Chances
71 I'll be my own hero
Notas iniciais
DEAN’S P.O.V.
Clark e eu conversamos. E percebi que antes dessa conversa, os dois tiveram decisões muito diferentes uma da outra.
How many times have I
(Quantas vezes eu)
Tried so hard and I
(Tentei tanto e eu)
Ended up falling to the ground
(Acabei caindo no chão)
Eu havia decidido me mudar. Eu tinha dinheiro o suficiente do meu estágio e logo, logo seria efetivado, e ele também ficaria bem sem a minha ajuda financeira. E, como ficamos dias sem nos falar, ainda morando no mesmo apartamento, decidi que essa seria a melhor solução.
Aparentemente ele não pensou o mesmo que eu. Por mais que estivesse magoado – e com razão – ele não queria que eu fosse. Porque ele “me amava muito e porque a chance que eu lhe dei foi a melhor de sua vida”, essas foram suas palavras.
### FLASHBACK ON ###
– Você sorriu e tudo o que eu conseguia pensar era "me ferrei" – O moreno deu um sorriso triste.
– Clark, não... – Me sentei no horrendo sofá de couro e Clark fez o mesmo.
– Olha, eu não planejei isso. Você conseguiu destruir esse muro enorme, que eu venho construindo ao meu redor desde o "incidente" com o David, com um único sorriso. UM SORRISO. Quem faz isso? Então, me desculpe. Mas eu te amo.
– Por quê? – Eu estava um tanto indignado — Tem vários caras caindo aos seus pés e eles são mais gatos, mais velhos, mais ricos e não têm um coração partido como o meu.
– Porque eu não estou apaixonado por eles. Porque eu te vi. Ao meu redor, em todos os lugares, haviam pessoas sem faces. Eu não via nenhuma delas. Então eu vi seu rosto e minha mente... Sei lá.
– Droga, Clark – Me senti um pouco ansioso. Sabia dos sentimentos dele, eram óbvios de mais. Mas eu perceber, e ele me contar, são duas coisas completamente diferentes.
– Você acha que eu quero isso? Você é o garoto mais estressado, dramático, teimoso, sensível e exagerado que eu já conheci. Você é irritantemente tímido, se faz de inocente, modesto até o último milímetro de seu corpo e todos os caras te querem ou, pelo menos, querem ser tão bonitos quanto você – Ele fez um carinho no meu rosto, me olhando nos olhos — Sam, o amor da sua vida, acabou de terminar o relacionamento conturbado de vocês e é claro que não vai querer se comprometer de novo, ainda mais com o seu melhor amigo, colocando nossa amizade em risco. Então, é, eu sei que é uma droga, mas não há nada que eu possa fazer.
– Desculpe. Estou um pouco ofendido por algumas coisas que disse, mas eu entendo. Desculpe por ser assim... Talvez um dia eu consiga mudar.
– Não ouse fazer isso. Eu te amo pelo que você é. Esse conjunto de características, essa bagunça de ser humano. Droga, eu amo você – Aparentemente ele gostou de dizer que me ama. Com certeza segurou isso por um bom tempo — Não iria querer que mudasse por nada no mundo. Digo, talvez se você pudesse aprender a se amar e se valorizar mais...
– É, talvez.
– Então o que me diz? Um cinema, um jantar...
– Desculpe, Clark. Mas não posso fazer isso.
– Me dá uma chance, Dean.
Fiquei um bom tempo sem responder. Respirei fundo enquanto a frase “a vida se resume nas chances” rondava a minha mente. A voz de Sam a acompanhava, fazendo minha pele se arrepiar com sua memória. Mas eu estava determinado a seguir em frente, não é?
Clark já fez tanto por mim, e é claro que eu o amo também, então... Por que não?
– Só uma chance – Ele insistiu, mas não precisava mais. Eu já tinha tomado uma decisão.
– C-Claro, claro. Cinema está ótimo.
### FLASHBACK OFF ###
Eu não parei de sentir tudo o que sentia por Clark. Claro que não, ele era amável até a última célula de seu organismo e era impossível não amá-lo. Mas eu também amo o Sam. Isso era inegável.
Nesses dias em que não falei com Clark, conversei com Sam. Apenas trocamos mensagens, simplesmente para saber como foi o dia um do outro e ele aguentando meus desabafos e momentos de raiva e autopiedade.
