Caída

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Se amor é suicídio, já posso me considerar morta. Pois estava inexplicavelmente apaixonada pelo garoto mais improvável do mundo. Ele não era jogador de futebol. Nem popular. Nem nada do que se esperava de mim como namorado. Mas ele era o que me satisfazia. Era como se todo esse tempo eu tivesse um vazio dentro de mim, um vazio que foi preenchido no dia em que confirmei que estava namorando Jason. Ao chegar em casa naquele dia, a primeira coisa que fiz foi agradecer a Deus pela tempestade que havia ocorrido.

Uma semana se passou, e ainda não havia contado para ninguém de meu namoro. Acho que ainda não é a hora. Levanto-me de minha cama ouvindo Primadonna, ou seja, minha música (o que acaba sendo degradante para minha imagem, mas, enfim). Já é sexta feira, umas cinco horas da tarde. Papai passou o dia fora de novo. Penso um pouco e decido falar para ele de meu namoro com Jason. Estava com medo da reação dele. E também decido que irei contar para Judith ainda hoje. Para falar a verdade, agora mesmo. Vou para o banheiro, escovo meus dentes e arrumo meu cabelo, que está liso, caído sobre as costas. Visto um suéter verde escuro e um moletom cinza, com uma sapatilha preta. O clima quente e úmido de Paradise Fall’s mudou rapidamente para frio e seco depois daquela tempestade. Parece que o inverno está chegando.

Desço as escadas, saio pela porta, e respiro fundo, coisa que faço todo dia quando saio, pois a cada vez que faço isso, sinto o maravilhoso cheiro das flores de nosso jardim e das flores de todos os outros jardins. Saio andando pela rua, tremendo um pouco a cada vez que ventava. Ao chegar à porta da casa de Ju, bato e espero um pouco. Dessa vez quem abre é uma mulher de cabelos cor de cobre lisos presos em uma trança bem apertada, e seus olhos verdes escuros felizes estão bem protegidos por óculos de armação vermelha simples e linda. Ela está vestindo um suéter vermelho e calças jeans escuras. Seus pés estão descalços. Essa é Jessica Benson.

- Olá Courtney. – Me recebe ela com um sorriso. – Tudo bem com você?

- Sim, tudo bem Sra. Benson. Tirando o fato de meus pés estarem congelando aqui embaixo. – Rio para ela

- Entre, entre. Imagino que queira falar com Judith. – Aceno a cabeça afirmativamente. – Já sabe onde encontra-la.

Lanço um sorriso para ela e subo as escadas. Paro em frente à porta de Judith e bato.

- Quem é? – Pergunta ela.

- Sou eu Ju. A Courtney.

- A sim, espere só um pouco.

Pouco depois, Judith aparece na porta, com uma camisa de manga rosa e short também rosa.

- Oi lesa. – Digo.

- Oi retardada. – Ela responde.

Esse virou nosso ritual, e sorrio a cada vez que isso acontece, pois me mostra que tenho uma amiga de verdade (apesar de ter Paige e June, elas não são tão legais quanto Judith).

- Vim lhe dizer uma coisa. – Começo. – Mas acho melhor você se sentar.

Ela se senta em sua cama.

- Vamos Court. Me diz o que você veio falar. Estou totalmente curiosa.

- Você não vai acreditar, mas... Eu estou namorando.

Judith dá um pulinho em sua cama e sua boca se abre num sorriso de dentes brancos e alinhados.

- E você nem vai acreditar com quem... – Digo, fazendo um pouco de suspense.

- Conta logo Courtney. Conta, conta, conta. – Faz ela, como uma criancinha.

- Com o Jason. – Digo. Ela não esperava a bomba. De repente ela arregala os olhos levemente, não querendo transpassar a surpresa quase iminente em seu olhar. Porem logo ela esconde-a e assume um jeito irritadiço de falar.

- Com o Jason? – Pergunta ela incrédula. – Eu não posso acreditar Courtney. Eu não posso acreditar. – Nessa hora tento falar algo, porém ela me corta. – Eu achei que você fosse mais sensata. Eu achei que você não gostasse dele e...

- Judith, não precisa se preocupar. – Corto ela.

