Chances
60 Despedida.
Notas iniciais
SAM'S P.O.V.
Dia da formatura.
Ao contrário dos outros colégios da cidade, o meu quis ser um pouco diferente na cerimônia. Enquanto todos estavam colocando vestidos brilhantes e sapatos de salto alto, ternos de marca e sapatos de couro fino e indo para a sua festa noturna, com direito a uma balada depois, estávamos em um ambiente aberto. Um lugar familiar e aconchegante. Um lugar onde eu sempre me senti aceito e, honestamente, onde eu gostaria de passar o resto da minha vida. Não fazendo o que faço no colégio – jogando -, não preciso nem disso. Mas o simples cheiro de grama e do couro das bolas me traz boas lembranças.
Construíram um palanque no centro do campo de futebol, com várias cadeiras dispostas diante dele. Os pais já estavam sentados nelas, fingindo prestar atenção no que a diretora estava falando, enquanto nós aguardávamos em fila, por ordem alfabética, ela finalmente chamar nossos nomes e nos oficializar como formandos.
De onde eu estava conseguia ver meus pais. Minha mãe parecia ansiosa e um tanto triste, mas colocou os óculos de sol para ninguém perceber essas emoções em seus olhos claros que sempre revelavam tanto sua personalidade.
Enquanto meu pai não demonstrava nenhum sentimento palpável aos meus olhos. Era o Jeffrey de sempre.
Ruby estava na minha frente, me ignorando, também fingindo prestar atenção nas palavras da diretora.
– São todas da sua mãe?
– Desculpe. O que? — Ela perguntou, como se não tivesse me ouvido.
– A equipe e as câmeras.
– São sim. Como sabe? — Ela se virou para mim.
Ela estava linda. O vestido azul escuro, de época. Os cabelos ondulados com cachos grossos e de um castanho escuro, contrastando com sua pele alva e o batom vermelho brilhante que deixava seus lábios parecendo verdadeiras joias. Lindos como rubis.
– Gostei do seu batom. Combina com você — Comentei sem pensar.
Vi suas bochechas se encherem de cor e tive de sorrir.
– Obrigada. Mas como sabe das câmeras? Nunca contei para ninguém.
– Contou para mim. Assim que entrei na escola.
– Contei? — Ela parecia confusa.
– Era minha segunda semana de aula, eu não sabia onde era a sala de química. Você me explicou e me convidou para sentar no intervalo com você para me passar os horários e me explicar como as coisas funcionavam naquele colégio.
– Se lembra de tudo isso?
– Lembro que disse da profissão de sua mãe. Que seu pai já foi preso por engano. Que sua cor favorita é cinza. Que você não é daqui, é de Chartage, Missouri.
– Sam — Ela me interrompeu — Por que está me dizendo isso agora?
– É o nosso último dia aqui. Não acredito que nunca pedi desculpas pelo que houve — Eu tentei parecer o mais sincero o possível.
– Mas você pediu. Disse que foi um idiota pelo que fez naquele dia.
– Não estou falando disso. Me desculpe por te ignorar e ser um cretino quando você foi a pessoa que mais me ajudou aqui quando eu não tinha ninguém.
– Sam...
– Me desculpe, Ruby.
– Atenção, por favor! Com os pronunciamentos oficialmente finalizados, vamos, por favor, tornar nossa atenção para os nossos formandos de hoje!
– Obrigada — Ela sussurrou para mim e sorriu levemente.
Apenas acenei com a cabeça e a equipe do evento fez a fila andar. Enquanto caminhávamos lentamente até a posição que deveríamos ficar para as câmeras e familiares, pensei em Dean.
Os representantes de sala se reuniram e decidiram que a cor tema da formatura seria o azul. As meninas teriam de usar um vestido curto ou longuete, acho que é assim que chamam aquele tipo de vestido, em qualquer tom de azul que quisessem. Os meninos teriam de colocar uma camisa social azul ou com detalhes azuis, podendo ser de manga comprida ou curta, calça social e sapatos sociais de qualquer cor que combinasse.
Mantive-me no básico, apesar das ideias animadas de minha mãe, e coloquei uma camisa social azul celeste de mangas compridas, dobradas até o cotovelo, uma calça preta simples e um sapato preto que ganhei de formatura da minha avó. Italianos, caríssimos.
Dean estava estonteante.
