CelleXty Saga - A Nova Geração
2 O Golem

...
O vento naquela manhã não seguia padrão algum. Diferente do dia anterior, em que o som constante da serra criava uma espécie de fundo previsível, agora ele vinha em rajadas irregulares, cortando o campo de treino com mudanças bruscas de direção. Em alguns momentos era apenas um sopro frio, carregando o cheiro úmido da terra; em outros, vinha mais seco, quase áspero, trazendo consigo partículas finas que raspavam levemente contra a pele. O campo ainda guardava as marcas do treino anterior. A cerca quebrada, o solo remexido, tábuas espalhadas sem qualquer tentativa de organização. Nada ali havia sido consertado, e aquilo, de alguma forma, parecia proposital.
Kostya já estava acordado há algum tempo. Caminhava pelo terreno com passos lentos, chutando pequenas pedras que encontrava pelo caminho, mais por hábito do que por distração. Parou em uma área onde o solo parecia mais firme, observando o chão por alguns segundos, como se tentasse entender algo que ainda não conseguia nomear. Respirou fundo, estendeu a mão e concentrou. O concreto respondeu quase imediatamente, emergindo em um bloco irregular que subiu alguns centímetros antes de estabilizar. Ele inclinou a cabeça, analisando.
Criou outro, depois mais um. Três estruturas, nenhuma simétrica, nenhuma realmente estável, mas todas funcionais o suficiente para justificar a tentativa.
— Funciona… — murmurou, baixo, mais para si do que para qualquer outra pessoa.
Insatisfeito, forçou mais. O bloco central cresceu, ganhou altura e densidade, mas junto com isso veio a tensão. Ele manteve o controle por alguns segundos, até que uma fissura surgiu na base. Pequena, quase imperceptível, mas suficiente. A estrutura inclinou e desmoronou com um som seco, espalhando fragmentos pelo chão. Kostya travou o maxilar, irritado, respirando mais forte pelo nariz.
...
— De novo…
O concreto respondeu outra vez, mas agora parecia mais pesado, menos cooperativo. A forma surgiu mais abrupta, irregular demais para se sustentar, e antes que ele pudesse corrigir, novas fissuras se espalharam como linhas finas atravessando a superfície. O colapso veio mais rápido desta vez. Mais seco. Mais frustrante.
— Droga.
— Tu só sabe repetir?
A voz veio de trás, baixa, sem esforço, como se estivesse ali há mais tempo do que deveria. Kostya não se virou imediatamente. Ficou imóvel por um instante, absorvendo a frase antes de reagir. Quando finalmente olhou por cima do ombro, Basco já estava próximo, parcialmente envolto pela névoa leve que sempre parecia acompanhá-lo, distorcendo sutilmente seus contornos.
— Eu tô treinando — respondeu Kostya, seco, sem esconder o incômodo.
Basco caminhou alguns passos à frente, passando por ele sem encostar, observando os restos das estruturas no chão como se aquilo dissesse mais do que qualquer explicação. Ele parou exatamente onde o último bloco havia colapsado, inclinando levemente a cabeça antes de falar novamente.
— Não. Tu tá tentando fazer a mesma coisa… esperando um resultado diferente.
Kostya soltou um riso curto, sem humor, cruzando os braços por um instante antes de descruzá-los novamente, inquieto.
— E qual é a ideia? Ficar parado olhando?
— Faz de novo.
O tom não carregava irritação. Nem incentivo. Apenas decisão. Kostya encarou o chão por um segundo, depois voltou o olhar para Basco, como se buscasse algum tipo de brecha naquela postura imóvel.
— Já fiz.
— Então faça direito.
O silêncio que se instalou não era confortável. Kostya desviou o olhar por um breve instante, respirou fundo e estendeu a mão novamente, agora com menos paciência e mais impulso. O concreto respondeu de forma mais agressiva, emergindo em uma placa larga que subiu rápido demais, pesada demais, instável demais. Ele tentou sustentar na força, forçando densidade, pressionando o material além do ponto ideal. A estrutura tremeu visivelmente, e Basco permaneceu imóvel, observando.
A fissura veio antes do equilíbrio. E, no instante seguinte, a placa colapsou com mais violência, fragmentando-se em pedaços que se espalharam pelo chão. Alguns ricochetearam próximos aos pés de Basco, que não reagiu.
— É isso que tu chama de controle? — Disse ele, com a mesma calma.
