Cavaleiros do Zodíaco: Longínquo Passado
1 Capítulo Único - Quando tudo é Perdido.
Notas iniciais
Capítulo Único — Quando tudo é Perdido.
Personagens:
Cavaleiros de Prata: Zarko de Órion, Estos de Taça, Nassal de Altar, Githa de Triângulo, Algon de Cefeu e ShouCho de Grou.
Cavaleiros de Bronze: Han de Leonete, Ysma de Dragão, Julien de Pegaso, Bran de Cisne, Bianca de Andrômeda e Atlos de Fênix, Shozan de Cavalo Menor, Nerem de Lobo, Diur de Camaleão e Elza de Lince.
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Tudo começa com um dia comum no Santuário, o sol brilha em um céu limpo de nuvens, onde a brisa constante, que sacode cada ramo de cada árvore por onde passa, não é capaz de apaziguar o calor do verão no mediterrâneo. Os afazeres dos cavaleiros estão ocupando suas mentes, sejam na patrulha, com o estudo na biblioteca ou nos treinamentos, que muitas vezes ocorriam em grupo no coliseu, algumas vezes com instrução dos mais experientes, e outros aprendendo com os próprios erros.
Estos, o cavaleiro de Taça se encontra ocupado lendo todos os manuscritos que encontrou, precisava aumentar seus conhecimentos em medicina, tanto ocidental quanto oriental. Nasceu com o dom da cura e para ser exemplar no que fazia não podia poupar esforços para se tornar ainda melhor. Já estava há pelo menos cinco horas seguidas enfurnado dentro da biblioteca com cópias antigas, muitas das quais não havia mais original dada a ação humana. Ele é o primeiro a sentir um calafrio, a sensação ruim que percorre sua espinha, quando um sussurro interfere na chama de suas velas. “Que estranho. Aqui não deveria haver ninguém.” comentou em voz alta a estranha sensação que o assustou. Na sua cabeça pensamentos ruins apareceram, como se algo o inspirasse a temer o futuro.
Zarko, famoso cavaleiro de Órion, o mais justo entre os justos, treina junto de um grupo de companheiros, outros cavaleiros de prata e bronze, ele lidera as atividades do dia e aplica uma rígida e peculiar rotina de treinamentos. Sua disciplina é invejável, aprendida e incrementada através dos anos de prática com seu mestre, o sagrado cavaleiro de ouro representante da 9º morada; Sagitário. O treinamento físico não era o problema, apesar dos mais preguiçosos sofrerem dobrado em suas mãos, o problema era o trabalho “de resistência mental” que ele aplicava, horas em uma única posição, normalmente incômoda, com sua aura de cosmo energia bem visível, ninguém poderia esmaecer, seus cosmos deveriam queimar ao máximo. E claro que ele também participava, estava à frente de todos, para inspirá-los, assim como seu mestre, Sagitário, sempre fazia com ele.
O sussurro aterrorizante corta a todos naquele local, mesmo os que não faziam parte do grupo encabeçado por Zarko sentiram. Alguns perderam a concentração chegando até a cair, outros olharam para o céu a tempo de verem os pássaros voando amedrontados para bem longe daquelas terras. É possível que em todo o santuário aquele grito calado, que arrepiaria quem o sentisse, tivesse ecoado, um mau agouro de grandes proporções.
Apesar disso o dia segue sem maiores acontecimentos, apenas o murmurinho entre aqueles que sentiram tal distúrbio incomum. O sol já havia se posto e a maioria dos cavaleiros, e os demais guerreiros do santuário, se recolhiam em seus dormitórios, fossem nas vilas que cercavam o santuário ou mesmo naqueles prédios antigos próximos as áreas de treinamento que muitos usavam como local de descanso quando não queriam perder tempo.
O dia seguinte estava estranho, apesar do nascer do sol despertar a maioria, o sol parecia mais fraco, e nuvens pesadas ocupavam a visão até o horizonte. Aquela manhã tinha um aspecto choroso, melancólico, como se aguardasse algo acontecer.
Estava acontecendo.
Um jovem aprendiz cruza com três cavaleiros de bronze; Han de Leonete, Ysma de Dragão e Shozan de Cavalo Menor, ele parece perturbado. O trio que ia para as ruínas de um grande palácio, um local de treinamento bem conhecido, interrompe o aprendiz que caminhava de uma forma bem desengonçada. “Ei garoto, o que houve?” perguntou Ysma, a amazona de Dragão. Eles se aproximam mais e percebem que o menino está ferido, na verdade, dada a gravidade da situação, ele parece estar mais morto do que vivo. “Por Athena!” exclama Shozan, e corre para acudir o jovem, que no mesmo instante desaba em seus braços. Sua roupa estava manchada de vermelho, seu ventre aberto, além de vários cortes com diferentes profundidas por todo o seu corpo. Os olhos pareciam distantes, ele estava prestes a dar seu último suspiro de vida, e é nesse momento que os três ouvem um som de uma grande explosão, não muito distante dali, vindo do local para onde estavam indo.
