Caída
7 Inevitável
Segunda de manhã o clima está mais fresco do que o resto da semana, então decido ir a pé para o colégio. Ponho uma bermuda jeans branca e uma camisa azul marinho. Olho no espelho e me namoro um pouco. Depois de um tempinho me olhando no espelho, me lembro de algo que pode acabar me impedindo de ir para o colégio. Minha falta de conhecimento das ruas. Então tenho uma brilhante ideia. Decido perguntar se Judith não quer ir comigo.
Dez minutos depois, eu estou na frente de minha casa esperando por Judith, que disse que passaria aqui para irmos juntas. Menos de cinco minutos se passam, e ela já está aqui, com seus cabelos ondulados caindo soltos por suas costas e apenas um batom cor de salmão em seus lábios. Assim como eu, Judith tem uma beleza natural estonteante.
- Bom dia Court. – Diz ela com uma voz cansada, de quem havia praticamente acabado de levantar.
- Bom dia Ju. – Digo.
Começamos a andar e permanecemos caladas quase todo o tempo. Porem, o bom desse silêncio era que ele não era desconfortável. Judith somente falava para me dizer os nomes das ruas e dizer as principais coisas que se encontravam em cada uma.
Depois de dez minutos caminhando, já conheço o nome de pelo menos vinte ruas.
Chegando ao colégio, paro e admiro-o, encantada. Como só havia ido de carro, ainda não tinha visto a frente do colégio. Parecia a fachada de um teatro famoso, ou um museu, mas isso não lhe deixava feio, e sim, acrescentava mais um fato charmoso, depois da decoração interna requintada.
- Ainda não tinha visto a entrada né? – Pergunta Judith.
- Uhum. – Resmungo e balanço a cabeça. De repente, me sinto horrível. Pois lembro que o primeiro tempo era História, com o professor baixinho e gorducho, com um bigode preto e uma careca reluzente, Harry Jr. Judith deve ter percebido essa mudança, pois logo pergunta:
- Tudo bem com você Court? Sua cara tá tão... Sei lá. Estranha.
- Eu estou bem sim Ju. O primeiro tempo é História.
- Ah sim... Relaxa. Quem sabe naquele dia ele tinha brigado com a esposa ou sei lá.
Faço cara de espanto e Judith ri:
- Sim Courtney. Ele tem esposa. Mas venhamos e convenhamos, bem que ela é uma esposa coletiva hein.
- Nossa, Paradise Fall’s esconde segredos debaixo desse cobertor de calmaria.
— Você ainda não viu nada... – Sussurra Judith.
- O quê que você disse Ju?
- Ah, nada não Courtney. Nada não.
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Na porta da sala de aula respiro fundo. Dessa vez faltam dez minutos para a aula começar. Judith havia ficado lá embaixo conversando com June, Paige, e os outros. Entro e o cheiro abundante de tinta de pincel, livros e madeira me atingem. Sento na mesma carteira em que sentei na primeira aula, onde conheci Judith. Imaginei como seria minha vida se não a tivesse conhecido. Seria bem chata, com certeza. Ela era minha única amiga aqui... Enfim. Abro minha bolsa e pego um dos livros que comprei na livraria e começo a lê-lo. Pouco tempo se passa (na minha perspectiva), e logo a campa toca. O primeiro a entrar na sala, depois de mim, obvio, é o professor.
- Ui, olha quem decidiu chegar cedo. Ainda bem menina, mas uma sua e você ia para a detenção.
Apenas resmungo algo para ele que deveria ser um palavrão, que por sorte sai somente como um resmungo mesmo. Logo todos entram, e quem senta ao meu lado hoje é Fred, o irmão totalmente gato de Judith.
- Er... Oi. Meu nome é... – Eu começo, mas ele me corta.
- Courtney. Courtney Greene. Qualquer um conhece você. E a Judith vive falando sobre você, então... Era meio que impossível não lhe conhecer.
- Então... Sério mesmo que todos me conhecem? – Digo rindo. – Tipo, meu pai é o famoso, não eu.
- Aprenda uma coisa se quiser sobreviver aqui Courtney. Em Paradise Fall’s, até as coisas mais insignificantes são notícia.
- Er... Obrigada por me chamar de insignificante...
- Bem, desculpe. Não foi isso que quis dizer.
Abro minha boca para dizer que tudo bem, porem o professor (do qual não gosto nem de falar o nome) me interrompeu.
- Desculpe interromper sua conversa, Majestade, mas a aula já começo, então trate de calar sua boca e prestar atenção, para ver se entra algo nessa sua cabeça.
