Cavaleiro de Sangue
3 Capitulo 2
Notas iniciais
– Menina acorde vamos! O Senhor não gosta daqueles que vadiam!
Sakura pode ouvir a voz de Tsunade gritar do lado de fora do seu quarto.
– Se ele não gritasse durante a noite eu poderia dormir, e assim acordar mais cedo – retrucou ele abrindo a porta e fitando o rosto apavorado da cozinheira.
– Oh não é deste senhor que falo, e sim do todo poderoso dos céus! – disse ela levantando a colher de pau para o teto – Ele gosta dos homens de honra que trabalham para sustentar suas famílias.
Sakura segurou a vontade de rir e tratou de se aprumar.
– O que devo fazer hoje senhora?
– Pode limpar o salão de jantar, embora eu ache que a senhora Karin não vá gostar muito da ideia.
– Tsunade, eu preciso perguntar. Ele é a esposa do Lorde?
A mulher riu pelo nariz e balançou a cabeça.
– Esposa? Só se for do senhor dos sete infernos! Aquela ali só serve para dar ao Lorde os prazeres da carne, uma pecadora!
Sakura se sentiu enojada por um momento. Franziu o nariz na mesma hora e olhou ao redor.
Parecia que tudo na vida daquele monstro estava sujo e abandonado, deixado às traças e aos ratos. Deixado para que corroessem o que estava bom os deixando imprestáveis.
Onde ele queria chegar com aquilo.
– Perdoe-me Tsunade, mas depois disso acho que não sou capaz de abaixar a cabeça para aquela... – respirou fundo, se arrependendo em seguida com o fedor que inalou. – ela não quer que limpem aqui? – perguntou desafiadoramente.
Tsunade cruzou os braços sob os fartos seios com um crucifixo de madeira entre eles, e sorriu. Orgulhosa da força daquela menina e de sua ousadia. Tsunade não tinha mais idade para aquilo, a cozinha em si já tomava muito de seu tempo e não poderia deixar de ir à igreja aos domingos para limpar o antro do demônio.
– Voltarei para a cozinha. Tenha cuidado e não se esqueça das regras. – Tsunade advertiu puxando seu saiote surrado e manchado de temperos para limpar as mãos. – Reze menina, reze...
Sakura anuiu rindo e pegando os trapos que usaria para começar a limpar o salão de jantar e o balde de metal cheio de água que Tsunade havia deixado para que usasse.
Rapidamente foi retirando tudo o que já estava estragado e empilhando a um canto.
Tapeçarias puídas, carpetes finos em trapos, candelabros quebrados com violência; cacos de vidro, barro, porcelana, cristais; tudo ia sendo empilhado.
Faces nas sombras
E eu estou andando no escuro
Olhando através das sombras
Vou encontrar todos
Faces nas sombras
E eu estou andando no escuro
Procura e resposta
Eu estou olhando através de noite
Caminhando nas sombras
Eu vi você, fazendo com que o seu sonho se tornar realidade
Vinde a mim e segurar minha mão
À espera de seus sonhos em realidade
E agora ...
Sakura cantarolava quase num murmuro fazendo daquela tarefa menos desagradável. Seu vestido resvalava por aquela sujeira toda e prendia em certos lugares fazendo buracos e rasgos que seriam difíceis de consertar.
– Inferno! – murmurou depois de ver uma tira grande ser deixada para trás junto com os pés de uma cadeira destruída. Tapou a boca rapidamente olhando assustada para a direção da cozinha para ver se Tsunade havia escutado. Soltou um suspiro rindo e voltou sua atenção para as cortinas.
Colocou as mãos na cintura estudando-as. Respirou fundo e puxou-as de uma vez soltando um grito quando vários bichinhos caíram por cima dela.
Tsunade apareceu assustada com um crucifixo na mão e brigou com ela olhando toda hora para cima enquanto Sakura gargalhava tentando se desculpar. Queria mais é que o Lorde fosse pro inferno com todas as suas frescuras, iria fazer seu trabalho direito e se isso dependesse tirar o sossego do governante inútil, ela assim o faria.