“O que é isso?” pergunta Ysma um pouco assustada, o cavaleiro de cavalo menor não responde, ele segurava a mão do jovem aprendiz para que pudesse morrer em paz, resistindo até bem além de suas forças se esgotarem. Han, por sua vez, não pensa duas vezes e com um de seus braços para cima invoca a sagrada armadura de Leonete, que atende seu chamado e cobre seu corpo, “Eu não sei o que houve, mas sinto um cosmo opressor lá. Não vou permitir que outros sofram o mesmo que esse garoto”, e antes mesmo de terminar de falar estava correndo na direção do calamitoso evento.
“Vamos com ele, Ysma.” falou o cavaleiro de cavalo menor, “Este menino já se foi, mas pode haver outros como ele lá.”. A jovem amazona confirma o que Shozan fala, e suas armaduras tomam seus corpos no instante seguinte.
Leonete, Dragão e Cavalo Menor estão indo de encontro ao desconhecido que burlou todas as barreiras e atacou diretamente dentro do santuário.
Minutos antes, nos arredores do antigo palácio, alguns cavaleiros já se encontravam treinando. Havia pelo menos dois cavaleiros de prata, um deles, ShouCho de Grou, parecia estar incomodado com a sensação de perigo que o acometia furiosamente. Logo ao lado do palácio há um rochedo, que muitos aprendizes usam para observar os cavaleiros que treinam por ali, inclusive há construções para acomodá-los. Perguntado sobre o que tirava sua concentração ele não sabe o que dizer, pois parecia que apenas ele sentia aquilo, logo era uma confusão estranha que o próprio estava fazendo, então preferiu dizer que não era nada, apenas sua imaginação.
Errado. Sua intuição tentava adverti-lo de que algo terrível estava para acontecer, mas ele não ouviu.
As atividades são interrompidas quando algo cai do rochedo. Todos se manifestam curiosos com aquilo, afinal nada deveria “cair” dessa forma sem que fosse devidamente atingida por alguém. Infelizmente, rapidamente constatam que o que caiu não era uma coisa, na verdade se tratava de um corpo, um dos aprendizes estava inerte, morto. Seu corpo continha uma marca, algo havia perfurado seu corpo e o matado antes mesmo dele cair.
Um assassino.
Mas quem ousaria se aventurar no santuário e matar seus guerreiros? Eles não sabiam que ali era o lar do exército mais poderoso da Terra? Na presença de cavaleiros ainda por cima! Exatamente um deles, trajando sua armadura, salta para cima do penhasco para se opor ao vil inimigo.
Contudo...
“Não pode ser, porqu...”. Um clarão em todo o céu interrompe o brado de surpresa do santo de Athena. Seu corpo é arremessado do penhasco, enquanto sua armadura arruinada e grande quantidade de seu sangue se espalham por todos os lados.
Armaduras são invocadas, o segundo cavaleiro de prata, trajando sua sagrada armadura toma a frente dos demais. Enquanto isso ShouCho ajuda os aprendizes e soldados a recuarem, aquele lugar não era seguro para eles e não era um momento bom para ninguém tentar provar o seu valor. Eram nove cavaleiros de bronze de pé, além dos dois cavaleiros de prata, que confiantes se prepararam para o ataque sem se preocupar com a reação que seu companheiro teve antes de ser morto, ou mesmo não se importaram com tamanha a facilidade com que ele foi derrotado.
Alguns já estavam em pleno ar com seus ataques preparados quando o assassino se revelou; por detrás de um manto branco característico uma armadura reluzente se mostrou. E o espanto em seus rostos teve apenas um segundo de duração, pois a atitude do portador da armadura dourada fez o terror eclodir de cada um deles. O chão onde os demais cavaleiros estavam, assim como onde o palácio se encontrava explode, com um simples movimento de mão do assassino. Tudo vai pelos ares: o solo, as árvores, as pilastras e os valentes cavaleiros que tentam se defender da demonstração bruta de poder.
O cavaleiro de Grou escapou do ataque por estar além de seu raio de destruição, fazendo dele um espectador ilustre do que é o poder de um cavaleiro de ouro. No entanto ele apenas se prendia em uma única indagação: “por quê?”. Não era capaz de compreender por que um dos santos cavaleiros de ouro faria aquilo, justo eles, os maiores defensores da justiça e da paz na terra.
Enquanto os escombros caíam e a poeira se espalhava os sobreviventes se agrupavam em um ponto já dentro do bosque que cercava o palácio. Feridos, mas ainda aptos a lutar apenas dois cavaleiros de bronze, e o outro cavaleiro de prata. Mas junto a eles outros três cavaleiros de bronze se encontravam fora de batalha, com seus corpos cortados, seu sangue manchando a terra e suas armaduras em pedaços. O que eles fariam? O cavaleiro de Grou parecia dominado pelo temor e não se movia, lá, do outro lado do bosque.
Enquanto o grupo de feridos busca uma solução para aquela situação nunca antes imaginada, o trio de cavaleiros de bronze os encontra, ao mesmo tempo em que gargalhadas são ouvidas junto aos escombros. A poeira impede qualquer visão do que se passa lá, mas a figura dourada não pensa em esconder sua presença de ninguém. Na verdade, os que vislumbraram a face do assassino, em seu âmago, já sabem qual será o seu destino, é uma questão de tempo até que tudo acabe.
“Venham aqui crianças... quero mostrar algo a vocês, vocês vão gostar!” Vociferou o homem de armadura dourada, com seu tom assustadoramente penetrante nas mentes dos cavaleiros a sua volta.
