CelleXty Saga - Temporada II

10 O Vírus Legado - PARTE 4



Arquivo Confidencial — Instituto Xavier

Sujeito(s): Basco Khassan, Pilgrin, Igon, Nastirth (menção), Illyana Rasputin (menção)

Status: Incursão interdimensional não autorizada. Objetivo: Recuperação do artefato “Shofar de Krianor”. Risco extremo. Regência hostil confirmada no Reino do Silêncio.


O Limbo não é apenas uma dimensão — é uma sentença. Entre os nove reinos infernais conhecidos, nenhum combina tamanha brutalidade com arquitetura tão mutável. Muitos mortais ousaram atravessar seus véus; poucos retornaram com sanidade intacta. Engana-se quem imagina apenas montanhas flamejantes e lagos de fogo. O Limbo respira em dois sub-reinos antagônicos: o Reino de Sangue e o Reino do Silêncio. Ambos se odeiam. Ambos se alimentam da guerra. E no coração de cada um ergue-se um castelo que dita o ritmo da carnificina.

O Reino de Sangue estende-se como um deserto marciano em tons de ferrugem e rubro vivo. Montanhas pontiagudas rasgam o horizonte, cavernas profundas escondem criaturas vis e pântanos tóxicos exalam vapores mágicos e mortais. Vulcões rugem em erupções eternas, desertos escaldantes queimam até ossos, lagos de ácido e enxofre borbulham sob precipícios sem fim. Trolls, duendes e monstros grotescos marcham por trilhas que convergem para o coração do caos: o Castelo das Sombras. Ali, alianças duram menos que um suspiro e a palavra “trégua” é apenas o intervalo entre traições e planos ardis.

O Reino do Silêncio, em contraste cruel, é um túmulo branco. Gélido, mortalmente frio, quase sem “vida” ou som. Suas montanhas deslocam-se como peças de um tabuleiro perverso, aprisionando criaturas em vales que deixam de existir no dia seguinte. Um mar congelado circunda as terras altas e, quando embarcações ousam cruzá-lo, o gelo se rompe como a mandíbula de um Kraken raivoso. Tempestades gélidas varrem o território com fúria agourenta, apagando qualquer sinal de fuga. O único refúgio possível ergue-se como promessa e ameaça: o Castelo dos Exilados.

É nesse reino que um rasgo na cortina do espaço-tempo se abre como ferida viva. Um clarão azulado rompe a nevasca, e Basco Khassan é expelido para a neve com violência contida. Ele rola, levanta-se com dificuldade e encara o branco absoluto que engole o horizonte. O vento uiva como um lamento antigo. Ao longe, entre cortinas de gelo, distingue a silhueta arquitetônica inconfundível do Castelo dos Exilados. A memória o atinge com a mesma força do frio.

— Não é a primeira vez… — murmura, cerrando os dentes contra o vento.

As lembranças vêm em fragmentos: Illyana Rasputin, a Filha das Trevas, governando ambos os reinos após derrotar Belasco; o jovem Nevoeiro aprendendo magia e disciplina sob seu olhar severo; o batismo como Filho do Nevoeiro. Naquelas terras, Basco comandou legiões, travou batalhas infernais e sentiu a sedução do poder demoníaco sussurrar em seus ouvidos. Também viu Magia sacrificar-se quando o Limbo tentou invadir a Terra. E decidiu partir, recusando-se a permitir que a própria escuridão o consumisse.

A nevasca piora. Cruzar dez quilômetros sob aquele açoite branco seria imprudência suicida. Após esforço exaustivo, Basco encontra uma pequena abertura numa rocha colossal. O abrigo é precário, mas suficiente. O teleporte drenou-lhe as forças; cada músculo reclama. Ele se encosta na pedra fria, fecha os olhos por um instante… e o instante vira horas.

O calor o desperta.

— Ãããããa? Mas o quê? Como que… — balbucia, confuso, ao perceber uma fogueira crepitando próxima ao seu corpo.

