Ceci n'est pas une Pomme
3 ATO I:III — RENASCIMENTO (Fim do primeiro ato)
Notas iniciais
CECI N'EST PAS UNE POMME
ATO I:III — RENASCIMENTO

Dez anos após o nascimento de Pomme...
POV POMME
Olá, meu nome é Pomme Bordeaux Carpentier, tenho dez aninhos e vou contar um pouco da minha história pra vocês. Não que ela seja muito grande, mas vocês vão gostar. Eu estudo no colégio mais difícil da cidade. Meus pais me colocaram lá porque acreditam que eu serei a menina mais inteligente e bem-sucedida da Pátria do Citrino se estudar lá. Eu não sei exatamente o que significa ser bem-sucedida, mas acho que tem a ver com ter o melhor carro e a melhor casa. Por falar nisso, aqui onde eu moro as pessoas dizem que ser vitorioso em todas as competições é o único jeito de ser feliz. Não sei se acredito nisso, mas deve ter alguma lógica, já que ganhar é bom, né? Bom, pelo menos ninguém gosta de perder. É por isso que os adultos querem ser sempre os melhores em tudo. Todos, sem exceção, querem ser, é... Como é a palavra mesmo? Ah, sim, bem-sucedidos.
E por falar em ser bem-sucedido, aqui criança não brinca, porque brincar é coisa de criança que não vai ser bem-sucedida. Meus pais dizem que é perda de tempo. Se eu brincar com terra, eles vão me dar umas boas palmadas e me mandar estudar a minha lição de piano. Eu nem ao menos gosto de piano, mas vou ter que aprender a gostar, senão papai e mamãe vão ficar muito tristes comigo. Eles vivem dizendo que a minha prima já sabe tocar todas as principais sonatas de Mozart e tem metade da minha idade. Não gosto dessa comparação, mas tudo bem. Eu nem ao menos sei quem é Mozart. Deve ser alguém, digamos... bem-sucedido?
Daqui a uma hora é a minha aula de atletismo. Terá uma maratona infantil no final do ano. Meus pais me disseram que, se eu não ganhar, vão ficar muito desapontados comigo. Isso me deixa muito triste, porque eu não tenho o mínimo jeito para os esportes e com certeza vou ficar em último lugar na corrida. Não gosto de decepcionar a mamãe e o papai, mas, pra falar a verdade, eu não tenho a mínima vontade de ganhar essa maratona. Só de pensar que terei que correr um quilômetro inteiro... Dá um desânimo, né?
Gostaria que meus pais fossem mais bonzinhos comigo. Eles me colocam em cada enrascada... São lances que eles inventam, nunca pedi nada. É curso disso, curso daquilo... E pensar que eu só queria me lambuzar com as tintas em vez de ficar só lendo apostilas enormes sobre proporção e perspectiva antes mesmo de começar a pintar...
No mais, minha família toda quer que eu seja médica, porque todo o mundo gosta de médico. Não tem erro, médico é sempre bem-suce... Bom, vocês já sabem a palavra. Por isso, meus pais não me dão moleza. Se eu não for a primeira da classe, já me deixam de castigo. Porque Pomme não tem o direito de errar. Nota 9 é inaceitável. 10, 10 e 10, do contrário eu não serei... Bah, já estou cheia dessa palavra!
Meus pais me preparam para os aplausos, mas nunca me preparam para o fracasso. Não me permitem ensaios, tenho sempre que acertar de primeira. Isso me faz morrer de medo de errar, então prefiro não fazer nada. Às vezes paraliso durante uma prova e começo a chorar. Como todas as crianças da Pátria do Citrino são criadas da mesma forma que eu, não raro meus colegas também choram durante as provas. A justificava é sempre a mesma: “Meus pais vão me matar se eu não fechar essa prova”.
E é só assim que o nosso povo sabe viver...