Sua beleza humilhava a de todos os homens velhos que um dia já foram belos e joviais como ele, impressionava todas as mulheres, mães de família, que há muito tempo não viam tanta perfeição em um rosto masculino. Tão forte. Tão intenso. Tão... Adorável.
Todos que o olhavam com certeza o querem ou querem ser como ele.
Acredite, eu sei.
Usava uma camisa branca e uma gravata listrada com vários tons de azul. Um blazer cinza claro por cima, fazendo-o parecer mais velho. Calças também cinzas e um sapato cinza escuro, quase preto. Ele estava tão sexy.
A diretora começou a chamar nossos nomes. Eu só conhecia alguns deles.
Abby. Adam Milligan. Alyssa. Caroline. Cher. Clark Kent. Daisy. Dave. Dean Warner. Ele subiu no palco ao som dos aplausos de sua mãe e tios e tias. E meus, claro. Pegou o diploma, sorriu um pouco envergonhado, fazendo meu coração derreter com seu sorriso, e abraçou a diretora como todos os outros fizeram, saindo do palco em seguida.
Depois de Dean, foi a vez de Diana. Donnie. Duhmer. Ester. Fábio. Gabriel. Gordon. Hugh. Jasmine. Joanna Harvelle. Ela também estava linda. Toda sorrisos, como sempre. Era maravilhosa, simplesmente Jo.
Katie subiu ao palanque, seguida de Lily, Lucas, Matt, Madilyn, Oscar, Patricia, Ray e Ruby. Ela sorriu diretamente para mim antes de ter em suas mãos o canudo de graduação. Eu era o próximo da fila.
Não queria subir no palanque. Não queria pegar meu diploma, porque não queria me formar. Não quero que tudo o que vivi aqui — tudo o que vivemos — se vá para sempre. Não quero que essa parte da minha vida acabe, mesmo que esteja uma droga porque perdi o amor da minha vida e por causa de Castiel, claro.
Chamaram meu nome, tudo pareceu ficar em câmera lenta enquanto eu subia os poucos degraus. Tudo o que eu conseguia ouvir era o som abafado de gritinhos e aplausos e o som irritante dos flashs e cliques das câmeras. A diretora me entregou o diploma e olhei para minha mãe. Ela secou uma lágrima e sorriu para mim. Tudo ficou bem por um momento. Procurei por Dean na multidão, mas quando o vi, estava abraçado com Clark. Sei que não tinha mais direito de ficar com ciúmes, mas me senti meio tonto, como se estivesse flutuando, enquanto meu cérebro ignorava tudo o que não era Dean.
Voltei a mim e sorri para os pais e alunos que estavam lá, antes de levantar o diploma como fazíamos com a bola no fim de um bom jogo.
Desci do palanque e tive que me segurar em um corrimão de ferro para não cair com a tontura. Respirei fundo e fui até minha mãe para lhe dar um longo e apertado abraço.
– Estou muito orgulhosa, meu filho.
– Eu te amo, mãe.
– Eu te amo mais — Pude sentir suas lágrimas umedecendo minha camisa.
Separei o abraço e olhei para ela. Era tão linda, não era?
– Não chora.
– Eu vou parar já, já — Rimos e me virei para meu pai.
– Pai — Sorri levemente.
– Sam. Parece que você conseguiu, hein? — Ele sorriu para mim e apertou meu ombro com sua mão forte.
– É... Eu vou lá com meus amigos, ok?
– Nos veremos em casa, então.
Suspirei e saí dali. Não consigo mais ficar muito tempo perto do meu pai.
Avistei Ruby e andei até ela.
– Quem diria. Sam Winchester se formando.
– É. Desculpa se não sou que nem você, nerd– Brinquei e ela me deu um soco no braço.
– Idiota.
– Sempre fui.
Conversamos por mais alguns minutos antes de eu resolver ficar um pouco sozinho. Eu precisava pensar.
O que eu faria a seguir? Quais eram os meus sonhos? Eu não sei.
Jo iria para NYU para estudar marketing. Adam iria tentar uma vaga no time de futebol na faculdade de Albuquerque. Tish decidiu ir para o Alabama, mesmo que antes dissesse que iria para Nova York com Jo. Bem, coisas mudaram... Clark vai para Stanford em um curso de Farmácia. Dean também vai para Stanford, estudar medicina.
Então qual era o meu próximo passo? Emprego? Faculdade? Tirar um tempo para pensar melhor? Ah, só o tempo vai me dizer.
A festa continuou por mais ou menos uma hora. É... Talvez menos. Fiquei conversando com alguns caras do futebol, com a minha mente em Dean. Só Dean.
