CelleXty Saga - A Nova Geração
4 Metamorfose

O vento atravessava a vegetação ao redor da pousada com um som irregular, mas diferente do campo aberto, ali havia resistência. As folhas respondiam, os galhos desviavam, o ar encontrava obstáculos naturais que quebravam sua força e criavam zonas de silêncio entre um movimento e outro. Emerson estava ali havia algum tempo. Não muito distante da casa, mas longe o suficiente para não sentir a presença constante dos outros. O espaço aberto ainda o incomodava. Não era medo exatamente, mas exposição. Nos esgotos, tudo era fechado, previsível, limitado. Ali, qualquer direção era possível, e isso não parecia liberdade. Parecia risco.
Ele estava parado, mas o corpo não. Quem lhe acalmava os ânimos era Kaila. Criou-se um laço de confiança entre a jovem sereia e o garoto-lagarto. Ambos se tornaram amigos logo que foram apresentados e a invasão dos borgs, semanas antes, apenas fortaleceu mais ainda a amizade entre os dois.
Os olhos se moviam com frequência, acompanhando qualquer alteração mínima no ambiente. Um galho que balançava diferente, o som de algo pequeno se movendo na mata, o deslocamento de ar que indicava mudança antes mesmo do movimento ser visível. Seus dedos flexionavam lentamente, como se testassem limites que não estavam sendo exigidos naquele momento. A respiração não era irregular, mas não era completamente relaxada. Havia sempre uma prontidão que ele não desligava. Não sabia como.
— Você não precisa ficar aqui escondido.
A voz veio atrás, mas não o surpreendeu.
Emerson não se virou imediatamente. Apenas inclinou levemente a cabeça, reconhecendo.
— Não tô escondido, professora.
Málaca se aproximou sem pressa, pisando de forma leve, mas consciente, como alguém que não interrompe o ambiente, apenas passa por ele. Seus olhos não estavam apenas nele, mas no entorno, como se lesse algo maior do que a cena imediata.
— Então o que você tá fazendo? — Perguntou.
Emerson demorou alguns segundos antes de responder.
— Escutando. Sentindo Cambará!
Málaca assentiu levemente.
— E o que você ouve?
Ele respirou fundo, sem desviar o olhar da mata à frente.
— Tudo… e nada ao mesmo tempo.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Málaca parou ao lado dele, mantendo uma distância que não invadia, mas também não se afastava.
— Você não tá escutando o ambiente — disse ela. — Tá esperando ele te dar motivo pra reagir.
Emerson soltou o ar pelo nariz, quase como um riso sem humor.
— Porque sempre dá.
Málaca virou o rosto levemente na direção dele.
— Sempre?
Ele não respondeu de imediato. Seus olhos continuavam atentos, mas agora havia algo diferente ali. Não era só instinto. Era memória.
— Quando não dá… é porque ainda não aconteceu. Eu sou cigano. Corre sangue Calon nas minhas veias. É natural se esperar que eu me sentisse bem aqui, em meio a natureza, pegando a estrada, mas pra falar a verdade, sinto falta dos esgotos. Lá eu tinha...
- Segurança? – Interrompeu Basco!
O vento mudou de direção naquele instante, passando entre as árvores com mais força. Emerson reagiu antes mesmo de perceber. Seu corpo se tencionou, os ombros baixaram levemente, o peso se redistribuiu para a ponta dos pés. Pequenas escamas começaram a surgir ao longo dos braços, discretas no início, acompanhando o contorno da pele como uma resposta automática. As unhas se alongaram milímetros, curvando-se de forma sutil.
Málaca observou.
Não interrompeu.
— Você viu alguma coisa? — Perguntou.
— Não.
— Então por que reagiu?
Emerson travou por um instante. Olhou para as próprias mãos, percebendo pela primeira vez a transformação parcial que já havia começado.
— Eu não… — ele parou. — Eu não sei.
As escamas recuaram lentamente, mas não completamente. Permaneceram ali, como se o corpo não tivesse certeza se deveria voltar ao normal.
— É isso que a gente vai treinar — disse Basco.
Ele soltou um riso baixo.
— Treinar pra não fazer nada?
— Treinar pra escolher quando fazer alguma coisa.
Emerson finalmente se virou para encará-lo.
— Eu não escolho isso.
Basco sustentou o olhar.
— Então começa agora.
O silêncio voltou, mas dessa vez carregado de tensão diferente. Emerson desviou o olhar novamente para a mata. O exercício parecia simples demais. E exatamente por isso… impossível.
O tempo passou sem marcação clara. O vento vinha e ia, os sons da vegetação se reorganizavam constantemente, e Emerson permanecia ali, tentando não reagir. Não era natural. Cada pequeno estímulo parecia exigir uma resposta. Um deslocamento, um ajuste, uma preparação. Seu corpo insistia em antecipar tudo, como se parar fosse mais perigoso do que agir.
