Caça aos Unicórnios

2 Jatos flamejantes e grama doce


Notas iniciais
É, eu voltei. E convido vocês para mais um capítulo e digo também que um comentário cairia bem.

Jatos flamejantes e grama doce

Hugo estava me deixando nervosa. Eu ainda tentava controlar a respiração enquanto que ele não parava de se mexer. Seu rosto estava contorcido em uma mistura de incredulidade e animação. Eu não acreditava que tudo podia ir de mal à pior em questão de segundos. Estávamos escondidos num arbusto espinhento e Hugo se esgueirava para sair dali enquanto eu sempre o impedia, puxando-o pelo colarinho. Ele soltou um muxoxo de pura irritação e eu respondi com um som agressivo que nem sei de onde surgiu. Ele fechou a cara e cruzou os braços. Afastei um galho cheio de espinhos tomando cuidado para não ser vista.

As escamas eram uma mistura de vermelho brilhante com cinza, e era bem maior do que eu imaginava. A fumaça saia pelo seu nariz, e aquilo fez com que o meu coçasse um pouco. Senti Hugo puxando meu corpo para trás e escalando por mim para poder ver. Eu estava tentando pensar no que fazer, quando Hugo puxou meu rosto com as duas mãos e me encarou como um maníaco. Eu fechei as expressões e esperei pelo pior. E esperar pelo pior de Hugo significa que ele terá alguma ideia estúpida seguida de um discurso motivador.

–A gente precisa ir até lá.

–Nem vem.- Eu disse me livrando de suas mãos pressionando minhas bochechas.-Eu não vou virar churrasco, e vou ser boa o suficiente para te livrar desse destino. Vamos sair de fininho desse emaranhado de espinhos e correr para o lado oposto.

–Acha mesmo que vamos correr?

–Acho... Quer dizer... vamos correr discretamente.

–Joana, é a nossa oportunidade.

–Alô!- Eu disse irritada.- Unicórnios, lembra? Nada de dragões.

Hugo ergueu uma das sobrancelhas, me encarou de um modo estranho. Eu soltei os ombros, deixando-os caídos. Ele ainda tinha aquela expressão esquisita, e parecia travar uma batalha interior e outra comigo. Eu abri a boca para citar uma lista de coisas que provavelmente o trariam de volta, mas antes que eu pudesse começar ele saiu correndo do arbusto. Eu senti meu estômago se contorcer de apavoramento e raiva, senti os galhos espinhentos batendo contra meu rosto e a vontade de matá-lo. O que eu realmente consegui fazer foi abraçar meus joelhos e fechar os olhos.

Eu não sei quanto tempo eu esperei. Segundos? Milésimos de segundo? Bom, eu abri os olhos e empurrei o arbusto. Minha visão estava um pouco turva, embaralhada. A primeira coisa que vi foi um borrão que logo depois identifiquei como os cabelos escuros de Hugo. Ele ainda estava inteiro. Ele estava um pouco encolhido, paralisado, mas em uma posição que se dividia entre defensiva/pronto para correr. Eu quis gritar com ele, desaforá-lo de todos os meios. Mas o que consegui fazer foi pegar a maçã mordida de Hugo e atirá-la contra ele.

Ok. Eu esqueci por um momento de que minha mira é péssima. Hugo me olhava espantado, sua boca estava aberta em sinal de incredulidade. Eu virei minha cabeça devagar, torcendo para que eu tivesse pelo menos um pouco de sorte. Bem, eu não tivera. A maçã passou à centímetros da cabeça de meu amigo, mas acertou em cheio o dragão. Quando encarei seus olhos extremamente amarelos e furiosos senti meu sangue se congelar. Olhei para onde Hugo estava momentos antes e não consegui mais vê-lo. Meu coração se acelerou tanto e eu conclui que nunca tinha sentido tanto medo em minha vida. Quer dizer, exceto pela vez em que eu fiquei pendurada de cabeça para baixo no telhado de um shopping. Bom, problemas com grifos.

Me inclinei para frente, tremendo. Vi Hugo correndo em direção ao dragão.

