O enxame veio primeiro como som antes de forma, um zumbido grave e persistente que parecia nascer das próprias paredes do Theatro Treze de Maio, infiltrando-se nas estruturas centenárias como se despertasse algo adormecido sob camadas de tinta, madeira e memória. O teatro, inaugurado ainda no século XIX, carregava em suas galerias o peso de gerações que ali riram, aplaudiram e sofreram, e agora devolvia tudo isso de maneira distorcida, como um eco antigo que finalmente encontrava voz. O som crescia, ocupando o espaço entre as poltronas gastas, subindo pelas colunas ornamentadas e descendo dos mezaninos como uma névoa viva, enquanto os fantasmas avançavam novamente, mais densos, mais presentes, menos lembrança e mais matéria.

Basco não ergueu a voz, mas ela atravessou o caos com precisão absoluta.

Formação. Agora.

Não havia urgência no tom. Havia certeza. E foi isso que fez todos reagirem.

Kostya moveu-se primeiro, erguendo estruturas que não eram exatamente barreiras, mas extensões do próprio ambiente, reorganizando o espaço como se tentasse impor lógica a algo que claramente não obedecia mais a nenhuma. Mika deslizou para trás dele, manipulando fragmentos de vidro que capturavam reflexos impossíveis, antecipando movimentos que não seguiam direção nem tempo, os fantasmas mais próximos eram golpeados com a barra de ferro que segurava de maneira firme. Emerson não pensava duas vezes em lançar punhados de sal como se fossem pequenas granadas, contudo, era nítido que o “tempero” não iria durar por muito tempo. Kaila permanecia tensa, a energia vibrando sob a pele, instável, perigosa, esperando apenas um deslize para combater algo que lhe causava tanto temor. Era nítido que a menina estava com medo das criaturas que avançavam. Málaca, por sua vez, estava mais preocupada com os enxames convocados por Melissa. Uma picada poderia ser fatal, pensava.

Eles estão mais fortes… — a voz dela saiu entrecortada, desviando de uma cadeira que cruzou o ar como se tivesse vontade própria.

Não são eles — respondeu Mika, sem tirar os olhos do mezanino. — É ele.

E lá estava um novo adversário: Arleqquin.

...

Aberto. Exposto. Braços erguidos como um maestro diante de uma orquestra invisível, os olhos acesos por um brilho febril que não era apenas loucura — era fascínio. Ele não controlava aquilo com esforço. Ele celebrava.

Vocês conseguem sentir? — Sua voz veio suave, quase íntima, apesar da distância. — Esse lugar nunca esteve vazio… vocês só nunca souberam escutar.

Os fantasmas responderam. Não como entidades isoladas, mas como uma única presença fragmentada, um coro de tempos sobrepostos que agora encontrava forma naquele palco esquecido. O ar esfriou de maneira irregular, como se cada espectro carregasse consigo um pedaço de outra época, de outra dor, de outro instante interrompido.

Emerson lançou o sal novamente, abrindo uma brecha no avanço, mas dessa vez o recuo foi curto, incompleto, como se o próprio espaço estivesse aprendendo a resistir.

Tá… diferente… — disse ele, mais para si do que para os outros.

Não está falhando — respondeu Basco, finalmente movendo o olhar. — Está sendo compensado.

Málaca avançou um passo, e o chão respondeu como se reconhecesse sua presença. Pequenas raízes emergiram pelas frestas do piso antigo, serpenteando entre a madeira envelhecida, não com violência, mas com intenção. Era como se ela estivesse conversando com o lugar, pedindo estabilidade a algo que havia sido arrancado de seu equilíbrio natural há muito tempo.

Isso aqui não é invocação… — disse ela, mais baixo. — É memória sendo puxada à força.

Sim! — Arleqquin respondeu, quase entusiasmado demais. — Memória é o melhor tipo de matéria… ela nunca vai embora.

