Cecília
19 Conhecendo o inimigo
Dois dias depois, Joana foi até Robério, ele ajudava o pai a consertar uma cerca que havia quebrado. Ela usava uma saia evasê róseo e uma blusa branca de tecido fino. Estava bonita naquela roupa, o laço da blusa na altura do pescoço era de uma delicadeza ímpar. Ao vê-la se aproximar, ele deixou o martelo e os pregos sobre a terra e foi ao seu encontro. Estranhou o riso e o olhar enigmático que ela expressava.
— Joana? Aconteceu alguma coisa? Meu filho está bem?
Ela riu mais frouxamente, agora parecia tranquila, serena, até feliz. A expressão indefinida desaparecera completamente.
— Nosso filho está ótimo, Robério. Obrigada por se preocupar, meu marido.
— Então... Por que veio até aqui? — Ele franziu a testa. — Não é bom ficar nesse sol quente. Lembre-se de que está grávida. Pode fazer mal para a criança — Disse num tom meio ríspido.
Ela arrumou os cabelos negros atrás da orelha esticou um pouco a coluna, e antes de falar, soltou um leve grunhido.
— Desculpa meu amor. É que ando um pouco sozinha. Acho que preciso fazer amizade, conhecer pessoas da minha idade. — Ela fez-se de entediada. — Eu gosto da sua mãe, só que, convenhamos... Ela é de uma outra geração e não falamos sobre os mesmos assuntos. Às vezes, sinto-me terrivelmente solitária.
— Bom, eu não sei... Não conheço muitas mulheres por aqui, então...
— Sua mãe me disse que você trabalhou em uma fazenda aqui perto, ela disse também, que a dona das terras é uma moça. Poderíamos ir visita-la. Quem sabe, nos tornamos amigas. — Disse o interrompendo.
— I...Ir a Estrela Dalva? Eu não acho que seja uma boa ideia.
— Por que não? — Ela perguntou com voz dengosa. — Não vai me dizer que você brigou com sua antiga patroa, e agora tem vergonha de visitá-la! Se foi isso, diga-me, e irei sozinha. Não quero expor meu marido a constrangimentos.
— Não, eu não briguei com ela, só acho que...
— Ah, eu já sei! — Ela o interrompeu novamente. — Assim como sua mãe, você também a julga. Por favor, Robério, o fato da moça viver sozinha não significa nada. Nem todas tem o privilégio de crescerem em meio a uma família, e conhecer um homem decente.
— Joana, eu não a julgo. Só que...
— Tudo bem meu amor. Não precisa ficar nervoso. Se você não quiser me acompanhar, irei sozinha. Como eu disse. Eu só quero fazer novos amigos.
Ele engoliu em seco. Deixá-la ir sozinha a Estrela Dalva? Seria um risco muito grande.
— Eu... Eu vou com você. — Disse com voz baixa e fraca.
— Obrigada Robério! Você é o melhor marido do mundo! — Comemorou o abraçando.
Quando Joana comentou com a sogra que faria uma visita a Estrela Dalva, Eulália não ficou somente surpresa, como também temerária. Sentada junto a mesa, ela colocou o cotovelo sobre a mesa, e apoiou o queixo com o dorso da mão, e intrigada ouviu o discurso da nora.
— Foi a senhora quem disse para eu lutar pelo meu casamento. É o que estou fazendo.
— Mas ir visitar a Cecília? Por quê?
— É importante conhecer nosso inimigo, e descobrir seu ponto franco. Eu li essa frase em algum lugar, e agora compreendo o seu verdadeiro sentido.
— Joana, quando eu disse para você lutar pelo seu casamento, não foi dessa forma. Talvez, você tenha compreendido errado.
— Meu Deus! Por que tanta preocupação? É só uma visita amigável.
— Eu espero que essa visita “amigável” não traga maiores problemas para o seu casamento.
— Não se preocupe dona Eulália, eu sei exatamente o que estou fazendo. — Falou com voz sussurrada.
Eulália continuou sentada e olhando para Joana, em seu interior rezou para que o plano desse certo.
À tardinha, Robério acompanhou a mãe do seu filho a visita a Estrela Dalva, apesar da distância que os separava, caminhavam lado a lado. Ele preocupado com o que poderia acontecer, não ousava dizer uma única palavra, pois temia falar algo que o denunciasse, não só a ele, mas principalmente a Cecília. Joana percebendo o estado emocional do marido, também mantinha silêncio, No entanto, por dentro, até suas vísceras sentiam-se vingadas.
Ao chegarem a casa, Joana mencionou um meio riso e maneou a cabeça, o barraco velho e mal acabado, não lhe passou despercebido.
