A televisão iluminava a sala com flashes irregulares, alternando entre imagens granuladas e o rosto sério da apresentadora que tentava manter a compostura enquanto narrava algo que claramente fugia ao comum. O volume estava mais alto do que o habitual, não por descuido, mas porque ninguém ali queria perder nenhum detalhe. As imagens mostravam corredores vazios, câmeras tremidas e, em alguns momentos, figuras translúcidas atravessando paredes como se aquilo fosse algo cotidiano. A legenda piscava: “Fenômenos inexplicáveis em Santa Maria”. O silêncio entre eles não era de dúvida, mas de reconhecimento.

Isso não é montagem — disse Mika, inclinando levemente o corpo para frente.

É sério que vocês tão acreditando nisso? — Completou Kostya, os olhos fixos na tela.

- Né!? Parece um episódio de Arquivo X! – Completou Emerson

A reportagem mudou. Agora mostrava o interior do Catedral Metropolitana de Santa Maria, com sombras atravessando os bancos e vultos sendo capturados por celulares de curiosos. Em seguida, imagens do Theatro Treze de Maio, corredores antigos, luzes falhando, e algo que parecia observar diretamente a câmera antes da gravação ser interrompida. Por fim, a Universidade Federal de Santa Maria. A notícia ficou mais pesada. Um estudante morto. Um casal eletrocutado. A palavra “mutantes” surgiu na tela.

E então veio a imagem. Granulada. Rápida. Quase perdida. Mas não o suficiente. Kaila se levantou primeiro.

Mas o que era aquilo? – Perguntou Kostya

O noticiário repetiu a cena em câmera lenta

A figura apareceu novamente. Ao fundo. Parada. Observando. Mika travou o olhar.

Não…

Kostya completou, mais alto:

— É a Melissa. A Melissa, gente!

- Quem é Melissa? – Perguntou Emerson

- Nossa antiga colega de gangue. – Respondeu Mika

- Mas o que ela faz no meio de fantasmas? – Indagou Kaila

O nome caiu no ambiente como algo que ninguém queria reencontrar.

Basco desligou a televisão.

Arrumem as coisas. A gente sai em vinte minutos.

Ninguém discutiu. Na verdade, todos estavam empolgados para deixar o “meio do mato” onde estavam escondidos

...

A estrada até Santa Maria foi silenciosa na maior parte do tempo, mas não um silêncio confortável. Era carregado. Em dois veículos, cada um lidava com a informação de forma diferente, mas havia algo em comum: aquilo não era coincidência. Quando chegaram, a cidade parecia normal demais para o que estava acontecendo. Luzes acesas, pessoas caminhando, bares funcionando. Mas, por baixo da superfície, algo estava errado. Pequenos grupos comentavam em voz baixa, olhares desviavam rápido demais, e havia sempre alguém observando por tempo demais antes de fingir não estar.

O Theatro Treze de Maio se erguia no centro como um relicário do passado. Antigo, imponente, carregando histórias que ninguém ali precisava explicar. À noite, ele parecia ainda mais deslocado do presente, como se resistisse ao tempo. O sol já havia desaparecido há alguns minutos quando Basco liderou o grupo até a entrada lateral, evitando qualquer exposição desnecessária. Não havia movimento. Nenhum segurança. Nenhum som.

Turistas curiosos — murmurou ele. — É só isso que vocês são.

À noite? — Respondeu Emerson.

Hoje sim.

A porta cedeu com um empurrão leve. O interior era escuro. E frio. O cheiro de madeira antiga misturado com algo úmido e parado preenchia o ar. As poltronas vazias da plateia pareciam observar de volta, alinhadas em silêncio. O palco estava mergulhado em sombra. Mas não completamente vazio.

- Li em uma matéria de jornal que esse lugar estava passando por reformas, mas após um estranho acidente, as obras pararam. – Mencionou Málaca

- Estranho? – Questionou Basco

- O corpo de um dos pedreiros foi encontrado, sem o coração!

- Isso tá ficando cada vez melhor! – Ironizou Kostya

...

O primeiro vulto surgiu no corredor lateral. Depois outro. E mais um. Eles não apareciam de uma vez. Se formavam. Como memórias sendo lembradas à força. Alguns vestiam roupas antigas, trajes formais, vestidos longos, uniformes que não pertenciam àquele tempo. Outros… estavam incompletos.

Kaila deu um passo para trás.

Isso… não é normal.

Nem um pouco — respondeu Mika.

O primeiro ataque veio sem aviso.

Um dos espectros avançou rápido demais, atravessando o ar até surgir quase colado a eles. A mão atravessou o ombro de Kostya, mas o impacto foi real. Ele foi empurrado para trás, como se algo físico tivesse feito contato.