–Hugo, seu estúpido. — Murmurei quase sem voz.

Juntei o resto da minha coragem (ou loucura) e saí de trás do arbusto. Hugo estava correndo, o dragão estava rugindo e eu estava sentindo as pernas bambas. Escutei Hugo dar um berro determinado. Eu consegui sair do lugar e quando menos esperava vi meu amigo se esgueirando rapidamente por cima de um amontoado de pedregulhos.

–Não, não...- Eu queria que aquilo não estivesse acontecendo.

Hugo saltou nas costas do dragão.

Eu continuei correndo. E tudo o que eu via era uma confusão de escamas, braços, cabelos escuros, asas e gritos. Gritos meus, gritos de Hugo e rugidos de dragão. Eu senti vontade de matar Hugo. Mas talvez o dragão o matasse antes. E eu precisava impedir isso.

Meus pés doíam, meus olhos ardiam e eu sentia uma mistura terrível de sensações desagradáveis. Um jato quente passou bem perto de mim, me forçando a me jogar contra o chão e rolar desajeitadamente para o lado oposto. Tinha grama na minha boca e ela tinha um gosto açucarado. Amaldiçoei mentalmente o momento em que resolvi entrar nessa furada. Olhei para o alto e vi Hugo sorridente, ainda tentando se manter em cima do dragão. Eu tive vontade de socá-lo. De verdade dessa vez. Eu me levantei completamente tonta, e ouvi Hugo gritar alguma coisa. Tentei sair da frente do dragão mas escorreguei num monte de açúcar.

–Ah, que ótimo.- Eu resmunguei.

Senti uma sombra me cobrindo. Eu esperei ser esmagada por um dragão, mas nada aconteceu. Só escutei o bater de asas e Hugo.

Hugo estava rindo. Hugo estava rindo descontroladamente. Eu rolei de novo e fiquei encarando meu amigo. Eu suspirei e continuei deitada, torcendo pra que aquilo tudo fosse uma pegadinha. Não era. O dragão soltou uma nova rajada flamejante. Eu me levantei em um pulo, e tive vontade de esganar Hugo.

–Cara, você está de brincadeira?- Eu comecei a gritar com ele.

Ele riu mais. Lágrimas escorriam de seus olhos, e ele ainda tentava se manter estável em cima do dragão. Depois ele esticou o braço esquerdo para mim. Eu continuei olhando para cima, com a cara tão amarrada que chegava doer.

–Vamos logo Joana.

–Eu não.

–Anda.

–Não.

Hugo soltou ar pela boca, revirou os olhos e balançou o braço. O dragão ainda soltava fumaça pelo nariz.

–Você é maluco.

–Você também é. Mais do que eu, inclusive.

Bati meu pé direito com força. Cruzei os braços e desviei o olhar.

O dragão bateu as asas com muita força, me fazendo desequilibrar e quase cair novamente. Hugo se inclinou e agarrou meu braço com força.

–Ei!

Senti o chão ser tirado de meus pés. Dei um grito agudo e nada digno e me lancei contra o dragão, me agarrando aos ombros de Hugo, que ria novamente. Dei um soco com a força que consegui juntar nas suas costas, protegida com sua mochila, fazendo com que risse ainda mais. Eu fiquei irritada, mas não tinha mais como impedir que acabássemos em cima de um dragão. Já estávamos em cima de um dragão.

Eu alcancei minha mochila, tentando não cair. Abri ela e despejei o conteúdo dela na de Hugo que reclamou. Ergui uma das sobrancelhas e ele ficou quieto.

Meu estômago se contorceu, o vento estava gelado e rápido demais e arrancava lágrimas de meus olhos. Tudo se transformou em um borrão predominantemente verde.

–Desde quando você pilota dragões?- Eu disse alto para que meu amigo escutasse.

–Não sei, talvez esteja no meu sangue.

–Hugo...

–O que?

–Deixa pra lá.

Notas finais
Gente, é isso. Ia adorar conversar com vocês, não se sintam acanhados. :*