O cavaleiro de prata movido por seu instinto se ergue, ele atrasará o inimigo para que os feridos possam ser levados para a segurança — seja lá onde ela se encontre agora que um cavaleiro de ouro se rebelou contra o santuário e está eliminando todos que encontra pela frente.
Sua armadura está danificada, e seu sangue escorre por ferimentos, mas ele não presta atenção em sua dor, não, ele só se preocupa em elevar o seu cosmo ao máximo, sua determinação é aquecida e a imagem da sua constelação se ergue acima dele. O trio de bronze recém-chegado vê a cena de longe e logo entendem a situação apesar de não saberem contra o que seus companheiros estão lutando, por isso seguem o grupo que recuava, irão escoltá-los para a fonte de Athena, um lugar seguro, onde os feridos poderão ser ajudados por Estos, o santo cavaleiro da constelação de Taça.
O sacrifício do cavaleiro de prata não foi em vão. Eles conseguem escapar, mas a morte do cavaleiro é horrível. Porém, apesar de ter seu corpo transpassado pelo punho do cavaleiro de ouro, ele não solta um único grito. Seu cosmo se apaga, mas ele morreu como um verdadeiro cavaleiro: lutando pela justiça.
Ainda parado no mesmo lugar o cavaleiro de Grou tem seu transe quebrado pelo som de passos pesados bem próximos a ele. Sua atenção é tomada quando seus olhos encaram aquele que acabou de matar seus companheiros, aquele homem que um dia ele, entre muitos, admirou. Era o santo de Leão, Gizan, também conhecido pela alcunha de “O Poder”. E toda aquela cena de destruição, quase gratuita, fazia muito bem jus a essa apelido, um ser capaz de destruir tudo em seu caminho com um simples movimento — mas afinal, não era esse o mito sobre os cavaleiros? Que partem o chão com seus chutes e destroem montanhas com seus socos?
“Eu não vou me render, minha vida não será tirada tão fácil” disse o cavaleiro de prata que o encarava com firmeza, seu cosmo crescia e o cobria por inteiro, assim como seu companheiro abatido, ele lutaria.
“Isso, luta, adoro quando minhas presas lutam...” foi a resposta dada pelo Leão Dourado, que tinha em seu semblante uma expressão estranha, seus olhos estavam tomados pela loucura, pelo ódio, por algo maligno. Ficou óbvio que ele era dominado por algo, mas não era nisso que Shoucho deveria se preocupar no momento, ele estava para enfrentar um cavaleiro de ouro, uma máquina de matar que só poderia ser controlada pelo amor de Athena, por sua justiça, e não parecia haver nada daquilo ali para auxiliá-lo.
O punho de Gizan se ergueu, ele atacaria como fez com o outro cavaleiro de prata, apunhalaria sua vítima com seu punho tomado por seu cosmo opressor. Seus olhos diziam para ShouCho aceitar a morte e não lutar, mas ele não atenderia o pedido daquele que até há poucos momentos atrás era considerado como um irmão mais velho. Seu cosmo se inflamou o impelindo para uma esquiva perfeita, o braço do cavaleiro de ouro passou rente a seu corpo, mas não foi capaz de acertá-lo. Aquilo tirou um sorriso estarrecedor de Gizan, que agora olhava para o santo prateado não lhe pedindo que deixasse ser morto, mas que lutasse, que desse tudo de si. E é exatamente o que o jovem cavaleiro faz, aproveitando a posição de vantagem que se encontrava ele concentra sua cosmo energia em seu punho e ataca o Leão Dourado com uma de suas técnicas: Plumas Prateadas, que envia uma rajada de cosmo na forma de plumas e que rasgam o inimigo, além de jogá-lo para longe.
Alguns passos para trás o cavaleiro de ouro empurrado se enfurece. Como um mero cavaleiro de prata ousa atingir seu corpo sagrado? Seu cosmo se infla e seu grito estremece as redondezas como um prelúdio de sua técnica mais mortífera.
“Punho de Ferro!”
A maciça onda de energia elimina tudo a sua frente em um cone de destruição que estende por quase 20 metros. Se a proporção do primeiro ataque já era assustadora, ouvir o som produzido por essa segunda demonstração do poder de Gizan é suficiente para qualquer um cair de joelhos.
O jovem ShouCho não foi vencido, não, ele escapou a tempo, por esperteza, usou-se do pó levantado por seu próprio ataque para enganar o cavaleiro de ouro possuído. O ataque passou longe dele, que se esgueirava por dentro do bosque, também se aproveitando do clarão capaz de tornar noite em dia.
Estendido no chão, com seu cosmo completamente apagado ele respirava fundo. Não era dos mais corajosos entre os seus irmãos de armas, mas sem dúvida, depois do que acabara de fazer, poderia se considerar o homem mais valente de todo o mundo. Ou talvez apenas um louco varrido. Mas isso não importava, pois ele estava vivo e aparentemente seguro.
Em outro canto do santuário, próximo a uma acomodação usada pelos cavaleiros e aprendizes, algo parecido estava se desenrolando. Um cavaleiro de ouro se encontra caçando os demais, e enquanto avança, deixa um rastro de destruição por onde passa.
Jazem no chão pelo menos dez corpos, nenhum trajava armadura, pegos de surpresa, tiveram sua carne e ossos partidos em um piscar de olhos.
