vou pra qualquer lugar, Sam.
Ela depositou um selinho demorado em seus lábios segurando um sorriso.
— Eu te amo, meu amor. Só não quero que isso seja um grande sacrifício pra você. Não seria legal.
Freddie balançou a cabeça negativamente.
— Preciso confessar que quando você me pediu em casamento, – continuou Sam – eu imaginei tudo acontecendo em Seattle com um pôr do sol foda, um lugar paradisíaco admirando uma paisagem que me conforta. – revirou os olhos rapidamente – Nunca pensei que ligaria pra essas baboseiras, mas você me deixou cafona que nem você.
— Eu não sou cafona! – protestou segurando a mão dela – Olha essa aliança, coisa mais linda. Eu sou um homem de muito bom gosto.
— Nerd, você pediu pra Alexa tocar Running Away antes de me pedir em casamento aqui em casa, quer coisa mais cafona que isso? Você é um romântico nato parado nos anos oitenta.
— Porra! – gargalhou alto – Isso foi a coisa mais maneira que eu já fiz. Muito valentona sem coração.
— Eu? Sem coração? Eu até aceitei! Agradeça. – riu sem pudor.
— Você me ama. Aceitaria até se eu tocasse violino com uma banda, numa serenata ou até usando um carro de som.
— Depende. Se você inventasse alguma nerdice no meio eu ia negar. Deus me livre.
— Duvido! – gritou empolgado – Nerd gostoso é a minha versão que você mais gosta.
Sam apenas sorriu voltando a beijá-lo, dessa vez, com mais desejo.
-
— Brad, não sei se você lembra, mas a Sam e o Freddie já estão hospedados no final da rua. Chegaram ontem.
Carly olhava pra janela de casa como se fosse encontrar calmaria na sua pressa antes de ir pro escritório.
Um ano após decidirem se casar em Seattle, Sam e Freddie resolveram alinhar as pendências de moradia e negócios após a cerimônia. Desse modo, conseguiriam aproveitar o último ano no Grande Norte Branco.
Por ter olhos, ouvidos e — sinceramente, por não se importar tão significativamente com essas coisas, — todos os detalhes da festa já estavam escolhidos à distância mesmo. Das flores ao vestido, do local até os docinhos.
Carly e Brad foram de grande ajuda nesses quesitos, parte por Carly amar uma missão em que ela é a encarregada chefe e outra por Brad ter o melhor buffet de doces da cidade.
— Eu sei, amor. — Brad respondeu calmamente enquanto apontava pro relógio que a morena procurava. — Respira um pouco, são sete ainda. Não está atrasada.
Ela fingira respirar fundo.
— Hoje eu nasci atrasada. Tenho que adiantar três casos no escritório e vou almoçar com a Sam. Vamos aproveitar pra ela fazer a última prova do vestido.
A garota estava no seu último ano da faculdade de Direito. Depois de estagiar um ano em uma das empresas mais renomadas de Seattle, conseguira ser efetivada. Não suportava mais a ansiedade de terminar o curso. Estava com a sua especialização totalmente planejada: queria ser advogada familiarista. Essa paixão não surgira apenas por ser uma romântica nata, — afinal, já ajudara a conduzir inúmeros divórcios, — mas também ponderou questões financeiras. Estava indo muito bem nesse âmbito, modéstia a parte.
Brad havia herdado o buffet de doces de seu pai recém falecido. Seu plano era diferente, queria algo mais rápido e eficaz para começar a trabalhar. Formou-se em um tecnólogo de hotelaria e estagiou em alguns restaurantes sem especialização em patisserie, mas elevou o nível de sobremesa de todos eles.
Carly não estava decidida a casar, apesar dos incontáveis pedidos de Brad. Apesar de apaixonada, estava mais focada em sua carreira. Por enquanto, contentava-se em morar com ele num loft.
— Beijo. – ela curvou-se para beijá-lo – Até mais tarde.
— Tchau, te amo. – respondera.
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— Tá, aí quem do Canadá vem? Vem alguém da Pear? – perguntou Griffin enquanto pressionava todos os botões do videogame.
— O Steve vem. – Freddie respondeu fixado na tela, tentando alcançar o saco de salgadinhos. – Mas, eu não quis fazer alarde. Sabe como é, né? A Sam queria uma coisa muito pequena e acha a maior baboseira do mundo esse negócio de duzentos convidados.
Griffin riu fraco lembrando do temperamento de Sam, mas rapidamente ficou sério. Pigarreou. Tossiu. Mostrou-se desatento ao jogo de tal maneira em que Freddie estava quase acertando fatality.
Respirou fundo enquanto tentava criar coragem.
— E... e a Melanie? Ela vem? — tentou parecer despretensioso.
Freddie automaticamente pausou o embate na TV. Arqueou as sobrancelhas, segurou um riso e olhou no fundo dos olhos de Griffin até que o bad boy ficasse desconfortável. O sorriso de canto de boca estava prestes a se formar e o nerd segurava com todas as forças de seu ser uma gargalhada.
— Que foi? – indagou Griffin indignado – É tão estranho assim esperar que a irmã da noiva apareça?
— Não. – Freddie respondeu sarcástico – É estranho que você queira que sua ex apareça.
— Quem disse que eu quero?
— Griffin.
— Ah, sei lá. Eu gostaria de vê-la de novo, que que tem? – tirou o pause do jogo e fingiu concentração. – Reunited and it feels so good! Viva os reencontros! Ou algo assim.
— Que vergonha alheia. – Freddie disse entre risadas – Pode tirar seu cavalinho da chuva, a Melanie ficou presa no trabalho em Londres. Não vem.
O nerd o olhou de canto e percebeu uma queda em seus ombros. Mesmo depois de anos, Griffin ainda não tinha superado completamente a avalanche Melanie Puckett.
Ele gostava mesmo das boazinhas.
E para sermos justos, elas também gostavam dele. Ainda mais agora.
Não se sabe o que pode ser tão atraente em mãos sujas de graxa evidentes na esquina do Kerry Park. Talvez, sua especialização em Harley Davidsons seja a grande charada dessa incógnita, ou até mesmo, trabalhar de regata na luz do sol seja sexy pra algumas mulheres.
É impossível realmente entender qual é, mas Griffin amava seu emprego na oficina Rocky Mountain e amava mais ainda sua vida regada de cerveja e solteirice.
Porém, mesmo assim, ainda queria saber de Melanie. E Freddie alimentou essa curiosidade, pois sabemos da sua grande mentira. Era evidente que Melanie viria, mas Griffin não precisava tomar ciência disso.
Pelo menos por enquanto.
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