...

O campo ainda carregava as marcas do treino anterior, mas diferente do dia anterior, nada ali parecia fora do lugar. O “Golem” que Kostya havia criado permaneceu intacto por algumas horas interagindo com os adolescentes, conectado ao solo de forma discreta, sustentando áreas que antes teriam cedido com facilidade até voltar a ser apenas um amontoado de pedras. Não eram grandes nem chamativas, mas estavam corretas, e o vento que atravessava o terreno não encontrava pontos frágeis para explorar.

Ele passava, contornava, desviava, como se reconhecesse que aquela interferência não era uma imposição, mas um ajuste. Mika observava à distância, sem pressa de se aproximar, analisando não o concreto em si, mas o comportamento daquilo que havia sido construído. Pequenos fragmentos de vidro giravam ao redor de seus dedos com movimentos quase imperceptíveis, respondendo à luz e ao ar como se já estivessem trabalhando antes mesmo de qualquer decisão consciente.

Kostya permanecia próximo da estrutura, ainda olhando o que havia feito, mas sem a tensão que antes o acompanhava. Mika não disse nada ao passar por ele, mas o breve olhar que lançou foi suficiente para estabelecer algo que não precisava ser dito em voz alta. Não havia provocação, nem validação direta, apenas reconhecimento silencioso de que algo havia mudado. Quando ergueu o olhar novamente, Basco já estava observando, imóvel, com a névoa leve contornando seu corpo de forma irregular. Não houve chamado, mas também não era necessário. A atenção dele já estava sobre ela antes mesmo de qualquer movimento.

— Agora você — disse, com a mesma firmeza direta de sempre.

- É...imaginei!

...

Mika descruzou os braços e caminhou até o centro do campo, seus passos calculados sem parecer esforço, como se cada deslocamento já tivesse sido definido antes de acontecer. O vento mudou de direção enquanto ela se posicionava, e, ao fundo, Málaca já não estava mais na varanda. Ela havia descido sem anúncio, ocupando um ponto mais próximo, mas não invasivo, observando não apenas Mika, mas o ambiente como um todo. Diferente dos outros momentos, sua postura era ativa, atenta, como alguém que não apenas avalia, mas intervém no momento certo.


— Qual é o exercício? — Perguntou Mika, mantendo o tom estável.

Basco começou a circular ao redor dela, observando mais do que sua postura. Observava o espaço, o chão, o ar, como se tudo fizesse parte do mesmo problema.

— Você não vai criar nada.

Mika inclinou levemente a cabeça.

— Então eu faço o quê?

— Você vai enxergar além do “teto de vidro” que cria ao redor de si.

Houve um pequeno silêncio, não de dúvida, mas de ajuste interno. Mika fechou os olhos por um instante, e quando os abriu, algo em sua expressão havia mudado. Os fragmentos de vidro ao redor de seus dedos se expandiram levemente, distribuindo-se pelo espaço em posições aparentemente irregulares, mas funcionalmente precisas. Ela respirou fundo e permaneceu imóvel, enquanto o ambiente começava a se revelar por si só. O vento atravessava o campo, pequenas fissuras no solo se expandiam em milímetros quase imperceptíveis, e o terreno reagia constantemente a forças que não eram visíveis, mas estavam ali.

— O que você vê? — Perguntou Basco.

— Movimento? — respondeu ela.

Isso é uma pergunta ou uma afirmação?

— Desculpe...afirmação. Eu vejo movimento em tudo!

...

O solo não era estático, e nunca havia sido. Pequenas pressões se redistribuíam o tempo todo, deslocamentos mínimos que formavam um sistema contínuo de ajuste. Mika acompanhava aquilo com precisão, não tentando impor nada, apenas observando, entendendo, antecipando. Um fragmento de vidro se moveu levemente, ajustando o ângulo de reflexão da luz e revelando uma linha de tensão que antes não podia ser vista. Outro fragmento seguiu o mesmo princípio, depois mais um, cada movimento pequeno demais para ser percebido por quem não estivesse atento, mas suficiente para alterar o comportamento do terreno.

