Caça aos Unicórnios

3 Círculos no bosque


Notas iniciais
Demorei, mas voltei. Olá fantasmas, sei que estão aí, tenho um sexto sentido e fico triste por saber que estão aí e nem me mandam oi. Hahahaha.

Círculos no Bosque

Eu estava tremendo. Tremendo muito. Eu não sei dizer se era de frio ou medo, talvez uma mistura dos dois. Minhas pernas estavam adormecidas e formigavam de um jeito incomodo, e meus braços doíam. Não era divertido. Eu tive vontade de gritar, mas eu simplesmente não consegui. Hugo tagarelava sobre absolutamente tudo e eu não dizia nada. Meu amigo estava agarrado às escamas escarlates do dragão e eu me segurava em sua mochila. E bem, sobre aquela história de que ele pilotava dragões? Balela. O dragão estava visivelmente fazendo o que bem queria e muito provavelmente não estava nenhum pouco feliz por ter dois humanos estúpidos em suas costas (pelo menos, se eu fosse um dragão, odiaria a ideia de carregar alguém nas costas). Eu segurei ainda mais firme na mochila que estava presa nas costas de Hugo, e me atrevi a olhar para baixo. Vi as árvores logo mais abaixo, e percebi que estávamos chegando ao limiar da clareira onde havíamos encontrado o dragão e o unicórnio, este último, o real motivo de termos entrado nessa furada.

Hugo ainda falava e eu ainda tremia. Eu não estava prestando muita atenção no que tanto ele dizia, estava apenas concentrada em tentar parar de tremer, porque percebi que aquilo não era nenhum pouco digno. O dragão fez um ruído terrível, e eu me encolhi. Acho que eu não me importava mais em o que era digno ou não.

– E aí fomos até a cozinha e pegamos os melhores doces. Foi bem legal, você devia ter ido.- Ele olhou por cima do ombro.- Mas na próxima vez podemos nos organizar melhor e você vai junto.

– Eu não quero ir a lugar nenhum com você, acho que nunca mais.- Consegui finalmente abrir a boca.

–Que isso Jo... Por quê? Pensei que... — Hugo começou a dizer, mas eu o cortei.

–Hugo. Estamos em cima de um dragão. E ele tem dentes e garras enormes, e eu já mencionei o fato de que ele cospe fogo?

– Quer dizer que não está se divertindo?

–Fala sério.

Meu amigo ficou com uma expressão afetada no rosto, depois voltou a tagarelar. E eu voltei a ignorá-lo. Estava quase tudo bem. Quase porque eu ainda tremia, e isso era péssimo. Mas claro que as coisas só tendiam a piorar, e foi o que aconteceu quando o dragão resolveu que devia subir mais, e sacolejar de um lado para o outro. Nessa hora Hugo parou de falar sobre como ele ficou preso dentro do armário de produtos de limpeza de uma loja esquisita graças a uma aposta que ele tinha feito com um Goblin (Ok, admito que nessa história eu estava interessada). Ele me olhou preocupado e eu fiz uma careta. Então antes que qualquer um de nós fizesse alguma coisa, o dragão voltou a descer. Descer muito. E como se não bastasse, começou a girar. E eu vi os galhos de árvore bem nítidos e bem mais perto.

Eu gostaria de dizer que nós ficamos presos ao dragão mesmo depois que ele girou. Eu também gostaria de dizer que Hugo realmente sabia como pilotar um dragão gigante de escamas vermelho e cinzas e que tudo iria ficar bem. Mas nós dois despencamos do alto e eu só tive tempo de gritar.

Ficamos enroscados nos galhos. Eu tinha me arranhado bastante, mas estava bem feliz por ter a queda amortecida pelas árvores e não ter quebrado nenhuma costela ou alguma coisa assim. Hugo estava com uma expressão de desgosto, mas aparentemente não tinha quebrado nada, talvez apenas seu sonho de ter um dragão para ele mesmo. Falando em dragão, antes que qualquer um fizesse alguma coisa além de tentar avaliar o que tinha acontecido e quais eram nossas chances depois disso tudo de capturar um unicórnio, o próprio passou por nós e desceu em algum lugar não muito longe com um estrondo.

Resolvi que precisávamos dar o fora. Meu amigo ainda estava sem esboçar reações preso um pouco mais acima de mim. Eu estiquei meu braço e apanhei minha mochila.

–É a segunda vez que eu fico enroscado em uma árvore hoje. — Hugo finalmente se pronunciou.

Eu me livrei do resto dos ganhos que ainda me prendiam e pulei para o chão. A terra era fofa, e eu cai perfeitamente em pé e numa posição que me fez sentir orgulho.

Olhei para o alto e vi Hugo tentando se livrar também.

–Vamos Hugo, seu molenga.

