Chances
70 Não sou burro, Deanno.
Notas iniciais
– Mas vai ficar tudo bem – Ash disse, tomando um gole de seu café em seguida.
Eles estavam na faculdade, mais especificamente, em um dos bancos próximos das salas de aula das pessoas que faziam o colegial lá. A área estava deserta, pois os adolescentes ainda não haviam voltado de suas férias. Clark achou que ali seria um bom lugar para falar de suas angústias para Ash.
E o motivo de suas angústias era o mesmo de sempre: Dean.
Ele anda muito recluso, muito distante e distraído. Mais cabisbaixo do que o de costume, sempre parecendo pensativo. E quando Clark pergunta se alguma coisa aconteceu, ele diz que não e logo depois fica super-romântico, meloso e atencioso. Dean gosta de carinho, mas Clark sabe que ele odeia quando fica meloso de mais.
Ele não sabe o que fazer.
Claro que Ash disse a única coisa aceitável a se dizer para o moreno naquela hora, que iria ficar tudo bem. E logo depois mudou de assunto.
– O casamento foi muito bom, Clark. Pena você não poder ter ido.
– Queria estar lá com vocês. Se divertiram, beberam bastante?
– Sim, Frank diz que teve alguém que bebeu mais que ele, mas eu discordo – Ele sorriu.
– Quem? – Clark perguntou.
– Ah, um amigo de um amigo meu, Sam. Dean disse que vocês estudaram todos juntos, se lembra dele?
– Sam Winchester? – Ash apenas confirmou com a cabeça — Tem certeza?
– Eu não. Dean parecia bem perturbado pela presença dele, mas no final estavam bem amigáveis.
Sam? Será que... Não, Dean não faria isso, não é? Ele é um bom rapaz, não teria o que é preciso para traição. A mudança dele com certeza tem outra explicação. Certo?
Strange to think the songs we used to sing
(É estranho pensar nas músicas que costumávamos cantar)
The smiles, the flowers, everything is gone
(Os sorrisos, as flores, tudo se foi)
Yesterday I found out about you
(Ontem eu descobri sobre você)
Even now just looking at you
(Até olhar para você agora)
Feels wrong
(Parece errado)
You say that you'd take it all back
(Você disse que desfaria tudo)
Given one chance; it was a moment of weakness
(Se pudesse; foi um momento de fraqueza)
And you said "yes"
(E você disse “sim”)
– Que horas Dean saiu da festa? Só pra eu me situar... – Clark perguntou pensativo.
– Na mesma hora que nós todos, quase cinco horas. Bem, não todos nós, Sam foi embora mais cedo.
– Entendi. Bem, tenho que encontrar o Dean. Nos falamos mais tarde, ok? – O moreno mentiu.
– Claro, até mais. E obrigado pelo café.
A cabeça de Clark estava doendo, ele precisava se distrair com alguma coisa e depois colocar seus pensamentos no lugar. Foi até seu carro e dirigiu até seu apartamento, determinado a dormir um pouco, ou talvez assistir a algum filme.
### FLASHBACK ON ###
– Você não deveria ter dito isso, Sammy – O loiro sussurrou.
– Dito o quê?
– Que eu sou o amor da sua vida.
Dean suspirou e se levantou da cama, indo em direção ao banheiro da suíte. Ele se olhou no espelho e mal se reconheceu. Alguma coisa sobre estar lá com Sam, depois de um sexo maravilhoso – como era de costume – o levou de volta para quando tinha apenas dezessete anos.
As sensações eram as mesmas, a animação por ter feito algo errado ou proibido, aquela faísca que se acende e nos transforma em verdadeiros adolescentes, de corpo e alma. Sam fazia com que ele se sentisse assim novamente. Como se não houvesse limites, como se eles ainda tivessem todo o tempo do mundo para fazer o que quisessem. Como se todos os planos que fizeram quando eram mais jovens, pudessem ainda ser uma realidade, por mais loucos que sejam.
Mas então as memórias ruins vieram até ele. As vezes em que Sam terminou com ele, o dia da formatura quando o viu pela última vez, as noites na Supernatural Me tentando transformar-se em um adolescente, para realmente esquecer Sam, mas que no final, acabou fazendo com que Dean perdesse tanto. Acabou fazendo com que Dean acordasse várias noites na cama de estranhos, não se lembrando muito bem de como chegou lá; ou que acordasse em sua cama, naquele pequeno apartamento, ao lado de alguém que fingia que não havia chorado.