— Corrijo...me dá só um minuto — disse ela, quase em tom neutro.

E foi exatamente nesse momento que algo falhou. Não no ambiente. Nela.

A sensação veio antes da percepção racional, familiar demais para ser ignorada. O movimento havia sido perfeito, rápido, preciso demais, como se não tivesse sido escolha, mas resposta automática. Um padrão que não nasceu ali, mas que já existia antes, repetido inúmeras vezes sob outra circunstância, sob outra vontade. Mika manteve o controle externo, mas internamente houve uma interrupção mínima, um desalinhamento quase imperceptível. Um dos fragmentos de vidro oscilou fora da posição ideal, a tensão no solo mudou de forma sutil, e o comportamento do terreno deixou de seguir a linha prevista.

Málaca avançou um passo.

— Pare Mika!

A palavra não veio como repreensão, mas como intervenção precisa, e Mika interrompeu imediatamente o movimento. O vento atravessou o campo com mais força, arrastando folhas secas, e Málaca se aproximou ainda mais, agora claramente envolvida no treino.

— Você não está escutando o ambiente — disse, com calma.

— Eu estou — respondeu Mika, sem alterar o tom.

— Não. — Málaca inclinou levemente a cabeça. — Você está antecipando ele.

O silêncio que se seguiu não era confortável, mas também não era confrontativo. Era exato.

— Tem diferença? — Perguntou Mika.

— Mais do que você imagina. — Respondeu Málaca. — A natureza não corrige antes do erro existir. Ela responde. Você está tentando impedir o erro de acontecer.

Mika manteve o olhar fixo à frente.

— Isso não é errado. Funciona do mesmo jeito.

— Depende de quem te ensinou.

A frase encontrou algo.

...

Dessa vez, não foi apenas sensação. Foi memória. Mika se recorda das lições vivenciadas com Hypnos, o vilão que manipulava os dois irmãos para cometer crimes. Apesar de reconhecer a bandidagem do velho mutante, Mika também o respeitava por ele ser o responsável pelo treinamento dela e de Kostya.

O vidro tomava forma ao redor de Mika. Era como se a areia sílica, o carbonato de sódio e o calcário obedecessem ás ordens da jovem, se movendo em padrões perfeitos, trajetórias impossíveis sendo executadas sem hesitação, comandos naturais que manipulavam a mistura e a fusão. A voz de Hypnos não era alta, mas estava presente, constante, infiltrando-se entre pensamento e ação.

“Corrige.” “Mais rápido. ”

“Sem hesitar.” “Não seja frouxa como seu irmão”

O banco. O som. A pressão. A ausência de escolha. Mika respirou mais fundo, mantendo o controle visível, mas reorganizando o que acontecia por dentro.

— Isso não é treino… — murmurou.

Basco deu um passo à frente.

— Não. Isso é diagnóstico. É você elevando o seu potencial.

Mika virou o rosto levemente, encarando-o.

— Eu não tô aprendendo isso… eu já sei.

— E quem te ensinou? — Perguntou ele.

Ela não respondeu. Não precisava.

Málaca observava agora diretamente ela, não o ambiente.

— Você não confia no que sente — disse, mais suave. — Confia no que já funcionou antes.

— Funcionou porque precisava funcionar.

— Ou porque alguém precisava que funcionasse?

A pergunta não acusava. Apenas apontava.

O vento cessou por um instante, e Mika fechou os olhos novamente. Os demais colegas observavam à distância. Kostya tentava a neutralidade, mas Basco e Málaca sabiam extrair o máximo do garoto.

...