Meu único amigo de verdade no meio disso tudo é o Shinigami Ryuk. Uma grande ironia é que só eu posso enxergá-lo. Meus pais ficam preocupados com isso. Dizem que daqui a alguns anos eu não terei mais idade para ter um amigo imaginário, por isso tenho que abandoná-lo o mais rápido possível. Eu bato o pé e digo que não, digo que ele não é um amigo imaginário, que ele existe de verdade. Às vezes tento mostrá-lo, mas meus pais simplesmente não o veem. Eles me mandam esconder o Ryuk a sete chaves quando há outras pessoas por perto, do contrário me julgarão louca. Já frequentei mil e um psicólogos e todos dizem que é só uma fase... Fase? Mas como? Eu não tenho problema de visão, as outras pessoas que têm. Ryuk é real, do contrário como eu poderia conversar com ele?
— Ryuk, você existe? – perguntei.
— Defina “existir” – pediu ele.
— Ué, se dá pra ver, é porque existe – respondi.
— Então o vento não existe – retrucou ele.
— Ah, mas o vento bate na nossa cara, vira furacão, carrega as coisas, gira cata-ventos! Não dá pra ver, mas existe! – acrescentei.
— Então existir não significa ser visto, mas modificar o ambiente ao seu redor de alguma forma. E eu modifico, pois devoro muitas das maçãs que a sua mãe traz do mercado. Logo, Ryuk existe.
— Sim, e a minha mãe sempre diz que sou eu que como as maçãs que ela compra! – fechei a cara – E quando eu digo que foi você, ela diz que não nasceu ontem. Ora, se fosse pra assaltar a geladeira, eu assaltaria um bolo confeitado... Eu nem gosto tanto de maçãs!
— Mas você deveria amar maçãs, já que o seu nome é Pomme, que é...
— Maçã em francês, sei! Mas maçã não tem gosto de nada.
— Nem mesmo as maçãs douradas do paraíso que o anjo Lawliet traz?
— Ah, aquelas são diferentes; são maravilhosas, literalmente divinas! Parecem maçãs-do-amor! Os anjos sabem o que é bom! – salivei – Pena que você só me deixa comer uma maçã de cada carregamento que ele traz... Egoísta! Ele traz vinte maçãs todo mês! Bem que você podia me dar metade!
— Nem pensar! E por falar nisso, olha o Lawliet vindo aí!
O belo anjo se materializou no meu quarto com um embrulho vermelho nas mãos. Suas visitas eram sempre breves, mas muito bem-vindas.
— Ah, Pomme, você cresce tão rápido... – ele fez carinho nos meus cabelos e olhou para o Shinigami – Aqui estão as maçãs douradas do mês, Ryuk. Continue de olho na Pomme pra mim. Essa garotinha é muito esperta.
E se volatizou até desaparecer no ar.
— Ah, Lawliet... Queria que você viesse aqui mais vezes... – suspirei profundamente.
— Você é caidinha por ele, né? – Ryuk deu uma risada.
— Claro... Um anjo de olhos grandes, lindos e pretinhos como jabuticaba, cabelos lisos tão pretinhos quanto. Uma pele tão branca que contrasta com o restante... Tudo isso e mais um par de asas gigantes que brilham como um arco-íris... Tem como não amar?
— Ah, sim... Pode ser uma paixão de vidas passadas, não? – Ryuk piscou para mim.
— É, quem sabe, quem sabe... – suspirei novamente, sonhando com o meu hipotético casamento com L Lawliet.
— Você gosta dele só porque ele é bonito, né? – indagou o Shinigami, aparentemente enciumado.
— Eu também te acho bonito – sorriu Pomme.
— Acho que ninguém nunca disse que eu sou bonito, haha.
— Mas você é. É lindo. E eu gosto de você do jeito que você é... papai.
— Papai? – ele parecia desconcertado.
— Sim, papai. Porque meu pai biológico não me ama de verdade. Ele ama a menina bem-sucedida que ele quer que eu seja. Mas você me ama pelo que eu sou, seja na vitória, seja no fracasso. Então você é lindo. Lindo como o meu pai jamais foi.
Ryuk me pegou no colo, beijou meu rosto e sussurrou em meu ouvido:
— Pomme... Você é a filha que eu nunca tive...
~*~
CONTINUA...
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