“Não importa que você seja um cavaleiro de Ouro, nós não vamos deixar que você mate mais ninguém. Athena nos perdoará por esse pecado, mas devemos puni-lo com a morte” foram as palavras de Nassal, o santo cavaleiro de Altar, um homem reconhecido por seu poder e capacidade de luta. Junto dele havia outros dois cavaleiros de prata: Githa, a amazona de prata de Triângulo e Algon, o cavaleiro de prata de Cefeu. Os três estavam prontos para a luta mortal, mas ainda duvidavam se a vitória seria possível, pois o oponente deles era ninguém menos que Hamza, o Cavaleiro de Ouro de Libra, conhecido como O senhor da Guerra, aquele que melhor luta dentre os doze cavaleiros de ouro.
Sua expressão revela a certeza da vitória, o sorriso presunçoso e o olhar confiante drenam toda a convicção que os três cavaleiros de prata lutam para manter. Se aquela batalha psicológica fosse vencida, os três seriam derrotados antes mesmo de terem seus corpos partidos pelo cavaleiro de ouro.
Onde estaria Athena nesse momento? O que estava acontecendo no santuário? Todos os cavaleiros de ouro estavam possuídos por espíritos malignos?
Próximo ao relógio de fogo Zarco corria na direção da Fonte de Athena, pois sabia que se eram os cavaleiros de ouro os inimigos, aquele local protegido pelo sigilo estava ameaçado. Em seu encalço três sombras, seus amigos e irmãos de armas, Julian o santo cavaleiro de Pégaso, Bran, o santo cavaleiro de Cisne e Elza, a santa amazona de Lince. Os quatro já sabiam o que estava acontecendo, ou pelo menos sabiam que alguns cavaleiros de ouro estavam enlouquecidos e atacavam qualquer um que cruzasse seu caminho. Eles só tinham que ser cautelosos e não encontrar nenhum deles, isso julgando que todos estivessem dominados por sabe-se lá o que.
Contudo um cosmo conhecido é sentido pelo grupo. Fraco e inconstante ele parece lutar contra algo ou alguém. A julgar por sua posição, parecia que estava indo na direção da Fonte de Athena quando não pôde mais continuar seu caminho. Acima de todos ali, Zarco, sabe muito bem de quem se trata e por isso parte para lá sem pensar duas vezes. Está determinado a encontrar aquela pessoa e, se preciso matá-la.
Eis que caído em uma encosta murada encontra-se o santo cavaleiro de Peixes: Mikel, o mestre de Zarco.
“Mikel, você está bem?” perguntou o discípulo em um misto de preocupação e receio. Mas a resposta foi animadora; “Não, mas poderia estar pior”, a voz de Peixes acalentou os ouvidos, exatamente como sempre fazia.
“Antes que pergunte, não sei o que está havendo. Tudo o que posso falar é que Athena está segura, ela está com Assur e Hector em seu palácio” complementou se apoiando na mão de Zarco para se levantar.
“Acho que Yonee não foi dominado também, caso contrário esse vento estaria gelado... Mas não sei dos outros. Aliás, eu mesmo quase me tornei um deles”; contou com um tom de voz preocupado. Um cavaleiro de ouro compreende o mundo de forma diferente dos demais mortais, seu poder é comparável ao dos deuses e por isso tem uma visão um pouco próxima a deles. “Estos pode ter a cura para isso, antes que seja tarde e precisemos tomar uma atitude” terminou.
Os cavaleiros de bronze apenas escutam o curto monólogo, eles não falariam perante o famoso calígrafo do santuário, principalmente por não terem total certeza se ele era confiável.
“Estávamos indo para lá, vamos junto… mestre, o que houve?! Você está sangrando!” Zarco aponta para o flanco esquerdo de Peixes, mesmo a armadura não foi capaz de esconder dos danos do embate anterior.
“Rashnne... ele foi dominado enquanto escoltávamos Athena para o palácio. Lutamos por alguns instantes, mas consegui afastá-lo de Ysra.”. Nota-se com facilidade que não era algo que ele aceitava. Lutar contra uma irmão de armas era duro para todos os cavaleiros, ainda mais para um dos doze dourados que estreitavam seus laços dada a solidão de suas moradas.
Agora que se deslocavam para a Fonte, puderam perceber outros pequenos grupos indo para o mesmo local. Os cavaleiros de prata tinham conhecimento do local, mas apenas alguns poucos cavaleiros de bronze tinham ideia desse lugar. Dois cosmos enormes se cruzam seguidos por um clarão ofuscante, como o produzido pela técnica de Gizan, nos bosques que cercavam o palácio antigo. Todos lá percebem, mas Mikel entende melhor a situação, ele sabe quem está lutando e o que aquilo significa.
Os cosmos são imensos, maiores que o que Gizan e Hamza haviam demonstrado até agora, seus oponentes com certeza poderiam notar isso.
Mikel pede ao grupo que pare, ele precisa se concentrar para ver o que está acontecendo. Fechando seus olhos e focando todo seu cosmo no local do embate ele pode quase ver toda a situação que se desenrola. Cinco santos de ouro, Hector luta contra Umay em uma guerra de mil dias na escadaria que liga o salão do grande mestre até o palácio de Athena. A face de Mikel estremece quando ele analisa o resto da cena, dois outros cavaleiros de ouro estão além, encarando Athena e seu último defensor, Assur, são Hezequiel e Ózio, aparentemente dominados pelos espíritos malignos.