Kostya respirou mais pesado, os ombros tensos.
— Funciona numa luta.
— Funciona até parar de funcionar e o inimigo aproveitar a chance.
Antes que ele pudesse responder, o chão mudou. Primeiro de forma sutil, quase imperceptível, como se estivesse cedendo sob o próprio peso. Depois mais evidente. Pequenas raízes começaram a emergir entre as fissuras, deslizando pela superfície com um movimento orgânico, invadindo os espaços onde o concreto havia falhado.
Kostya recuou um passo, olhando ao redor.
— Sério?
Málaca já não estava mais na varanda. Caminhava pelo campo com a mesma calma de antes, a xícara ainda nas mãos, como se nada ali exigisse pressa ou urgência.
— Terreno instável — disse, sem olhar diretamente para ele. — Continua. Finja que não estou aqui!
Kostya soltou o ar pelo nariz, irritado.
— Não tem concreto suficiente aqui.
— Então crie algo a mais — respondeu Basco.
— Isso não faz sentido.
— Pra ti, ainda não.
...
O solo cedeu levemente sob seus pés, obrigando-o a ajustar a postura. Ele estendeu a mão novamente, mas dessa vez hesitou. O concreto respondeu em menor escala, surgindo em pontos específicos, pequenos reforços que pareciam mais improviso do que intenção. Ele tentou sustentar uma base mais baixa, distribuída, menos agressiva.
Por um instante, funcionou. As raízes avançaram. A estrutura cedeu. Ele forçou mais. Errou. E explodiu.
O impacto foi seco, levantando terra, quebrando tudo o que havia sido formado e espalhando fragmentos em todas as direções. O silêncio que veio depois foi imediato e pesado, como se o próprio ambiente tivesse recuado.
Kostya permaneceu parado, respirando mais rápido, os olhos fixos no chão destruído.
— Você luta bem na cidade. Sua mutação fica mais forte, mais evidente, mais poderosa, mas você não pode depender sempre do seu poder, Kostya. Nossos inimigos irão usar isso contra você! – Disse Málaca entre um gole de café e uma caminhada.
A frase veio sem aumento de tom, mas carregava um peso que não precisava de reforço. Kostya levantou o olhar devagar, os músculos tensionados novamente.
— Vocês falam como se fosse fácil criar concreto do nada no meio desse matagal.
Basco não se moveu.
— Tu ouviu a moça.
— Tu acha que eu não tô tentando...”chefe”? — A voz de Kostya veio mais firme agora, carregada de algo mais profundo do que irritação. — Acha que eu não vi o que aconteceu com a gente? Com os Borgs?
...
Por um instante, a resposta não veio. E no silêncio, a lembrança entrou antes de qualquer controle. O som metálico, seco, repetitivo. As vozes que não eram mais vozes, sincronizadas demais para serem humanas. O jeito que o chão parecia errado sob os pés, como se estivesse vivo, como se estivesse pensando. Ele lembrava do momento em que olhou para o lado e não teve certeza se quem estava ali ainda era… alguém. E do segundo seguinte, quando percebeu que hesitar significava desaparecer junto.
Ele apertou os dentes.
— Eu segurei um bando de robôs! Eu não fugi! — Continuou dando meio passo à frente.
— E quase derrubou quem tava do teu lado — retrucou Basco, sem alterar o tom.
O silêncio voltou, mais pesado do que antes. Málaca observava sem interferir de maneira mais enfática, os olhos atentos não apenas nele, mas no próprio terreno que continuava reagindo ao redor.
Kostya desviou o olhar. Para o chão. Para as rachaduras. Para os pedaços. Para o que sobrou. Respirou fundo. Uma vez. Depois outra. Quando levantou a mão novamente, não houve impulso imediato. O concreto respondeu, mas diferente. Menor. Fragmentado. Pequenos pontos surgiram ao redor das fissuras, não para cobrir, mas para conectar.
— Melhor…assim? — Murmurou, mais para si do que para os outros.
— Continua — disse Basco, baixo e levando um leve sorriso ao rosto.
Kostya ajustou. Outra conexão. Depois mais uma. Linhas invisíveis começaram a se formar, distribuindo o peso entre pontos que antes estavam isolados. O chão ainda se movia. As raízes ainda pressionavam. Mas, dessa vez, a estrutura não cedeu imediatamente.
Ele franziu o cenho, focado, sentindo mais do que vendo.
