Cecília
20 Armando a teia
Assim que chegou a Rolim de Moura, Joana pensou o quão difícil seria alcançar a benevolência do pai. Todavia deliberou dentro de si, que uma boa conversa e um pouco de drama amolece o mais duro coração.
Em menos de vinte minutos chegou frente ao mercado — SÃO JOSÉ – a fachada pintada em vermelho e amarelo, tomava quase toda frente do grandioso galpão. Situado na Avenida 25 de Agosto; talvez fosse o maior mercado da cidade. Não havia estacionamento, os carros, motos e bicicletas dividiam o espaço entre a calçada e a rua.
Sem pestanejar mais nem um minuto, ela subiu a calçada passou por entre algumas motos, e adentrou ao comércio. Entretida, a mãe separava alguma notas promissórias, e não a viu entrar. Muito menos o pai que atendia no caixa. A primeira pessoa a vê-la foi Serafina, a mulher que limpava o chão. Entre um riso e um espanto, a funcionária exclamou.
— Eu não acredito no que estou vendo! É você mesma, Joana?
— Oi Serafina! — Saudou a recém-chegada. A mulher deixou o rodo e veio até ela. Queria vê-la mais de perto.
— Sua barriga já está aparecendo! Nossa senhora abençoe essa criança, e que seja tão bonita quanto você, Joana.
— Obrigada, Serafina. Mas eu prefiro que se pareça com pai.
O pequeno alarido, chamou a atenção da mãe, que apressada saiu detrás do balcão, e veio até a filha. As duas mulheres se olharam por alguns minutos, e por fim, abraçaram-se.
— Quantas saudades eu senti de você, Filha! — Ela afrouxou o abraço e alisou os cabelos pretos e lisos. Nesse momento o pai de Joana colocou um funcionário para cuidar do caixa, e juntou-se ambas. Joana imediatamente mudou a feição, agora expressava certo temor.
— A sua benção, pai. — Ela estendeu a mão para o homem de expressões duras e olhar carrancudo. Ele a encarou por alguns minutos, para então responder.
— Deus te abençoe. — Ante a voz grave e o olhar acusador, Joana baixou a cabeça. — Vamos para o escritório, aqui não é lugar para discutir certos assuntos. — Ordenou o pai.
O trio seguiu rumo aos fundos do comércio, enquanto que o homem, a passos firmes, ia a frente, as duas mulheres o seguiam de mãos dadas. Ambas estavam temerosas, e apoiavam-se mutuamente. Cabisbaixos e amedrontados os funcionários olhavam de soslaio e cochichavam entre si.
Raimundo era um homem alto, meio gordo, pardo. Os cabelos antes negros, agora estavam grisalhos. Ele mantinha a barba sempre feita e vestia roupas com uma numeração a mais; era um dos comerciantes mais bem sucedido de Rolim de Moura. Um pouco rude, porém, um bom pai.
— Eu quis muito ir visitá-la, filha. Mas seu pai não permitiu. Você o conhece. — sussurrou a mãe.
— Eu sei, mãe.
— Eu rogo a Deus para que ele lhe perdoe, filha.
Joana apertou a mão da mãe, e com voz silenciosa respondeu.
— Amém.
Ao chegarem frente a porta do escritório, o homem abriu a porta e deu passagem para que as duas mulheres entrassem. Visivelmente nervoso, ele sentou-se na cadeira detrás da mesa, e apontou outra cadeira para que a filha sentasse. A esposa ficou em pé próxima a mesa. Depois de alguns minutos, o silêncio foi quebrado pela voz estrondosa do homem.
— Cadê seu marido? Por que ele não veio com você?
— Raimundo! Não grite com sua filha. Lembre-se de que ela está esperando um filho! — Pediu a esposa com voz baixa, porém firme.
— Está tudo bem, mãe. — Joana interveio. — Eu explico ao meu pai porque o Robério não pôde vir. Há muito trabalho no sítio, e meu marido está ajudando o senhor Genaro a consertar a cerca.
— Consertando cerca. — Desdenhou o pai. — Seu marido é um covarde, Joana. Se ele ainda está vivo, agradeça a sua mãe e a essa criança que você carrega no ventre. Aquele safado filho de uma puta! Não teve coragem de me encarar. É um moleque sem-vergonha que mandou a mãe vir buscá-la. E sabe porque ele fez isso? Porque não é homem suficiente. Nesse momento Joana começou a chorar, preocupada, a mãe a abraçou pelos ombros, confortando-a.