“Zarco, eu não posso ficar aqui, preciso volt…” Ao se virar para frente, ele percebe que há um homem vestindo uma armadura dourada bem a frente do grupo. Seu discípulo e os cavaleiros de bronze o encaram com temor, pois sua cosmo energia é tão agressiva e cruel que as nuvens no céu parecem escurecer com sua presença.
“Você achou que ia fugir de mim Mikel?” Falou com um sorriso perturbador no rosto, Rashnne de Escorpião. Ele sempre teve um olhar penetrante, e o tom naturalmente macabro que possui está potencializado agora.
“Mestre Rashnne, eu serei seu oponente, portanto prepare-se!” Impôs o cavaleiro de Órion. Sem avisos ou concordância o escorpião maligno avança sobre o grupo. Mikel, por sua vez, chuta um dos cavaleiros de bronze para um lado enquanto agarra os outros dois, os levando para fora do raio de ação do ataque.
A confiança entre mestre e discípulo é profunda. Afinal de contas o Santo mais justo sempre recebeu um presente de Athena, um poder capaz de partir a maldade e expulsá-la deste mundo.
Zarco anuncia sua técnica, o presente que Athena lhe deu quando ele conquistou sua armadura, capaz de partir a mais profunda escuridão.
“Excalibur!”
A caixa sombria o cobre, enquanto a técnica mortal de Rashnne avança contra o cavaleiro de prata, enquanto sua espada sagrada rasga o espaço trazendo a luz para ele.
Prata contra Ouro, uma disputa desigual que a justiça deve equilibrar.
Os golpes se chocam e contra todas as probabilidades, a espada sagrada parte as sombras, portal a portal, obrigando o cavaleiro de ouro a recuar. Uma vitória.
O cavaleiro de prata encara seu adversário sério, porém sereno. Seu cosmo está totalmente inflamado, ele esta em seu ápice de poder.
Enquanto isso, alguns metros dali o cavaleiro de ouro de Peixes desenha uma figura peculiar no ar; “Muralha” ele diz, enquanto a figura toma proporções gigantes e cerca Rashnne, o cavaleiro tomado pelo mal.
“Vamos sair daqui Zarco, Muralha não vai durar muito com o Rashnne desse jeito!” bradou o 12º cavaleiro de ouro. O discípulo consentiu com a cabeça e correu na direção do destino original, junto de seu mestre e os cavaleiros de bronze que não entendiam o que acabaram de ver: um cavaleiro de prata vencendo um duelo contra um cavaleiro de ouro; a sagrada e mítica espada Excalibur, ou um desenho que burlou qualquer ação de um santo de ouro.
Enquanto correm algo peculiar acontece; um cosmo tão grande surge no horizonte vindo das doze casas, quando três cavaleiros envolvem-se em um combate de vida ou morte. Não há tempo para prestar atenção no combate alheio, mas o próprio Mikel demonstra incredulidade ao sentir tal presença dada a sua magnitude, dada a sua não divindade.
A fonte de Athena estava ocupada por dezenas de feridos, e um Estos super atarefado, que corria de necessitado a necessitado, oferecendo seu conhecimento como ajuda. Han, Ysma e Shozan estão lá, assim como Shoucho, que monta guarda na entrada.
Um grito, estridente, rompe o sentimento de reencontro dos companheiros. Um corpo percorre o ar em alta velocidade e se choca com um pilar que sustenta um pesado arco de mármore antigo. É Nassal, o cavaleiro de Altar, que bate friamente no solo, após lascar a grande pilastra apenas com a força do arremesso.
“Mal... maldito” esbraveja sem muita força o cavaleiro de prata. Estos, de dentro da construção que cerca a Fonte, percebe o que está acontecendo e começa a mover os feridos para um lugar mais seguro no interior da montanha.
Dois vultos saltam na direção de Nassal colocando-se entre o cavaleiro ferido e o assassino que percorre o caminho calmamente. Githa tem boa parte de sua armadura arrasada, mas seu corpo resiste bem aos ferimentos, porém Algon, o cavaleiro de Cefeu não teve a mesma sorte, seu braço esquerdo foi arrancado, mas mesmo assim ele não desistiu e insiste em ajudar seu companheiro.
“Muito bem cavaleiros de Prata, vocês me trouxeram para um lugar ótimo, muito obrigado!” Falou Hamza que já não usava seu elmo dourado. Sua perturbada face reage ao fitar Mikel, ele em meio a sua possessão jamais imaginaria que encontraria um cavaleiro de ouro que não estava dominado ali.
Algo se choca contra o chão a alguns metros dali chamando a atenção de todos. Ao perceber de quem se tratava Zarco toma a frente dos três cavaleiros de bronze que o acompanhavam. Rashnne espuma de raiva.
Mikel vs. Hamza.
Zarco vs. Rashnne.
Duas lutas que não podiam ser mais impedidas. Os demais cavaleiros parecem não saber bem o que fazer. Lutando contra o medo, ShouCho se posiciona ao lado de Zarco. Os cavaleiros de bronze ali presentes estão para tomar a mesma atitude quando o rugido do leão é ouvido, Gizan estava chegando.
