Cavaleiro - (Contos do Branco e Vermelho)
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Finalmente o perfume havia sumido, mas a sensação de tocá-la permanecia forte para o cavaleiro. Aquela sensação ainda iria demorar alguns dias para sumir, mas as lembranças tanto do beijo quanto do que lhe foi falado, essas sem dúvidas não o abandonariam tão fácil.
— Estou exausto, então? E também não estou com meus objetivos claros? Asneiras, sou um cavaleiro e agora tenho uma missão a cumprir.
E assim continuou sua subida uma última vez, andou e andou, mas não chegava à próxima porta. Por quanto tempo andava já não sabia mais, alguns minutos, horas, dias, ele não sabia, apenas continuava a andar e a se questionar em seus pensamentos. Por vezes, pensou até em deixar que seu poder se materializasse para destruir aquelas paredes e escalar a grande torre por fora, mas se conteve, essa seria uma falta de respeito gigantesca com os que viviam lá, além de uma declaração aberta de guerra. “Se não eis meu inimigo, entre pela porta da frente”, era uma das leis de respeito, em outras palavras, etiqueta. Então continuava em sua subida. Independente do tempo que passou ali, ele sabia que estava próximo ao final de sua missão e, independente de qualquer dúvida lhe castigar a mente, ele teria que continuar até chegar ao final do percurso. E assim, invariavelmente, chegou. Talvez tivesse ficado andando por dez anos ou dez minutos, não importava, finalmente enxergara a próxima porta e quando a abriu ela revelou o último andar. Novamente a entranha sensação de estar atravessando uma parede com uma pressão gigantesca caindo sobre seu corpo o atingiu, e ao olhar suas vestes, novamente estava usando roupas de couro. Uma sala de teto e piso brancos, a frente uma parede de vidro deixava visível o sol descendo no horizonte, o cavaleiro notou também que pelo ângulo do horizonte a sala onde estava provavelmente era no topo de algum edifício. .A sala não era muito grande, a única mobília era uma mesa retangular com pilhas de papéis acima. Atrás dela, um homem de terno olhava o cavaleiro como se já o esperasse. Deu um leve sorriso quando este o notou.
— Estava esperando sua chegada, cavaleiro, Já está um pouco tarde. – Apontou para o céu que se fazia atrás dele. – Vejo que teve problemas para passar por meus irmãos e irmãs menores. Aparentemente lhe deram bastante trabalho, não foi?Peço que os perdoe, foram incumbidos de fazer o que fazem, assim como você. Mas, venha aqui, sente-se. Vou pedir para que lhe tragam um café.
O clima estava estranho. O cavaleiro não sentia nenhuma agressividade ou malícia naquele homem, parecia que ele realmente só queria conversar. Dadas essas circunstâncias, seria uma desfeita não se sentar junto ao senhor do último andar. Ao se aproximar, conseguiu notar melhor as características daquele homem. Como estava sentado era incerto dizer, mas provavelmente tinha uma altura similar a do cavaleiro, o terno escondia um corpo robusto, dada largura dos ombros, seu rosto bronzeado tinha uma barba rala que cobria toda a parte inferior e, com o cabelo castanho penteado para o lado, sua figura passava seriedade e imponência. O cavaleiro quase se afeiçoara ao sujeito, quase, até olhar em seus olhos, olhos tão azuis quanto o próprio céu matutino, mas com uma esfera negra em seu centro que quando o cavaleiro olhou, sentiu que ele não estava sendo cordial por educação, mas sim porque o cavaleiro não significava absolutamente nada para ele. Era como um pequeno pardal à frente de uma imponente águia.
— Agradeço a gentileza, mas vou recusar o café, não gosto muito da bebida. – O respondeu ao se sentar.
— Que tipo de bebida gostaria então?Pode pedir o que quiser, tenho de tudo aqui. – Parecia finalmente ter acabado de assinar uma pilha de papéis que estava ao seu lado.
— Agradeço novamente, mas prefiro não beber enquanto estou trabalhando.
— Besteira. Acho que você vai gostar de um vinho... Sim, um vinho suave.
De fato era o que o cavaleiro gostava.
— Sorte sua, pois está também é minha bebida favorita, então devo ter um pouco dela aqui. – Arrastou a cadeira para trás para pegar alguma coisa em baixo da mesa. Quando levantou, carregava duas taças em uma mão e uma garrafa de vinho branco na outra. – AHA!Achei!Pelo jeito ela já está aberta, devo ter experimentando em outro momento, mas é certo que você não se importa, correto? – Despejou o líquido em ambas as taças até enchê-las pela metade e entregou uma delas ao cavaleiro.
— Obrigado. – Agradeceu o cavaleiro sem provar da bebida.
Ambos se olharam e ninguém bebeu.
— Hahaha. De fato um verdadeiro soldado, não é? Não irá beber ao menos que seja alguém de confiança quem o serviu ou até que quem o sirva o beba também. Hahaha. – Deu o primeiro gole. – Pode se servir.
Somente então o cavaleiro provou, de fato era uma excelente bebida, muito doce, do jeito que ele gostava.
— Vamos ao que interessa então, cavaleiro. Que assuntos vem trazer?
