Ceu Das Sombras
2 Capítulo 2
Acordei mais cedo. O céu ainda estava escuro, é a minha primeira vez de fazer os primeiros raios de luz. A melhor coisa que os humanos deixaram para nós é o campo de energia impedindo que o que restou do Sol depois de explodir chegue na Terra. Apesar de não deixar que todos morram, também não deixa que o calor e a luz do sol entrem no planeta. Por isso nós controlamos a luz e o calor 24 horas por dia (sim trabalhamos o dia todo). Mantemos o calor estável de noite usando uma antena localizada no topo de nossa sede, mas de dia temos que dar uma de sol iluminando e esquentando os lugares.
Levanto da cama e coloco minha roupa de trabalho. Uma calça laranja e uma blusa justa amarela de mangas compridas. Olho meu reflexo no espelho. Meus cabelos castanhos em vez de ondulados e sem graça como sempre, estão cacheados e brilhantes, meus olhos amarelos reluzentes e meus lábios finos alaranjados. Saí bem devagar, ainda tinha a esperança de alguém acordar e ir comigo fazer os primeiros raios. Não quero ver ele. Pelo menos não agora. Saí de casa.. Os noturnos já me viram e estão indo para sede. Eles não podem ficar muito tempo na luz, isso pode cegá-los. Começo o trabalho, os raios de sol vão surgindo do leste até iluminar todo o céu e esquentar até 25°C. Acho que todos os noturnos se foram. Termino os raios de sol e volto para sede. Só agora percebo como o meu quarto é brilhante de manhã. O sol refletindo nas paredes laranja, a varanda iluminada pelo sol, fazer os primeiros raios será a única vez que posso ver noturnos e é uma aventura se você pensar que eles podem te matar antes de você fazer os raios. Mas isso não é nada comparado ao tédio da minha vida, tudo é a mesma coisa. Acordar, trabalhar, comer, dormir. Não sei se consigo aturar isso para sempre, ou pelo menos até um assassino me matar. Mas hoje vai ser diferente. *** Todos estão dormindo. Levanto-me da cama e vou até o setor de treinamento. Uma das seções é o controle dos raios de calor. Usamos uma roupa de segurança composta por capacetes, luvas, botas, jaquetas, blusas e calças pretas a prova de calor. São as únicas roupas pretas que temos em nossa sede. Pego um dos trajes e me troco, deixando de usar apenas os capacete e as luvas. Hoje vai ser uma grande noite. Saio por volta de onze e meia e começo a ir em direção ao parque, tomando cuidado para não exagerar na velocidade, quem sabe eu vejo ele de novo? Dito e feito. Lá estava ele na mesma árvore da última vez que o vi, mas desta vez eu não serei uma solar, serei uma Noturna. Chego mais perto e sento na árvore ao lado, ele se vira para mim. Está usando uma blusa preta esfarrapada e uma calça jeans novamente. -Belo disfarce solar –Diz ele sorrindo– Só esqueceu de tampar o rosto. Suspiro alto. Claro que ele se lembraria de mim, Tenho os olhos amarelos! -Está tão na cara assim? – Faço uma cara triste, não quero ir para casa agora Ele me encara por alguns segundos e depois coloca meu cabelo em cima dos meus olhos. -Não, é mais fácil pra mim que já te vi. –Depois de dizer isso ele se vira novamente e volta a prestar atenção nas folhas. Ficamos em silencio por um bom tempo. -Porque você saiu da sua sede? –Ele diz ainda encarando as folhas– Pensei que vocês tivessem medo de nós ou pelo menos nos odiassem. Para ver você. É isso que quero dizer, mas eu não posso. -Bom...Acho que queria apenas mostrar aos meus pais que eles estavam errados. Ele não desvia o olhar das folhas nenhuma vez. -Errados sobre o que? -Errados sobre vocês –Suspiro– E errados sobre mim. -E