Cavaleiro de Sangue
2 Capítulo 1
Notas iniciais
A velha cozinheira depositou o bolo ainda quente em cima da mesa e suspirou pedindo a Deus paciência.
– Se tocar neste bolo eu corto seus dedos Naruto.
O jovem bufou retirando as mãos que iam de encontro ao cheiroso bolo de amoras e levantou impaciente se pondo a andar pela cozinha.
– Porque eu não posso apresentar a ela?
A mulher revirou os olhos e despejou a calda fumegante no bolo.
– Porque ela é uma menina, não fica bem ter conversas com homens solteiros.
– Ah vovó! – disse ele exasperado erguendo as mãos para o alto – eu sou inofensivo! E seria bom conhecer outras pessoas fora você, o pirralho e o senhor mau humor lá de cima.
– Inofensivo? Você? Está ai todo faceiro porque uma menina vem morar no castelo, não peque Naruto! Não peque ou o Senhor vai fazê-lo queimar no inferno! – disse ela de forma ameaçadora apontando a colher de pau cheia de calda para o mesmo.
– Hunf! Eu nunca desonraria uma moça inocente. – rebateu de forma galante.
Ela suspirou e observou sua obra de arte, era mesmo uma ótima cozinheira.
– Vai ditar todas as regras para ela?
– Vou.
– E você sabe quais são elas?
Ele estreitou o olhar manifestando sua indignação diante daquelas palavras.
– Nunca ir ao andar superior, nunca dirigir a palavra ao Lorde, nunca abrir as cortinas do castelo, nunca sair do quarto à noite – disse ele diminuindo o tom ao citar a ultima regra.
– Certo, parece que você lembra. Quando ela chegar e comer um pedaço deste bolo eu chamo você, e você mostra as partes em que ela pode perambular.
– Para mim você não faz bolo. – reclamou ele fazendo um bico.
– Porque você não é nenhum menininho assustado.
A discussão foi interrompida pelo barulho de um salto batendo no chão de pedra.
– Ah, ai estão vocês. – disse a jovem de cabelos ruivos parando na porta da cozinha com as mãos na cintura.
– Chegou cedo Karin – disse Naruto de forma azeda.
Ela lhe dirigiu um olhar indiferente.
– Velha, prepare uma jarra de vinho e duas taças, seu senhor vai ficar com sede hoje.
– Olhe como fala com a Vovó sua ...
– Sua o que Naruto? – disse ela calmamente fuzilando o jovem com os olhos – esqueceu quem manda aqui?
Ele apenas bufou e saiu da cozinha esbarrando no ombro dela com mais força do que o necessário.
– Rápido velha, não tenho o dia todo! – gritou para Tsunade que separava os itens pedidos em uma bandeja.
– Aqui está senhora – disse a cozinheira abaixando os olhos e entregando a bandeja para a castelã.
– Senhora? – riu-se a outra – vejo que está aprendendo bem como tratar a dona deste castelo. E não durma pelos cantos da casa, se eu precisar a chamo e não demore.
– Sim senhora.
A castelã saiu arrastando seu vestido vermelho pelo chão de pedra, por baixo do fino pano nada usava, sabia que era assim que ele gostava. Andou pelo corredor escuro e sujo até o quarto do seu Lorde, um rato passou atrás de si, ela apenas o ignorou.
Bateu duas vezes e ouviu a voz grave a mandando entrar.
– Meu Lorde. – disse fazendo uma reverência debochada e largando a bandeja na mesa de madeira. Notou que havia restos de comida pelo chão, novamente ele não se alimentara, mas, ela pouco ligava.
–Karin.
O quarto, como sempre estava escuro como a própria noite e frio como a morte, Sasuke se encontrava de pé fitando o vazio por entre as frestas da cortina.
Ela caminhou até ele e espalmou as mãos pelas costas rígidas. Retirou o pesado casaco de lã que ele sempre usava e o jogou no chão.
Pousou a boca no pescoço branco do Lorde e aspirou o cheio de ervas que ele emanava, ah, como amava aquele homem.
– Senti sua falta – sussurrou dando beijos pelo pescoço.
Ele apenas grunhiu e a puxou para frente, escorou-a no batente frio da janela e levantou o vestido fedido que usava.
– Sempre com pressa meu Lorde – gemeu ela enquanto ele apertava com força seus seios flácidos.
– Cale a boca Karin. – disse ele abrindo a fivela de sua calça e retirando seu membro.
– E se eu não quiser calar? – perguntou debochada.