E então eu o vi. Passou por mim andando ao lado de Clark. Sorriam enquanto conversavam, aparentemente sem perceber meus olhos neles. O moreno estava com um molho de chaves na mão, que acabara de tirar do bolso de sua calça. Andavam em direção ao estacionamento e sem momento algum olhar para trás. Tinha um carro naquele lado mais perto do gramado. Era pequeno e moderno e vermelho.
Pedi licença da conversa e andei lentamente na direção deles. Ainda mantendo distância, como se eles fossem animaizinhos selvagens que poderiam fugir se eu fizesse algum movimento brusco. Senti meu estômago se revirar dentro de mim ao ver o sorriso de Dean. Clark desativou o alarme e abriu a porta do motorista e Dean fez o mesmo com a do passageiro, vendo Clark entrar no carro.
Ele olhou para mim. E tudo ficou em câmera lenta de novo. Eu não conseguia ouvir nada a minha volta, e não via nada que não fosse Dean Warner. Ele carregava um olhar distante e melancólico, enquanto me encarava ao longe. Eu conseguia sentir seus olhos penetrando os meus, invadindo meu corpo e alma, roubando, uma última vez, tudo o que eu era e sou. Aqueles olhos verdes tão distrativos, tão intensos, tão saudosos.
Que droga. Todos os meus arrependimentos voltaram para mim agora. Cada segundo que passei ao lado dele, projetado em minha mente como um filme sádico e cruel, focando nos melhores momentos, os quais eu mais sinto falta, somente para me torturar.
Sabe qual é uma das piores coisas que eu consigo pensar, quando olho para meus arrependimentos? Quando eu não me despeço direito de alguém que eu gosto.
Eu não gosto de despedidas... Ainda mais quando eu não consigo ter a experiência completa. Então, para não haver arrependimentos, eu quero aquele abraço apertado e aconchegante que só aqueles que são importantes para nós possuem. Aquele abraço que expressa tudo sem a necessidade de palavras. Aquele abraço que demonstra a intimidade presente entre duas pessoas.
Palavras são opcionais, mas sempre muito bem vindas. Como um "se cuida", ou um "até mais" que são as mais comuns. Ouvir um "eu te amo" e um "vou sentir sua falta" é ao mesmo tempo gratificante e triste, pois você se sente incrivelmente bem por ser amado, mas ainda está se despedindo. E ninguém quer ouvir o tão famoso "adeus".
E quando o abraço acaba, há aquele momento em que as duas pessoas se olham nos olhos e sorriem. Pode ser o sorriso mais triste do mundo, por meio às lágrimas e à vontade de pedir para a pessoa ficar, mas sempre tem o sorriso. Esse sorriso é o que encerra a despedida. É o ponto final. É a certeza de que tudo que deveria ter ocorrido, já foi dito e feito.
Sei que se pudéssemos escolher, nunca teríamos que nos despedir de ninguém importante para nós. Mas há sempre despedidas, o que nos leva de volta ao meu ponto inicial.
Sempre teremos que nos despedir e muitos dos meus maiores arrependimentos são despedidas mal feitas, ou incompletas de alguma forma. São as vezes em que eu não abracei ao dizer adeus, são as vezes em que eu não disse "eu amo você" quando deveria, são as vezes em que mal toquei na pessoa e apenas acenei dizendo um simples "tchau". Meu coração pesa todas as vezes que isso ocorre. E são mais frequentes do que eu gostaria.
Mas essa última vez, esse último adeus... Foi o pior de todos. Porque eu não o abracei, não o ouvi dizer o meu nome, não sussurrei em seu ouvido o quão importante ele é pra mim apesar de tudo o que houve entre nós, não recebi um último beijo, não tive suas mãos nas minhas... Droga, nós nem acenamos um para o outro. Foi somente aquela última troca de olhares. Aquela última chance de mudarmos de ideia antes do veredito final. Naquele momento, quando ele olhou em meus olhos, há vários metros de distância, eu soube que aquela seria a pior despedida da minha vida.
E vou para sempre me arrepender de não ter pedido para ele não ir embora, de não ter implorado para ficar comigo.
Então, acho que é adeus agora. E tudo o que eu terei será essa lembrança de Dean entrando no carro de alguém que não sou eu, seguindo para o seu futuro sem mim.
A pior despedida da minha vida... E nem tive a chance de me despedir.
Continua...
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