Chances

9 Capítulo IX


— Oi mãe, como a senhora está? – Alice pergunta para sua mãe, que estava deitada no sofá, bem mais pálida do que o normal.

— Estou fazendo o possível para me manter de pé. – D. Carla da um sorriso fraco. Ela está com um tumor cancerígeno no estômago, diga-se de passagem, que está entre a beirada da morte. – Sua tia veio fazer o almoço... Acho que está na geladeira. – Ela tenta se sentar com dificuldade. – Se você puder arrumar para o seu irmão ficarei muito feliz.

— Que isso, mãe. Farei de tudo pra senhora – Alice da um beijo estalado na bochecha da mãe. – Volte a descansar que tomarei conta de tudo.

D. Carla sorri novamente e deita-se com a mesma dificuldade que teve para levantar. Alice esquenta o almoço enquanto seu irmão toma banho. Lice está na faculdade e tem apenas vinte e três anos, está jovem e com diversas ideias diferentes, ainda não sabe ao certo o que deseja fazer com sua vida no futuro. Mas de uma coisa ela estava certa: sua mãe morreria em breve, estava sofrendo muito nessa vida e seu pai foi assassinado há treze anos. Portanto, ela teria Marcos para cuidar caso sua tia não quisesse assumir a guarda.

— Está pensativa, Lice. – Marcos senta-se perto dela.

— Mamãe não está muito boa hoje, -- Alice apoia sua cabeça entre suas mãos. – precisamos continuar fortes. Você entende?

Marcos assente. Todos já esperavam pelo pior, apenas não sabiam quando aconteceria. Alice tentando dispersar a tensão naquele momento preparara os pratos e pega seu celular para tirar uma selfie do clássico espaguete, porém ao deslizar seus delicados dedos pela tela, ela percebeu que o celular na verdade era de Miguel. Eles haviam trocado os celulares quando se esbarraram na escola. Lice deixa escapar momentaneamente um sorriso bobo ao lembrar-se que deveria vê-lo mais uma vez.

Deixando os súbitos pensamentos bobos de lado, os irmãos iniciam o almoço em silêncio, mas Marcos logo percebe que Alice havia trocado o celular com outra pessoa.

— Miguel? – Marcos diz incrédulo. – Por favor, ele não. Ele é o maior filhinho de papai, a cara do deputado Venâncio que só visa os lucros de nós proletariados.

— Sério que o pai dele é o dr. Venâncio? – Alice bufa e seu irmão assente. – Era só o que me faltava. Ele negou o primeiro tratamento de mamãe. Lembra a forma que ele nos olhava?

— Sim, por isso que eu digo: Miguel não.

Alice se levanta da mesa indo para a pia lavar os pratos. Instantes depois o celular de Miguel apita, indicando a chegada de uma mensagem:

“Celulares trocados. Ironia do destino?! Nos vemos na praça Eucalipto amanhã às 15:15. Esteja com folga, fiquei sabendo que você está se formando em física a matéria que estou de recuperação. – Miguel xx.”

Marcos revira o olho e se retira do cômodo, induzindo Alice a ir para o quarto e pensar em uma boa estratégia para escapar do “encontro” de amanhã.

...

Lice se preparara para tudo que estava prestes a acontecer e ela fazia questão de ser a personagem principal de todo enredo. Estava com short jeans, blusa branca e uma jaqueta de couro preta, com seu melhor perfume e com seus cabelos lisos caindo pelos ombros. Deu um beijo na testa de sua mãe que respirava com dificuldade e pegou sua lambreta às 14:30, faria um longo percurso até um parque público do outro lado da cidade que ficava na parte nobre.

A garota pôs seus óculos no rosto para proteger-se do Sol e esperou por Miguel, deitada na grama baixa do parque. Uns vinte e cinco minutos depois Alice notou um carro esportivo estacionar no local, era Miguel.