– Vai pagar por isso – disse introduzindo o membro já rígido em seu corpo.
Ela grunhiu de dor.
Era sempre assim, ela sabia. Não importava há quantos anos servisse Uchiha Sasuke, ele nunca fora carinhoso ou gentil, sempre a possuía em um canto qualquer de seu castelo e sempre a fazia sentir dor. Com o passar dos anos ela se acostumou e agora acreditava que quanto mais dor sentia mais prazer ele tinha, então, gritava sem pudor enquanto era açoitada, mordida e tinha tufos de cabelos arrancados. Ele era seu Lorde, e ela achava que era sua rainha.
***
Sakura andava com pensamentos distintos em sua mente até o povoado. Cruzou a ponte de madeira e ignorou os assovios e palavras mal educadas proferidas pelos guardas do lorde.
A lista do que deveria fazer em poucas horas a deixava distraída o bastante para não pensar no lugar que iria viver em breve.
Cumprimentou os conhecidos do comércio com um aceno distante de cabeça e logo a frente viu quem precisava.
– Sra. Chyo!
A velha senhora enrolada em xales desbotados direcionou seus olhos cansados à moça que corria em sua direção.
O vestido maltrapilho da velha ocultava anos de sabedoria e conhecimento de cura. A informação era pouca, mas era suficiente para Chyo conseguir salvar algumas pessoas das pestes.
– Sakura? Oh, Sakura! Como está? — A voz da senhora saiu baixa devida a idade avançada e um sorriso gentil surgiu no rosto enrugado.
Sakura respirou fundo e sorriu em igualdade para a senhora a quem a ensinou alguns truques.
– Desculpa Sra. Chyo, não tenho muito tempo. Preciso saber quantas moedas a senhora está disposta a aceitar para cuidar de minha mãe... todos os dias. — Sakura disse tudo de uma vez repondo o ar gasto a corrida.
A senhora olhou confusa para a jovem. Sakura percebeu e decidiu ceder um pouco de informação.
– Precisarei ficar fora algum tempo, não tenho ninguém para olhar minha mãe. Será que 5 moedas por semana são suficientes?
A senhora ergueu as sobrancelhas diante a proposta. Já era velha, não tinha família e nem disposição para os serviços oferecidos. Precisava do dinheiro.
Olhou para a moça de rosto vermelho pelo cansaço e sorriu aceitando. O alívio perpasso pelo rosto de Sakura que colocou uma mão no peito.
– Ela tem piorado, Sra. Chyo. — Sakura confessa e a velha a segue pelo caminho de terra batida que dá para a cabana da moça.
– Eu vou fazer chás e algumas infusões. Mas você sabe que...
A velha não precisou terminar de falar. Sakura sabia que as chances de sua mãe era quase nulas, mas a esperança e o medo de ficar sozinha a fizeram acreditar.
***
– Não se preocupe mãe, é só um serviço no povoado vizinho. Ficarei numa casa de família tecendo enquanto não chega o inverno, irão me pagar 7 moedas por semana e logo estarei de volta. — Sakura fingia animação com a trouxa pronta no colo e as mãos entrelaçadas as da mãe.
– Minha filha, não precisa fazer isso. E se algo de ruim acontecer? — A voz ruidosa e as tosses seguidas trouxeram o pensamento das “coisas ruins” que poderiam acontecer em sua ausência.
Espantando os pensamentos antecipados, deu um sorriso encorajador.
– Nada de ruim vai acontecer, estarei perto e ao menor problema estarei em casa antes do anoitecer.
Mebuki colocou a mão sobre a cabeça da filha e teceu uma oração em voz baixa. Sakura absorvia cada palavra ansiando que se transformassem em uma armadura divina capaz de protegê-la do mal que habitava o lugar que seria sua morada.
Chyo observava tudo de longe com os braços cruzados sob os seios, direcionando suas próprias orações àquela menina.
Sakura saiu de casa sem se despedir demais. A saudade já a abatia e a visão das torres do castelo à frente não tornavam as coisas fáceis.
Decidiu não dizer a ninguém para onde iria de verdade, sabia que a simples menção daquele lugar faria sua mãe piorar devido suas crenças fortemente amarradas à religião.
A moça abraçou sua trouxa feita com uma toalha contendo os três vestidos, roupas de baixo e um par de calçados extras. Apertou o xale quando o vento fustigava em seu rosto. Parecia que quanto mais perto chegava daquele lugar, mais frio ficava.
Será que iria conhecer o lorde? Se conhecesse não saberia como se portar. Se curvaria? Correria? O mataria?
