CelleXty Saga - Temporada II
9 O Vírus Legado - PARTE 3
Arquivo Confidencial — Instituto Xavier
Sujeito(s): La’Vern, Venâncio, Simeão, Beatrice, Noah — Geração Vamp
Status: Aliança estratégica provisória. Protocolo híbrido (Arte Mutante + Ritual Arcano) em fase experimental. Risco de adaptação viral elevado.
A câmera invisível da noite sobrevoa São Paulo como um presságio. Sirenes ecoam ao longe, helicópteros recortam o céu turvo, e a memória do ataque ao Aeroporto Internacional de Congonhas ainda pulsa nas manchetes e nos pesadelos. Desde que Cassiopéia lançou o Vírus Legado sobre a cidade, nada voltou ao normal. Mutantes perdem o controle em hospitais clandestinos, poderes explodem em surtos fatais, e até os CelleXtys contam infectados entre os seus. A pandemia não grita — ela corrói. E La’Vern, que já foi inimigo e prisioneiro, caminha agora como emissário de uma raça ameaçada de extinção.
A fachada rubra da Boate Mascarade brilha como um coração exposto na Rua Augusta. A noite é internacional: a banda Within Temptation encerra a etapa brasileira da turnê do álbum Mother Earth, e a fila mistura góticos, curiosos, humanos desavisados e predadores disciplinados. Em noites assim, o “abraço vampiresco” é proibido sob pena exemplar — Venâncio não tolera escândalos quando os holofotes estão acesos. La’Vern observa a multidão, ajusta as luvas e avança. Ele não veio para dançar.
— Convite? — rosna um dos seguranças, largo como um portão de ferro.
— Urgência — responde o francês, seco. — Digam a Venâncio que La’Vern solicita audiência.
— Ele não recebe mutantes.
O gelo se forma primeiro, sutil, trincando o asfalto sob os pés do segurança. Em seguida, a chama dança na outra mão, contida, mas viva. O golpe é único e preciso: o brutamontes atravessa o ar e encontra a parede com estrondo surdo; a fila recua num sussurro de choque. Antes que o segundo reaja, a escuridão se move como se tivesse vontade própria.
— Sempre elegante, francês — diz uma voz rouca. Simeão emerge da penumbra, olhos tingidos de vermelho antigo.
— E você sempre pontual para impedir o inevitável — devolve La’Vern.
— Por que está aqui?
— Porque o Vírus Legado não distingue mais presas de predadores. Ele evoluiu. E vocês podem ser os próximos.
Um segundo de silêncio pesa como chumbo. A música pulsa do interior, indiferente ao que se decide na soleira. Simeão mede o mutante com frieza calculada e, por fim, inclina a cabeça. — Venha. Mas controle seus impulsos. Hoje não é noite para guerra.
Dentro, o Mascarade é uma catedral da decadência elegante. Luzes violetas rasgam o palco enquanto guitarras sinfônicas se elevam como hinos profanos. Humanos dançam lado a lado com vampiros que sorriem comedidamente, domando instintos com a disciplina de séculos. La’Vern acompanha Simeão pelas escadas; a cada lance, o som se dilui, substituído por um silêncio espesso. No terceiro andar, o corredor exibe tapeçarias e armaduras que parecem sussurrar batalhas antigas. A grande porta vermelha abre-se antes do toque.
O salão VIP respira quietude. A porta se fecha e a música morre. No fundo, atrás de uma mesa de marfim, uma névoa carmim condensa-se até assumir forma humana. Venâncio ergue o olhar — atemporal, afiado.
— Você causa estragos e espera hospitalidade? — Sua voz preenche o espaço sem elevar o tom.
— Espero sobrevivência mútua — responde La’Vern, firme.
— Mutantes sempre presumem ser o centro da tragédia.
— Hoje somos apenas o primeiro alvo.
Venâncio contorna a mesa, passos silenciosos como uma sentença.
— O Vírus Legado é de nosso conhecimento. Contatos nos Estados Unidos confirmam sua progressão.