And how many days have I
(E quantos dias eu)
And how many nights have I
(E quantas noites eu)
Spent alone
(Passei sozinho)
Em um desses dias, enquanto conversava com Sam, percebi que eu nunca chegaria numa decisão se eu continuasse a falar com ele e ignorar Clark. Então liguei para a única pessoa que poderia realmente me ajudar. Não era Henry, nem Gordon, nem Ash, nem Frank. Eu precisava dela. Precisava da Jo.
Tentei ligar em seu número, mas ninguém atendia. Nem mesmo chamava. Liguei, então, para Tish, na esperança de que ela tivesse como contatar a loira.
– Prima?
– Fala, primo. Quanto tempo. Tudo bem?
– Mais ou menos, te explico depois. Você por acaso tem o número da Jo? Não consigo falar com ela.
– Claro. Ela mudou de número, por isso não consegue encontrá-la.
– Ainda mantêm o contato? – Perguntei ansioso.
– Uhum. Depois de tudo o que aconteceu, dei algumas escapadas para fazer uma visita a ela, mas acabamos por ficar boas amigas mesmo – Ela me explicou — Muito boas amigas, nos falamos todos os dias por mensagem.
– Isso é ótimo, fico feliz por vocês encontrarem um meio termo pra continuarem com a relação saudável.
– É, foi bom mesmo. Quer anotar o número?
– Sim, por favor.
Ela me disse o número e logo já o salvei em meu celular. Disquei o número, mas caiu na caixa postal. Ela deveria estar dormindo, ainda eram sete da manhã. Acabei por deixar uma mensagem.
“Jo, é o Dean. É uma emergência, pode me ligar de volta?”
O que deveríamos fazer, na verdade, era uma terapia de casal com ela. Clark sentar ao meu lado em um sofá e ela no outro, enquanto despejamos nossas angústias no ar entre nós. Mas coitada, não seria justo fazê-la aguentar nós dois de mau humor.
I tried to try
(Eu tentei tentar)
I tried to be with you
(Eu tentei estar com você)
I had to decide
(Eu tive que decidir)
Algumas horas depois, meu celular tocou. Ele estava na bancada da cozinha e eu no sofá laranja da sala. Saí correndo e acabei tropeçando no meu chinelo, mas consegui atender ao telefonema.
– Deanno? – Ela parecia preocupada. Deus! Como senti falta da voz dela.
– Oi, linda. Tudo bem?
– Eu estou bem e você?
– Preciso de alguém.
– Bom, você deu sorte. Estou na Califórnia com uma amiga, me passa o endereço e eu passo aí imediatamente.
– Jura? Espera, você não vai nem perguntar o que aconteceu? Digo, pra ver se é realmente urgente.
– Eu já sei do que se trata. Me passa e eu chego em vinte minutos.
– Ok, anota aí.
Assim que desliguei, fui ao banheiro para tomar um banho e fazer a barba – que não fazia há dias – e coloquei uma roupa decente. Eu estava nervoso, como se eu fosse encontrar a menina que eu gosto muito pela primeira vez. E assim que fiquei pronto, ouvi uma batida na porta.
Eu corri até a porta e a abracei com força. Ela tinha o mesmo perfume de quando éramos adolescentes. Quando consegui me controlar o suficiente para soltá-la, quase acabei chorando. Fazia tanto tempo! E ela estava tão bonita! Cortou os cabelos – loiros e ondulados – em um Chanel comprido, seu rosto parecia mais forte, menos juvenil e seu corpo estava estonteante. Com certeza havia começado a malhar.
– Precisamos conversar – Ela me disse e quase não consegui conectar a voz doce àquela mulher que estava parada na minha frente – Mas não aqui, pois Clark pode voltar.
– Ok.
Tranquei a porta e descemos pelo elevador em silêncio. Eu sentia que iria tomar uma bronca dela, mas com certeza eu tinha feito a escolha certa de chamá-la. Andamos até uma sorveteria a dois quarteirões dali, mas não pedimos nada, apenas nos sentamos à uma mesa.
– Pode começar a brigar comigo. Eu mereço – Tentei não parecer uma vítima e ela respirou fundo antes de começar a falar.
– Tá, primeiro tenho que te confessar uma coisa – Ela tentou sorrir para mim.
– O que é?
– Eu não vim visitar uma amiga. Eu vim par ate ver, Dean. Peguei o primeiro avião assim que ouvi sua mensagem.
– O quê? Por quê?