Meu amigo caiu ao meu lado, em pé também, e já estava novamente sorridente. Eu simplesmente não entendia como Hugo conseguia se divertir com praticamente tudo. Eu comecei a andar, e ele me acompanhou prontamente. Antes mesmo que eu esperasse eu vi as escamas vermelhas de novo, por entre os espaços livres do bosque. Hugo avançou e eu segurei seu braço com força. A criatura estava abrindo suas asas e eu imaginei o que ele iria fazer. Ele correu pelo espaço apertado do bosque, arrastando quase tudo o que estava próximo. Galhos, árvores inteiras, pedras, pedregulhos... meus olhos se encheram de poeira e minha visão ficou embaçada. Escutei o barulho alto do seu bater de asas e o vento que isso causava ficou ainda mais forte. Cai sentada no chão, esfregando meus olhos e tentando olhar para o alto.

O dragão acabara de levantar voo e passou a centímetros de nós. Meu coração batia descontrolado dentro de minha caixa torácica e minha garganta estava seca. Hugo estava em pé, paralisado, também fitando o grande buraco feito na altura das copas das árvores. Depois de algum tempo nos encaramos sem dizer uma única palavra.

Me levantei, e comecei a escutar sons estranhos dentro do bosque, e voltei a andar e desviar dos troncos caídos pelo chão e outros obstáculos. Hugo estava reclamando sobre ter perdido o “seu dragão” (vou confiscar todos os filmes e desenhos que ele anda assistindo), e eu estava sentindo fome. Estava também tentando me concentrar em sair o mais rápido possível daquele lugar. Tentei mapear o local mentalmente, mas eu era péssima com isso, então simplesmente continuei a andar, seguindo em frente e esperando estar certa. Hugo finalmente tinha parado de reclamar e agora apenas caminhava do meu lado e me encarava, esperando alguma coisa.

Analisei os troncos retorcidos ao nosso redor e tive uma sensação estranha de familiaridade. Eu já tinha visto aqueles troncos que se pareciam com dançarinos de lambada em poses bizarras. Olhei para o chão e vi pegadas. Perfeitas pegadas de coturnos. Escolhi uma com desenhos geométricos e suspirei. Levantei o pé direito e o pousei exatamente no formato que estava no chão. Encaixou, é claro. Fechei os olhos e desejei estar sentada no meu sofá macio assistindo algum programa de competição culinária.

Hugo colocou as mãos no meu ombro e me chacoalhou com força. Eu tive vontade de empurrá-lo, mas eu estava tão chocada pelo fato de estarmos andando em círculo por pelo menos uma hora que eu apenas deixei um muxoxo escapar. Minha barriga roncou alto, como se estive tão indignada pelo fato de estarmos realmente perdidos que resolveu lembrar-me de minha fome.

– E aí?-Ele disse.

–E aí o que?- Retruquei cruzando os braços, eu fico realmente mal-humorada e desmotivada quando estou com muita fome.

– E aí?- Hugo apenas repetiu.

–E aí, estamos perdidos e eu estou morrendo de fome.

Hugo fez uma expressão bem estranha, depois deu de ombros e ficou quieto. Odeio quando ele faz isso. Eu suspirei alto e caí sentada no chão. Meu amigo começou a andar em círculos e em volta de mim. Minha barriga voltou a roncar escandalosamente. Eu estava irritada e ficando tonta com as voltas de Hugo então ergui minha perna e o fiz tropeçar.

–Ei!

– Para de andar em volta de mim.

–Eu estou pensando.

–E precisa ficar girando pra isso?

– Preciso.

Eu deitei no chão e estiquei meus braços. Fiquei olhando para o alto. Não via nenhuma solução. Estávamos perdidos e tudo por causa de uma ideia idiota. Hugo continuava andando em volta de mim, agora em círculos mais largos. Eu fiz uma coisa que estava no fim da lista de coisas não dignas para se fazer quando você sai em uma caçada de unicórnios seguida por voo em dragão e tour pelo bosque... eu comecei a chorar. Não chorar de forma barulhenta, mas deixei as lágrimas de frustração escorrerem por meu rosto. Eu estava chorando de raiva, fome, vergonha e desapontamento.

–Jo.- Hugo parou de andar e ficou me encarando do alto.- Jo?

Eu escondi o rosto nas mãos.

–JOAAAANA?- Hugo berrou e depois sentou ao meu lado.

Ele revirou a mochila e tirou um pote com biscoitos amanteigados. Biscoitos amanteigados. Oh meu Deus. Me sentei novamente e dei um sorriso. Voltei a ouvir aqueles barulhos estranhos, mas eu não me importava, não enquanto ainda tivéssemos biscoitinhos amanteigados.

Notas finais
Acho que em mais um ou três capítulos terminamos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.