sobre o que eles estariam errados? Não sei se consigo responder tantas perguntar, não sei nem se posso responder tantas perguntas. -Eles... eles me tratam como uma criança inocente. Como se eu não fosse corajosa ou esperta. Ele ri. -Você já provou ser corajosa vindo até aqui, mas provou ao mesmo tempo não ser esperta. Esse comentário me machuca. É isso que ele pensa de mim? Que eu sou apenas uma solar burra? -E por que eu não seria esperta? –Me forcei a demonstrar raiva na minha voz -Pelo simples fato de você não ter pensado que sair de sua sede e vir até aqui pode resultar em uma briga – Ele diz isso em um tom brincalhão– ou em sua morte. Ele está certo, eu realmente não havia pensado nisso. Em nenhuma das consequências da minha saída, nem que fosse minha morte. -E por que você não me matou ainda? Ele se vira para mim. Tenho medo de sua resposta. -Esse é o tipo de coisa que uma solar diria, você acha que somos assassinos descarados não acha? -Sim, quer dizer não. Ah sei lá! É isso que todos falam sobre vocês. –Estou tão nervosa que estou praticamente gritando agora– Me desculpe se estamos errados ok? Ele continua me encarando, mas depois cai na gargalhada. Sinto minhas bochechas esquentarem. -O que é? – Falo com raiva – O que tem tanta graça? -É sua reação –Fala sem parar de rir – Me desculpe se estamos errados ok? – Ele imita minha voz. Minhas bochechas esquentam ainda mais. Ele finalmente para de rir. -Vocês até que estão certos, mas não são todos que são assassinos. – Ele fala em um tom sério que me dá medo ¬– Assim como nem todos os solares são.
— O que? Nenhum de nós é um assassino! -Como você tem certeza disso? – Noto que sua voz parece triste -Eu... eu só sei. Não somos assassinos. -O que você sabe não define a verdade. Ele fala isso e depois volta a olhar para as folhas. — E o que seria a verdade para você? – Pergunto -Depende do seu ponto de vista– Ele responde sem olhar pra mim – A verdade não é o que todos pensam, é o que todos fazem. -E qual seria a verdade? Ficamos em silênci-A verdade não importa agora, não vai mudar nada. o. Penso em me levantar e ir embora, mas ainda quero ficar aqui. O nome dele! Eu ainda nem sei o nome dele! -Hã...E qual é o seu nome? – Pergunto – Você não se importaria em responder não é? -Não, não me importaria. Meu nome é David, David Merly. Mas pode me chamar de Dave. E o seu? — Luci, na verdade Lucina, Lucina Jones. De repente seu corpo fica duro, não escuto mais sua respiração. -Jones? – Sua pergunta sai como um sussurro – Você é filha de Mark e Helena Jones? -Sim...Como você sabe o nome dos meus pais? Ele se levanta rapidamente e me olha do mesmo jeito de quando nos vimos pela primeira vez: Surpreso e assustado. -E você tem a coragem de dizer que solares não são assassinos? Me levanto também. -O que? O que meus pais têm haver? Do que você está falando? Sua expressão muda. -Você não sabe? – Ele olha para baixo Estou mais confusa agora. Sobre o que ele está falando? — O que eu não sei? Sobre o que você está falando? -Você não sabe... – Ele não olha para mim – Ou está fingindo não saber. Dave diz isso e vai embora. Não vou atrás dele. Eu não posso ir. Eu quero ir. Mas não vou. Em vez disso volto para casa, deito na minha cama e não durmo. Não quero dormir. *** Acordo de manhã com minha mãe me chamando, ela parecia assustada. Ela me sacode até eu abrir os olhos. Minha mãe é loira, tem um nariz fino, e um queixo largo. Hoje está com a roupa de cozinha. Uma blusa Branca e uma calça amarela embaixo de um grande avental laranja. Depois do que