— Que casa horrível! Como alguém pode morar num lugar deste? Esse barraco está caindo aos pedaços. — Disse ela em tom de desprezo.
O rapaz permaneceu mudo, a situação desconfortável, cerceou-o de elaborar um argumento contrário ao da mulher. Portanto, fingiu-se de surdo.
Ao ouvir palmas do lado de fora, Rosália correu para abrir a porta, assustou-se ao ver quem eram os visitantes.
— Bom dia Rosália. — Robério a saudou.
A cozinheira não conseguiu responder a saudação. Perplexa, ela abriu a boca, e colocou a mão sobre o peito. Apesar de ver claramente, quem eram as duas pessoas paradas frente à entrada da casa, Negava-se a acreditar no que via. De olhos arregalados retornou para a sala.
— O que aconteceu, Rosália? Você parece assustada. — Disse a patroa ao ver a expressão de espanto.
— O... O Robério... — Disse a empregada apontando para fora.
De um rompante a moça levantou da cadeira, e juntou as duas mãos sobre o peito.
— O Robério está aqui? — Perguntou em júbilo.
— Sim, o Robério está lá fora. — A cozinheira fez uma pausa. — Mas não está sozinho. Ele veio com a Joana.
A expressão facial da moça mudou rapidamente, o riso transformou-se em uma rusga no meio da testa, e a mão sobre a boca cobriu parte do espanto. Sim, ela não ficara somente espantada, como também emocionalmente perturbada. Os braços caíram pesadamente ao longo do corpo, a respiração ficou descompassada, e por um momento sentiu que o olho esquerdo tremeu. Surpreendida com a visita inesperada, ela baixou a cabeça.
— Eu digo que você não está? — Rosália cochichou ao vê-la irriquieta.
Ela levantou a cabeça, riu forçado, e com voz firme falou.
— E porque eu não estaria? Faça-os entrar, por favor.
— Tem certeza?
— Claro que tenho certeza, Rosália. Mande-os entrar.
A cozinheira maneou a cabeça e foi até a porta. Mesmo receosa do que poderia acontecer, convidou-os a entrar.
A cena foi bem interessante, enquanto Robério mantinha a cabeça baixa, e lutava com seus demônios interiores, Joana muito sorridente, avançou em direção a Cecília.
— Nossa! — Joana exclamou com a mão sobre o peito. — A dona Eulália tinha razão! Você é uma moça muito bonita. Não sei como o Robério não se apaixonou. — Disse com voz enigmática.
A dona da casa sorriu amarelo, e um tanto sem jeito, convidou-os a sentar.
— Sentem-se, por favor. — Disse apontando as cadeiras.
Robério não quis sentar, sentia-se constrangido e forçado a uma circunstância inevitável. A vontade que tinha era de abraçar Cecília, e esclarecer tudo para Joana. Conquanto quisesse fazê-lo, não poderia, Joana estava grávida e talvez não suportasse uma separação. E além da gravidez, ele fizera uma promessa a mãe.
— Eu... Eu vou lá fora conversar com o Venâncio. — Anunciou com voz pesada. Antes que Robério saísse, Joana foi até ele, e o acariciou no rosto.
— Vai meu amor. Assim, eu e a Cecília podemos nos conhecer melhor. — Disse com voz doce.
Logo que o viu descer para o quintal, ela voltou a sentar-se. Em pé próxima ao fogão, Rosália observa a cena, em seu interior, uma forte intuição de que Joana não estava ali por um acaso.
Entrementes, a conversa entre as duas mulheres não podia ser diferente, enquanto Joana alardeava sobre o que lhe convinha; Cecília não se mantinha somente apática, como também apreensiva.
— Há dias que eu queria vir conhecê-la, tive que pressionar o Robério para me trazer, ele acha que gravidez é doença, que eu não poso fazer nenhum esforço. Coisas de marido cuidadoso. Ah, meu Deus! Você acredita que ele desistiu de trabalhar para ficar mais tempo comigo? — Disse Joana com voz aguda.
— Sei.
— Eu nunca fui tão feliz em toda minha vida! Tomara que um dia você conheça um homem tão maravilhoso quanto o meu. Cecília levantou as sobrancelhas e forçou um riso.
— É, quem sabe. — Respondeu melancólica.
Fez-se um breve silêncio, Joana percebeu que a anfitriã estava desconfortável. Em seu íntimo desejou afligi-la ainda mais, no entanto, decidiu ser cautelosa, entendia que o veneno dever ser dado em curtas dosagens.