“Destino desgraçado... achei que tivesse me livrado dele. Zarco, não posso salvar sua bunda desta vez, mas espero que alguém possa salvar a minha. Deixe essa batalha para você, pois a minha acaba de ser anunciada” comenta com um curioso humor o cavaleiro de Grou indo na direção do Leão dourado. Talvez essa fosse a forma de se despedir de seu companheiro, talvez não. Mas sacrifícios precisavam ser feitos, e ele não fugiria deste destino se fosse para o bem maior. Caminhou sozinho, isento de medo ou culpa preparado para a morte, mas pronto para queimar seu cosmo até que ele atingisse o máximo.
Os seis cavaleiros de bronze encaram a situação, seus corpos tremem e o medo transborda em seus corações. Um trio vai ao auxílio de ShouCho, enquanto o segundo se reúne com Zarco. O medo que sentem é a ferramenta que os impulsiona para frente, pois ele mostra aos jovens cavaleiros de bronze o que há de se perder.
Hamza e Mikel se encontram em meio a feixes de luz, seus golpes fazem a terra tremer. As lanças de luz do cavaleiro de Libra são aparadas pela muralha de Mikel, que revida com suas técnicas incomuns.
Crateras são abertas quando os golpes de poder absoluto de Gizan tocam o chão, a coragem dos cavaleiros da justiça os dá forças, mesmo que eles possam apenas tentar se defender.
O conjunto de habilidades que Rashnne desenvolveu foi feito para matar indiscriminadamente, como um escorpião deveria ser, e logo uma vítima é feita. Julien de Pégaso é partido ao meio pelo golpe do escorpião de ouro que se delicia com a morte do cavaleiro. A Excalibur irrompe partindo o chão em sua direção, contudo, enquanto os outros dois cavaleiros buscam impedi-lo de se mover. Bran agarra-se a uma das pernas do oponente muitas vezes mais poderoso enquanto Elza faz com que o ar gelado solidifique a outra perna do cavaleiro no solo. O golpe é certeiro, a espada sagrada atinge Rashnne, que tenta se proteger com um de seus braços, que tem sua armadura partida, assim como sua ombreira. O golpe não causou dano ao cavaleiro possuído, mas sua armadura e ego foram severamente atingidos. Ruim para Bran, que sente a descarga de ódio do homem, recebendo uma sequência de cinco golpes que o fazem parar a metros dali, encravado em uma parede.
A situação não é boa, nada dá certo. E o pesadelo piorava a cada segundo.
Enquanto o cisne de bronze é derrotado e lançado contra uma parede feito um reles boneco de pano, o grupo que entretém o cavaleiro de Leão lentamente vai perdendo suas forças. Movido por um instinto assassino Gizan brinca com suas presas, maltratando um por um, até que se canse de sua diversão. Han, o impetuoso Leonete, é o primeiro a sentir na pele o tédio surgir no âmago do invencível adversário: ele é atingido repetidas vezes ainda no ar, logo após ser chutado para cima; os poderosos socos do Leão Dourado são mais que suficientes para estilhaçar sua armadura, esmagando seus ossos e tudo aquilo que eles protegem. Em um único segundo, dezenas de golpes o atingiram e colocaram fim a carreira promissora de um jovem cavaleiro, suas metas e sonhos perdidos em um dia que nunca deveria ter amanhecido. Shozan gritou por seu amigo, enquanto Ysma caía de joelhos entregando-se a situação desesperadora. O cavaleiro de prata estava se levantando do último ataque que o arremessou para bem longe, entre as árvores de um bosque próximo.
O duelo entre os santos cavaleiros de Libra e Peixes se desenrola longe dali. Mikel sabe que não é capaz de vencer em uma luta franca, dada a diferença entre habilidades de combate corpo a corpo que há entre os dois, mas não pode deixar que ele fira mais ninguém, por isso não pode apenas ludibriá-lo e fugir.
O que mais poderia dar errado? Os cavaleiros de prata e bronze caíam um após o outro, e Estos já não podia mais conter os feridos que queriam sair do esconderijo para ajudar seus irmãos. A situação estava caótica, por todo o santuário combates podiam ser notados, caso alguém tivesse tempo para procurar os sinais.
Não tão distante da fonte, os cavaleiros de ouros mantêm a batalha em alto nível, apesar de que agora estavam medindo forças, seus cosmos se entrelaçavam, vaporizando pouco a pouco tudo o que havia em volta, consumindo suas vidas segundo após segundo.
O equilíbrio era notável, seus cosmos brilhavam como pequenos sóis, um a frente do outro. Porém, talvez houvesse até a vantagem para algum lado, mas ela é destruída, quando um grito profundo, gutural, um urro final de vida, a exclamação de seu último ataque, invadisse os ouvidos de Mikel.
O brado da Excalibur retumbou em seus ouvidos; uma explosão final de cosmo energia, a despedida, seu ataque que levava sua vida embora. Mikel não podia vê-lo, mas seu coração sentia; seu pupilo, Zarco, o cavaleiro de Órion acabava de morrer pelas mãos de Rashnne, o cavaleiro de Escorpião.
O que aconteceu foi que pouco a pouco, cada aliado do discípulo do cavaleiro de Peixes era ferido, rasgado e encaminhando para Caronte, até que apenas ele sobrasse; ferido, cansado, e com a esperança em seu coração quase totalmente devastada, se apegando apenas a aquele último golpe; um final impossível que ele deseja mudar, um milagre que precederia outros.