Dave falou ontem eu comecei a prestar mais atenção nela. Seus longos e lisos cabelos pretos. Seus olhos grandes e expressivos. Seu sorriso desconfiado. -O que está fazendo com roupas de treinamento? E por que você está com olheiras? — Eu resolvi treinar ontem – Minto – Acabei esquecendo de trocar a roupa. Ela me olha desconfiada. -Está bem. Venha vamos tomar café, mas antes troque de roupa e coloque de volta no setor de treinamento. Levanto-me lembrando de ontem à noite. Sobre o que Dave falava? Tiro a roupa de treinamento, mas não coloco de volta no setor, apenas guardo no armário e pego meu vestido verde e minhas sapatilhas brancas. Desço até a cozinha onde meu pai fez chá e minha mãe bolo. Drew está sentado ao lado de minha mãe devorando um pedaço de bolo com as mãos. -O que é isso Drew? – Digo com cara de nojo – Você parece um animal! Minha mãe me olha com reprovação. -Para você, – Ele diz com a boca cheia de bolo – É Andrew. -Ok Andrew, pare de falar com a boca cheia! Sento-me do outro lado da mesa e pego uma xícara de chá e um pedaço de bolo. Não estou com fome, mas como do mesmo jeito apenas para a minha mãe não se preocupar. -Mãe – Ela se vira para mim com a xícara de chá na mão – Vocês sabem sobre um assassinato? – Respiro fundo– Onde Solares mataram Noturnos? Minha mãe deixou a xícara cair no chão. -Oh! Desculpem-me – Ela se abaixa e começa a catar os cacos de porcelana– O que te fez pensar isso Lucina? Dou ombros. -Curiosidade e também – Não posso falar sobre Dave a eles – Um amigo meu me disse. -Que amigo? – Pergunta meu pai. Não deveria ter dito isso, agora eles vão querer informações. -Isso não vem ao caso – Digo olhando para o bolo em meu prato tentando não parecer nervosa – Vocês não me responderam. Houve ou não um incidente? -Sim Lucina, houve sim. – Minha mãe responde enquanto limpa o chão onde derrubou a xícara– Foi há cinco anos, um noturno matou a pessoa que faria os primeiros raios de sol– Ela respira fundo– Esse noturno foi até a sede dos solares avisar o ocorrido, era apenas uma criança, tinha mais ou menos 12 anos. Ele contou que estava treinando a mira em árvores, e acabou atingindo sem querer a solar, mas que não teve a intenção. O garoto estava tão abalado, mas o conselho não queria perdoá-lo, pois a garota que ele matou, era a filha de Ian – Ian. Presidente do conselho. Quando pequena eu o conheci, ele era tão sério. Agora sei porque – O garoto foi condenado. Minhas mãos estão tremendo. -Ele...foi.. – Não consigo parar de gaguejar– Condenado...a que? Minha mãe esta tremendo tanto quanto eu. Noto que seus pés estão batendo em um ritmo sincronizado. Esquerdo, direito, direito,direito, esquerdo, esquerdo, direito. -Ele foi condenado à morte – Essa palavra me assusta. Morte. – Mas os pais dele interfiram e não puderam fazer nada, a não ser... Minha mãe para de falar e encara o bolo na sua frente. -Eles fizeram o que? – Pergunto. Minha mãe permanece em silêncio e meu pai tem que completar: -Eles morreram pelo filho. Isso responde muitas coisas, menos o envolvimento de meus pais na história. Até que me lembro que cinco anos atrás minha mãe e meu pai eram do conselho e seu sobrenome era exposto em uma placa em frente a sua mesa. Mas o que isso tem haver com Dave? -E, só mais uma pergunta – Falo tentando não parecer assustada– Vocês sabem o nome do garoto? -Sim– Meu pai responde -E – Tenho medo da resposta – Qual é? Meu pai respira fundo e minha mãe faz o mesmo. Até que minha mãe diz: -David, David Merly.
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