Quando abriu os olhos, não buscou controle imediato. Esperou. Sentiu. Os fragmentos de vidro permaneceram imóveis por um momento que, para ela, foi mais longo do que parecia. O solo respondeu primeiro, uma pequena redistribuição de pressão, quase imperceptível. Mika observou aquilo acontecer antes de agir, e só então moveu um único fragmento, ajustando o ponto exato onde a tensão se acumulava.

O efeito veio sem resistência. Sem esforço. Sem comando externo.

— …isso é diferente — disse, baixo.

— Isso é seu — respondeu Málaca.

Basco observou em silêncio, inclinando levemente a cabeça.

— Agora começa a ficar interessante.

Naquele instante, algo no terreno mudou. Não como antes, não dentro do padrão natural que Mika vinha acompanhando, mas como uma interrupção e reorganização. As mãos de Mika pareciam dançar no ar enquanto mais lascas de vidro eram formadas e criavam uma barreira pontiaguda de lascas e vitrais. Uma torre de vidro ao redor da menina

Málaca, com uma leve mudança em seu semblante envia cipós ao encalço da jovem. A grama ao seu redor cresce grotescamente e a terra se tornava movediça. Os olhos de Mika focaram em um ponto específico do solo onde nada parecia diferente, e ainda assim tudo ali destoava do restante.

— Tem algo ali — disse.

Kostya reagiu imediatamente.

— Mika...que bicho tá pegando?

Mika não respondeu de imediato. Os fragmentos de vidro ao redor dela se reorganizaram, agora com outra função, não para corrigir, mas para revelar. A luz refletida do sol à pino foi redirecionada, ângulos ajustados, pequenas distorções se tornaram visíveis.

Isso não é do terreno.

Málaca franziu o cenho.

— Eu sei....sou eu!

— Acha mesmo que esse matagal pode me deter, “profe”?

O silêncio caiu mais pesado. Basco não se moveu. A aula tinha uma tutora a altura

O solo cedeu alguns centímetros, dessa vez de forma precisa demais para ser natural. Subitamente o solo se ergueu sob os pés de Mika jogando a garota alguns metros acima e desestruturando sua muralha de vitral. O tombo não foi tão, mas deveras vergonhoso! Kostya caiu na gargalhada

— Lembra daquela vez em São Borja? Essa foi pior!

Mika sequer olhou para o seu irmão, mas com um discreto gesto, lançou sobre ele uma lasca de vidro que lhe cortou o rosto

— Tá de sacanagem guria?

- Relaxa garoto! É a vez de sua irmã brilhar! – Respondeu Basco

E, pela primeira vez desde que o treino começou, aquilo não era sobre aprender a controlar o próprio poder.

Era sobre lembrar de quem já havia controlado ela! Mika jurou que jamais alguém a controlaria novamente. A menina estende os braços em forma de cruz e imediatamente, milhares de minúsculas estacas de vidro são criadas e flutuam ao seu redor. A ordem seguinte, foi um ataque direto contra Málaca. Primeiro, desestabilizando a flora que avançava contra Mika.

Grande parte das estacas tem os cipós e o matagal alto ao redor. Cortando como espadas afiadas, as estacas rasgam voos rasantes sobre o solo podando a terra como um mortífero cortador de gramas psíquico. A cada poda, Málaca sente as plantas morrendo o que lhe deixa com um terrível mal-estar. Mika estende o braço direito contra a indígena e um facho de estacas afiadas seguem em sua direção, contudo um pequeno portal de abre tragando o ataque e os enviando diretamente para o Limbo.

- Já chega Mika! – Ordenou Basco

O líder dos CelleXtys gaúchos não tinha dúvidas sobre as habilidades dos irmãos Kzardos, mas estariam eles realmente prontos a conviver como uma equipe ou ainda possuíam resquícios de obediência doutrinada do criminoso Hypnos?

Mika cessa os ataques e caminha em direção a cabana. Reconheceu que passou dos limites, mas não deu o braço a torcer.

- Agora é com você, “iguana”! – Disse Mika quando cruzou com Emerson.