Ceci n'est pas une Pomme

2 ATO I:III — RENASCIMENTO (Início do primeiro ato)


Notas iniciais
Olá, pessoa! O primeiro ato ficou muito grande, então resolvi dividi-lo em duas partes. Tenha uma boa leitura e que Ryuk te abençoe ♥

CECI N'EST PAS UNE POMME

ATO I:III – RENASCIMENTO

POV RYUK

— Preciso de maçãs! – esbravejei – Já estão começando os sintomas da abstinência! Maçãs, maçãs, maçãs, onde estão as minhas malditas maçãs?

— Cale-se, Ryuk! – murmurou um Shinigami sonolento – Até deuses da morte precisam dormir de vez em quando... E o mundo dos Shinigamis não teve sossego desde que você pegou essa mania insuportável de maçãs...

— Hunf, preciso ir lá embaixo de novo! Vou assaltar algum mercadinho. Só preciso tomar cuidado para ninguém perceber. Acho que os humanos não lidariam muito bem com maçãs flutuantes...

— Vai lá. Aproveita e não volta mais – respondeu desgostoso o outro Shinigami.

— Hunf, como se me apetecesse voltar...

Abri as minhas asas e desci ao mundo dos humanos.

~*~

— Maçãs, maçãs, maçãs, hum... Onde fica o mercadinho mais próximo, mesmo?

Procurei por muito tempo e não encontrei nenhuma maçã nos mercadinhos, apenas laranjas, bananas, abacaxis e outras frutas inúteis.

— Eu devo estar no meio do nada pra não conseguir maçãs... Hunf, o jeito é voltar de mãos abanando. Mas antes, vou descansar um pouquinho aqui nessa pracinha.

Sentei-me num banco ao lado de um casal. A moça tinha no colo algo embrulhado numa manta. Eu não consegui identificar o que era.

— Mal posso esperar para chegar em casa e cuidar da nossa maçãzinha, querido – disse a moça.

— Ah, é! Nossa maçãzinha é especial! Vamos cuidar muito bem dela! – o rapaz beijou delicadamente os lábios da moça. – Olha, o nosso ônibus chegou!

Os dois entraram no ônibus que tinha acabado de parar no ponto. Acabei entrando também. Afinal, o casal só podia ter um monte de maçãs dentro daquele embrulho na manta! Provavelmente desejavam escondê-lo dos outros humanos, já que aquelas frutas deliciosas estavam em falta nos mercadinhos das redondezas. Mas quando eles chegassem em casa e deixassem o embrulho sozinho, eu entraria e – NHECT! – comeria tudo sozinho!

— Hehe, isso vai ser como tirar doce de criança!

Quando eles chegaram em casa, eu entrei junto. Na verdade, não era uma casa, era um apartamento; o mais alto daquele prédio de vinte andares. Era bonito. Uma construção suntuosa. Porém, eu estava mais preocupado com as maçãs do embrulho do que com a arquitetura local. Falando nisso, o casal colocou gentilmente o infame embrulho dentro de um berço e saiu do quarto.

— Que curioso colocar maçãs num berço... Mas enfim, estou sozinho com o embrulho! Chegou a hora da onça beber água!

Porém, quando abri o embrulho, tive uma surpresa:

— Mas será o Benedito? Minha obsessão por maçãs só pode estar me cegando! É um bebê, é claro que é um bebê! Quem poria maçãs num berço? Como você é burro, Ryuk! – resmunguei, dando um tapa em meu próprio rosto – Maçãzinha foi apenas um apelido bonitinho que deram para o bebê, não tem nada a ver com maçãs de verdade! Argh, é o vício, é o vício! Vejo maçãs em todo lugar, até onde não tem! Droga, não posso devorar esse bebê, quero maçãs, apenas maçãs! E agora? Minha cabeça já está girando de tanta vontade de comer maçãs! Agora vou morrer aguado, meu pai...

— Gugu dadá! – o bebê ergueu os bracinhos e sorriu para mim.

— Ué? Você consegue me ver?

— Ieeeeeh! – balbuciou ele, metendo o dedo no meu olho.

— AH! Que dor! Pelo visto, sim, você consegue me ver! Só não consigo entender o motivo.

— Guuuuuuu!

— Bebês humanos são tão inúteis... – pensei alto – Bebês Shinigami já nascem sabendo bater as asas. Já vocês não sabem nem buscar alimento.

— Gu?

— Não enche.

~*~

POV L LAWLIET

— Hum... Pomme? Pomme? Não há muitas maternidades na Pátria do Citrino. Pomme também não é um nome muito comum. Preciso encontrar algum registro que diga o endereço dos pais dessa criança... Não sairei daqui enquanto não conhecê-la! – afirmei para mim mesmo.