O coração deu um salto quando se descobriu a frente do portão. Engoliu o bolo na garganta e olhou a volta. Pela posição do sol estava adiantada, isso a deixou menos tensa.
Pensou em que forma poderia chamar Tsunade, visto que o garotinho de antes não estava ali, até que viu a figura de um loiro vindo em sua direção.
– Boa noite jovem donzela! Você é a nova moradora do castelo? Deixe que me apresente! Sou Uzumaki Naruto, chefe da guarda real, escudeiro, braço direito e melhor amigo do Lorde. Sem falar, também, no solteiro mais cobiçado do reino. – disse rapidamente fazendo uma reverência galante.
Sakura esqueceu por um momento de onde estava e ficou olhando aturdida para o loiro com um sorriso maior que a cara enquanto digeria o que ele disse.
– Sir Uzumaki... é um prazer conhecê-lo. – Sakura se forçou a ser gentil devido a hierarquia e fez uma reverência segurando a lateral do vestido e cruzando a perna esquerda atrás da direita. – Me chamo Sakura Haruno e servirei vossa senhoria com prazer. Espera? – Sakura ergueu a cabeça e uma sombra passou por seus olhos deixando a expressão dura. – Chefe da Guarda Real?
O jovem alargou o sorriso, sabia mesmo como impressionar uma moça.
– Sim, chefe da guarda real!- disse com orgulho enquanto estufava o peito.
Sakura fez uma careta tentando refrear a vontade de falar palavras que sua mãe censuraria por mil vidas. O sorriso satisfeito a enojava e sentia que teria sérios problemas dividindo o mesmo teto que o chefe da corja de ladrões e abusadores de poder.
– Bem – continuou ele estranhando a cara fechada da moça – vamos entrando, tenho um bolo de amoras delicioso a sua espera e tenho que lhe por a par das regras da casa. – disse apontando com o braço a entrada do castelo.
– É revigorante saber que vocês estão bem alimentados. Sua guarda realmente faz um ótimo trabalho
Sakura se da conta do que fez depois das palavras proferidas, mas não se arrepende, puxou a barra do vestido e saiu andando com o queixo erguido para dentro do jardim mal cuidado.
– Ah obrigada senhorita, sabe, alguns moradores não dão valor ao nosso trabalho- disse ele abrindo as pesadas portas de carvalho do castelo – bem, este é o salão principal. No corredor a sua direita seguem a biblioteca e o salão de festas, ali a frente estão a cozinha e o salão onde servimos refeições para convidados. A escada, bem, você não pode ir para o andar de cima então não pense nelas. – continuou ele apontando para todos os lados que falava.
Sakura o encarava incrédula. Não acreditava que alguém conseguia ser tão arrogante e miserável a ponto de parecer lisonjeado com tamanha hipocrisia. Decidiu enterrar os sentimentos amargos e prestar atenção ao seu redor. A primeira coisa que fez foi torcer o nariz pelo cheiro pútrido do local. Mesmo com a iluminação extremamente precária era possível ver os animais andando pelos cantos do salão, teias de aranha alojadas em todos os cantos, manchas grudentas por todo carpete e janelas cobertas por cortinas imundas.
Um arrepio percorreu todo seu corpo.
Já imaginou aquele lugar de mil maneiras, imaginou armaduras brilhantes, tapeçarias caras, incensos a cada canto com o mais formoso dos perfumes... não aquele antro de imundice.
Naruto a olhava com curiosidade, não podia culpar a cara feia que a menina fazia ao olhar o local que lhe era apresentado, ele mesmo odiava aquela sujeira e podridão.
–Moça de poucas palavras você. Bem, vamos para a cozinha – disse apontando na direção da mesma – e temos mais algumas regras aqui Sakura. Você não pode subir ao andar superior, não pode abrir as cortinas do castelo, não pode dirigir a palavra ao Lorde e a regra principal – disse ele parando a porta da cozinha – não pode sair do seu quarto a noite.
– Naruto seu marmanjo ingrato! Eu disse para trazê-la direto a mim! – urrou uma voz vinda de dentro do cômodo.
Sakura conteve a risada abafada vendo o grande chefe da guarda encolher feito um garotinho travesso diante daquela mulher.
Ao contrario de toda a casa, a cozinha era extremamente limpa e organizada, além de muito mais iluminada.
Archotes e velas estavam acesas dando as paredes de pedra até certo conforto.
As panelas de barro muito bem enfileiradas, taças de vinho e canecas rusticas disputavam o mesmo espaço.