Foram 5 horas de trabalho sem descanso mas ela sorriu orgulhosa vendo o salão parecido com algo perto do brilhante.
– Tsunade, acabei com o salão de jantar, por favor, quando ver o Naruto peça-o que retire tudo o que está empilhado ao canto para ser queimado. Posso tirar uma folga antes do jantar?
– Claro, pode descansar. Irei chamar o Naruto para terminar isto aqui.
Sakura sentia olhos às suas costas, mas quando olhava para trás só via as janelas fechadas. Viu o salão limpo e janelas abertas para arejar. Começou a correr e encontrou seu jardim.
Olhou ao redor respirando fundo, teria encontrado seu lugar de paz? Faria daquele lugar seu santuário.
Andou pela velha estradinha de pedras que contornava os canteiros que outrora foram belos e que agora jazia em plantas secas e ervas daninhas.
Pacientemente, foi limpando os terrenos sem se importar com o barro que grudava em seu vestido.
Cantarolava sozinha, sentindo-se bem em estar ali.
Sentiu novamente ser observada, mas ao erguer os olhos se deparou com um corvo gordo a olhando curioso.
Sakura se assustou por um momento e olhou ao redor. Corvos nunca eram bons presságios.
Afastou os pensamentos pessimistas e voltou a capinar até que uma pedra negra chamou sua atenção. Era plana e parecia ter inscrito algo nela em letras belas.
“Aqui jaz, Mikoto Uchiha. Rainha e mãe.”
Sakura sorriu passando as mãos pela pedra. Conhecia a história de Mikoto e isso a deixou ainda mais inclinada a deixar aquele lugar maravilhoso.
***
Naruto estava solitário naquela tarde. Quando viu a imagem do mensageiro subindo a colina conseguiu sorrir com alegria, mas, depois das palavras trazidas pelo mesmo murchou com um balão vazio.
Tinha que dar a noticia à Sasuke, sabia que seria um conversa desagradável, afinal, o seu velho amigo há tempos não era o mesmo. Suspirou vencido e levantou da velha cadeira, passou pela cozinha e ouviu o burburinho de Tsunade mexendo nas suas velhas panelas, deu uma olhada de soslaio para o grande salão e o viu totalmente limpo, parecia outro lugar. Deixando os pensamentos de lado subiu as escadas cheias de pó e bateu na porta maciça.
– Entre – disse a voz tão conhecida.
Adentrou no aposento escuro e fétido, não sabia como ele aguentava viver ali.
– Sasuke, eu trouxe noticias.
O Uchiha estava sentado em sua velha poltrona de couro e levantou a cabeça para fitar o vazio.
– Diga logo Naruto.
– O homem que contratamos para procurar Itachi apareceu hoje, no inicio da tarde.
O loiro observou o amigo que não esboçou nenhuma reação na face e acabou sorrindo com empatia, sabia o quanto ele sofria.
– Não encontraram nada Sasuke.
– O que quer dizer?
– Que ele está morto.
Sasuke levantou da poltrona e mordeu o lábio com força, fechando os punhos.
– Ele não está morto – disse entre dentes.
– Sasuke, faz cinco anos desde a batalha. Se Itachi tivesse sobrevivido, já haveríamos o encontrado!
– Ele não está morto.
– Por favor...
– Saia daqui Naruto.
O jovem suspirou cansado e se virou para porta, antes ousou dizer.
– Você precisa sair deste quarto, vai morrer aqui dentro.
Por fim ouviu um resmungo e perguntou-se se Sasuke chorava.
***
– Naruto, Sakura pediu que você retirasse tudo que está empilhado no canto do salão e queimasse. Está tudo bem? – perguntou a velha cozinheira ao observar a expressão do jovem que acabara de adentrar na sua cozinha.
– Recebemos noticias de Itachi.
Ela juntou as mãos e as levou a boca.
– O encontraram?
– Claro que não! – resmungou ele de mau humor – Itachi está morto há muito tempo, Sasuke precisa livrar-se do fantasma do irmão. Ele vai morrer aos poucos Tsu, será que não percebe?
– Não sei se ele pode morrer... – falou ela em um sussurro.