- Não me preocupar? Como você pretende que eu não me preocupe? Ele pode ser perigoso Court, você não vê isso?

Nessa hora fico com um pouco de raiva dela e pergunto:

- Você ainda gosta dele não é?

Ela para.

- Como é? – Ela me pergunta.

- Você ainda gosta dele não é? Não se esquece o primeiro namorado tão facilmente. Porque você não me contou isso Judith?

Ela se senta novamente na cama e fica olhando para suas mãos.

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Acordo com os sons dos pássaros cantando nos pinheiros atrás de minha casa. Apesar de o Sol estar iluminando o chão e as paredes, sinto o frio entrar por debaixo do meu cobertor e me fazer tremer levemente. Decido levantar e ir tomar um banho de água quente. Vou para meu banheiro e me olho no espelho. Meus cabelos pretos estão despenteados e meus olhos estão espertos e vivazes. Dormi com minha alma leve. Ainda me lembro do beijo de Courtney, e de seu corpo protegido pelo meu dentro de meu carro. Não gostava muito de admitir, me dava certo desconforto afirmar, porém estava amando ela. Como nunca amei ninguém. Desde o dia em que ouvi a determinação e o orgulho em sua voz. Entro debaixo do chuveiro e a água quente consegue relaxar todos os meus músculos enrijecidos pelo frio. Meus cabelos começam a ficar lisos novamente. Meu corpo rapidamente fica vermelho com o contato da água quente. Mas eu gosto disso, do calor aconchegante provocado pelo vapor liberado.

Depois de um tempo (bem grande, para dizer a verdade), saio do banheiro enrolado em uma toalha preta, e sento a mesa de mármore branco, pego a garrafa de café e encho uma xicara. Tomo um gole e logo o liquido quente desce por minha garganta, aquecendo ainda mais meu corpo. Sentado na mesa e com a mente vazia, só consigo pensar em uma coisa. Quero ver Courtney novamente. Apesar de ter visto ela ontem na escola e no castigo, queria ver ela de qualquer jeito. Como se fosse um encontro. Pois ainda não havíamos tido um. E isso me surpreende, pois com todas as meninas que já fiquei até hoje, nenhuma delas teve um encontro comigo. Pois nunca quis. Porém com Courtney é diferente. Tenho a necessidade de selar nosso relacionamento. Comprovar para mim mesmo que nosso namoro é real. Apesar de isso parecer totalmente feminino e brega. Decido ir para meu quarto me vestir, algo que não demora mais que dois minutos, pois meu guarda se resume a calças pretas jeans e camisas brancas com jaquetas. Não gosto de moda. Ela é simplesmente uma merda. Depois de vestido simplesmente não tenho o que fazer, o que me leva a fazer somente uma coisa: ligar para Courtney.

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- Alô? – Digo, esperando a resposta do outro lado.

- Courtney. É o Jason.

- Ah, oi Jason. Tudo bem? – Ok, eu poderia ter dito algo menos idiota, mas, releva vai. Eu estou nervosa. – Desculpa, ainda não salvei seu número no meu celular. Está tudo bem com você?

- Sim. Bem, tirando o fato de ser sexta à tarde e eu estar sozinho em casa sem nada pra fazer...

Eu já sabia aonde aquela conversa ia dar. Muitos meninos já falaram isso para mim. Acho que pra sentir pena, ir para a casa deles e faze-los sentirem-se mais viris. É claro que nunca rolou. Mas, ao contrário do que imaginava, Jason me surpreende com o seguinte convite:

- Não quer ir ao parque? Sei lá... Dar um passeio, tomar sorvete quem sabe...

Eu fico pasma por um curto momento, e decido prontamente sobre o convite.

- Sim Jason. Claro que sim.

- Pego você às seis e meia. Beijos Court.

- Beijo Jason.

Depois do “beijo, Jason” ele fala algo que me surpreende mais ainda:

- Eu amo você.

Não consigo conter e uma lágrima brota de meus olhos. Apesar de ter ouvido isso antes, o “eu amo você” do Jason é algo espontâneo e apaixonado, maneiras que nunca havia ouvido antes. Pois as maiorias dos meninos que me dizem isso se distraem olhando para meu decote.