E em todas essas lembranças ruins, estava Clark. Clark Kent com seus olhos verdes, tão teimosos, tão francos, tão leais. Exatamente o que Dean não consegue ver nos seus, olhando para aquele espelho. Ele só vê uma pessoa que fez muitas escolhas erradas na vida – muitas mesmo -, mas essa foi com certeza a pior delas.
Ele lavou o rosto, como se pudesse lavar a vergonha de seus atos juntos com a água fria da torneira. Ele fechou os olhos e respirou fundo três vezes antes de conseguir se encarar no espelho novamente. E quando abriu os olhos, Sam estava parado atrás dele. Os olhos verde-azulados cansados e preocupados. Obviamente tristes, porque ele não era burro, e sabia que Dean iria embora.
You should've said no
(Você deveria ter dito não)
You should've gone home
(Você deveria ter vindo pra casa)
You should've thought twice before you let it all go
(Você deveria ter pensado duas vezes antes de botar tudo a perder)
You should've known that word like what you did with him
(Você deveria ter recusado, mas o que você fez com ele)
Would get back to me
(Voltou até mim)
And I should've been there
(E eu deveria ter estado lá)
In the back of your mind
(Em algum canto na sua mente)
I shouldn't be asking myself why
(Eu não deveria estar me perguntando o motivo)
You shouldn't be beggin' for forgiveness at my feet
(Você não deveria estar implorando por perdão aos meus pés)
You should've said no
(Você deveria ter dito não)
Baby, and you might still have me
(Querido, e você talvez ainda me tivesse)
Ele sabia que o loiro não largaria toda a sua vida para viver a incerteza de ficar com ele. Mas ele tinha esperança de que seria exatamente isso que Dean faria. Ele tinha esperança de o loiro ainda amá-lo como amava quando tinham dezessete anos.
– Volta pra cama, Sammy – Dean tentou sorrir — Eu já vou.
– Temos que falar sobre isso.
– E vamos. Só vou tomar um banho.
Sam consentiu com a cabeça e depositou um leve beijo na bochecha vermelha do Warner, antes de se virar e voltar ao quarto.
### FLASHBACK OFF ###
– Clark? – Dean se agachou na frente do sofá para ficar com o rosto na altura de Clark – Clark, acorda, querido. Vamos para a cama.
Quando ele acordou e viu Dean, resolveu deixar todos os seus pensamentos ruins de lado. O loiro parecia tão feliz, tão animado do dia que teve com Gordon, que Clark não conseguiu tocar no assunto, nem lhe perguntar nada.
– Que horas são? – O moreno perguntou.
– Quase onze horas.
– Nossa, já? Eu dormi bastante, então.
– Venha, vou te colocar na cama e esquentar a janta, ok?
Clark acompanhou Dean até o quarto e o moreno se deitou, enquanto Dean tirava a sua roupa, falando de como foi seu dia com Gordon e que estava louco para tomar um banho e comer alguma coisa. Mas pela primeira vez, Clark não conseguiu se concentrar em nenhuma palavra que saía da boca do Warner. Estava disperso, distraído, Dean teve que chamar sua atenção pelo menos três vezes antes que ele respondesse.
– Você deve estar morrendo de sono e eu tagarelando aqui. Vou deixar você descansar – Dean sorriu e Clark teve vontade de chorar. Como aquele sorriso era lindo. Sentia como se fosse morrer se não o visse todos os dias – Vai querer comer alguma coisa?
– Sim, por favor.
– Tem sobras?
– Pedaços de frango na geladeira para fritar.
– Ótimo, e vou fazer um arroz – Dean, ainda sorrindo, foi até a cama, apenas em suas boxers, e deu um beijo leve nos lábios de Clark, que segurou seu rosto por um momento, encarando aquelas esmeraldas.
– Eu te amo muito, Dean – O moreno disse, ainda com vontade de chorar.
– Eu também te amo, Clark – Warner fez um carinho no rosto alvo de Clark e lhe deu mais um beijo – Meu anjinho.
Quando o loiro saiu do quarto, Clark suspirou. Ele estava todo meloso novamente, sem falar que super prestativo, como se quisesse o impressionar ou... Não, é melhor deixar esse pensamento pra lá. Estava tudo bem, não é?
Estava tudo bem.