— Saudações, mestre Filho do Nevoeiro! — Responde uma voz aguda e familiar.

A criatura à sua frente mede cerca de um metro e meio. Pele esverdeada e escamosa, orelhas pontiagudas, longa cauda dupla, nariz fino em curva de gancho e olhos amarelados que brilham com astúcia antiga. Os braços são alongados demais, as mãos quase tocam o chão. Do dorso direito resta apenas o vestígio de uma asa mutilada. As vestes maltrapilhas denunciam décadas — talvez séculos — de sobrevivência no Limbo.

Pilgrin? É você mesmo? — Pergunta Basco, incrédulo.

— Sim, meu senhor. Mais ossos do que carne, mas sou eu. O que o traz aqui depois de mais de 80 anos?

— Oitenta anos? — Basco arregala os olhos. — Não imaginei que tanto tempo tivesse passado… e você perdeu uma asa.

— De fato! — responde o duende com um sorriso torto. — Perdi-a numa aposta há uns 30 anos. Nunca subestime um demônio com dados viciados.

Basco respira fundo. Recorda-se de quando trouxe Gregory ao Limbo para curá-lo do vampirismo — três anos ali, poucos meses na Terra. Recorda-se do Boticário Livresco, o salão arcano que criou no Castelo dos Exilados para guardar tomos raros e relíquias de guerra. Livros reconhecidos pelo aroma: cada obra exalava um perfume específico que, ao ser inalado, atravessava os poros e despejava conhecimento diretamente na mente do leitor.

— Preciso chegar aos calabouços do Castelo — diz Basco, firme. — Tenho que visitar meu antigo Boticário Livresco.

Pilgrin inclina a cabeça, olhos semicerrados.

— Entendo, meu senhor. Busca algo… poderoso.

— O Shofar de Krianor — responde Basco, sem rodeios. — Um artefato lendário. Ao ser tocado, seu som é capaz de curar qualquer doença física ou mágica. Se existir, está registrado em meus tomos.

O vento uiva mais alto, como se reagisse ao nome.

— Devo adverti-lo — continua Pilgrin, a voz agora grave. — Seu antigo castelo possui um novo regente.

— Quem? — Pergunta Basco, o frio agora secundário diante da tensão.


O Castelo dos Exilados ergue-se como um monumento à soberania gélida. Feito de gelo e prata — esta última repelindo criaturas do Reino de Sangue —, suas muralhas são lisas, instransponíveis. O único acesso é a ponte levadiça sobre um fosso de 100 metros de profundidade e largura. No fundo, mortos-vivos aguardam pacientemente a próxima refeição. A arquitetura é bela e impiedosa.

Há mais de 80 anos, o Reino do Silêncio foi governado por uma força que o Limbo jamais esqueceu. Sob seu comando, as criaturas do Reino de Sangue recuaram. Territórios foram conquistados. Prisioneiros capturados e enviados às minas de M’Kraan, cristal raro que potencializa a magia do Limbo e forja armas espirituais — como a espada de Illyana Rasputin que mescla partes do cristal com a sua própria alma. Nos campos de duelo, inimigos lutavam até que vísceras colorissem a neve.

Sem liderança firme, o Reino de Sangue caiu sob domínio de Nastirth, relata o pequeno Pilgrin. Ainda assim, nem ele ousava enfrentar diretamente os exércitos gélidos do Norte.

Do alto de uma torre branca, o atual regente observa o horizonte infinito. Sente um leve desequilíbrio na magia, um aroma que não lhe é estranho. Alto, pele morena, braços marcados por cicatrizes de batalhas antigas. A barba negra oculta parte do passado, mas não a memória. Na bainha, uma espada espiritual forjada com fragmentos de sua alma e de seus antigos prisioneiros pulsa com energia sombria. O traje de guerra repousa sob um manto negro que ondula ao vento cortante.

Ele fecha os olhos por um instante.

— Eu conheço esse cheiro… — murmura.

Poucos ousam cruzar seu caminho. Todos conhecem seu nome.

Igon.


Continua...