– Porque ontem eu recebi uma ligação do Clark. Ele me ligou apenas para saber se estava tudo bem comigo, mas eu sabia que ele queria dizer mais alguma coisa – Ela passou a mão pelos cabelos e me olhou nos olhos — Então eu recebi a sua mensagem hoje de manhã. Eu liguei imediatamente para ele para saber o que tinha acontecido. Por que qual a chance de depois de todos esses anos vocês dois de repente entrarem em contato comigo e estar tudo bem? Nenhuma, né. Então eu liguei para ele.
– Ele te contou tudo?
– Ele é a melhor pessoa do mundo, sabia?
And now I know
(E agora eu sei)
That I have to do this
(Que eu tenho que fazer isso)
On my own
(Sozinho)
– Sim.
– Sabe o que ele me contou? – Neguei com a cabeça e ela continuou – Que você cometeu um erro. Que você cedeu a uma parte ruim de você, mas que ele não te culpa. Clark só queria ouvir a minha opinião dizendo que era isso mesmo o que tinha acontecido. Porque ele se recusa que você tenha feito o que fez por ter sido egoísta ou uma pessoa ruim.
Na mesma hora meus olhos se encheram de lágrimas, e algumas conseguiram escapar e escorrer por meu rosto.
– Jo, ele quer que eu fique.
– Eu sei. Mas agora eu quero ouvir a sua versão da história, Deanno. Porque sei que você não vai ser tão bonzinho consigo mesmo. E lembre-se, eu não estou aqui para julgar você. Estou aqui pra te ajudar. Você disse que era uma emergência e que precisava de alguém. Aqui estou eu. E eu ainda te amo.
– Eu também te amo.
Eu demorei um pouco para começar a contar o que houve. Eu quis escolher as palavras certas para ela não acabar me odiando. Mas, depois de um tempo, eu percebi que eu não poderia evitar que ela me odiasse, porque eu fiz algo horrível e mereço isso. Então comecei a falar, sem realmente me preocupar com o que ela iria pensar de mim.
– Antes de tudo, quero dizer que amo o Clark, Jo. Eu o amo muito mesmo. Ele foi a minha luz quando eu estava na época mais escura da minha vida, praticamente me matando, tentando esquecer o Winchester. E eu consegui, mais ou menos — Não pude decifrar a expressão em seu rosto, ela apenas olhava em meus olhos, prestando atenção em cada palavra — E quando eu estava no casamento e Sam apareceu, tudo o que eu queria era Clark ao meu lado naquele momento. Para me dar forças, para me lembrar de tudo o que aconteceu entre nós. E eu me esforcei para lembrar. Mas também acabei me lembrando do que houve entre mim e Sam. E acho que essas lembranças foram o começo de tudo.
I have to be my own person
(Tenho que ser minha própria pessoa)
I have to be my own savior
(Tenho que ser meu próprio salvador)
I can’t depend on anyone
(Não posso depender de ninguém)
– Deixa eu adivinhar. Você se sentiu jovem de novo?
– Como sabe?
– Porque é como eu me sinto quando visito a Tish. Quando você encontra alguém de uma parte da sua vida na qual você se sentiu livre, você começa a achar que as coisas são como eram antes. Mas não são. Por isso achei melhor ficarmos apenas amigas. Porque eu não conseguiria seguir em frente com a minha vida, se ela ficasse me lembrando de como eram bons os tempos de colégio.
– Exatamente. Uau, tirou as palavras de minha boca — Eu estava tão aliviado por ela entender. Não muda o que eu fiz, mas é realmente um alívio — No casamento, Sam me disse que se eu quisesse que ele fosse embora, ele iria. Eu não consegui dizer para ele ir. Eu não consegui dizer para ele não chegar perto de mim. E ele me disse para eu o encontrar no hotel em que ele estava, mas eu não ia. Juro que não.
– Ok, mas você foi. E como foram as coisas lá?
– Como assim?
– Se divertiram? — Pela primeira vez ela sorriu para mim. Da mesma forma em que sorriu quando achava que eu gostava do Clark, na época do colégio.
I’ll be my own hero
(Eu serei meu próprio herói)
I’ll be my
(Eu serei meu)
I’ll be my, my, my
(Eu serei meu, meu, meu)
I’ll be my own hero
(Eu serei meu próprio herói)
– Oh — Eu estava surpreso. Não sabia exatamente como responder — Foi bom. Foi muito bom. Senti falta dele.
– Ele foi legal com você?
– Ele sempre é legal comigo – Estranhei a pergunta.
– Desculpa, ainda é difícil de tirar a imagem daquele menino te batendo todos os dias.