### FLASHBACK ON ###
Quando Dean chegou em casa, por volta das oito da manhã, Clark ainda estava dormindo em sua cama. O nariz vermelho e a coberta envolta em seu corpo, mesmo com o clima não estando tão frio, indicavam que ele não havia melhorado nada.
Dean apenas tirou os sapatos e deitou-se na cama, abraçando Clark por trás e beijando sua nuca. Mas o moreno acabou acordando e se virou para deitar no peito de Warner. Ele respirou fundo, conseguindo sentir o cheiro da bebida e... Sabonete?
– Já tomou banho, meu amor? – Clark perguntou.
– Ainda não, já, já eu vou.
Isso intrigou o moreno, que se virou rapidamente para ver a hora em seu despertador. Oito e quinze da manhã?! Nossa, a festa realmente durou bastante. O que é estranho. Tão estranho quanto o cheiro de sabonete na pele do loiro, mas tudo bem. Dean contaria tudo o que aconteceu na festa pela manhã.
### FLASHBACK OFF ###
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Clark sabia. De alguma forma Clark sabia do que havia acontecido e escolheu não o confrontar com essa descoberta. Dean talvez tenha estragado tudo, agindo de uma forma que ele geralmente não agia, ou então Clark ficou sabendo que Sam foi ao casamento.
Talvez as duas opções... Dean sentia falta de Sam. E como sentia! Mas Clark era tão bom, tão seguro, tão adoravelmente simples e fácil de se conviver, que Dean não conseguiu realmente tomar uma decisão. Não pôde escolher entre Sam e Clark.
You can see that I've been cryin'
(Você pode ver que eu tenho chorado)
Baby, you know all the right things to say
(Querido você sabe todas as coisas certas a dizer)
But do you, honestly
(Mas você honestamente)
Expect me to believe
(Espera que eu acredite)
We could ever be the same?
(Que tudo possa ser como era antes?)
You say that the past is the past
(Você disse que o passado é passado)
You need one chance; it was a moment of weakness
(Você precisa de uma chance; foi um momento de fraqueza)
And you said "yes"
(E você disse “sim”)
Já seria de se imaginar que depois de tudo, o loiro escolheria o Winchester. Depois de todas as noites na Supernatural Me, depois de todas as noites com pesadelos e lembranças e lágrimas que carregavam o peso de um coração partido. Um coração que foi partido por Sam. Um coração que nunca o esqueceu. Seria de se imaginar que ele o escolheria.
Mas Clark o amava tanto, não é? E ele também o amava. Amava o jeito carinhoso e protetor que o moreno tinha sobre ele. Amava como ele, em momento algum, foi rude, ou ficou com um pé atrás quando queria algo — como o namoro deles. Amava como Clark conseguia ser decidido e o incentivava a ser da mesma forma. Ele gostava do Dean que se tornou com Clark. Gostava do Dean que conseguia relaxar, mas ainda assim fazer o que tem que ser feito. Gostava do Dean que conseguia decidir o que queria, e lutava por isso. Mas então Sam voltou à sua vida. E ele estava tão indeciso sobre tudo, quanto estava no colegial.
Tudo isso, mais a personalidade do velho Dean que criou raiz em seu cérebro, o deixavam confuso. Porque a situação pode ser vista de duas formas. Em uma, escolher Sam seria o caminho fácil, enquanto que escolher Clark seria a decisão mais decente. Na outra, Sam seria a escolha perfeita para Dean talvez recuperar um pouco dos dias de diversão que não teve, quando ele podia simplesmente dizer e fazer o que quisesse, sem se importar com nada, enquanto que Clark seria a decisão que o faria terminar a faculdade com prestígios, com mais foco do que nunca. Isso tudo, claro, a grosso modo. Há tantos outros detalhes a ser considerados.
– Clark, ainda está acordado? – Dean perguntou na porta do quarto, sem acender a luz.
– Sim, amor.
– Então venha jantar.
O moreno se levantou e Dean estendeu uma mão para que ele pegasse e caminharam juntos em direção à cozinha. Mas quando chegaram na sala, Clark parou de andar. O loiro se virou para ele, um tanto confuso, mas assim que olhou nos olhos sonolentos de Kent, sabia o que estava por vir.
– Por que não me contou que Sam foi ao casamento?
– Porque ele não é importante, amor. Não mais – Dean falou baixo, como se estivesse tentando manter a situação calma e sob controle.