O feixe de luz rasgou a terra, o ar, as rochas, as nuvens no céu, que se afastaram enquanto o dia virou noite por um instante. Antes prateada, a espada que corta tudo, nessa última demonstração de poder, tornava-se dourada, como a de um cavaleiro de ouro seria.
Fora um momento muito bonito, mas totalmente em vão; o cavaleiro de ouro apesar de atingido, e foi um golpe certeiro, já que Rashnne transpassou seu braço em seu ventre, não teve o resultado esperado. O cavaleiro de ouro resiste, sua armadura é partida, assim como sua carne, porém seu cosmo, de dourado profundo e assustador, o impediu de ser morto, mas não o impediu de ser lançado a dezenas de metros, longe o suficiente para que, naquele estado, não pudesse voltar ao combate novamente.
Os cavaleiros que estavam com Estos saem pelo portal que dava acesso a Fonte de Atena, bandagens ainda estavam amarradas em seus corpos, logo atrás deles o próprio cavaleiro de Taça, os acompanha, temeroso, principalmente pela estranheza da não existência de cosmos próximos, sumindo subitamente após o último suspiro do Órion prateado.
Saindo de trás de uma estrutura em ruínas, com um semblante de satisfação o cavaleiro de Leão fala com os feridos: “Achei que vocês não fossem sair... sabem, seus amigos já não estão mais conosco há algum tempo...”. A frieza de suas palavras, o teor, fizeram muitos dos cavaleiros gelarem por completo; o terror que todas as demais vítimas de Gizan sentiram antes de terem suas vidas ceifadas momentos antes.
Tantas vítimas, tanta destruição, o que estava acontecendo ali, era real mesmo? Os que ainda respiravam não eram capazes de entender, aqueles que morreram talvez tivessem suas respostas. Entre os dois, havia Mikel, que abalado pela morte de seu pupilo deixou sua concentração falhar e, quando isso aconteceu, seu oponente, o cavaleiro de Libra o golpeou. Um soco, apenas um único soco fez com que o peixes dourado se arrependesse de estar lidando com o melhor guerreiro entre as fileiras de Atena. O golpe o fez perder os sentidos, cair de joelho sem ter mais forças para se mover, Hamza era mortal em sua forma de agir.
O golpe de misericórdia era preparado. Um segundo, nada mais, era do que ele precisava para dar fim a esperança de todos aqueles que se encontravam na Fonte. Não foi uma atitude proposital, muito menos pensada, na verdade, o que se sucedeu era apenas o instinto de sobrevivência de alguém que está prestes a ser morto. Chama-se “Infligir” e é a técnica mais poderosa que seu mestre havia o ensinado, ela consistia na totalidade de todas as demais, um golpe sem erro, sem misericórdia que era capaz de derrubar qualquer inimigo, ou aliado, até então. O feixe de luz dourado tocou o corpo de Hamza, juntamente com o punho de Mikel, no piscar de olhos seguintes, o corpo de libra cai. A vitória era amarga, dolorosa, mas ainda era a vitória.
Ergue-se com dificuldades, apoiando-se em seus joelhos trémulos, olha para cima, buscando uma explicação para tudo aquilo, enquanto tenta não dar ouvidos para as dores que percorrem seu corpo em ondas, a técnica de Libra era impressionante, mesmo que fosse apenas um único golpe.
Sem que ele percebesse a mão delicada de uma amiga toca seu ombro, e o auxilia a se levantar. Ela também porta uma armadura de ouro, seu manto branco parece cobrir Mikel, que se ergue com esforço.
“Você não sabe como eu fico feliz em te ver Neola... como estão as coisas nas Doze Casas?”; perguntou Mikel, sem olhar para o rosto da amiga.
“Está tudo ótimo Mikel... Nós já temos o que queríamos, agora só precisamos terminar com isso.”; suas palavras soavam tão esquisitas, profundas e enlouquecidas. Quando ele fitou o rosto da Amazona de Touro, ele percebeu o que estava acontecendo. Sem máscara os olhos desequilibrados de Neola diziam para Mikel tudo o que ele não poderia suportar.
Sua última visão, pois com um sorriso no rosto, ela degolou seu antigo companheiro, com um movimento sereno, quase aliviando a dor de sua vítima. O cavaleiro de Peixes morreu na hora, não sofreu.
Segundos depois um poderoso barulho irrompe no céu, como aquele primeiro que levara todos esses fatos a se desenrolarem. Não havia mais fonte, nem nenhum sobrevivente, mesmo Estos é derrotado perante a brutalidade da técnica de Gizan.
Neola e GIzan se encontram em uma planície baixa, semi-inundada. Eles se entreolham, avaliando o que cada um representava; olhos loucos fitando olhos loucos. À distância reparam em duas figuras se aproximando, mantos brancos esvoaçantes, brilhos dourados intensos eram refletidos. Ao se aproximarem mais de Touro e Leão, pode-se perceber que uma das figuras trás em sua mão alguma coisa, algo que ela carrega de forma displicente.
Os dois cavaleiros de ouro tomam suas posturas de luta; como Mikel, eles sabiam que outros não haviam sido dominados por “aquilo”.