Todos imediatamente começam a rir, menos Fred e Judith. Respiro fundo e me acalmo. Depois de uns trinta minutos, eu me mexo na cadeira para mudar de posição e acabo derrubando o livro de Fred sem querer.
- Oh, me desculpe. Deixe que eu pego. – Digo, me levantando.
- Não, não precisa, eu pego e...
- Deixe disso, Fred, não é nenhum incomodo.
- Atrapalhando de novo minha aula senhorita Barbie Greene. Será que a filhinha de papai pode se sentar? – Diz o professor Harry. Nessa hora não me controlo, ainda mais vendo todos rindo de mim, e digo a pior merda que poderia dizer:
- Melhor ser filhinha de papai do que um professor gordo e feio de meia tigela. E ainda por cima traído pela mulher.
Nessa hora todos arregalam os olhos e fazem caras de espanto muito bem treinadas. Uma veia começa a pulsar na careca do Sr. Harry, e tudo o que ele me diz é:
- Detenção. Uma semana. Fora de minha sala agora.
Saio com minha expressão neutra. Não olho para trás.
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Era uma hora da tarde, o que significava para mim: detenção. A sala onde ela era cumprida até que era aconchegante. Mas, para minha tristeza (e alegria, lá no fundo. Bem no fundo) Jason também estava lá. Quando entrei na sala ele rapidamente se virou para mim, e, com seus olhos brilhantes, me convidou silenciosamente para sentar ao seu lado. O nervosismo se apossou de mim, mas dei passos calmos e descontraídos em direção a ele.
- Parece que você se meteu em encrenca. – Sussurra ele para ninguém mais ouvir. – Eu achei que você fosse a senhorita perfeição. – Ele dá um risinho de canto de boca.
- Bem... Até as damas se descontrolam de vez em quando não? – Digo, tentando parecer normal. – Ou você não se lembra da minha tapa?
- Eu lembro mais do beijo. Foi bem melhor. – Diz ele, com uma cara totalmente safada em seu rosto.
Fico sem graça e rapidamente me sento (sim, eu estava em pé que nem uma pateta). Respiro fundo e me acalmo, ou vou acabar respondendo idiotice para ele. O que não adianta de nada.
- Aquele beijo não significou nada. Não é?
Ele hesita um pouco antes de responder e fala, com sua confiança já tomando conta de seus atos.
- Para dizer a verdade Courtney... – Começa ele, e sua mão ajeita uma mecha atrás de minha orelha. – Bem que eu gostei daquele beijo.
Nessa hora tenho certeza absoluta de que minhas bochechas brancas estão vermelhas.
- Para dizer a verdade Jason... Eu bem que gostei daquele beijo também.
Ele somente da um riso que mostra seus dentes brancos e perfeitamente alinhados, o que me faz derreter internamente, e se endireita na sua cadeira. Passamos quase uma hora (ainda faltava uma hora para terminar a detenção) em silêncio, até que me lembro do que Judith disse sobre ela e Jason. Decidida a fazer perguntas, e a quebrar o tédio, empurro minha cadeira para o lado de Jason. Ele somente olha para mim, e antes que fale algo, pergunto:
- Eu conversei com a Judith... Sobre o que você disse. Que ela sabia mentir muito bem. Então...
- Sabe – Me corta Jason.
- Como? – Pergunto confusa.
- Você disse que ela sabia mentir muito bem. E eu estou corrigindo. Ela sabe mentir muito bem.
- Er... Ok. Enfim. Ela disse que namorou com você. Foi um namoro sério?
- Está com ciúme Courtney? – Diz ele, mas dessa vez há somente dúvida em sua voz, e não o usual sarcasmo.
- Apenas responda.
- Acredito que sim. Durou um ano. Acho que fui o primeiro namorado dela. Mas... Tive que terminar. Ela já deve ter lhe dito que eu costumava roubar, e logo ela entrou nessa né? – Balanço a cabeça afirmando. – Vi que não estava fazendo bem para ela... Quer dizer, eu não estava fazendo bem para ela. Decidi terminar. Ela ficou bem chateada.
Penso um pouco e decido não falar mais nada. Mas uma pergunta invade minha cabeça. Será que havia algum motivo para Judith me omitir isso?
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Eu acordo de um sono leve, e vejo que a detenção acabou faz cinco minutos. Não há praticamente ninguém na sala: incluindo Jason. Fico um pouco triste, pois queria lhe dar pelo menos um tchau. Pego minhas coisas e saio. Está tudo muito escuro, e um estrondo repentino me faz dar um pulo. Começo a correr para a saída e, para meu horror, vejo que o céu está completamente coberto por nuvens pretas e pesadas. Raios iluminam o céu, e trovões retumbavam a cada minuto. Tento correr para casa antes que chova, mas não consigo. Chegando à frente do colégio, uma chuva pesada e fria começa a cair, me molhando toda e me deixando com frio até os ossos. Ao passar do portão, paro bruscamente. Jason está lá, com um guarda chuva aberto, perto de uma 4x4 que julgo ser dele.