— Olha só o que você fez, Raimundo! — A esposa o repreendeu.
— Ela tem que ouvir a verdade Mércia! E a verdade é que o marido da sua filha é um moleque! Um, um...
— Pai, por favor...Não brigue comigo. — Joana o interrompeu. — Eu amo o Robério e sei que ele também me ama. — Joana falou aos prantos. O que não quebrantou o pai, que continuou com os duros questionamentos.
— Se vocês se amam. Porque ainda não se casaram? Pelo que eu sei, você e aquele, aquele... Desgraçado estão amasiados.
— A culpa é minha, pai. Pela vontade do Robério, já estaríamos casados. Fui eu quem pedi para esperarmos a criança nascer.
Raimundo balançou a cabeça, para então falar.
— Está certo, Joana, mas assim que essa criança nascer, aquele moleque vai ter que casar contigo! Ou eu, ou eu... — O homem bateu fortemente na mesa. Assustada com o ato violento, a esposa pôs a mão sobre o peito. Um, “meu Deus” quase inaudível saiu de seus lábios.
Joana fechou momentaneamente os olhos, depois enxugou as lágrimas com o dorso da mão, em seguida, falou com voz triste.
— Pai... Eu não tiro sua razão. Sei o quanto deve ter sido difícil para o senhor. Eu juro, que se pudesse voltar no tempo, jamais lhe daria esse desgosto, eu esperaria até o casamento. Só que apesar de reconhecer que errei, eu estou feliz, pai. Meu marido é muito bom, e muito carinhoso comigo. Então, em nome dessa felicidade que estou sentindo, eu peço perdão por mim e pelo Robério.
O olhar paterno mudou, agora expressava certa piedade. As palavras amarguradas finalmente, quebrantaram-no.
— Você eu perdoo, filha, mas aquele covarde nunca terá o meu perdão. — A voz saiu grave, melancólica.
— Obrigada, pai. — Joana agradeceu num riso triste.
O homem levantou da cadeira, suspirou profundamente antes de dizer.
— Eu vou voltar para o caixa. Tenho que trabalhar.
Joana levantou-se também, e com voz doce dirigiu-se a mãe.
— Mãe, eu quero comprar umas roupinhas para o seu neto... O Robério não está sem dinheiro... Será que o pai pode me dar?
— Raimundo. — Falou a mulher ao marido. — Você pode dar...
— Eu dou o dinheiro para comprar as roupinhas para o meu neto. — Disse a interrompendo. Em seguida enfiou a mão no bolso, tirou a carteira, pegou uma boa quantia de cédulas e entregou-as a filha, que rapidamente as guardou na bolsa.
— Obrigada pai. — Agradeceu-o.
Raimundo saiu do escritório deixando as duas mulheres conversando, aparentemente, o clima já não era tão tenso.
— Quando a criança nascer ele amolece o coração. — A mãe a consolou. Joana concordou com um gesto de cabeça, depois de um minuto de silêncio, perguntou.
— Mãe, o Leandro ainda está no sítio do tio Domingues?
— Não. Faz duas semanas que ele veio embora. Graças a Deus seu irmão conseguiu organizar as finanças do seu tio.
— É, o Leandro é um excelente administrador. Não sei porque ele se recusa a trabalhar no mercado com o papai.
— Seu irmão não suporta lugares fechados, ele gosta de fazenda de mato. Ele ficaria doente neste escritório, e além do mais, você sabe como é o seu pai. — Disse a mãe olhando ao redor.
— Mãe, eu tenho que ir, vou visitar meu irmão, e depois comprar as roupinhas do bebê. — Joana entreabriu os lábios e semicerrou os olhos. — Eu estou pensando... Porque o Leandro não passa uns dias comigo no sítio? Seria maravilhoso tê-lo ao meu lado. — Disse colocando a mão sobre o peito.
— É uma boa ideia, filha. Faz dias que ele só está em casa, creio que ficar uns dias com você, fará bem a ambos. — A mãe concordou.
Joana riu, e mais uma vez abraçou a mãe.
— Eu tenho que ir mãe, não posso me esquecer que agora tenho horário para chegar em casa. — Disse para mulher magra de cabelos curtos e pintados de louro.
