Ceu Das Sombras
3 Capítulo 3
Não durmo a noite toda. É por isso que Dave ficou daquele jeito. Minha mãe estava lá e não fez nada para impedir a morte dos pais dele.
Não consigo imaginar a dor dele, ele deve se sentir culpado pela morte dos pais. Penso na possibilidade de ir vê-lo, mas ele pareceu tão mal ontem. Acho que me ver só vai piorar as coisas. Deito novamente na cama e tento dormir. Amanhã eu vou achar Dave. *** O céu escuro e o frio me fazem querer voltar para cama, mas não posso voltar. Vou até a árvore de sempre, mas desta vez ele não está lá. Ando pelo parque inteiro e ainda não o vejo. Sento em um banco de madeira em frente a um lago. A luz da lua refletida no lago azul me faz lembrar de Sarah e seus olhos azul turquesa. Faz tanto tempo que não falo com ela. De repente ouço um riso conhecido, Dave. O riso parece ter vindo de bem perto dali. Saio em disparada em direção ao som. Quando estou praticamente ao lado da origem do som percebo que não é apenas o riso de Dave, deve ter mais uns quatro noturnos com ele. Paro cinco metros de onde eles estão, mas isso não impede Dave de me ver. -Eu já volto – Dave disse aos amigos — Vai pra onde Dave? – Disse um deles -É Dave vai para onde? – Disse outro -Nada que interesse a vocês – Dave disse e saiu andando na minha direção. Chegando perto de mim ele segura meu braço e me puxa para uma árvore. -O que está fazendo aqui? Já te disse que solares não devem sair a esta hora! E se alguém te visse? Esta não é a reação que eu esperava. Não sei bem o que esperava. Mas tenho certeza que não era isso. — Eu vim te pedir desculpa! Eu descobri o que aconteceu e queria falar que sinto muito por seus pais! Ele fica em silêncio olhando para baixo. — Eu não me importo com o que aconteceu no passado, não dá mais para mudar, cada um vive com o peso de seu passado e eu vivo com o meu. Não sei como responder. Fico calada olhando para o chão. Será que o único motivo de eu ter vindo aqui foi para me desculpar? Eu não sei. -Olha –Ele fala– Não quero ser grosseiro, mas você tem que ir antes que eles venham até aqui. Assinto com a cabeça. -Eu... vou embora. Viro-me e começo a caminhar, não quero correr. Ouço passos atrás de mim. — Ei! Luci! Volta amanhã, estarei na mesma árvore de sempre! Quando me viro para responder ele já está longe, conversando com os amigos. *** É tão estranho não sair da sede. Por algum motivo ficamos impedidos de sair por dois dias, o que me impediu de ver Dave. Apenas os adultos mais qualificados saíram, para fazer os primeiros raios e controlar a temperatura. -Mãe, quanto tempo vamos ficar aqui? – Pergunto – Isso acaba amanhã não é? — Sinto muito Luci, eles aumentaram os dias, vamos ficar aqui mais cinco dias. Cinco dias. Cinco dias presa. Cinco dias sem Sarah. Cinco dias sem Dave. *** A quantidade de guardas dobrou pela nova regra o único jeito de sair é pelo lado contrário da entrada. O problema é que do outro lado não há portas, apenas janelas. Vou dormir já com as roupas do treinamento. Por volta de meia noite desço até o refeitório, está vazio. Apenas quem não finalizou o treinamento o utiliza. O refeitório é um dos lugares com mais janelas da sede, com paredes laranja, cheio de mesas e cadeiras amarelas, cortinas brancas e um enorme balcão branco. Abro uma das janelas que está perto de uma árvore, me agarro em um dos galhos. A casca da árvore aranha minhas mãos enquanto desço, o chão está a menos de seis metros agora. Cinco metros. Quatro metros. Três metros. À medida que vou descendo minhas mãos ardem. Dois metros. Escorrego e aranho as costas da minha mão, arde um pouco mais consigo suportar. Um metro. Pulo no chão e saio correndo para o parque. Dave está lá deitado na árvore de sempre, observando algo nas folhas. — Oi... –Digo -Olá – Ele olha para mim sorrindo – Que demora em? — Não me culpe – Sento do lado dele – Está um caos na sede, tive que sair escondida. Não sei o que está acontecendo. Ele não me responde. — Luci, por que você vem aqui? -Como assim? — Por que você sai à noite e vem até aqui? — Hm... Eu não sei, acho que para ver você. Não! Não acredito que disse isso! -Para me ver? Sinto minhas bochechas corando. -Acho... Que sim, você é meu amigo. — E porque não arranja amigos solares? Um dia eu ainda aprendo a fechar minha boca grande. -Não sei, é tudo... Brilhante demais. Nós dois começamos a rir, acho que consegui desviar o assunto. — Brilhante? Sério? — Sim –Digo séria– Mas e você? Por que fala comigo? — Você é minha amiga e tudo lá é muito... Escuro. -Muito engraçado – Faço uma careta – Mas é só por isso? Ele não fala nada e se senta. -Não sei, pode ser que sim, pode ser que não. -Hm... Que grande resposta! Nós rimos de novo. -Bom, acho melhor ir antes que percebam minha falta. Ele se levanta e me ajuda a levantar. -Tudo bem, quer voltar amanhã? – Ele pergunta. -Claro. Lá é brilhante demais para mim.
Sorrio e começo a correr. — Ei Luci! – Viro para ele – Não é só por aquilo! Dizendo isso ele vai embora.
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