Horas se passaram e eu finalmente encontrei o abençoado papel que me dava a resposta. O maior perrengue foi encontrar a maternidade certa, mas não foi muito difícil entrar na sala de registros. Eu era um anjo, podia ficar invisível ou visível aos humanos e/ou Shinigamis quando bem entendesse. Por isso, entrei rapidamente na sala de registros da maternidade Pais & Filhos e rapidamente encontrei na letra P um envelope com as seguintes informações:

~*~

Nome: Pomme Bordeaux Carpentier.

Filiação: Pierre Bordeaux Carpentier e Sophie Bordeaux Carpentier.

Data de nascimento: 08/08/5027

Nacionalidade: Pátria do Citrino.

Endereço dos pais: Apartamento 2010 da residência número 677687 da zona 14 ao norte.

~*~

— Não me acostumo de jeito nenhum aos endereços de hoje em dia... – falei sozinho – Mas enfim, apartamento 2010 da residência número 677687 da zona 14 ao norte, lá vou eu. E tenho que ir rápido, antes que o grupo dos anjos velhos saiba que eu desci à Terra para desvendar o paradeiro do espírito de Kira.

Voei até a residência que correspondia àquele número. Entrei pela janela do quarto que me parecia ser o do bebê, pois ostentava um belíssimo enxoval rosa.

Até que...

Não! Não! Isso não!

— Shinigami Ryuk? O que ele está fazendo aqui? – indaguei assustado. – Será que ele sabe que Pomme é Light Yagami? Sei que é contra as regras, mas preciso aparecer para ele. Será o único jeito de fazer perguntas.

Concentrei-me calmamente e me revelei diante dele.

— L Lawliet? Que prazer te ver aqui! Faz três milênios que eu não te vejo! Que isso, você não mudou nada! – ironizou Ryuk.

— Corta o papo furado e me diz o que você está fazendo aqui.

— Ah, eu entrei meio de gaiato no navio, sabe? Um casal disse que ia pra casa cuidar da maçãzinha e eu pensei que eles estivessem falando de uma maçã literal, daí eu os segui até aqui. Infelizmente, eu tinha entendido tudo errado. A maçãzinha que tanto busquei era só um apelido bonitinho para um bebê idiota – ele coçou o queixo, pensativo – E você, detetive de araque? O que faz aqui? Por acaso está investigando esse bebê?

Já investiguei até demais na vida passada, pensei.

— Esse bebê é Light Yagami!

O Shinigami caiu na gargalhada.

— Está bem, isso é alguma pegadinha? Cadê a câmera? Se bem que anjos e Shinigamis não aparecem nas gravações. É uma pena, sua pegadinha foi um fracasso. Agora volta pra casa e vai enganar outro.

— Eu estou falando sério! Esse bebê é a reencarnação do espírito de Light Yagami!

— Reencarnação não existe. Agora vai dizer que o paraíso também existe?

— Bom, eu existo! De onde você acha que eu vim? Do paraíso, é claro!

Hunf, quebrei uma regra-mor. Mas ela não tem relevância para mim, de qualquer forma. Contanto que nenhum anjo velho descubra, está tudo certo. Ainda bem que Ryuk é discreto. Pudera. Ele não se importa com nada além de maçãs...

— E onde fica o paraíso? – inquiriu o Shinigami – No céu que não é! O meu mundo também fica no céu e eu nunca vi nenhum anjo por lá!

— O paraíso fica no céu também, mas em uma dimensão escondida. Vivemos camuflados. O universo é imenso e nós nos teletransportamos. Você só nunca nos viu porque deuses da morte, humanos e demônios não podem enxergar o paraíso, nem seus anjos, a não ser que nós queiramos que isso aconteça. O inferno também existe, mas segue regras parecidas. Shinigamis e humanos não podem ver demônios, muito menos o inferno. Porém, os anjos podem ver tudo. E cabe a nós, anjos, ouvir as súplicas advindas do lago de enxofre. De vez em quando, aparecemos por lá e atendemos aos pedidos das almas soterradas no inferno, isto é, quando os pedidos são razoáveis e elas demonstram arrependimento legítimo de todos os seus crimes na Terra.

— Mas, mas... Eu escrevi nas regras de uso do Death Note que quem usa o caderno não pode ir nem para o paraíso, nem para o inferno!

— Por quê? – esbocei um sorrisinho maldoso, já sabendo que resposta ouviria.

— Porque esses lugares não existem!