O cheiro bom de bolo a fez esquecer todo o resto do lugar, com tantas regras excêntricas sabia que ali seria seu refugio.
– Boa noite senhora Tsunade, me alegra muito revê-la – a garota cumprimentou fazendo uma reverencia simples e dando seu melhor sorriso.
– Boa noite querida. Este bastardo deveria tê-la trazido direto aqui, mas pelo jeito esqueceu deste detalhe – falou a cozinheira fuzilando o jovem com o olhar.
– Ah vovó! Vamos esquecer isso e comer este bolo.
Tsunade então olhou para a menina maltrapilha e sorriu com empatia.
– Gosta de bolo de amoras?
Sakura nem se lembrava do gosto de um bolo que não fosse de farinha grudenta de mandioca que recebia como pagamento às vezes. Assentiu escutando seu estomago roncar.
– Parece delicioso – disse para si mesma quando se sentou a mesa de madeira gasta a frente de Naruto e viu Tsunade cortar uma fatia suculenta bem recheada com a fruta e colocar em seu prato.
– E é! Vovó é melhor cozinheira do reino – disse Naruto comendo com certa violência.
– Ah não – gemeu a velha senhora ao ouvir passos se aproximando da cozinha.
– Ora, ora... o que este pedaço de pano sujo faz em minha cozinha? – disse Karin olhando para Sakura e sorrindo.
Sakura girou lentamente para a direção da porta e se engasgou ao ver uma ruiva sem o corselet do vestido, totalmente nua, somente com os saiotes no lugar. Os cabelos estavam mal ajeitados e suas costelas tinham marcas de dedos grandes em vermelho. O rosto também tinha uma marca de mão e havia pequenas escoriações por várias partes do tronco e pescoço.
– Essa é a Sakura, ela trabalha aqui agora – respondeu Naruto trincando os dentes.
– Tanto faz. Velha, arrume mais vinho, seu Lorde tem sede depois de estar comigo – disse de forma maliciosa.
– Não sei como ele não vomita depois de estar com você – murmurou Naruto para que só Sakura ouvisse.
– Claro – disse a mulher se apressando e enchendo mais uma jarra de vinho – aqui está senhora.
A mulher balançou os cabelos emaranhados e saiu para o andar de cima.
Tsunade então soltou todo o ar preso nos pulmões.
–Preciso descansar. Sakura, Naruto lhe mostrará seus aposentos assim que acabar o bolo. Fique a vontade para comer o quanto quiser. – disse ela com um sorriso fraco.
Sakura se despediu ainda chocada e voltou-se para Naruto que comia com menos gosto.
– Er, sir Naruto – Sakura o chamou incerta – Quem é aquela?
– Só Naruto – disse ele em um tom desanimado – essa é a Karin, a pu...a castelã do Lorde.
Sakura terminou de comer o bolo não tirando a imagem vulgar da castelã. O nojo pelo lugar reascendeu e nenhuma fatia de bolo foi tocada depois.
– Fiquei sem apetite – disse balançando a cabeça e Naruto deu uma risada satisfeita.
O loiro terminou seu pedaço rapidamente e foi escoltando-a até os aposentos dela. Chegando perto das escadarias proibidas, Sakura não aguentou.
– Eu não sei o que pensar depois do que vi. Sinto-me suja só de...de...- ela não encontrava palavras para verbalizar sua indignação perante a falta de pudor.
– Não faça isso Sakura, aquela mulher não merece lugar algum em seus pensamentos. Ela é suja e vulgar...não sei porque Sasuke ainda a mantém por perto – respondeu ele calmamente como se também pensasse no assunto.
Parado na escuridão de seu quarto ele tudo ouvia, nada passava despercebido em seu castelo. Ouviu a voz doce e levemente irritada da nova criada, pensou no que Karin fizera para fazê-la sentir tanto nojo. As palavras do amigo caíram como o fio de uma navalha em sua alma, se é que ainda tinha alguma. Mas, por mais sujo que fosse ele só tinha Karin.
– Difícil esquecer uma mulher que não se porta como uma, que mais parece uma...mulher da vida. – Sakura balançou a cabeça exasperada – É ultrajante saber que esse tipo de gente é quem devemos servir. Como querem conduta e postura se embaixo deste teto há tamanha falta de classe e pudor? – Sakura respirava fundo deixando seus pensamentos revoltosos deslizarem por sua boca.
Naruto ergueu a sobrancelha ao ouvi-la proferir tais palavras.