— Então sabe que ele sofreu mutação ao chegar aqui — corta La’Vern. — Não é mais seletivo. Identifica qualquer alteração genética significativa. Para ele… vocês são variações.
Simeão cruza os braços. — Já temos casos. — Mostre — ordena Venâncio, e a palavra não admite réplica.
Descem por uma passagem lateral até os porões. O laboratório improvisado revela uma eficiência inquietante: jalecos brancos sobre pele pálida, vidrarias reluzindo sob luz fria, humanos voluntários dividindo bancadas com vampiros. Em macas esterilizadas, jovens da Geração Vamp respiram sob sedação controlada. Monitores exibem curvas instáveis. A ciência e o oculto coexistem ali como aliados forçados.
— O vírus não nos enfraquece como faz com vocês — explica Simeão, enquanto uma tela amplia um paciente. — Ele nos reverte.
A imagem mostra presas retraindo, a coloração vampírica cedendo lugar a um tom humano. — Mas não voltamos a viver — completa Venâncio. — Sem batimentos, sem metabolismo. Cadáveres conscientes. Em menos de vinte e quatro horas, cessamos.
— Tentaram o Abraço? — Pergunta La’Vern.
— Sim. E quando reintroduzimos sangue vampírico, o vírus reage com violência. A morte chega em menos de duas horas.
Um monitor exibe o fim abrupto de um ex-vampiro; o silêncio na sala é um luto contido. La’Vern fecha os punhos, o frio e o fogo contidos por disciplina. — Então não há saída?
Venâncio conduz o grupo até uma ala separada por vidro reforçado. — Talvez haja.

Lá dentro, uma jovem de cabelos longos e loiros pinta com concentração febril. Diante dela, um vampiro infectado está preso por correntes grossas; a cada pincelada, uma névoa escura transpira de seus poros como tinta viva. Ao lado, um homem alto, feições andróginas, segura um grimório aberto e recita em latim com cadência precisa. Símbolos luminosos orbitam a maca.
— Beatrice — diz Simeão. — Mutante. Domínio sobre Realidades Artísticas. O que cria, ganha função.
— Ela está desenhando o vírus sendo extirpado — murmura La’Vern.
— E ordena que saia — confirma Venâncio. — Noah realiza o selamento.
A tensão cresce em ritmo calculado. O paciente se contorce; a névoa condensa-se no quadro. Beatrice ergue a voz, firme: — Saia.
A forma sombria desprende-se e é absorvida pela tela. Noah fecha o livro com estalo seco; os símbolos se recolhem. Os monitores estabilizam. Um suspiro coletivo percorre o laboratório.
— Funcionou? — Pergunta La’Vern, sem disfarçar a urgência.
— Parcialmente — responde Venâncio, atento às leituras. — Ele está limpo… por enquanto.
Noah encara o francês pela primeira vez. — Se o vírus estiver aprendendo, cada extração pode torná-lo mais adaptável.
— Então precisamos ser mais rápidos do que ele — rebate La’Vern, sem hesitar.
Venâncio aproxima-se até que a distância entre líder e emissário seja apenas simbólica.
— Não fazemos isso por compaixão, mutante. Fazemos por autopreservação.
— Motivações não importam — diz La’Vern. — Resultados, sim.
Simeão inclina a cabeça. — Uma trégua, então.
— Provisória — conclui Venâncio. — Até que a noite decida quem merece sobreviver.
O Mascarade explode sob aplausos do público ao show impecável; a cidade vibra, ignorante do pacto firmado em suas entranhas. No subterrâneo da casa noturna, ciência, arte e magia entrelaçam-se contra uma praga que pensa, aprende e mata. Duas espécies rivais selam uma aliança frágil, sustentada não por confiança, mas por necessidade. E, pela primeira vez desde o ataque, La’Vern sente que a guerra deixou de ser apenas dos mutantes — tornou-se uma disputa pela própria definição do que significa existir.
Continua...
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