- Você me esperou. – Grito para ele, para que ele possa me ouvir por debaixo dos trovões.
- Claro que esperei. Parecia que o céu ia desabar. Quando cheguei aqui vi que seu carro não estava. Você acha mesmo que ia deixar você ir andando para casa?
Esse gesto carinhoso da parte dele me emociona. Ninguém nunca havia feito algo parecido por mim.
Rapidamente vou para a porta do passageiro e a abro. O interior do veículo tinha cheiro de couro e desodorante masculino. Entro e logo depois ele também. Ele liga o carro, depois o aquecedor.
- Desculpa por molhar seu carro. – Digo, envergonhada.
- Não precisa se desculpa Courtney. Agora, onde fica sua casa?
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Passaram-se praticamente trinta minutos para chegarmos a minha casa. A chuva caia e fazia um cobertor na frente de nossos olhos, o que tornava quase impossível enxergar o caminho. Ficamos parados na frente de minha casa, esperando o temporal passar.
- Então... É aqui que você mora. – Diz ele, tentando puxar assunto.
- Sim. O prefeito Sean foi bastante generoso em nos oferecer ela. É muito bonita. E você? Onde mora?
- Eu moro um pouco longe. Quase no limite da cidade. Mas eu gosto. Lá o ar é mais puro. As árvores são mais verdes. Eu gosto de estar perto da natureza. Ouvir os pássaros cantando e os sons que os pequenos animais fazem... É reconfortante. Me faz esquecer de tudo que já passei...
- É verdade que você já matou três pessoas antes? – Pergunto rapidamente, mas não fico envergonhada dessa vez. Fico com medo do que ele vai fazer, mas ele só me responde com uma voz triste e cabisbaixa:
- Sim Courtney. É verdade.
- Você pode me contar? Sabe, essa história? – Não que eu fosse enxerida, porem o passado de Jason pareceu ser algo importante de se saber.
- Eles estavam perseguindo meu irmão. Ele tinha catorze anos na época. Judith já deve ter lhe falado de minha família. Enfim, eles o perseguiam para matar. Até que Clark entrou em casa. Esse é o meu irmão. Como os caras que o perseguiam viram que era melhor não pega-lo dentro de casa, decidiram queima-la, para ver se acabava com ele de uma vez. Minha família estava lá dentro. E, por pior que ela seja, eu os amo. Então eu só me lembro de sair de casa com um facão em cada mão. Eu os peguei desprevenidos. Cortei a garganta de cada um. Eu não tenho ficha criminal. A Justiça me liberou, dizendo que fiz o que fiz por legitima defesa de minha família. Mas eu não consegui mais ficar lá. Então decidi vir embora e recomeçar. Mas parece que Paradise Fall’s sabe de tudo.
Eu me espanto. Mas não pela história que Jason acaba de me contar. Mas por perceber que por baixo daquele manto de sarcasmo e ignorância, havia uma pessoa vulnerável. Uma pessoa como qualquer outra. Passo a mão em sua bochecha, numa espécie de conforto, e Jason quebra o silêncio.
- Conhecer você foi a melhor coisa que me aconteceu desde que cheguei.
Nessa hora ele pega meu rosto delicadamente em suas mãos e se aproxima de mim cautelosamente. Dessa vez o beijo dele é mais intenso, e seus lábios hoje estão com gosto de refrigerante de cola. Eu retribuo seu beijo e, inexplicavelmente, já estou em seu colo. Porem nós não passamos disso. Nem nosso beijo foi ardente. Foi mais como o primeiro beijo de ambos. Algo delicado, com carinho, como se você fosse errar. E era exatamente o que eu estava sentindo. Mas havia algo maior dentro de mim. Paixão. Estar ali com Jason no seu carro e trocando beijos só fez botar lenha no fogo que já havia dentro de mim. Era agora como algo me incendiando de dentro para fora, um calor bom e aconchegante. Me separo dele e vejo que a chuva já passou.
- Preciso ir. – Digo para ele.
- Eu também.
Abro a porta do carro e saio. Ele abre a janela e me fala:
- Vejo você amanhã.
Apenas sorrio e vou em direção a minha casa, com meu coração batendo descompassado, meus lábios pulsando e meu corpo, mente e alma clamando por uma só coisa: Jason.
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