Juntas saíram do escritório, a mãe a acompanhou até a calçada, antes da filha ir embora, a abraçou novamente, em seguida, alisou a pequena barriga abençoando o ser que ali estava. Feliz com a possibilidade de ser avó, agradeceu a Deus e pediu saúde e proteção para o neto.
— Ele está bem, mãe. — Garantiu Joana antes de ir embora.
Diferentemente de quando chegou ao mercado, agora Joana expressava confiança. Conseguira o perdão do pai e o apoio da mãe, e isto realmente a deixou em uma posição mais confortável. Sentiu que tudo ia dar certo. A passos rápidos ela caminhou pela Rua Norte Sul, tinha pressa em ver o irmão. A residência dos pais distava um pouco do comércio, talvez, cerca de uns mil metros, em trinta minutos ela chegaria ao seu destino.
Assim que chegou frente à casa, ficou alguns minutos parada perto do portão, depois num gesto brusco, quase violento, abriu-o. Apressada, passou pelo pequeno jardim, e nem percebeu que as Dálias estavam floridas, e que os canteiros de rosas tiniam sido restaurados. Num ímpeto quase violento, abriu a porta, e adentrou à sala. O irmão estava deitado no sofá, e ao ouvir o barulho de gente chegando, levantou-se rapidamente. Ao ver que era a irmã, sorriu.
— Joana? Meu Deus! Olha só pra você! — Exclamou o rapaz de olhos castanho-escuro abrindo os braços para recebê-la.
Ela o abraçou longamente, depois acariciou a barba por fazer. O irmão era bonito, tinha cabelos negros como os dela. No estereótipo, eram parecidos com o pai, no entanto, Leandro herdou a delicadeza e sobriedade de Ana Mércia
— Também senti saudades, Leandro. — Disse desvencilhando do abraço.
O rapaz olhou-a mais longamente, e com voz amável, falou.
— Sua barriga já está aparecendo.
— É, o bebê crescendo. Logo você será tio. — Num gesto maternal ela passou a mão no ventre, depois continuou. — Vamos para a cozinha. Quero tomar um café! — Ela o convidou.
— É tão bom ver que você está bem, Joana. A mamãe estava muito preocupada. — Disse a acompanhando.
— Eu sei, agora me fale de você. A mamãe disse que o trabalho no sítio do tio Domingues acabou.
— Foi difícil, mas consegui organizar as finanças e fazer o sítio dar lucro.
Agora estavam na cozinha, a mesa grande de madeira vestia uma linda tolha bordada, o belo vaso no centro da mesa repleto de flores amarelas e brancas, exalava um suave perfume, Joana pegou uma das rosas e cheirou, depois colocou-a no vaso novamente. Leandro puxou uma cadeira para irmã sentar, depois outra para si, enquanto pegava duas xícaras no armário ouvia a irmã.
— E agora você está sem fazer nada. — Joana fez uma pausa, passou a língua sobre os dentes superiores, então fez o convite. — Por que você não passa uns dias comigo no sítio? — Sentado frente a irmã, Leandro franziu a testa. O convite inesperado o deixou curioso, e confuso também.
— No sítio do seu sogro? E se eles não gostarem?
— Ora, e por que não gostariam? — Ela fez-se triste e continuou. — Por favor, Leandro. Vamos comigo. A mamãe também acha uma boa ideia. Ademais, às vezes eu me sinto um pouco solitária naquele lugar, a dona Eulália é uma velha chata que só sabe fazer crochê e mimar o Robério. Ela pouco conversa comigo.
Leandro pensou um pouco, mas não demorou a decidir, estava sem fazer nada, seria muito bom passar uns dias ao lado irmã, e seria uma ótima chance de ver o tratamento que Robério dispensava a Joana.
— Está certo, eu passar uns dias com você. Só espero que os Ferrazzo não reclamem da minha estadia. Você sabe que eu como muito.
Ela riu e esticou as mãos sobre a mesa e apertou levemente as do irmão. Assim que terminaram o café, ela o acompanhou até o quarto, para ajudá-lo com a mala.
— Não precisa levar muita coisa. Vou passar poucos dias. — Ele disse ao ver a irmã exagerando na quantidade de roupas.
— Tudo bem, mas é bom que leve um perfume, pode ser útil. — Ela colocou o frasco na mala antes de fechá-la.
— É, pode ser. — Concordou o irmão.