### FLASHBACK ON ###
– Porque eu não te bateria. Eu não conseguiria e não consigo. Não sei se você se lembra, mas eu nunca realmente bati em você – Sam me olhava nos olhos.
– E qual o motivo disso? – Perguntei pensativo.
– Você é especial, Dean. Eu só não seria capaz de machucar algo tão... Amável.
### FLASHBACK OFF ###
– Tudo bem. Eu também demorei um pouco para me acostumar com ele quando estávamos no colégio. Mas ele se provou uma pessoa boa. E depois partiu meu coração de novo. Mas tudo bem – Dei um sorriso falso.
– Por falar nisso, teve notícias do Castiel?
– Sam disse que eles terminaram logo após a formatura, mas que ele queria falar mais sobre isso comigo – Dei uma pausa antes de voltar a falar. Era estranho falar dele novamente, como uma realidade, digo — Quer me encontrar de novo.
– Vai cruzar o país pra te contar sobre o Castiel?
– Na verdade, não. Ele está aqui na Califórnia agora.
– Ah, entendi – Ela suspirou antes de continuar – Ok, e o que mais aconteceu? Digo, entre você e o Sam.
– Nós fizemos sexo. Ele disse que eu era o amor da vida dele. E, com isso, eu fui embora. Deixei meu número com ele, porque ele me pediu para avisá-lo caso eu mudasse de ideia. E temos conversado todos os dias desde então.
– E você escolheu ficar com o Clark?
My own hero
(Meu próprio herói)
My own hero
(Meu próprio herói)
And now I’m alone
(E agora estou sozinho)
And feel so alive
(E me sinto tão vivo)
Oh, I feel so free
(Oh, me sinto tão livre)
– Não era a coisa mais decente a se fazer, mas parecia a minha única opção – Meus olhos se encheram de lágrimas novamente — Voltar para casa, pros braços do homem que me ama mais do que tudo e que nunca faria nada para me machucar. Voltar para o homem em que eu posso confiar a minha própria vida, sem pensar duas vezes.
– Mas ainda ama o Sam? – Eu não respondi, então ela resolveu continuar falando – Você o ama, não é? Eu consigo ver nos seus olhos, Dean. Você não mudou nada desde quando éramos jovens. Seus olhos ainda mostram tudo o que tem dentro de você. E todas as vezes em que tocamos no nome de Sam, eles brilham. Não é certo fazer isso com o Clark.
– Eu sei. Clark não merece nada disso.
– Quem vai ser? Sam, que faz você se sentir como um garoto novamente; ou Clark, que sempre esteve lá por você, mantendo sua cabeça na linha?
Eu me fiz essas perguntas centenas de vezes, mas ao ouvir outra pessoa dizendo, tudo parece ter mudado. E de repente uma ideia veio à mim: E se eu não precisar escolher?
– Jo...
– Diga, Deanno.
– E se eu não precisar escolher? – Eu conseguia sentir um sorriso crescendo em meus lábios.
– Quer ficar com os dois? – Ela fez uma careta e eu ri.
– Claro que não. E se eu não escolher nenhum dos dois?
Now I’m my own man
(Agora sou meu próprio homem)
Though I still want love
(Mesmo que ainda queira amar)
I have to take care of myself
(Tenho que cuidar de mim mesmo)
– Ok, mas por que esse pensamento de repente?
– Porque não é certo ficar com o Clark, só porque ele me faz bem. E a mesma coisa com o Sam. Desde que os conheci, eu nunca fiquei sozinho, nunca tive que passar por nada sem alguém ao meu lado. Eles sempre me salvaram.
– Você vai ser seu próprio herói – Ela disse com os olhos brilhando.
– Vou ser meu próprio herói – Eu repeti.
Ficamos em silêncio por um momento, cada um perdido nos próprios pensamentos. Um sorriso fraco não saíra do meu rosto desde que eu tive essa ideia. Então comecei a imaginar como seriam as coisas se eu ficasse sozinho. Eu poderia me mudar, aprender a cuidar de mim, como nunca tive a oportunidade antes. Não depender de ninguém para encontrar a minha felicidade... Parece uma ideia tão simples, mas é tão inovadora para mim.
I’ll be my own hero
(Eu serei meu próprio herói)
– Pode dar certo – Jo cortou o silêncio – Dessa forma, você faz o que é certo para o Clark, mas também não corre para os braços do cara que partiu seu coração. É bom, você ter esse tempo para cuidar de si mesmo, Dean.
– É, pode dar certo – Eu sorri.
Vou ser meu próprio herói.
Continua...
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