– Nem sempre servimos quem gostaríamos de servir, acredite, eu a detesto tanto quanto você e a queria longe daqui. Se este lugar é deste jeito – disse apontando para a sujeira ao redor – é porque ela não permite que seja limpo. Sasuke não...bem, melhor não falarmos do Lorde.
Sasuke ouvia tudo atentamente. Então ela tinha nojo de servir pessoas como Karin? Bom, ele também teria.
Aproximou-se da cama onde a mulher dormia, se negava dividir a mesma cama que ela então rumou até sua poltrona de couro e ali ficou até dormir.
(...)
Sakura olhou seu pequeno quarto com curiosidade. Não estava tão sujo como o resto do castelo, somente empoeirado e com cheiro de mofo por ter ficado trancado por muito tempo. Ele se localizava ao lado da escadaria, numa portinhola quase difícil de se ver no salão.
Ajeitou-se do jeito que pode e guardou seus parcos pertences no armário perto da velha cama de ferro. O tapete marrom todo puído foi enrolado para o lado e tudo o que sobrou foi o chão gelado de pedras.
Sakura pegou sua toalha e se ajeitou na cama.
Não podia negar, aquele lugar lhe dava arrepios, mas seu objetivo não a deixava desistir.
Encolhida em seu pequeno pedaço de toalha, lembrou-se que no dia seguinte teria de pedir um cobertor à Tsunade, senão morreria de frio antes de chegar a próxima estação.
O sono chegou, mas ela despertou quando o ouviu.
(...)
Ele não soube quando pegou no sono, só lembrava-se de em meio ao seu breve descanso sentir algo quente nas mãos. Abriu os olhos e as viu cobertas de sangue, sangue fresco. A respiração ficou descompassada quando viu que todas as suas vestes estavam cheias de sangue, o chão estava vermelho, as paredes, tudo.
Caiu de joelhos em meio aquela imagem grotesca e tentou chorar, não conseguiu. Ao tentar gritar arregalou os olhospois da sua boca emergiam bolas de sangue que escorriam pelo pescoço e peito.
Levou as mãos aos próprios cabelos e arrancou tufos com força conseguindo finalmente gritar, gritou como se o próprio demônio o estivesse visitando, gritou por todo aquele maldito sangue.
(...)
O urro fez até os ossos de Sakura se arrepiarem. Parecia que aquele som de dor e agonia saía das paredes.
Seu corpo tremia e seus olhos saltavam arregalados olhando para o teto.
Minutos incontáveis se passaram sem que ela mexesse um músculo sequer. Todas as histórias sobre aquele homem vinham em sua mente agora e o arrependimento de estar ali a martelava.
Silêncio.
Parecia quem as corujas se encorajam à piar por ali.
Sakura não conseguia mais dormir. Seu coração ainda estava disparado em frenesi e seu corpo reagia a todo estalar que as janelas faziam.
Decidiu-se sair dali. Ignorou totalmente as ordens de Naruto e abriu a janela de seu aposento.
Olhou para fora e a visão das colinas a abrangeu. Queria correr dali.
Seu pai sempre lhe dizia: "Se algo acontecer, vá para fora. Terá mais espaço para fugir."
E foi o que fez.
Pulou a janela e pouso com as pernas trêmulas em cima de flores secas. Suas pernas tremiam, assim como todo o corpo, mas tudo o que queriam eram correr o mais rápido possível.
E ela o fez.
Correu pelos canteiros dos fundos sem olhar ao seu redor. Correu com o coração pulsante e uma oração repetindo em sua mente.
Encontrou uma raiz de árvore que a fez cair. Tossiu a terra em sua boca e sentiu o joelho arder.
– Céus! — deixou lágrimas de medo e desespero caírem por seu rosto.
Se sentou abraçando as próprias pernas e teceu inúmeras orações ensinadas por sua mãe.
O vento bateu forte e o barulho de algo rangendo a fez erguer a cabeça assustada.
Viu-se escorada em um muro de pedras que rodeavam o que parecia um jardim particular. Outrora deveria ter sido lindo, mas tudo o que restava agora eram mato e pedras.
A seu lado viu o que fazia barulho e um pequeno sorriso apareceu em seu rosto machucado pela tristeza.
Uma placa de madeira muito bem talhada, mas marcada de forma triste pelo tempo. Ela chacoalhava pelas dobradiças antigas fazendo um barulho de rangido. Mesmo com tanta idade e mal tratada, ainda podia-se ver o nome escrito nela. O nome que fez Sakura sorrir.
"Hortum poetry"
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