Então algo mudou. Um som seco. Rápido. Próximo demais. Antes que o pensamento se formasse, o corpo reagiu. Dessa vez não foi sutil.As escamas surgiram com mais intensidade, cobrindo braços, parte do peito e subindo pelo pescoço. A postura mudou, a coluna se ajustou, a musculatura se expandiu com um estalo baixo, quase orgânico demais. Seus olhos perderam parte da expressão humana, tornando-se mais fixos, mais estreitos. A cauda emergiu em um movimento brusco, equilibrando o corpo enquanto ele avançava meio passo.
— Para. Se controla
A voz de Málaca veio firme, mas não agressiva.
Emerson não parou.
O som havia sido real. Ele sabia. Sentia.
Outro movimento.
Mais à esquerda.
Ele girou o corpo com velocidade, agora completamente dentro do instinto. A respiração mudou, mais curta, mais focada. As mãos tocaram o chão por um instante, como se testassem apoio. Não havia mais dúvida ali. Apenas resposta.
— Emerson.
Dessa vez, mais próxima.
Ele avançou.
Mas não encontrou ameaça.
Kostya surgiu entre as árvores, carregando um pedaço de madeira, claramente alheio ao que havia provocado.
— Que foi...—
Ele não terminou.
Emerson já estava sobre ele.
O impacto não foi completo. Kostya conseguiu erguer um braço, criando uma barreira de concreto instintiva, mas a força do choque o fez recuar alguns passos, arrastando os pés no solo.
— Caraca, alguém segura o “jacaré”!
Mika apareceu logo atrás, os fragmentos de vidro já se formando ao redor dela, mas hesitando por um instante ao perceber que não era um ataque comum.
— Emerson, te acalma!
Mas ele não ouvia. Ou não processava. A transformação avançou mais. Agora não era mais apenas híbrido. A estrutura do corpo se expandiu, os músculos se reorganizaram, a mandíbula se projetou levemente, revelando dentes mais afiados. A cauda se alongou, mais pesada, mais funcional. A pele escamosa cobria quase todo o corpo, e a respiração vinha em padrões curtos e controlados, como um predador avaliando o momento certo.
Ele não estava fora de controle. Estava… funcionando. Basco caminhou na direção dele. Sem pressa. Sem postura de combate.
— Olha pra mim garoto.
Nada.
— Emerson.
Dessa vez, mais baixo. Mais firme. Ele hesitou. Um segundo. Suficiente.
— Você não está em perigo.
O olhar dele ainda estava fixo, mas agora dividido.
— Eu nunca sei quando estou — respondeu, a voz mais grave, arrastada, ainda presa entre duas formas.
Basco Khassan deu mais um passo.
— Então você precisa aprender a saber e nós estaremos sempre aqui para apoiá-lo.
Kostya permaneceu parado, sem mover um músculo. Mika e Kaila também. Ambas perceberam que qualquer movimento errado poderia piorar.
— Você não está lá — continuou Basco. — Isso não é o esgoto. Não é o circo. Ninguém aqui vai te prender ou te excluir.
A palavra ficou no ar. E encontrou algo. A respiração dele falhou por um instante. Não por fraqueza, mas por conflito. O corpo ainda estava pronto para atacar, mas algo mais começava a disputar espaço.
— Eles também diziam isso… — murmurou.
Málaca não negou.
— Sim, diziam, mas não somos como eles. Você acredita em Basco e em mim?
O silêncio que se seguiu foi mais longo do que qualquer outro, mas podia-se ouvir a respiração forte e predominante do jovem lagarto. O vento passou. A vegetação respondeu. E Emerson… não avançou. A postura ainda era de ataque, mas o movimento não veio. As escamas começaram a recuar lentamente, não de uma vez, mas em partes. A cauda perdeu tensão. A respiração se alongou.
Ele não voltou completamente. Mas também não continuou. Málaca assentiu de leve.
— Isso...devagar.
Basco observava à distância, mas preparado caso fosse preciso uma contenção mais enfática. Seus olhos acompanhavam cada detalhe, cada micro decisão.
— Agora ele começa a ser útil — disse, quase para si.
Málaca não desviou o olhar de Emerson.
— Agora ele começa a escolher.
Emerson permaneceu parado por alguns segundos antes de finalmente recuar um passo. Olhou para as próprias mãos, ainda parcialmente transformadas, como se tentasse entender onde terminava o instinto e começava o resto.
— Eu não sei se consigo segurar isso sempre…
Málaca respondeu sem hesitar.
— Você não precisa segurar.
Ele ergueu o olhar.
— Então o quê?
— Você precisa reconhecer antes de acontecer. Precisar alcançar o equilíbrio entre o humano e a fera.
O vento voltou a atravessar a mata. Dessa vez, ele não reagiu imediatamente. E isso… já era diferente. Emerson voltou a forma humana. Ele estende a mão para Kostya que ainda estava no chão e ajuda o colega a se erguer. Os demais se aproximam. Não pareciam teme-lo. E pela primeira vez, em muito tempo, Emerson pensava ter encontrado, um lar!
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