– Pare com essas superstições. Vou fazer o que Sakura pediu, alias, não sei se Karin vai gostar de ver o castelo sendo limpo.
A senhora só deu de ombros e voltou aos seus afazeres enquanto o outro ia em direção ao salão.
***
Sasuke sentia-se profundamente infeliz. Queria que tudo voltasse ao que era antes, quando possuía uma família, mas, sabia que era impossível. Não podia pensar no pai e uma imagem vermelha e quente lhe vinha a mente, não podia pensar no irmão que a imagem de seu cavalo sendo abatido em batalha aparecia como um lembrete de que ele próprio não viera para aquele mundo para ser feliz.
Suspirou cansado e assoviou, o grande lobo que vivia escondido em seu quarto levantou de imediato. Fora ele e Naruto, somente Karin sabia da existência da criatura e assim ele queria que fosse.
Saio do quarto com o lobo a seu encalço e caminhou pelo andar superior do castelo, ele não precisou pensar quando chegou ao cômodo. Passou a mão pela porta gasta de madeira e soube que ali era o seu lugar de paz. O quarto de sua mãe.
Ele proibira qualquer pessoa de ali entrar, para ele, o quarto de Mikoto Uchiha era um santuário. Passando as mãos pela cama da mãe podia jurar que ainda sentia o doce perfume que ela exalava. Sentou-se junto à janela e sentiu o pelo do lobo em suas pernas, depois de algum tempo ouviu uma canção calma e doce, alguém estava no jardim.
A voz era cálida, contida e, ele podia jurar, feliz. Como alguém podia ser feliz ali? Como alguém podia cantar? Ele não soube o porquê, mas continuou ouvindo com os olhos fechados e lamentou profundamente quando a voz se calou.
***
– É aqui que o pano sujo do meu castelo se esconde? – disse uma voz levemente irritada.
Sakura ergueu a cabeça e fitou a cabeleira vermelha e as roupas extravagantes da castelã.
– Meu nome é Sakura.
– Não perguntei seu nome – cuspiu a outra – quero saber por que limpou o grande salão? Por acaso teremos algum jantar especial?
– Não senhora – disse Sakura com a voz carregada de nojo – só achei que deveria fazê-lo para deixar o local mais agradável.
A castelã arqueou a sobrancelha.
– Achou? Você não tem que achar nada, tem que fazer o que eu mandar e oras... – disse abaixando o olhar para onde Sakura estava ajoelhada na terra – está limpando o tumulo da velha Mikoto? Não precisa, esta ai morreu há muito tempo.
– Mesmo assim, deixar o túmulo limpo é um modo de agradecer...
– Agradecer? – disse a outra pisando na lápide – só se for por ela ter deixado um filho tão bem dotado no mundo.
– Filho?
A ruiva gargalhou chutando um pouco de terra seca nas pernas de Sakura.
– O Lorde menina burra, Sasuke Uchiha é filho desta ai.
***
Tsunade pestanejou um pouco até ceder e colocar os pratos na mesa de jantar recém limpa.
– Eu não acho sensato incitar à ira do lorde. – Tsunade sussurra pela décima vez colocando o faisão assado na grande mesa de mogno gasto.
– Tsunade, deixe de falar essas coisas. Vai por mim, vai ser pior se ele ouvir isso. – Naruto lambia os beiços pronto para atacar. – Se bem que não duvido que já não esteja escutando... – Murmurou ficando sério num instante e voltando a engolir a comida com os olhos quando o purê de batatas é colocado junto com a travessa de grãos.
Sakura observava tudo em silêncio.
Desde a sua breve conversa com Karin, se sentia estranha. Era difícil ver o lorde como o filho daquela a quem chamavam de santa. Odiava admitir, mas ele estava deixando-a curiosa. Sabia que não era nada saudável, mas não podia evitar.
– Você compactua com magia negra, Naruto! – Sakura se assusta ao ver Tsunade vermelha segurando a bandeja de vagens e Naruto segurando o riso.
Sakura coloca o jarro de vinho sobre a mesa e se senta observando os dois.
– Esqueceu-se do voodoo, vovó! – o garoto tenta ser sério, mas deixa escapar a gargalhada.