Dando de mais alguns goles, ele responde:
— Sinto muito, mas não posso lhe dizer nada, são informações apenas para sua mestra. – Colocou o copo vazio sobre a mesa, esperando pelo que seja lá o que viesse daquele homem.
Após alguns instantes fitando o rosto do cavaleiro, ele responde.:
— Entendo. Por mim tudo bem então, cavaleiro, não irei lhe prejudicar sendo que estas foram as ordens que lhe deram. Entretanto, nesta torre sou como o braço direito dela, e você não poderá continuar sem antes passar por mim. Então apenas me diga que assuntos tem a tratar com ela.Não peço para que me dê os detalhes, isso não me interessa, mas você deve me tratar com respeito aqui e me dizer que assuntos são esses para que você possa finalmente terminar seu trabalho. – Bebeu da própria taça para também esvaziá-la, cruzou os dedos e esperou por uma resposta do cavaleiro.
Pensativo, o cavaleiro nada respondeu. O silêncio se fez entre ambos e, pressionando os lábios, o cavaleiro ficou inquieto com o que deveria dizer, até que o silêncio foi quebrado.
— Para mostrar que não estou tentando te enganar ou lhe criar complicações, que tal voltar ao seu mundo habitual? – O senhor bateu as mãos para o cenário oscilar e se remodelar. Logo estavam novamente ao típico cenário, também pouco decorado. Uma mesa maior, desta vez de madeira maciça e negra, separava os dois.Espelhos negros decoravam algumas pilastras que estavam bem separadas pelo vasto espaço do andar.Em geral, o que mais havia mudado era uma das paredes, decorada com diversos troféus, medalhas, pingentes, placas, retratos e todos os tipo de objetos de recordações e feitos dos mais diversos tipos de materiais. E além de tudo, a última porta pela a qual o cavaleiro teria que passar, bem à sua frente à poucos metros das costas daquele homem.
— Pronto. Agora como pode ver, basta deixar as coisas explícitas e você poderá passar por aquela porta. – Com um estalar de dedos, agora a porta se abriu, mostrando a última escadaria que o cavaleiro teria de subir. – Não pense que o estou forçando a algo, faça o que bem entender, cavaleiro.
“É uma informação sigilosa, apenas deve ser dito para Ela em pessoa”, foi o que havia sido dito para o cavaleiro antes de ele partir, mas após passar por tantos andares, enfrentando os mais diversos tipos de situações,ainda seria o certo a se fazer? Dúvidas e mais dúvidas, elas continuavam a martelar sua cabeça desde os últimos dois andares. E para sorte ou azar do cavaleiro, o homem havia percebido isso.
— Espere, você não está fazendo isso somente porque lhe mandaram fazer. Você mesmo está se obrigando.
— Não sei o porquê de você dizer isso. – Sem nem mesmo perceber, o cavaleiro fechou os olhos enquanto falava. Mas os olhos azuis daquele senhor estavam bem abertos e repararam no ato.
— Nossa, me surpreende ver alguém de seu escalão enfrentando esse tipo de problema.
— Não estou enfrentando problema nenhum, e agora que saímos daquela sala branca e retornamos a torre com o seu feitiço, o que o faz pensar que apenas não me levante e saia por aquela porta? – O cavaleiro fez menção de se levantar.
O homem apenas continuou sentado e imóvel, porém a porta se fechou e todo o lugar começou a tremer. A iluminação abaixou e então o cavaleiro percebeu:
— Mesmo que o vença em batalha, só conseguiria atravessar aquela porta caso você me permitisse, correto?
— Esperto. E então, o que vai fazer?
Uma vontade veio crescendo dentro do cavaleiro.Teve vontade de sacar sua arma e decepar a cabeça daquele homem em um único e perfeito golpe. Mas de que adiantaria?Mesmo que fizesse isso e desse um jeito de continuar para o último andar (nem que para isso precisasse queimar aquele andar inteiro), seria um motivo para uma briga muito maior que se sucederia, então ele apenas disse:
— Uma nova reunião irá acontecer.
O homem arregalou os olhos ao ouvir aquelas palavras. Reuniões aconteciam, mas para serem enviados cavaleiros queria dizer que todos os grandes nomes compareceriam. Eram ocasiões especiais.
Após tais palavras, o cavaleiro andou pelo lado da mesa em direção à porta que novamente se abrira sozinha.
— Fico surpreso com as notícias, mas, como prometido, não irei pedir para que me informe mais qualquer coisa.Ficarei sabendo do que se trata após a reunião já ter acontecido. – Deu risada. – Do que será que se trata... Você me deixou ansioso, cavaleiro. Gosto disso. E então, como recompensa lhe direi que, se você não tem nada pelo que lutar, vá descobrir o mundo que você ainda não conhece.Lá você encontrará algo que realmente goste, algo que o fará continuar em frente.Algo que o faça se sentir vivo. Algo que você tenha orgulho.
A porta se fechava, escondendo as costas do cavaleiro que voltava a subir os últimos degraus de sua missão. A sala se iluminou e voltara ao que era quando o cavaleiro entrou. O homem se levantou e foi em direção à janela que estava às suas costas para admirar o pôr do sol.
— Depois de tanto tempo, uma nova reunião acontecerá. Finalmente a hora se aproxima com o final deste dia.
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