Quanto mais próximo chegavam, mais detalhes eles podiam ver; mantos rasgados, sujos de poeira e sangue, armaduras trincadas, com partes quebradas. Logo as formas começaram a fazer sentido; a armadura de Capricórnio e a de Virgem. Eles param a distância, os raios de sol batem na dupla recém-chegada impedindo que muito mais detalhes fossem vistos. Neola e Gizan já se preparam para lutar, seus cosmos se inflam, e as imagens de suas constelações surgem bem acima de cada um deles.
Notam que um deles, o maior, ergue alto o objeto que carregava.
Gizan não espera mais um segundo, impulsivo e agressivo, como sempre era, avançou sobre os dois urrando, já com seu punho direito tomado por sua cosmo energia opressora. Ele desferiria mais uma vez seu poderoso “Punho de Ferro” e eliminaria qualquer inimigo que fosse; sua confiança era tremenda, que não duvidava nem um pouco da sua capacidade, mesmo tendo dois outros cavaleiros de ouro a sua frente.
As nuvens se movem lentamente, e Gizan cego por sua vontade de lutar já está a poucos metros da dupla, até que ele é impedido por Neola. Ela segura seu punho, se postando quase que diretamente a sua frente.
“Calmo gatinho... olhe bem, olhe o que é”; disse ela no tom calmo e quase descontraído. Em seguida, apontando para o que o cavaleiro de Capricórnio carregava agora não ofuscado pelo sol.
Gizan parou imediatamente, entendeu o que estava acontecendo ali.
O santo cavaleiro de Grou, Shoucho, fora dado como morto pelo Leão, mas estava apenas desacordado. Caído em uma vala rasa ele recobrou a consciência, mas não foi capaz de sentir nenhum dos cosmos dos seus amigos, apenas a elevação abrupta de Neola e Gizan. Com o peso do mundo em suas costas, por seus ossos quebrados, e sua carne rasgada, pelo seu sangue que manchava o solo, sua armadura e tudo em que ele encostava, por aqueles que caíram lutando, ele não poderia ficar ali, se ainda havia vida em seu corpo, ele deveria usá-la em prol de Atena, e morreria por ela se fosse necessário.
Passo a passo, ele se deslocou até onde os dois estavam. Não tinha um plano, não tinha sequer esperança de que venceria, mas aquilo não era motivo para desistir. Se ele deveria cair como todos, faria isso lutando.
Chegou ao local onde os dois estavam, e nesse momento notou que havia outros dois. Primeiro achou que eram amigos, afinal, eram outros cavaleiros de ouro, poderiam ser como Mikel. Foi quando viu a investida de Gizan sendo interrompida por Neola, foi quando notou o que estava realmente acontecendo, seguindo a linha de visão dos dois, para o que um terceiro segurava que ele entendeu o que realmente estava acontecendo. Então ele caiu de joelhos ficando em silêncio; seus olhos se encheram de lágrimas, seu corpo formigou, seu estômago revirou enquanto apertava com força o solo ao seu alcance.
“Shoucho; calma, logo você se unirá a ela”; disse o cavaleiro de Virgem que agachado a sua frente o encarava perturbadoramente.
“Tome, olhe para ela, ela não parece muito bem? Eu mesmo tirei! HAHAHAHAHAHAAHAHAHAHA!”; ele continuou, entregando nas mãos do cavaleiro de Prata, um objeto quase redondo, coberto por cabelos avermelhados que se misturavam com sangue. O par de olhos verdes, arregalados davam um aspecto aterrador para a figura.
“Como você pôde... Assur... como pôde?”; repetia sem parar o cavaleiro de prata entregue ao desespero.
A resposta que ouviu o fez ceder a mais profunda agonia; “Foi muito fácil, minha mão serviu como uma faca... se separou muito rápido”. Chorando por alguns instantes, ele pode ouvir o pedido dos demais cavaleiros de ouro para que Assur acabasse logo com aquilo, mas ele já não ligava, não depois daquilo estar em suas mãos.
“Bem, suas últimas palavras cavaleiro de prata, diga, quais são?”; perguntou segurando-o por seus cabelos, limpando a área por onde o cortaria da mesma forma que fizera com o exemplar que se encontrava no colo do último cavaleiro de Prata.
Shoucho olhou diretamente nos olhos enlouquecidos daquele que uma vez já foi considerado um dos cavaleiros de ouro mais poderosos do santuário e falou: “Como você pôde matar Atena?”; a lágrima final escorreu por sua face enquanto sua cabeça era metodicamente retirada de seu corpo, após o corte perfeito do cavaleiro de Virgem.
Já de pé, olhando para seu novo troféu com alguma curiosidade mórbida, respondeu para a cabeça de ShouCho: “Eu já não te falei? Assim! Como acabei de fazer com você.”
E foi assim que o mundo acabou. Em uma manhã comum, de um dia comum, quando aqueles que deveriam proteger a todos se rebelaram, quando tudo foi perdido.
Felizmente aquilo não passava de um pesadelo, um sonho ruim que tomou a cabeça do jovem cavaleiro. Para a sorte de todos nada daquilo realmente havia acontecido.
Porém, ficava uma dúvida no ar: se tudo aquilo não passou de uma traquinagem do subconsciente dele, por que outros cavaleiros tiveram o mesmo sonho?
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