- Eu também amo você.

Ele desliga o telefone e eu me viro para o espelho de meu quarto. Minhas bochechas estavam vermelhas pela calorenta discussão que tive com Judith. Não sai de lá muito irritada. Só um pouquinho. Mas ela não. Simplesmente virou uma fera. Me senti pequena perto dela, e sinceramente tive medo de que ela pegasse seu abajur cor de rosa de cima de sua escrivaninha e o quebrasse em mil pedacinhos em minha cabeça.

Eu decido esquecer tudo isso tomando um banho quente. Vou para o chuveiro e o ligo, sentindo a água escorrer por meus cabelos longos, aquecendo cada centímetro de meu corpo. E não pude esquecer-me do beijo de Jason. Essa foi a mesma sensação que tive ao beijá-lo de verdade na 4x4 dele. Saio do chuveiro, seco meus cabelos, e decido produzir ele. Não que eu precisasse. Mas era o Jason, o garoto que eu amava incondicionalmente. Então, meia hora depois (já são seis horas) meu cabelo está liso, e não com o leve ondular que ele sempre apresenta, preso num rabo de cavalo com uma faixa de seda carmim. Como o passeio é na praça, simplesmente visto uma saia preta com uma regata branca. Meu rosto leva somente uma coisa de maquiagem: o gloss em minha boca. Calço uma sapatilha rosa.

Começo a descer as escadas, mas algo que não esperava me surpreende: meu pai.

- Tudo bem passarinha? – Pergunta ele sem me olhar.

- Sim pai, tudo bem.

Nessa hora ele tira os olhos da televisão e me olha da cabeça aos pés.

- Vai sair?

- Ahn... Sim pai.

- Com quem? – Pergunta ele, assumindo uma postura muito C.S.I.

- Pai, bem... Eu preciso lhe falar um negócio. – Papai crispa os lábios, o que eu sei que significa que ele está cheio de perguntas dentro dele. E tenho certeza que pelo menos uma delas é se estou andando com preservativo.

- O que você tem para me falar? – Chia ele para mim.

Ando devagar e sento ao lado dele no sofá de três lugares. Respiro fundo e decido soltar logo.

- Eu estou namorando papai.

- O quê? – Pergunta ele calmamente. – Com quem? – Agora com uma voz mais ele presta?

- Não sei se você conhece... Ele é do colégio. Seu nome é Jason.

Espero a reação dele, porem acredito que ele ainda não saiba da fama de Jason pela cidade.

- Amanhã. – Diz ele.

- Como? – Pergunto intrigada.

- Quero que ele venha almoçar aqui amanhã. Claro que vou conhecer esse menino o mais cedo possível.

Agradeço silenciosamente o fato de meu pai ser tão compreensivo.

- Ok pai. Amanhã.

- Tenha juízo. – E não ouse ir para a casa dele, ouvi nas entrelinhas.

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Já eram sete da noite, e eu estava na Praça com o Jason ao meu lado.

- Você está linda. – Diz ele, passando a mão por sobre meus ombros.

- Obrigada. – Digo, totalmente derretida por dentro. Em minha mão seguro uma casquinha de sorvete de chocolate. – Bem... – Começo, tentando passar o aviso de papai para ele. – Meu pai quer que você vá almoçar lá em casa amanhã.

Espero uma reação estranha vinda da parte dele, mas ele me olha e me diz:

- Já estava na hora de ele me conhecer né? – Diz ele com uma voz brincalhona.

- Eu te amo muito. Mais do que já amei qualquer outro.

- Eu também.

Ele me abraça e beija meus lábios suavemente. O gosto de chocolate que está em minha boca se mistura com o gosto do sorvete de morango que está na dele. E os gostos combinam. Assim como nós.

- Eu acho que segunda todos já estarão sabendo de nós não? – Pergunta ele, ainda com o tom brincalhão.

- Er... Eu acho. – Dou uma gargalhada junto com ele. Mas mal sabia eu que logo ali atrás de uma daquelas árvores estava alguém escondido, tirando fotos de nós dois e compartilhando para todos os seus contatos.