Cecidit Terram

2 Devolta ao "lar"


Notas iniciais
Narrado por Sam

Cheguei ao ginásio e ninguém veio me receber.

Era 1:00 da manhã e não havia sinal nenhum dos guardas da entrada.

Passei pelo vestiário e pelo refeitório. Não havia ninguém.

Vou até a "sala do diretor" e encontro alguns dos principais membros do conselho reunidos

–Alguma festinha particular? — brinco e todos me encaram de uma vez.

No segundo seguinte alguns suspiram aliviados, outros me olham com cara feia.

Mamãe caminha até mim com um semblante serio e disfere um tapa em meu rosto.

Fico totalmente surpresa e sem reação, mas não tanto quanto quando ela logo em seguida me abraça chorando.

–O que diabos está acontecendo aqui? — pergunto com ela ainda me abraçando.

Por ser mais baixa, eu podia ver o resto da sala por cima de sua cabeça.
Solto-me dos seus braços apertados e vejo seu olhos vermelhos e marejados.

–Nunca mais saia daquele jeito, Samantha — ordena a mim.

Papai se aproxima e me abraça também.

–Por que isso tudo? Só por quê sai? Até parece que é a minha primeira vez fora de vista — reclamo e olho frustrada para meus "pais".

A sala ainda estava lotada e um mapa da cidade repousava sobre a mesa. Aproximo-me e os olhos de todos os presentes me seguem.

–Planejavam uma ação á minha procura? — pergunto irritada e bato na mesa — Temos 30 crianças dormindo debaixo desse teto, se for pra se preocupar com alguém, que seja com elas. Não percam tempo me procurando, temos 3 adolescentes que saem depois da meia-noite para "se divertir" e não fazem ideia dos riscos que correm.

Saiu dali e vou direto para a academia.
Entro no único vestiário que ainda estava sendo usado e abro o pequeno armário reservado a mim. Meu colar está lá dentro. Charlotte deve ter colocado na minha ausência. Ela sempre sabe que vou voltar.
Ponho o acessório no pescoço e toco o pingente de pedra da lua.

Era a unica lembrança que eu tinha deles. Meus pais de verdade.
Eu e Char eramos crianças quando eles sumiram e nos deixaram nos cuidados da tia Victoria e do tio Pascal. Passamos tanto tempo com eles que hoje os chamo de pai e mãe, mas sei que meus pais biológicos são outros.

A academia e ringue são meu refugio. Precisava suar para tirar a imagem daquela demônia de olhos azuis da minha cabeça

1,2,3... Soco na esquerda, chutes na direita

4,5,6... Chute de esquerda, socos na direita.

7,8,9,10... Salto, chute no ar, rasteira.

Começo com algo simples, mas quando as horas andavam e o sol já aparecia na pequena janela, eu aumentei o ritmo e não penso em mais nada além dos movimentos.
Meu corpo suava, minha mente limpava.

Mesmo com os cabelos amarrado alguns fios loiros grudavam na minha testa. Meus rosto está corado e brilhando de suor. A camiseta cinza e o short verde grudavam na minha pele. Mais 10 voltas ao redor do ringue 4x4.
Preciso de um banho

Saiu do box exatamente 7 minutos depois de entrar. Naquelas circunstâncias não podia desperdiçar água.
Emily estava sentada no banco em meio ao armário e de frente para mim.

–Não é hora de criança está dormindo? — pergunta com um sorriso forçado no rosto.

–Não sou babá de ninguém. Por que devia saber? — respondo mal-educada.

Pego minhas roupas e visto ali mesmo. Claro que percebi seu olhar sobre mim. Ela disfarçava o interesse e eu disfarçava a provocação.

–O que houve com você? Tem marcas roxas em suas costas e pernas.

A morena se aproxima e me toca.

–Nada com o que deva se preocupar.

Tiro suas mãos de mim. Caminho pra fora do vestiário e ela me segue.

–Eu sei que você não me perdoou pelo o que fiz a sua irmã, mas...

–Mas nada, Emily — paro de andar e encaro aqueles olhos castanhos que inundou meus sonhos e me manipulou por um tempo — o que você fez a Char foi tão podre quanto o cadáver de um rejeitado.

–Foi o único jeito que encontrei para mostrar a verdade.

–Que verdade? Que você e o Jonas são dois canalhas sem escrúpulos? Podia ter encontrado um jeito de "mostrar a verdade" sem quebrar o coração de ninguém... Podia ter evitado que aquilo acontecesse... Você estragou o meu aniversário.

Chorávamos quando parei de falar, ou gritar, não sei. Eu estava com tanta raiva dela que não conseguia enxergar a culpa que dizia sentir.

Corri o mais rápido que podia para longe dela. Sem perceber, fui me aproximando do lugar que me deixava calma.
Subi as escadas que dava ao terraço. Sentei no parapeito do prédio onde antes era minha escola. Balancei minhas pernas no ar e fiquei olhando as ruínas dali de cima.

Aquela já foi minha cidade, meu lar. Sentia saudades de quando meu maior problema era a prova de álgebra do Sr. Collins, e esse já estava morto. Como muitos outros também estavam.

A escola agora é meu lar. Minha família tem 150 pessoas; Meus melhores amigos, as armas de fogo; Minhas melhores amigas, as espadas; Meu esporte é matar e meu namorado... É a vingança.