— Alice – Miguel atraiu a atenção da moça que continuara deitada relaxada, observando o céu limpo e azul. O adolescente fizera o mesmo. – Hoje está um dia lindo.

— Por favor, não estrague esse silêncio maravilhoso. Não seja igual ao seu pai que estraga tudo – Miguel silenciou-se e deixou aquele momento passar ao lado de Alice. Para ele tudo parecia diferente, não havia o luxo ou as frescuras que estava acostumado e que sempre gostara. Estava apenas deixando o tempo passar e aproveitando uma das coisas mais belas da vida. A respeito da opinião de Alice sobre seu pai, ele não discordava...

Depois de um tempo nesse estado atônito, Alice se virou para Miguel admirando seus traços mais jovens do que o dela.

— Física, né? – Miguel sorri e assente.

— Preciso de você para eu conseguir me formar no ensino médio com dezoito anos.

...

Antes fosse apenas uma ajudinha que Alice daria para Miguel. Ele estava enlouquecendo com a moça, que a cada dia estava sendo ainda mais próxima dele. Lice estava conquistando o adolescente aos poucos, brincava com os sentimentos dele todo o momento fazendo com que ele se sentisse ainda mais fissurado por cada detalhe dela. Não pensem que sou eu que implanto essas coisas na cabeça de Miguel, Ítalo que o inspira só que dessa vez ele tem mais uma chance de não fazer as mesmas besteiras que fez com Jambá, ele tem a oportunidade de amá-la e deixar todo luxo burguês por ela. Algo que deveria ter feito há muito tempo atrás.

— É a sua vez – diz Alice ensinando Miguel a pilotar sua lambreta. – Solta a embreagem aos poucos... Viu, eu disse que você conseguia. Vamos ao parque Eucalipto.

— Às vezes acho que você me faz de gato e sapato. – o adolescente diz ao ver Alice subindo na árvore. – Como você tem essa habilidade?

— Minha mãe diz que veio dos meus antepassados – Alice da de ombros e continua. – Não acho que faço isso com você. Só acho que não devemos criar nenhuma expectativa.

Miguel tenta subir na árvore falhando de primeira. Lice tira um maço de cigarros do bolso, posiciona um entre seus lábios e o acende.

— O que? – Alice diz, observando Miguel pegar outro cigarro. Os lábios carnudos do adolescente envolviam o cigarro, Lice se prontifica para acendê-lo com seu isqueiro. – Seu pai piraria.

— Talvez.

— Não ia achar que sou uma boa companhia pra você. – Alice complementa.

— Talvez.

— Por que “talvez”?

— Desde quando te conheci você tem me mostrado o verdadeiro sentido da vida, tem me enlouquecido, plantado sentimentos em mim que nem sei explicar – Miguel continua a tragar seu cigarro. –, meu pai não me permitiria enxergar ou sentir essas coisas, ele apenas me induz a fazer as maiores bobagens.

Alice abaixa seu olhar para os lábios de Miguel e diz:

— Pelo menos você tem um pai.

— O que... o que houve com o seu? – diz ao terminar de fumar.

— Acho que não vem ao caso – Alice desce da árvore aborrecida com algo vira as costas e olha pra Miguel com uma olhar de intimidação.

— Sabe Alice, temos nos falado há quase três meses e você sempre se irrita com algo. Quase me declarei pra você em cima daquela árvore e só porque fiz uma pergunta relacionada à sua família você já se aborrece, vira a cara pra mim. Só falta me bater!

— Para de ser infantil, Miguel. – Lice bufa e continua pisando fundo. Miguel acompanha seus passos e segura o braço da moça, fazendo-a parar no meio do caminho.

— Tem como você parar? Você “pagar” de desinteressada só complica mais as coisas, será que não percebe que eu quero ser muito mais do que um amigo que só quer aproveitar de ti.

— Seu pai mandou assassinar o meu, entende? Agora me erra. – Alice liga sua lambreta e parte em rumo a sua casa.