– Então me conta o motivo de você estar dessa forma. Por que anda distraído? E porque fica super protetor e meloso, como se quisesse que eu me concentrasse nisso, ao invés de outra coisa? – Clark disse e Dean suspirou – É, eu sei. Não sou burro, Deanno. Não me trate como um.
– Clark...
– E por que chegou em casa às oito da manhã? Sei que saiu do casamento por volta das cinco. A festa não foi longe daqui – O loiro continuou sem falar nada, enquanto Clark despejava suas preocupações – Você sabe que eu não controlo seus horários. Não gosto disso. Mas eu preciso saber... E você estava cheirando a sabonete, eu soube que algo não estava certo, por favor, me diga a verdade, Deanno.
You should've said no
(Você deveria ter dito não)
You should've gone home
(Você deveria ter vindo pra casa)
You should've thought twice before you let it all go
(Você deveria ter pensado duas vezes antes de botar tudo a perder)
You should've known that word like what you did with him
(Você deveria ter recusado, mas o que você fez com ele)
Would get back to me
(Voltou até mim)
And I should've been there
(E eu deveria ter estado lá)
In the back of your mind
(Em algum canto na sua mente)
I shouldn't be asking myself why
(Eu não deveria estar me perguntando o motivo)
You shouldn't be beggin' for forgiveness at my feet
(Você não deveria estar implorando por perdão aos meus pés)
You should've said no
(Você deveria ter dito não)
Baby, and you might still have me
(Querido, e você talvez ainda me tivesse)
– A verdade é muito feia, Clark.
– Mentir também é.
– Tudo bem – Dean criou coragem e escolheu cada palavra que iria dizer – Sam estava no casamento. Ele é colega de quarto de um amigo do Ash. O amigo não pôde ir, mas ele foi. E Clark, o que eu mais queria era você comigo naquele momento. Eu tentei ser rude, tentei ficar longe dele. Mas é o Sam.
– O que aconteceu depois?
– Nós conversamos. Nos beijamos e depois ele foi embora, mas não antes de me deixar um papel com o hotel e quarto em que ele estava ficando, e que ele queria que eu o encontrasse lá.
– Ai meu Deus – Clark não conseguia acreditar.
– Eu não ia, Clark. Eu juro que eu não ia, mas quando eu estava quase chegando ao nosso apartamento, eu virei o carro e fui para o hotel. Eu fui e me arrependo de cada segundo do que aconteceu. Eu disse isso a ele, disse que foi um erro e que eu desejaria nunca ter feito. Foi um momento de fraqueza, Clark. Tem que acreditar em mim.
– Eu acredito em você, Deanno – O moreno tentou sorrir – Acredito mesmo. O que eu não acreditava é que você seria capaz de algo assim. Porque a coisa certa a se fazer, Dean, é não ir para o hotel, vir pra casa e me dizer como você realmente se sente. Me dizer que queria voltar com Sam, que as coisas mudaram. Acha que eu não entenderia isso?
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Dean, mas ele nem se preocupou em secá-la.
– Eu me sinto péssimo, Clark. Sei que o que fiz foi errado. Foi idiota.
– Deveria se sentir assim.
– Eu sei. Algum dia vai me perdoar?
Ficaram em silêncio por um bom tempo. Clark estava tentando não chorar, tentando não gritar com ele, tentando não desabar no chão com a dor que sentia em seu coração.
– O que você quer?
– Como assim? – Dean torceu para Clark não fazer a única pergunta que ele não saberia responder.
– Quem você quer? Sam ou eu?
– Eu voltei pra casa, não foi?
– Você não me respondeu.
– Clark, estou bem aqui.
– ME RESPONDE – Ele não gritou, mas com certeza não era o tom de voz que ele estava usando no resto da discussão.
– Eu amo você – Dean disse, chorando.
– Mas o ama mais.
O loiro não negou, nem concordou. Apenas ficou parado na sala, encarando os olhos verdes que lutavam contra suas próprias lágrimas, contra a vontade de quebrar tudo na sala para extravasar o que havia dentro de sua cabeça. Mas o moreno simplesmente virou-se de costas para Dean.
– Não estou mais com fome. Vou dormir um pouco.
I can't resist
(Não consigo resistir)
Before you go, tell me this
(Antes de você ir, me diga isso)
Was it worth it?
(Valeu a pena?)
Was he worth this?
(Ele valeu a pena tudo isso?)
Continua...
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