— Sinto muito, Ryuk, mas sua vida foi uma mentira. “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Nunca leu Hamlet?

— Olha a minha cara de quem se importa com Shakespeare – ele bocejou com desprezo – O que importa nessa história toda é que eu fiquei sem as minhas maçãs.

— Mas conseguiu acompanhar o meu raciocínio?

— Sim. Light desceu ao inferno quando morreu. Naturalmente. Ele era um demônio, nada mais justo. Milênios depois, os anjos bonitinhos e pimpões ficaram com peninha dele e o levaram para reencarnar.

— É... – franzi a testa – Quase isso.

— Onde vocês estão com a cabeça? O espírito de Light Yagami é perigoso! E se o bebê no qual ele reencarnou causar mais uma guerra quando crescer?

— Foi o que eu disse horas atrás no setor de reencarnação. – semicerrei os olhos, furioso – Mas ninguém quis me escutar. Mandaram esse demônio de volta ao mundo, pois acreditam que ele já está purificado de seus crimes. Duvido. Ele é muito manipulador. Aposto que driblou o julgamento do tribunal superior com a sua lábia.

— Pode até ser... Mas e eu com isso? – Ryuk deu de ombros – Por que está me revelando todos esses segredinhos? Qual o seu interesse em mim? Onde eu me encaixo nessa história?

— Quero que vigie a pequena Pomme pelo resto da vida dela – ordenei, apontando para o bebê.

— O quê? Vai me colocar de babá?

— Sim. Você disse há exatamente três milênios na Catedral de São Basílio que queria ver uma flor nascer, disse que nem o seu lado sádico aguentava mais ver tanta guerra e desgraça. Agora, se não quiser ver tudo isso se repetir, terá a responsabilidade de não deixar que Pomme vá para o mau caminho. E caso ela vá, contate-me imediatamente.

— E por que você mesmo não a vigia?

— Porque anjos não podem ficar na Terra por muito tempo, do contrário perdem suas asas.

— Ué, mas e os anjos da guarda? Os humanos falam muito neles. Eles não estão sempre por perto? Como não perdem suas asas?

— Balela. Anjos da guarda não existem. O paraíso é uma sociedade discreta. Não temos nada a ver com o cristianismo, nem com nenhuma outra religião inventada pelos humanos. Seguimos regras próprias. E a regra é clara: não podemos ficar na Terra por muito tempo. Já vocês, Shinigamis, não têm esse problema. Além disso, eu sei que você não faz nada o dia inteiro, Ryuk.

— Aff, não precisa jogar na cara...

— Então, por que não ter um objetivo na vida? – sorri – Além disso, posso te trazer um carregamento mensal de maçãs douradas do paraíso, que são muito mais saborosas que as dos humanos.

— Sério? – o Shinigami logo abriu um sorrisão de orelha a orelha.

— Sério. – estendi polidamente a mão para ele – E então? Temos um acordo?

— Espera um pouco... Você está firmando um acordo com um Shinigami? Você confia em mim, um deus da morte? Confia que não vou fazer nada de errado?

— Confio.

Ele ficou sem palavras. Eu sabia. Sabia que aquilo mexeria com ele. Ninguém confiava em monstros feios e horrendos como Shinigamis. Mas ao dizer que eu confiava nele, ele rapidamente se emudecera. Na verdade, eu não confiava nele, nunca confiei. Porém, precisava aparentar que sim para que ele fizesse o que eu queria.

Pra sua informação, eu nunca fui um detetive de araque, seu Shinigami idiota.

— Eu aceito esse acordo. Vigiarei Pomme. – respondeu Ryuk, apertando a minha mão – Mas se você por acaso não me trouxer as maçãs douradas do paraíso...

— Eu sou um anjo de palavra.

— Hum, está bem... – assentiu ele – Agora, me responda, senhor anjo sabe-tudo... Notei que a bebê Pomme consegue me ver. Mas como, se humanos não podem ver Shinigamis, a não ser que tenham tocado em um Death Note?

— Talvez sejam resquícios da vida passada – dei de ombros – Light e você eram bem próximos, sempre andavam juntos pra cima e pra baixo. E as lembranças das encarnações anteriores não são apagadas da memória. Elas vivem no inconsciente. Por vezes, pedacinhos delas podem migrar para o pensamento consciente, causando esses bugs aparentemente inexplicáveis. Por isso, Pomme não se recorda de suas vivências como Light Yagami, mas pode ver o Shinigami que a acompanhou durante a sua antiga vida.

— Que coisa mais complexa...

