Caça aos Unicórnios
1 Tem açucar no campo.
Notas iniciais
Bem, lá estávamos nós. Eu estava caída no meio do capim alto e Hugo pendurado de cabeça para baixo num Carvalho de tronco retorcido. Eu devia ter imaginado. Suspirei frustrada enquanto tirava o açúcar espalhado no meu rosto, e observei meu amigo se remexer, um pouco tonto, talvez, e fazer um sinal de que estava bem. Não era o que parecia, afinal, ele tinha uma expressão estranha no rosto. Levantei-me depressa e vi o campo girar, não tive tempo de me recompor, só de pular para o lado quando vi que Hugo estava caindo em minha direção.
Olhei para minhas roupas que ainda estavam cheias de pequenos cristais de açúcar e comecei a pensar se aquela tinha sido realmente uma boa ideia. Meu amigo Hugo ainda estava tentando se recompor, e resmungava alguma coisa sobre aluguel. Caminhei até ele e estendi a mão para ajudá-lo. Ele ainda estava meio tonto, e demorou para que seus olhos entrassem em órbita. Ele passou as mãos pelos cabelos escuros e mais açúcar ( em uma quantidade suficiente para açucarar pelo menos um cajuzinho) caiu em direção ao capim alto.
–Ah- ele começou, mas eu o cortei.
–A ideia não foi minha.
–Você concordou.- Hugo protestou.
Cruzei os braços e fechei a cara. Mas no final das contas, ele tinha razão. Eu tinha concordado e levado aquela história toda adiante. Uma boa parte da culpa era minha. Hugo talvez pudesse ficar com os outros 40 por cento, e para fechar a conta, os outros 20 ficariam com aquele unicórnio branco com cascos brilhantes. Agora teríamos que nos virar com o açúcar mascavo reserva que peguei na dispensa da minha mãe.
–Tá, tudo bem... eu concordei. Mas agora a questão não é essa. A questão é que não podemos voltar sem ter capturado pelo menos um!
Hugo ergueu os braços, como se estivesse se rendendo, depois começou a andar em círculos.
–Com toda a certeza, eu preferia ter alugado um.- Ele começou a dizer. Mas é claro que eu não iria encontrar nenhum lugar assim, mesmo que pesquisasse nos mais profundos e obscuros cantos da internet.
–Hugo, quem iria abrir uma loja para alugar unicórnios?
Acontecesse que unicórnios são difíceis. Duvida? Por trás de todo aquela imagem de criatura incrivelmente fofa e boazinha, existe um animal selvagem, arisco e potencialmente raivoso. E sobre essa raiva potencial, acredite, sei do que estou falando, principalmente, depois de quase ter sido pisoteada... Hugo teve menos sorte ainda. Tinha sido lançado pelo menos uns três metros para cima, ficando enroscado nos galhos do Carvalho gigante.
–Eu iria alugar unicórnios.
Apenas olhei para Hugo, sem dizer nada. Ele deu de ombros e começou a rir, enquanto começava a caminhar em direção aos nossos equipamentos. Seu rosto estava esfolado, mas ele não parecia se importar muito.
Eu estava preocupada agora. Tínhamos gastado quase um fardo de açúcar cristal, que por acaso, não tinha sido barato ( estamos passando por uns reajustes, aumento no ICMS... é, não está fácil pra ninguém, ok?), e tudo o que tinha sobrado era um pacote inteiro de açúcar mascavo, alguns biscoitos amanteigados para mim e Hugo, um pote com café moído, uma corda, uma barraca velha, e nossas mochilas com coisas pouco úteis, a não ser o mapa.
–Estamos ferrados.
–Estamos.- Hugo concordou, e depois enfiou as mãos nos bolsos da sua jaqueta, e com os pés começou a empurrar um montinho de açúcar.
Eu andei até minha mochila, e comecei a vasculhar as minhas coisas. Encontrei o mapa da terra secreta dos unicórnios, que por sorte, não tinha sido destruído pelo unicórnio raivoso. Sentei no chão e comecei a traçar uma nova rota, afinal ainda teríamos muito trabalho pela frente. Me concentrei em tudo o que eu sabia a respeito de unicórnios: são ariscos, velozes e fortes. Me lembrei também de toda aquela baboseira sobre eles serem as criaturas mais dóceis e puras que existem.
"Puras e dóceis? Então quem me explica aquela selvageria que acabou de acontecer?"
Tá, eles são "puros", mas não são tão dóceis assim. Talvez com a exceção de floco, o unicórnio de Téo. E devo dizer que Floco inspirou à mim e a Hugo e nos embrenharmos nessa missão. E Téo também, se devo mesmo acrescentá-lo na lista. Digamos que Téo, seja, ah... deixa pra lá. Eu ainda estou um pouco abalada com essa história.
Continuei a analisar o mapa, e finalmente, encontrei o que procurava. O rio estava há uns bons quilômetros de onde eu e Hugo estávamos, e teríamos que caminhar bastante.
A vida de pessoas como nós não é fácil. Nós sabemos que essas criaturas estão por aí, e somos sensíveis o bastante para percebê-las em meio ao caos que nós mesmos, os humanos, acabamos por criar. Isso tudo passou pela minha cabeça, e eu estava ficando a cada dia mais reflexiva sobre o assunto.
Olhei para Hugo que ainda tentava juntar o açúcar espalhado, e me lembrei do dia em que nós nos conhecemos. Foi um dia terrível, mas hoje em dia, a lembrança me fazia rir (Ok, rir do fato de que estávamos fugindo do mesmo Ghoul perturbado, faminto e perdido na cidade grande parece um pouco insano, e na verdade, é...). O que me deixava feliz nisso tudo, era saber que eu tinha encontrado alguém com quem partilhar esse tipo de coisa.
Eu voltei a revirar a mochila. Encontrei meu celular perdido no meio de outras coisas, que incluíam meu casaco cor de rosa, um revista qualquer e um jogo de esmaltes, o qual eu não faço ideia de como foi parar ali. Ignorei isso e puxei o celular.
Obviamente, ele era quase inútil, só servia como relógio, uma câmera fotográfica muito ruim e lanterna... não existe sinal na terra secreta dos unicórnios. Olhei para a imitação gráfica de um relógio na tela do celular. Já eram 11:16 da manhã, e eu estava ficando com fome. Hugo pareceu se cansar de sua atividade sem sentido de juntar o açúcar, então agarrou sua própria mochila e se largou ao meu lado, passando a tirar todas as suas coisas dali. Ele tinha trazido um pote de vidro vazio, um espelho para fazermos um arco-íris, caso precisássemos e maçãs. Hugo começou a comer uma delas, e de repente, se levantou estático. Eu olhei para cima, e antes que pudesse fazer o que quer que fosse, fui atingida pele maçã mordida por Hugo bem na cabeça. Eu ia reclamar, mas não pude.
–Joana...- Hugo disse um pouco aflito.
Só tive tempo de me levantar e jogar a mochila nas costas.
Fale com o autor