— Oh! Desculpe-me. Estou sendo inconveniente. — Ela disse com voz mansa. — Sou mesmo uma tola. Você é uma moça solteira e certamente ainda não conheceu nenhum homem. Eu devia saber que esta conversa lhe é um tanto enfadonha. — Riu antes de continuar. — Então que tal mudarmos de assunto? Fala-me de você.
Cecília levantou a sobrancelha e torceu os lábios. Pigarreou antes de falar.
— Não há muito o que dizer, sou uma pessoa comum, como qualquer outra.
— Não, você não é. — Convicta do que falara, Joana balançou a cabeça, depois prosseguiu. — Eu nunca teria coragem de vir sozinha pra este fim de mundo, não sei como sua mãe consentiu.
— Ela não consentiu. — Cecília respondeu com voz baixa, porém firme.
— E você a desobedeceu?
— Perdoe-me, Joana, este é um assunto de família, não costumo comentar com qualquer pessoa.
— Oh, eu entendo. Acho que chateei você novamente. — Reagiu com voz meiga.
— Não, não chateou. Está tudo bem.
Depois de infindáveis 2:22 minutos, Joana e o marido finalmente foram embora. Obstante estivesse aliviada, em ver-se livre da indesejável visita, uma dúvida pairava no ar.
— O que essa mulher veio fazer aqui, Rosália? Será que ela descobriu a traição? — Perguntou desconfiada.
Antes de responder, Rosália torceu os lábios e arregalou os olhos.
— Duvido. Uma mulher traída não se comporta assim. No mínimo, ela armaria um barraco e daria uma surra em você.
— É, Rosália; você tem razão. — Cecília fez uma pausa, pois outra dúvida lhe veio à mente. — Agora eu pergunto: Por que o Robério concordou com isso? Por que a trouxe aqui? O que ele pretende?
A cozinheira, antes de responder, maneou a cabeça e torceu os lábios.
— Eu não queria falar, mas...Talvez ele queira que você saiba qual é o seu lugar na vida dele.
Cecília sentiu um nó na garganta, em segundos, lágrimas amargas desceram por seu rosto. Não aquilo não podia ser verdade.
— Não Rosália, eu o conheço, ele não seria tão sádico. — Disse em meio ao choro.
— Bom, eu não sei o que é sádico, só que pelo seu semblante, não deve ser coisa boa. Meu conselho é que você esqueça esse rapaz. Ele não te merece, Cecília.
A moça pensou um pouco antes de responder. Passou a língua sobre os lábios e sentiu o gosto salgado das lágrimas.
— Acho que você tem razão, Rosália. Eu vou esquecê-lo. Eu sou forte, e vou sobreviver sem ele. Eu juro que vou.
A cozinheira balançou a cabeça e a encorajou.
— Então enxugue o rosto e não chore mais por ele. O Robério não merece suas lágrimas.
— Rosália. Por favor, me abrace. — Ela pediu aconchegando-se ao peito da empregada.
O dia findou e a escuridão da noite lentamente foi cobrindo a claridade. Como pequena estrelas terrestres, os pirilampos brilhavam, iluminando os campos e florestas, enquanto que as mariposas queimavam suas asas na luz das lamparinas. Deitada no sofá, Joana viu quando o marido saiu com a espingarda nas costas. Ela encolheu-se no móvel, e silenciosa, chorou.
Ao chegar a Estrela Dalva, o passeio da tarde lhe veio à mente. Sim ele estava arrependido, sabia que não devia ter aceitado, e principalmente, não devia ter acompanhado Joana. Ele viu o sofrimento nos olhos de Cecília. Pediria perdão por ser tão fraco, por não se impor antes as situações. Certamente ela o perdoaria e ele nunca mais a faria sofrer. Seguro de que tudo ficaria bem, bateu na janela.
Ao ouvir as batidas, Cecília sentou na cama e respirou fundo, teria que ser forte o suficiente para dizer o que realmente sentia. Assim que abriu a janela o rapaz fez menção em saltar para dentro, ela levantou a mão e o impediu.
— Não entre. — Disse com baixa, porém firme. Ele afastou para trás, vê-la o refutando, o afligiu.
— Cecília, por favor. Deixe-me entrar. — Ele implorou.
Ela se manteve postura ereta, não cederia, nem que ele implorasse de joelhos. A claridade da lua iluminou o rosto resignado.
— Por que a trouxe aqui? O que pretendia? Queria que eu soubesse qual é o meu lugar na sua vida? É isso? — Intimidou-o.
— Não, não, por favor. Não pense isso de mim. Você sabe que eu te amo. — Ele retrucou maneando a cabeça.
Ela riu forçado, e antes de falar, suspirou profundamente. A voz saiu pesada, segura.
— Se você me amasse, estaria comigo e não com ela. Se me amasse, teria enfrentado sua mãe, teria dito NÃO a Joana! Você não fez isso.