Imediatamente uma figura espectral emerge do chão em frente a Málaca e com um simples gesto de mão, lança a mutante indígena contra a parede. O fantasma atravessa as costas de Kostya e segurava agora o seu coração, esmagando-o enquanto a barra de ferro que segurava vai ao chão.

Mika age por instinto e corta o ar com a arma improvisada transformando a criatura em fumaça ao atravessá-la. Mika ajustou dois fragmentos de vidro, criando um ângulo que refletia não apenas o que estava ali, mas o que parecia tentar atravessar. Foi nesse reflexo que ela entendeu.

Eles não estão sendo criados…

Kostya virou levemente o rosto enquanto recuperava o fôlego.

Explica.

Eles já estavam aqui. Sempre estiveram perambulando por esse prédio. Estão conectados ao lugar

...

O silêncio que seguiu não foi ausência de som, mas ausência de negação.

Basco concluiu, firme:

— Então não são ilusões ou bruxaria. Por isso não senti magia vindo desse cara. Ele não cria fantasmas. Ele os puxa.

- Não consegue abrir um portal como você fez contra os Borgs? — Perguntou Kaila enquanto ajudava Málaca a se levantar

- Com tantos fantasmas assim, é perigoso. Podemos atrair algo do limbo muito pior!

Arleqquin inclinou a cabeça, satisfeito.

— Gente, calma! Acabamos de nos conhecer. Eu só abro as cortinas do espetáculo. Eu os sinto, sinto suas dores, seus medos. A sede de ainda desejarem andar entre nós. O show é deles agora!

E o teatro respondeu.

As luzes oscilaram como velas prestes a se apagar, quadros nas paredes viravam de ponta-cabeça, sangue escorria por algumas paredes, as portas bateram em sequência, e passos ecoaram por corredores vazios que ninguém via, mas todos sentiam. A sensação não era de invasão — era de revelação.

...

No mezanino oposto, Melissa permanecia imóvel, envolta pelo enxame que girava ao redor de seu corpo como uma extensão de sua respiração. Havia controle ali, mas não estabilidade. Seu olhar encontrava o de Kostya e Mika com algo que não era exatamente hostilidade — era reconhecimento atravessado por dúvida.

Vocês não deviam ter vindo… — disse ela, e dessa vez sua voz não carregava provocação, mas cansaço.

Kostya deu um passo à frente, ignorando o risco.

Então por que deixou a gente chegar até aqui?

O enxame reagiu antes dela. Intensificou-se, fechou-se, como se defendesse uma resposta que ela ainda não tinha.

Porque vocês sempre vêm, então porque não dar as boas-vindas? — disse por fim, mas a frase não soou como escolha. Soou como algo repetido.

Mika estreitou o olhar.

Isso não é você.

Melissa sustentou o olhar.

Você ainda acha que sabe onde eu começo… e onde eu termino? A “chefona” de sempre. Precisa ter a última palavra.

O ataque veio logo em seguida, mais agressivo, mais direto, forçando dispersão imediata. Mika ergueu uma barreira de vidro que quebrou parte do avanço, mas não completamente.

Basco! — Chamou ela.

Foco no presente! — Respondeu ele, sem sequer olhar.

Não havia espaço para hesitação. A liderança dele não era proteção individual. Era sobrevivência coletiva.

...

O caos agora tinha peso.

Os fantasmas já não atravessavam como névoa — tocavam, empurravam, pressionavam. Emerson puxou Kaila no momento exato em que um deles tentou envolvê-la pelo pescoço. O contato fez o corpo dela reagir com violência, liberando energia suficiente para afastar o espectro, mas não o dissipar completamente. Os fantasmas pareciam ter certa aversão a sua voz encantadora de sereia e as vibrações de suas cordas vocais.

Eles estão ficando reais… — disse ela, ofegante.

Então a gente para de tratar como irreal — respondeu Emerson, ajustando a postura.

Dessa vez, ele esperou. Observou o padrão. E lançou o sal no momento exato em que o avanço se condensava, abrindo uma ruptura mais eficiente.

Não é força… é timing.