– Que meu bom Deus tenha piedade de minha alma, e da sua também! Nunca vou me esquecer daqueles homens quase nus cheios de pinturas pelo corpo e balançando aqueles chocalhos enquanto gritavam... Argh!
Naruto gargalhava ainda mais vendo Tsunade passar as mãos pelos braços arrepiados enquanto fazia uma careta. Sakura olhava sem entender e Naruto apenas mandou um olhar de “Deixe para lá”.
Ela comeu em silêncio. Estava cansada demais depois de tudo o que havia feito naquele dia, mas sabia que suas energias iriam se restaurar depois de uma boa e merecida noite de sono. Nem os urros do demônio iriam acordá-la.
***
Sakura estava mais que satisfeita com a refeição caprichada. Divertiu-se muito com as histórias de Naruto e começou a criar certa afeição pelo rapaz, não entendia como conseguia ser de um jeito como pessoa e de outro como chefe daquela milícia.
Decidiu deixar esta discussão para outro dia, o corpo já reclamava de exaustão e tudo o que queria era dormir.
Tomou um banho de caneca, que Tsunade gentilmente aqueceu para ela, e colocou suas roupas de dormir, que consistiam em um vestido mais simples, sem corte ou costura. Era simples e de cor desbotada. Havia sido de sua mãe e agora ela usava o remendando quando necessário.
Deitou-se na cama sentindo-o todo relaxar, até que o frio da tempestade que surgiu fez todo seu corpo estremecer.
– Esqueci do cobertor – disse abraçando os braços para se esquentar e saindo a contra gosto de seu quarto.
***
Sasuke não conseguia dormir com a tempestade assolando as janelas, a cada trovão o castelo tremia e logo ele se irritou. Karin estava dormindo em sua cama e ele queria sair de perto da mulher, sendo assim, pensou em dormir no quarto de sua mãe.
Chamou o lobo com um discreto assovio e saiu do quarto, os passos foram abafados pelo som dos trovões que rasgavam os céus e pela grossa camada de pó. Ouviu um leve rosnado vindo do lobo e sentiu o pelo do mesmo se ouriçando.
– O que foi? – perguntou, e como resposta do animal caminhou para a outra ponta do corredor. Sasuke o seguiu e logo viu que estava na ponta da escada.
***
Sakura saiu pé por pé do seu quarto e resolveu que acordar a velha Tsunade para pedir uma coberta não era um crime tão grave assim. A chuva batia com força nas pedras do castelo e o vento assoviava pelas frestas. Quando chegou perto da cozinha ouviu um rosnado baixinho, sentiu um sopro e lentamente virou todo seu corpo para olhar de onde vinha aquele barulho.
Arfou quando um relâmpago cortou os céus iluminando um pouco a escada, mesmo a meia luz ela pode ver a silhueta de um homem alto e um grande lobo ao seu lado. O medo tomou conta de todo seu corpo quando o lobo rosnou e deu um passo em direção aos degraus que ela mesma se atrapalhou e caiu, sentiu a ardência da pedra contra a carne exposta das pernas e não conseguiu tirar os olhos do homem misterioso. Queria ver seu rosto, mas ele chamou o lobo e ambos se afastaram.
Sakura suspirou fundo e ainda tremendo levantou do chão frio, não queria mais uma coberta, queria correr para o seu quarto e se esconder, mas, a vontade de ver o Lorde era ainda maior. Quando colocou o pé no primeiro degrau sentiu uma mão em seu ombro e gritou assustada.
– Naruto! pelos sete infernos! – disse levando a mão ao peito e respirando com força.
– Eu avisei para não sair à noite, e que diabos pensa que está fazendo?
– Eu... eu senti frio e...- gaguejou ela ainda com o corpo trêmulo.
– Venha comigo, vou lhe dar um cobertor. Ah, e amanha eu vou para a vila, quer ir junto?
– Ir para a vila?
– Tenho assuntos para resolver, você pode ir e comprar algumas roupas mais quentes.
– Eu adoraria.
– Certo, agora vamos, está tarde – disse ele dando uma ultima olhada para o topo da escada.
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