Nesse momento, ele pulou a janela e entrou para dentro, num gesto de desespero a abraçou, ela no entanto o repeliu, empurrando-o.
— Por favor, Cecília. Entenda, eu não podia dizer não, a Joana está esperando um filho.
— Vai embora Robério.
— Não. Eu não vou embora. Não sem antes fazê-la entender que não tive escolha. A Joana fez questão da visita, eu não tive como dissuadi-la.
— Se você não consegue dizer, NÃO, a uma coisa tão simples; como conseguirá dizer, SIM, para algo tão complexo? Vai embora, Robério! Ou eu chamo o Venâncio.
— Cecília, meu amor...
A janela se fechou e a noite ficou mais escura. Enquanto caminhava de volata para casa, Robério sentia que a negrura noturna o tragava, estava perdido em si mesmo, e ainda não conseguia assimilar a recusa.
“Será que ela deixou de me amar? Meu Deus! Se for isso, eu vou morrer!”
Pensava olhando para céu nublado.
Quando chegou em casa, guardou a espingarda, depois sentou-se no sofá para tentar controlar os pensamentos terríveis que lhe vinham a cabeça. Estava confuso, perturbado e triste também. O medo de perdê-la para sempre o atormentava, e se a perdesse, Joana seria a única culpada!
Completamente desolado, Robério levantou do sofá e foi para o quarto, o coração doía e as lágrimas insistiam em sair. Ele viu Joana deitada, e engoliu em seco. Talvez devesse dormir no sofá. Sim, não era uma má ideia, mas Joana poderia ficar triste e a tristeza afetaria a criança. Sentou-se na beirada da cama, e fechou momentaneamente os olhos, sentiu-se profundamente infeliz e esgotado mental e fisicamente. Deitou-se sem fazer barulho, não queria acordar Joana.
De costas para ele, ela fingiu que dormia. Quando o marido puxou a coberta par ase cobrir, ela riu, e em silêncio, comemorou sua primeira vitória.
Pela manhã, ela levantou cedo, tomou banho, e antes que o marido levantasse, e começou a se arrumar. Enquanto penteava os cabelos negros, Robério sentou-se na cama, e intrigado, perguntou.
— Você vai sair, Joana?
Ela não respondeu imediatamente, antes prendeu o cabelo no alto da cabeça.
— Vou a Rolim de Moura, quero visitar meus pais e comprar umas roupinhas para o bebê. — Ela alisou o rabo de cavalo. — Quer alguma coisa do mercado?
— Não precisa!
— Precisa sim. Eu vou trazer uma botina nova pra você.
— Joana... Eu estou sem dinheiro. O pai não conseguiu um bom preço pelo feijão.
— Não tem importância, meu amor. O papai me dá o dinheiro.
— Joana, eu não acho certo usar o dinheiro dele para comprar coisas pra mim.
— Ele não precisa saber que é pra você. Direi que é para o nosso filho. — Ela veio até a cama e o acariciou no rosto. — Oh, por favor, não fique assim meu amor; É só um presentinho.
Robério se sentiu o pior dos homens, era um canalha que não merecia viver. Joana não tinha culpa em amá-lo, e não merecia continuar sendo enganada. Vê-la tão feliz e sorridente, pesou-lhe na consciência. Ele balançou a cabeça, e pensou no que estava prestes a fazer.
Sim, ele não esperaria mais nem um minuto, contaria a verdade, pediria perdão a ela e a mãe, e assumiria o romance com Cecília. Livrar-se-ia do fardo pesado que carregava. Decidido a expor toda verdade e colocar um fim no relacionamento, ele sentou na beirada da cama, e, chamou-a.
— Joana? Precisamos conversar.
Ela semicerrou os olhos, a seriedade do marido a intrigou, com astúcia de uma serpente e a perspicácia de um elefante, ela analisou o timbre da voz e a expressão no olhar. Percebendo o que estava por vir, sentou-se ao lado dele e o beijou no rosto.
— Agora não meu amor, senão perco o ônibus. — Ela riu e brincou com o nariz dele. — Quando eu voltar, conversamos.
— Joana... É sério, temos que...
— Ai Deus! Tenho que ir! Estou atrasada! — Exclamou levantando abruptamente.
Antes de sair apressada, ela riu para o marido, e lhe mandou um beijo com a palma da mão. Ao vê-la fechando a porta, ele deixou as mãos caírem sobre o colo e curvou o pescoço para baixo. Estava arrasado e infeliz; perdera a chance de contar toda a verdade.
Lamparina = objeto usado para produzir luz, usa-se óleo ou querosene como combustível.
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