No centro, Basco se movia como se estivesse em outro ritmo. Não mais rápido — mais preciso. Ele não enfrentava diretamente os fantasmas. Ele evitava o ponto onde eles estariam. Cada passo parecia antecipar o erro antes que ele acontecesse. Subitamente, Arleqquin surge bem à sua frente e lhe desfere um forte soco no estômago que faz o jovem Khassan recuar.

Arleqquin gargalhava enquanto continuava avançando contra Basco com chutes e socos precisos, porém, nem sempre era ele a desferi-los. Basco percebe que em alguns momentos um fantasma assumia o golpe desferido por Arleqquin. Assim, assumiu a estratégia do “esquivar e revidar”. Basco assumia a forma de meio-nevoeiro, deixando partes do seu corpo tangíveis para acertar golpes certeiros em Arleqquin. Um potente soco acerta o rosto do vilão que recua com um filete de sangue escorrendo pela boca.

Málaca.

Já percebi, Basco.

Isso aqui não é o foco.

Ela fechou os olhos por um instante, sentindo além do visível.

Tem algo mais profundo.

Basco assentiu.

Então a gente não vence aqui.

Kostya virou, incomodado.

A gente não vence?

Isso aqui é palco — respondeu Basco. — Não é a origem.

Mika completou, seca:

A gente entrou exatamente onde eles queriam.

E foi ali que a decisão foi tomada.

Recuo coordenado. Agora.

Não houve debate.

Málaca avançou e as raízes responderam com mais força, abrindo caminhos, segurando estruturas, criando uma rota viva em meio ao colapso. Ao estender a mão, raízes chicoteiam Arleqquin contra as portas que davam acesso ao hall de entrada do teatro. Emerson puxou Kaila, Kostya sustentou o espaço, Mika cobriu a retaguarda.

E então—

Melissa hesitou. Por um segundo. O enxame falhou quando Basco inundou o teatro com um denso nevoeiro que lhes garantiria a fuga. E isso foi suficiente. Do lado de fora, o ar parecia errado de tão normal. O teatro permanecia intacto, iluminado, silencioso, como se nada tivesse acontecido. Nenhum grito. Nenhum sinal. Apenas um prédio antigo guardando mais uma camada de segredo.

Kaila respirava com dificuldade.

A gente perdeu…?

Basco manteve os olhos fixos na fachada por alguns segundos, observando as janelas escuras como se ainda houvesse algo olhando de volta.

Não.

Kostya franziu o cenho.

Então o que foi isso? Porque eles não vêm aqui para fora?

Mika respondeu:

— Kostya, isso foi um teste ué.

Málaca completou, mais baixa:

E aviso.

O grupo ficou em silêncio, absorvendo quando uma explosão no teto da ala sul do teatro revela o enxame subindo aos céus. Melissa e Arleqquin eram erguidos pelo enxame e sumiam na escuridão da noite. Emerson ainda segurava o pacote de sal, agora quase vazio.

Eles queriam que a gente visse.

Basco assentiu.

E seguisse.

Kaila olhou para ele.

Seguir o quê?

O vento atravessou a rua vazia, carregando um frio que não pertencia à noite. Basco começou a caminhar.

Alguém.

Kostya trocou um olhar com Mika.

Cruz Alta.

- Como é? – Perguntou Emerson

- Eles estão seguindo para Cruz Alta. Tínhamos um esconderijo lá quando fazíamos parte da gangue. – Disse Mika

- Então é simples, vamos para o sentido oposto e voltar pra casa – Desabafou Kaila

- Não podemos. Esse caro novo, Arleqquin...viram as mortes que ele causou aqui? Sem contar os fantasmas que ele parece controlar. E se mais pessoas morrerem?

Basco não confirmou. Mas também não negou.

A gente não tá mais caçando fenômeno…


Ele olhou para trás, certificando-se de que todos estavam de pé.

Agora a gente tá sendo levado.

E, pela primeira vez—


...isso era ainda mais perigoso.