Após o almoço, Joana e Leandro seguiram para o ponto do ônibus, antes antes ela compraria as roupas do bebê e depois passariam no mercado para se despedirem dos pais. O irmão a ajudou a escolher as roupinhas, e as escondidas ela comprou uma botina par o marido.
Quando retornou ao mercado acompanhada do irmão, Joana transbordava alegria. Ana Mércia ficou feliz em ver a filha tão disposta, a abraçou longamente e lhe desejou sorte. Entrementes, o pai foi mais frio, abençoou a ambos e voltou para o ofício. A mãe ao ver a mudança de expressão da filha, a consolou.
— Tenha paciência, filha. Quando o neto chegar, ele muda. — Ela olhou para o filho que segurava a mala. — E você Leandro, cuide da sua irmã. Lembre-se que é o mais velho.
— Tudo bem, dona Mércia, eu vou cuidar dela.
Após algumas horas de viagem, o ônibus parou frente à ao sítio, Leandro desceu primeiro, seguido pela irmã, que alegre segurava-o pelo braço. Ao chegarem frente à casa do sogro, ela esperou um pouco, para então abrir a porta e entrar.
— Entre, Leandro. — Ela convidou da porta.
Leandro entrou e colocou a mala no chão, sentiu-se meio perdido, conhecia a família Ferrazzo só superficialmente, conversava mais com o cunhado, no entanto não tinham intimidade suficiente para considerá-lo um amigo. Imaginou que seriam duas semanas de muito proveito, pois poderia não só se aproximar mais do cunhado, como do restante da família.
Não demorou muito, Eulália e o marido chegaram a sala e cumprimentaram Leandro. Pareciam feliz em recebê-lo; um pouco mais, Robério apareceu na porta. Ao ver o cunhado franziu a testa, não entrou imediatamente, ficou parado em meio a porta, olhando para o rapaz de ombros largos ao lado da mãe do seu filho.
— Leandro? Que surpresa vê-lo aqui. — Falou finalmente.
— Eu vim passar uns dias com minha irmã. Espero que vocês não se importem.
Genaro tomou a frente e saudou o recém-chegado.
— Claro que não, Leandro. É um prazer recebê-lo em nossa casa.
— Obrigado, Senhor Genaro.
— Deixe a mal aí, vamos sentar e conversar um pouco. — Convidou Genaro apontando o sofá.
As duas mulheres deixaram os homens na sala, e foram para a cozinha. Enquanto colocava a água no fogo para fazer café, Eulália congratulou a nora.
— Foi uma boa ideia trazer seu irmão. Eu subestimei você, Joana.
— Eu não vou perder meu marido para aquela que se diz “fazendeira” dona Eulália. Não mesmo.
— Eu estou do seu lado, Joana. E rezo para que tudo dê certo.
— Vai dar certo. A presença do meu irmão é um meio para intimidar o Robério. Duvido que ele tenha coragem de sair para “cassar.”
— Eu também duvido. — Concordou Eulália.
Na manhã seguinte, após fazerem o desjejum juntos, Joana convidou o irmão para darem um passeio, de início ele recusou, sentia-se cansado, pois o sofá da sala não tinha o mesmo conforto que uma cama. Entretanto, a insistência dela o convenceu a acompanhá-la.
— Aonde vamos? — Ele perguntou enquanto seguiam pela estrada.
— A casa de uma amiga. Não é longe. Logo chegaremos.
— Poderíamos ir no carro do seu sogro.
— A caminhonete está quebrada, e meu sogro não tem dinheiro para arrumar, por isso tive que ir de ônibus para a cidade.
— Ah, sim. Nada como uma boa caminhada. — Ele disse num meio riso.
Logo que avistou o barraco de madeira, ela retirou o braço do irmão de sobre o ombro e, por um instante, segurou-lhe a mão. Os olhos castanho-escuro transbordavam uma alegria instigante, capaz de confundir o mais célebre psicólogo. A passos lentos ela se aproximou, e com toques suaves, bateu na porta.
Não demorou muito, Rosália veio ver quem batia. Franziu a testa ao ver os visitantes.
— Joana? — Exclamou surpresa.
— Bom dia Rosália! A Cecília está? — Saudou risonha.
— Sim, está... Mas... Você quer vê-la? — A cozinheira perguntou intrigada.
— Se ela puder me receber...
— Quem é Rosália? — Cecília gritou da sala.
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