Eles acertam! — Disse ele.

Mas não ficam! — Respondeu Mika, já lançando lâminas de vidro.

As lâminas atravessaram os corpos translúcidos. Sem efeito.

Ótimo…

Outro espectro surgiu atrás de Kaila, os braços se formando ao redor do pescoço dela.

Sai de mim! — Gritou, liberando energia vocal de forma instintiva.

A descarga fez o espírito recuar, mas não desaparecer.

Eles voltavam. Sempre voltavam. Foi então que Emerson avançou. Não com força. Com algo diferente. Ele puxou um pequeno saco de tecido vermelho chamado putsi*, do bolso, e abriu com rapidez.

*Uma putsi (ou putsi bag) é um tipo tradicional de amuleto ou bolsa de talismã cigana (Roma), usada para proteção, sorte ou para atrair desejos específicos. O termo refere-se essencialmente a um patuá ou saquinho mágico carregado junto ao corpo.

Fica atrás de mim.

Isso é sério? — Disse Kostya.

Muito.

Emerson lançou o sal no ar. O efeito foi imediato. Os espectros recuaram como se queimassem. Alguns distorceram, outros desapareceram por um instante.

- Belo truque! – Disse Málaca

— Não é truque...é tradição. Aprendi isso antes de vocês existirem na minha vida — disse ele, seco.

Funciona! — Gritou Kaila.

Por pouco tempo — respondeu o cigano.

E ele estava certa.

Os fantasmas começaram a se recompor. Mais rápido agora. Mais agressivos. Objetos começaram a se mover. Cadeiras deslizaram. Um pedaço de madeira foi lançado contra Basco, que desviou sem esforço, mas sem perder o foco.

Isso não é só manifestação — disse ele. — Isso tá sendo controlado. Pessoal, achem qualquer coisa de ferro que possa ser usado como arma!

Mika já havia percebido. Ela encontra duas barras finas de canos de ferro pelo chão. Joga um para Kostya. Emerson protege Kaila já com um punhado de sal em uma das mãos

Enquanto os jovens se preparavam, Basco observa o local com mais afinco. Seu olhar subiu para os mezaninos.

E encontrou.

Ali.

...

Uma figura grotesca. Parada. Observando nas sombras. Basco não hesitou. Ele assume a forma de um denso nevoeiro e parte para o segundo andar, mas o alvo… não reagiu como esperado. Ele riu. Baixo. E saiu da sombra. Com um simples gesto, cria uma barreira fantasmagórica com dezenas de rostos que fazem Basco recuar e voltar a forma humana no andar térreo.

Vocês demoraram…

O jovem era magro, postura irregular, olhar instável demais para ser apenas confiança. Havia algo quebrado ali, mas também algo perigoso. Um leve sorriso no rosto.

Meu nome… — ele inclinou levemente a cabeça — é Arleqquin.

...

A roupa reforçava a escolha. Suspensórios, camisa antiga, botas finas. Um eco distorcido de um palhaço de outra época que remontava a antigos circos que misturavam o fantástico e o grotesco. Sua voz era um misto de agudos e guturais como um velho corvo grasnando no milharal.

Vocês gostaram do espetáculo? Ainda tenho um bônus!

Os fantasmas avançaram novamente. Mais numerosos. Mais sólidos. Atravessando fileiras de poltronas enquanto outros surgiam das coxias e do fundo do palco.

Isso não é espetáculo — respondeu Basco.

Ah… mas pra mim é. Garanto que não sairão vivos desse teatro

Emerson lançou mais sal. Kostya e Mika atravessavam os espectros com as barras de ferro que os afastavam em segundos.

Dessa vez, os fantasmas recuaram menos.

Eles estão ficando mais fortes! – Gritou Málaca

Não… — disse Mika, olhando fixo. — Ele tá. O cara de palhaço assassino

E então veio o segundo problema. Um som. Diferente. Vivo. Mika virou o rosto primeiro.

Não estamos sozinhos.

No mezanino oposto, uma figura surgiu. Melissa. Calma. Quase serena.

Oi, Kostya… — disse, com um sorriso leve demais para o momento.

Kostya travou.

O que você tá fazendo aqui…?

Ela não respondeu.

Apenas ergueu as mãos. E o ar respondeu.

Um enxame surgiu como uma onda viva, o som das asas preenchendo o teatro com uma frequência sufocante.

Correção de ambiente — murmurou Mika.

Não… — disse Basco. — Emboscada.

...

As vespas avançaram. Os fantasmas também. E, pela primeira vez desde que entraram ali, ficou claro: Aquilo não era investigação.

...

Era caça. E eles… eram o alvo.