— Não força… — disse Málaca. — Escuta o terreno. Escuta o solo no mais profundo do que ele é....passe o mato, a terra batida. Busque as primeiras pedras enterradas, foque nas rochas no mais profundo da terra!
Kostya respirou fundo e reduziu ainda mais a intensidade. Ajustou. Redistribuiu. Pequenos reforços surgiram onde a pressão era maior. Não havia impacto. Não havia explosão. Apenas sustentação.
O vento voltou a passar pelo campo, levantando poeira leve entre eles. Por alguns segundos, não havia som além disso.
E aquilo se manteve.
Kostya baixou a mão devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar o equilíbrio recém-formado. O concreto permaneceu onde estava. Sem colapsar. Sem explodir. Apenas sustentando. Basco inclinou levemente a cabeça, observando com mais atenção do que antes, enquanto Málaca levava a xícara aos lábios sem desviar o olhar do terreno.
— Agora começou — disse Basco.
— Ele parou de lutar contra o ambiente — completou Málaca.
...
Kostya não respondeu. Seus olhos continuavam fixos na estrutura, mas não mais com frustração. Havia algo diferente ali. Não era orgulho. Ainda não. Mas também não era falha. Pela primeira vez, não era sobre destruir. Era sobre manter.
Mais afastada, Mika observava em silêncio desde o início, mas agora havia algo diferente no modo como seus olhos acompanhavam a estrutura. Sempre via Kostya usar os seus poderes facilmente em ruas, dentro de edifícios ou em qualquer local onde o concreto se fazia presente, mas no meio do nada como em Cambará do Sul percebia a dificuldade do irmão. Contudo, naquele momento, algo mudou.
Pequenos fragmentos de vidro começaram a se mover ao redor de seus dedos, girando com precisão quase imperceptível, ajustando ângulos, refletindo a luz de forma controlada demais para ser casual. Ela não interferiu. Não ajudou. Mas analisava. Geralmente os seus poderes eram totalmente independentes dos dons mutantes do irmão, mas naquele momento, uma ressonância, uma sincronia surgia.
— Você demorou para perceber piá — disse ela, sem olhar diretamente para Kostya.
Ele virou o rosto, ainda com a respiração controlada.
— Perceber o quê?
Mika ergueu levemente a mão, e um dos fragmentos de vidro mudou de posição, alinhando-se com a estrutura de concreto, refletindo uma fissura que antes não era visível a olho nu.
— Que não é sobre força. É sobre onde você coloca ela.
Kostya não respondeu imediatamente. Apenas olhou. E, pela primeira vez, não pareceu discordar. Basco aproveita o momento de suposta distração do rapaz e corre em sua direção tomando a forma de um denso nevoeiro, tão sólido que ao envolver Kostya, ninguém mais conseguia vê-lo. Até Málaca ficou apreensiva com os poderes de Basco. Medo de que um lado sombrio do líder CelleXty se apossasse do colega. Porém, a guerreira indígena não tinha total conhecimento sobre o passado de Basco e suas experiências mutantes e arcanas. Ele sabia muito bem até onde poderia chegar. Sua intenção não era apenas instigar em Kostya uma autonomia sobre seus poderes, mas prepara-lo para adversários ainda mais perigosos que os borgs.
Subitamente, o rapaz levanta as mãos e diversas estacas gigantes de formação rochosa se erguem do solo como uma floresta de troncos de árvores petrificados. Além disso, abre diversos buracos no solo ao redor como poços com quilômetros de profundidade. Basco despencaria em um deles, se não estivesse em sua forma “fumacenta” impressionando a todos. Kostya estende os seus braços para o trio e imediatamente as formações rochosas de amontoam em um emaranhado humanoide três vezes o seu tamanho. Os poderes de Basco pareciam inúteis contra a formação rochosa do rapaz.
- O garoto criou um Golem! – Disse Basco impressionado com o poder do jovem e aparentemente muito satisfeito, retornando a forma humana.
...
A criatura caminhava a passos lentos em direção dos presentes. Kostya não apenas revestia o seu corpo com uma armadura de concreto. Agora ele podia criar armas e criaturas rochosas e direcioná-las para onde quisesse.
Emerson e Kaila chegavam ao campo de treinamento e ficaram de “bocas abertas” com os poderes do novo amigo
- Perdemos alguma coisa? – Perguntou Emerson.
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