— Pois é... Consta na quarta lei angelical – ajustei a minha auréola sobre a cabeça – Quantos compêndios celestiais você acha que eu tive que ler para chegar ao mais alto escalão dos anjos?

— Argh, até no paraíso existe burocracia? Achei que vocês só tocassem harpa o dia inteiro!

— Eu nem ao menos sei tocar harpa, Ryuk.

— E guitarra?

— Também não.

— Hunf, nada de especial. Vocês são só humanos com asas – desdenhou.

— Bom... Não deixa de ser verdade... – dei de ombros e arranquei uma pequena pena de minhas asas.

— Isso não dói?

— Tanto quanto arrancar um fio de cabelo – ri – Toma, essa pena é sua.

— Você disse na primeira vez que nos vimos que as penas das suas asas são capazes de refletir a alma de quem as olha fixamente. Mas eu disse também que não tenho alma, está lembrado? Não vou precisar disso. Obrigado.

— Eu sei que você não tem alma. Mas as penas das minhas asas possuem outras funções além de refletir a alma dos humanos. Se você lançar essa pena ao fogo, eu sentirei minha alma queimar como brasa por um breve instante de tempo. É uma sensação inconfundível. Esse será o nosso sinal. Queime essa pena quando precisar urgentemente se comunicar comigo. Não tenha dó, deixe-a se desintegrar. Quando fizer isso, imediatamente virá à minha mente o nome de quem queimou a pena e em que local ela foi queimada. Então, virei ao seu encontro para te ajudar no que for preciso.

— Isso... Isso foi testado?

— Sim, foi. É uma propriedade que as penas possuem. Em geral, esse método não é usado por humanos ou Shinigamis, pois a maioria deles não pode ver anjos, então não pode ver suas penas. Ou seja, lançar penas ao fogo é algo feito apenas pelos próprios anjos, para pedir ajuda aos outros quando estão em situações extremas. Você obviamente não é um anjo, mas vou abrir uma exceção pra você. É contra as regras, mas deve funcionar, de qualquer maneira.

— Posso queimar essa pena para te avisar que você está atrasado com o carregamento de maçãs douradas?

— Eu já disse: só em caso de emergência! – alertei – Ou eu te jogo no fogo junto com a pena!

— E quem disse que ficar sem maçãs não é uma emergência?

— Bom, não é – revirei os olhos – Agora vou voltar pra casa, antes que outro anjo me flagre aqui com você. Até algum dia, Ryuk!

— Ei, espera!

— O que foi? – indaguei.

— Se as suas penas têm o poder de refletir a alma dos humanos, por que você simplesmente não abre as suas asas para Pomme e confere se o que há na alma dela é algo bom ou ruim?

— Porque as minhas asas não refletem as vidas passadas da pessoa, apenas a sua vida atual. Então, se eu abrir as minhas asas para ela agora, serão refletidos apenas sonhos inocentes de bebê, o que será inócuo. Mas a sua teoria não está completamente errada. Refletir a alma dela fará sentido, sim, mas só daqui a muitos anos, quando ela já estiver com a personalidade completamente formada. Portanto, quando ela fizer dezoito anos, eu voltarei para conferir.

— Hum... Se entendi certo, os anjos têm um julgamento de quem vai reencarnar ou não, certo? Então por que vocês simplesmente não abrem as suas asas para as almas e as julgam com base no que virem?

— Porque não aparecerá nada se fizermos isso. A alma da pessoa já desencarnou. Eu acabei de dizer que as vidas passadas não são refletidas nas asas. Mas afinal, por que tantas perguntas?

— Curiosidade, meu chapa, o que mais seria? Por acaso você tem algo a esconder? – ele gargalhou doentiamente.

— Não. De você, não. Mas os outros anjos não podem saber de jeito nenhum o que L Lawliet veio fazer aqui embaixo. Então não conte nada aos outros Shinigamis sobre o que conversamos aqui. Do contrário, nada de maçãs douradas do paraíso.

— Tá bom, tá bom, minha boca é um túmulo!

— Por isso que fede – completei.

— Você anda muito engraçadinho pro meu gosto, L... Que espírito mais... espirituoso, digamos assim.

— Seus trocadilhos são de matar.

~*~

CONTINUA...

Notas finais
Ryuk pensa tanto em maçãs quanto eu penso em Death Note, kkkkkkk. Aliás, hoje eu sonhei com o L ♥ Sonhei que ele estava na sua forma de anjo, lindo como sempre. Eu estava abraçada com ele, fazendo carinho naquele cabelo perfeito, own *-* E a pergunta que não quer calar é: POR QUE DIABOS EU ACORDEI????